21 dezembro 2008

Alimentos e espiritualidade

Então lhes disse: Assim vós também não entendeis? Não compreendeis que tudo o que de fora entra no homem não o pode contaminar, porque não lhe entra no coração, mas no ventre, e sai para lugar escuso? E, assim, considerou ele puros todos os alimentos. (Marcos 7:19-20)
O que comida tem a ver com espiritualidade? Muita coisa, para dizer a verdade. A alimentação saudável é um dos pilares do adventismo do sétimo dia e das igrejas messiânicas. A abstinência de certos alimentos também é uma marca do judaísmo e do islamismo. Muitas ofertas feitas nas religiões afro-brasileiras envolvem comida. E até mesmo o cristianismo trata do assunto, quando aponta a gula (ou glutonaria) como um pecado:
invejas, bebedices, glutonarias e coisas semelhantes a estas, a respeito das quais eu vos declaro, como já, outrora, vos preveni, que não herdarão o reino de Deus os que tais coisas praticam. (Gálatas 5:21)
E por que a comida é tão importante? Ela não é apenas uma forma do corpo obter energia para a execução de suas atividades? O que algo tão "material" tem de tão importante?

Em primeiro lugar, não podemos esquecer que alimentação é um assunto de vida ou morte. Por causa da fome, conflitos ainda hoje eclodem no mundo. Por outro lado, a obesidade e a má alimentação provocam uma série de problemas de saúde, como doenças do coração, pressão alta e até mesmo ajudam a formar cânceres. A nossa relação com a comida também pode dizer muita coisa sobre o nosso caráter e emoções. Carência e tristeza podem ser compensadas com dois litros de sorvete de chocolate. Por outro lado, seguir uma dieta à risca é uma grande prova de persistência e disciplina.

No entanto, há um aspecto em que o cristianismo se diferencia de outras religiões. Judaísmo, islamismo, adventismo e messianismo tendem a enxergar algo de mal nos alimentos em si, daí a abstinência. A picanha gorda, o toucinho, os vegetais com agrotóxicos e a cachaça fazem mal, logo, o ato de consumi-las é um pecado ou, no mínimo, uma falta de respeito com o próprio corpo, uma forma de desequilibrá-lo. Abster-se dessas coisas é, simbolicamente falando, uma forma de se abster de tudo aquilo que é mal.

A Bíblia, ao contrário, condena o excesso (glutonaria), mas permite o livre acesso a todo tipo de alimento, inclusive ao pernil de porco natalino. O que isso ensina?

1) O verdadeiro problema do homem é interior, e não exterior. Espiritualizar demais os alimentos é atacar o problema errado. O pecado, o desequilíbrio, a enfermidade (segundo a Bíblia, a morte entra no mundo pelo pecado)...em última análise, tudo isso encontra a sua raiz no pecado do coração humano, e não em coisas exteriores, como a comida. O alimento, por si só, é puro. Como disse Jesus:
E dizia: O que sai do homem, isso é o que o contamina. Porque de dentro, do coração dos homens, é que procedem os maus desígnios, a prostituição, os furtos, os homicídios, os adultérios, a avareza, as malícias, o dolo, a lascívia, a inveja, a blasfêmia, a soberba, a loucura. Ora, todos esses males vêm de dentro e contaminam o homem. (Marcos 7:20-23)
2) A matéria não é má. Tudo o que Deus criou é bom. Uma outra conseqüência da abstinência de alimentos é que esse comportamento reforça a crença de que a matéria (ou parte dela) é má. Abster-se de certas comidas é uma forma de se desligar deste mundo e se tornar mais "espiritual". Mas, quando se age desta maneira, acaba-se condenando algo BOM que foi criado por Deus. Como diz Paulo:
Ora, o Espírito afirma expressamente que, nos últimos tempos, alguns apostatarão da fé, por obedecerem a espíritos enganadores e a ensinos de demônios (...) que proíbem o casamento e exigem abstinência de alimentos que Deus criou para serem recebidos, com ações de graças, pelos fiéis e por quantos conhecem plenamente a verdade. (1 Timóteo 4:1-3)
Cabe aqui lembrar que mesmo vilões como o colesterol, a gordura e os açúcares são necessários a todo ser humano. O atleta mais "seco" da Terra possui algum percentual de gordura e se vale dos carboidratos como fonte de energia. O problema não está na picanha em si, está no seu consumo exagerado (glutonaria). Um outro problema é o sedentarismo, que pode perfeitamente ser chamado de preguiça (um pecado no qual tenho caído). Mas não o alimento em si.

3) Nem excesso e nem abstinência, mas equilíbrio. No que diz respeito às coisas materiais (sexo, comida, álcool e até dinheiro) os extremos são errados. A Bìblia condena uma vida de prostituição, glutonaria, bebedices e avareza. Mas ela não exige o celibato e a pobreza de todos. A anorexia, com certeza, é pecado. Em todas essas matérias, o segredo da espiritualidade (e da saúde) é o equilíbrio: casamento, comida e bebida com moderação e contentamento com o que se tem.

Gostaria, no entanto, de fazer um esclarecimento sobre agrotóxicos e certos elementos industrializados, como a gordura trans. Hoje, um número muito maior de pessoas se alimenta graças aos agrotóxicos, que permitem uma redução de pragas. Claro, esse uso precisa ser controlado e ambientalmente responsável, senão é pecado, e dos grandes, o de matar pessoas por causa de lucro. O mesmo pode ser dito de certos componentes criados industrialmente que não trazem nenhum benefício nutricional real.

No entanto, isso não significa que abaster-se de certos alimentos seja sinal de espiritualidade. Não é. Mas também, nada contra os cristãos se envolverem com campanhas de reeducação alimentar saudável. Até porque os valores bíblicos de moderação tem MUITO a ensinar sobre este assunto.

11 dezembro 2008

A graça exclui o mérito da vida cristã?

Porque pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós; é dom de Deus; não de obras, para que ninguém se glorie. (Efésios 2:8-9)

Pois eu vos declaro: a todo o que tem dar-se-lhe-á; mas ao que não tem, o que tem lhe será tirado (Lucas 19:26)
Qual o papel das obras, qual o mérito pessoal que os salvos por Deus possuem? Nenhum, segundo a Bíblia, no que diz respeito à salvação. A Bíblia é clara quando diz que a salvação acontece pela graça e é um dom de Deus. E, para reforçar, ainda se diz claramente que não é por obras, para que ninguém possa se gloriar disso. Logo, é ponto pacífico que o mérito pessoal não possui papel algum na salvação. Somos salvos pelos méritos de Cristo.

Mas, há lugar para o mérito na vida cristã? Ele tem algum papel relevante em nosso destino eterno?

Na prática, em muitas igrejas a resposta tem sido "não". No lugar do mérito, a "igualdade" (ou a mediocridade, em minha opinião) tem sido valorizada. Se não merecemos a salvação, então a idéia de "merecer" alguma coisa não deve estar presente no dia-a-dia eclesiástico.

Como isso acontece na prática? De várias formas. Vai desde a gincana com crianças em que a campeã em decorar versiculos recebe o mesmo presente daquela que se comportou como uma verdadeira peste até a condescendência com que colocamos "qualquer um" em posições de liderança ministerial em nossas igrejas. A "competição" é vista como um inimigo a ser banido e a ética que prevalece é a da camaradagem.

Quando uma comunidade se sente constrangida em não renovar o mandato de um presbítero, mesmo sabendo que um jovem concorrente tem sido mais atuante do que ele, quando não expulsamos um jovem crente que não merece estar em um jogo de futebol (porque sua conduta é reprovável) e os crentes piedosos que não gostam de confusão precisam sair da quadra (se quiserem ter paz)...estamos deixando de premiar os melhores para favorecer os piores. Estamos agindo com base na camaradagem, e excluímos o mérito do nosso dia-a-dia.

O que, aliás, é um traço da cultura brasileira. Onde os melhores cargos no serviço público não são os da carreira, mas sim os de "confiança", franqueados aos amigos do chefe. Onde os políticos são eleitos, não por razões de mérito, mas porque "são gente como a gente" ou porque "é um conhecido meu" ou "me fez um favor". Onde se prefere criar cotas raciais do que políticas que permitam que todos concorram em igualdade de condições. O país onde todos devem ser iguais, e quem se destaca acima dos demais precisa "ser posto em seu lugar".

E esse é, talvez, o grande problema do mérito. É que, de fato, uns merecem mais que os outros. E a inveja nos leva a querer matar o sucesso do outro, como Caim fez com Abel, porque Deus se agradou da oferta de Abel, mas não da de Caim (Gênesis 4:1-8). No entanto, a Bíblia é cheia de textos que mostram que Deus considera, e muito, o mérito. Isso pode ser visto:

1) Nas parábolas de Jesus. Quando se lê a parábola das minas (Lucas 19:11-27) ou dos talentos (Mateus 25:14-30), o ensino é claro: quem cuidar melhor do que é de Deus, o que for mais hábil na aplicação do que recebeu, recebe mais.

2) No ensino bíblico sobre o galardão. Embora a salvação seja de graça, a recompensa a ser recebida (galardão) varia de pessoa para pessoa. Gostaria de destacar aqui dois versículos sobre o assunto:
Ora, o que planta e o que rega são um; e cada um receberá o seu galardão, segundo o seu próprio trabalho. (1 Coríntios 3:8)

E eis que venho sem demora, e comigo está o galardão que tenho para retribuir a cada um segundo as suas obras. (Apocalipse 22:12)
3) No estímulo de Jesus para o serviço. Quando Jesus queria estimular os discípulos a se dedicarem ao serviço, era comum que Ele fizesse referência à recompensa. Em certo sentido, quanto maior o mérito, maior o prêmio:
Jesus lhes respondeu: Em verdade vos digo que vós, os que me seguistes, quando, na regeneração, o Filho do Homem se assentar no trono da sua glória, também vos assentareis em doze tronos para julgar as doze tribos de Israel. E todo aquele que tiver deixado casas, ou irmãos, ou irmãs, ou pai, ou mãe, ou mulher, ou filhos, ou campos, por causa do meu nome, receberá muitas vezes mais e herdará a vida eterna. Porém muitos primeiros serão últimos, e os últimos, primeiros. (Mateus 19:28-30)

Não é assim entre vós; pelo contrário, quem quiser tornar-sse grande entre vós, será esse o que vos sirva; e quem quiser ser o primeiro entre vós será vosso servo; tal como o Filho do Homem, que não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos. (Mateus 20:26-28)
4) No ensino sobre pobreza e riqueza. Sim, é verdade que sistemas injustos conduzem a uma pobreza estrutural. Mas também é verdade que a Bíblia ensina que a pobreza de muitos se deve à preguiça ou a escolhas erradas, assim como a riqueza de outros é fruto do mérito pessoal. A idéia de mérito está por trás de quase todas as admoestações de Provérbios contra o homem preguiçoso, como podemos ver em alguns textos:
A mão diligente dominará, mas a remissa será sujeita a trabalhos forçados. (Provérbios 12:24)

O preguiçoso não assará a sua caça, mas o bem precioso do homem é ser ele diligente. (Provérbios 12:27)

O preguiçoso deseja e nada tem, mas a alma dos diligentes se farta; (Provérbios 13:4)
Desta forma, vemos que o mérito é uma forma divina de administração do mundo. O ideal de Deus é que as pessoas sejam recompensadas de acordo com o que fizeram...ou deixaram de fazer. Inclusive em nossa sociedade...e em nossas igrejas.

A ordem divina não é a de que todos sejam iguais, nivelados por baixo ou pela média. Deus quer que cada um receba o que é justo, de acordo com o seu mérito. Quem se destaca positivamente deve sim receber as distinções apropriadas e adequadas aos seus feitos. Seja na igreja ou em nossa sociedade.

Que não nos esqueçamos que o mérito pessoal tem sim valor na vida cristã, embora não tenha valor algum no que diz respeito à salvação.

09 dezembro 2008

Antes de partir

Aceitando a proposta do André Aloísio, do Teologia e Vida, escrevo abaixo oito coisas que gostaria de fazer antes de partir e me encontrar com o Senhor:

1) Casar com uma "Rebeca": mulher serva do Senhor, decidida (viram a firmeza com que ela deixou a família para ir se casar com Isaque?), formosa, trabalhadeira, mas que seja confiável (não use estratagemas comigo, como ela fez para favorecer a Jacó). E que eu possa amá-la com um amor maior do que o de Jacó por Raquel.

2) Ter dois filhos (ou filhas) e criá-los no caminho do Senhor.

3) Conseguir evangelizar com 10 vezes mais facilidade, sabedoria e desembaraço do que consigo hoje.

4) Conseguir ler a Bíblia no hebraico, aramaico e grego sem dificuldades, a ponto de fazer minhas devocionais no original.

5) Ser doutor em Teologia.

6) Tornar-me um escritor de livros, tanto na área devocional, como de treinamento de liderança leiga.

7) Ser um apologeta capaz de discutir, em nível acadêmico, com biólogos evolucionistas, físicos e filósofos, defendendo a fé cristã.

8) Ser um líder que leve às igrejas reformadas a aceitarem os dons carismáticos do Espírito Santo, de modo que elas sejam relevantes no cenário religioso brasileiro, com forte atuação social.

Mas, é claro, tudo de modo a honrar e a glorificar o nome de Cristo. E que a vontade de Deus, e não a minha, prevaleça sobre esses (e outros) desejos.

Esta brincadeira tem algumas regras:

- Escrever uma lista com oito coisas que sonhamos fazer antes de ir embora daqui;
- Passar o meme para oito pessoas;
- Comentar no blog de quem lhe passou o meme;
- Comentar no blog dos nossos(as) convidados(as), para que saibam da "intimação";
- Mencionar as regras

Meus oito amigos convidados são:

- Daniel Torres Cavalcante, do Quase Fácil.
- Cleber Filomeno, do O-I-A, que é um blog fechado.
- Vinicius Costa, do Blog do Vini.
- Rosana Steimbach, do Vamos Para O Leve?
- Ivonete Silva, do IvoneTirinhas
- Josaías Cardoso, do Erixplosm
- Fabinho Silva, do Raiz Duma Terra Seca
- Márcio Carneiro, do Warrior of Christ

E aí, que oito coisas vocês gostariam de fazer antes de se encontrar com Jesus?

06 dezembro 2008

Jogar na loteria é pecado?

A sorte se lança no regaço, mas do Senhor procede toda decisão. (Provérbios 16:33)
Um ditado evangélico diz que devemos ser claros naquilo que a Bíblia é clara, sermos cautelosos nos assuntos em que ela é obscura e nos calar quando ela se cala. O caso das loterias e rifas me parece o segundo caso. Não há um versículo que diga "Não jogarás" ou "Não apostarás". Mas há alguns princípios bíblicos que nos ajudam a formar uma opinião.

De modo geral, os evangélicos condenam as apostas nas loterias. Por outro lado, já há igrejas fazendo rifas para "fins piedosos". Há também quem lembre que parte do dinheiro apostado nas casas lotéricas brasileiras é empregada para fins sociais (como você pode conferir clicando aqui). E, a bem da verdade, rifas e loterias seguem um mesmo princípio: comprar, a baixos preços, uma chance de ganhar um prêmio material maior.

E, então, podemos ou não jogar? Antes de responder, precisamos considerar os seguintes princípios:

1) O desejo de ficar rico é pecaminoso. Eu diria que é muito difícil que alguém jogue na loteria sem ter como motivação principal o desejo de ficar rico. Os apostadores sonham com o que vão fazer com o prêmio, com a chance de ganhar alguns milhões ou milhares de reais apenas pelo preço de uma aposta. Só que esse desejo não é aprovado por Deus:
Ora, os que querem ficar ricos caem em tentação, e cilada, e em muitas concupiscências insensatas e perniciosas, as quais afogam os homens na ruína e perdição. Porque o amor ao dinheiro é raiz de todos os males; e alguns, nessa cobiça, se desviaram da fé e a si mesmos se atormentaram com muitas dores. Tu, pois, ó homem de Deus, foge destas coisas; antes, segue a justiça, a piedade, a fé, o amor, a constância, a mansidão (1 Timóteo 3:9-11)
Logo, se jogamos com o desejo de enriquecer, o ato de jogar já está contaminado pelo pecado de querer ficar rico.

2) A riqueza ganha às pressas não é abençoada. Aquele que enriquece com um bilhete de loteria ganha o seu dinheiro de uma vez. É uma riqueza que não foi conquistada por meio do trabalho, do mérito pessoal e nem mesmo do esforço de algum familiar. E esse tipo de prosperidade não é abençoada pelo Senhor:
O homem fiel será cumulado de bênçãos, mas o que se apressa a enriquecer não passará sem castigo. (Provérbios 28:20)
Na verdade, esse ponto é um desdobramento do anterior. O que se apressa a enriquecer é dominado pelo desejo de ficar rico, e nisso pode enveredar por caminhos não aprovados por Deus. As apostas a dinheiro são uma delas, mas o crime, a bajulação no trabalho, os "golpes do baú" e outras estratégias para enriquecer que desagradam a Deus são igualmente reprováveis.

3)Quem quer ajudar, deve fazê-lo sem esperar nada em troca. Há quem procure destacar o papel "social" da loteria e das rifas. Ao comprarmos o bilhete, estamos ajudando o esporte olímpico e paraolímpico, a cultura, a segurança nacional e até mesmo ajudando a pagar benefícios previdenciários e o financiamento estudantil de quem não pode pagar uma faculdade particular. Quando compramos uma rifa, estamos ajudando a levantar fundos para missões ou a pagar o acampamento da mocidade. Ora, mas quem "ajuda" e tem a expectativa de ganhar algo em troca fere o ensino de Jesus:
Quando, pois, deres esmola, não toques trombeta diante de ti, como fazem os hipócritas, nas sinagogas e nas ruas, para serem glorificados pelos homens. Em verdade vos digo que eles já receberam a recompensa. Tu, porém, ao dares a esmola, ignore a tua mão esquerda o que faz a tua mão direita; para que a tua esmola fique em secreto; e teu Pai, que vê em secreto, te recompensará (Mateus 6:3-4)

O amor (...) não procura os seus interesses... (1 Coríntios 13:4-5)
Por que a esmola deve ser dada em segredo? Porque a recompensa deve ser dada por Deus, e não pelos homens. Aquele que ama e, de fato, quer ajudar, o faz diretamente, sem esperar uma recompensa humana ou material.

Se alguém quer colaborar com missões, o acampamento da mocidade, o esporte, a cultura, os aposentados e a segurança, faça uma doação! É mais prático, objetivo e direto. E não faça alarde de sua boa ação. Deixe que Deus dê a recompensa.

Por fim, ao analisarmos os três princípios bíblicos acima mencionados, creio que as loterias (e as rifas) não são, de fato, compatíveis com a vida cristã. É pecado. E, portanto, fazem bem os evangélicos que evitam a "fezinha" de toda semana.

Até porque há muitos que se viciam no jogo...e, se este o caso, aí mesmo é que o cristão deve evitar a jogatina. Como diz a Bíblia:
Todas as coisas me são lícitas, mas nem todas convêm. Todas as coisas me são lícitas, mas eu não me deixarei dominar por nenhuma delas. (1 Coríntios 6:12)

02 dezembro 2008

Santa Catarina: A Nova Orleans brasileira



"Art. 21. Compete à União:
(...)
XVIII - planejar e promover a defesa permanente contra as calamidades públicas, especialmente as secas e as inundações" (Constituição da República Federativa do Brasil)

"Passei pelo campo do preguiçoso e junto à vinha do homem falto de entendimento; eis que tudo estava cheio de espinhos, a sua superfície, coberta de urtigas, e o seu muro de pedra, em ruínas. Tendo-o visto, considerei; vi e recebi a instrução. Um pouco para dormir, um pouco para tosquenejar, um pouco para encruzar os braços em repouso, assim sobrevirá a tua pobreza como um ladrão, e a tua necessidade, como um homem armado" (Provérbios 24:30-34)
As chuvas que castigam Santa Catarina há praticamente duas semanas são uma tragédia. Já são pelo menos 116 mortos, ainda há 69114 pessoas desabrigadas e desalojadas. Catorze municípios estão em estado de calamidade pública e 51 em estado de emergência.

Mas, seria essa uma tragédia inevitável, um acaso divino? Na verdade, acho que não. As enchentes em Santa Catarina são como as enchentes em São Paulo ou as secas no Nordeste. Eventos naturais que fazem parte do ciclo climático da região. São previsíveis. E, com a tecnologia que nós temos hoje, evitáveis ou, pelo menos, amenizáveis.

Duvida? A enchente que atingiu Santa Catarina não é a maior da História do Estado. Em 1983, o rio Itajaí-Açu subiu mais de 15 metros. Em 1911, chegou a quase 17. Logo, a cheia do rio não é imprevisível, como um terremoto ou a queda de um meteoro.

Por que então a tragédia? Em primeiro lugar, porque o ente responsável por criar um sistema de prevenção a calamidades públicas - a União - ainda não cumpriu o seu dever constitucional. Assim como, até hoje, não resolveu o problema da seca no Nordeste ou das inundações na Grande São Paulo. Chega a ser previsível no planejamento dos jornais...final de ano é epoca de monitorar cheias de rios e quedas de encostas em SP, RJ, MG, ES e no Sul do país!

Mas essa ausência do Estado não deixa de ser uma culpa de todos nós, cristãos, inclusive. Não somos muito diferentes do preguiçoso de Provérbios 24. Ao invés de arregaçarmos as mangas e tomarmos atitudes para arrumar o que está caído no nosso país, nós jogamos os problemas para amanhã. Em relação à política, economia, cobrança das autoridades constituídas e outros dramas "terrenos", nós cruzamos um pouco os braços aqui e cochilamos ali. Resultado: quando a necessidade chega (por exemplo, na forma de uma enchente, seca e até mesmo da violência) ela nos surpreende como um homem armado!

Não basta apenas orar e pedir que Deus tenha misericórdia das famílias afetadas. Mandar ofertas às igrejas atingidas ou contribuir com doações é o mínimo que a Igreja deve fazer. Mesmo medidas do Governo, como a liberação de crédito do FGTS para reconstruir as casas ou o envio de alimentos e outros materiais é insuficiente.

É preciso que a Igreja cobre das autoridades (neste caso, primeiramente, do Governo Federal) que tomem medidas para evitar esses problemas! Precisamos opinar sobre o orçamento, sobre a forma como o dinheiro é gasto em nosso país pelos governos. Exigir que o serviço público siga regras de eficiência administrativa e moralidade, mesmo que isso implique em sacrificar a estabilidade do funcionalismo.

E também precisamos fazer nossa parte. Devemos orar pelas autoridades (1 Timóteo 2:1-2), pagar os nossos impostos (Romanos 13:6) e exigir governos justos (Mateus 5:6). Além, é claro, de desenvolvermos projetos que nos ajudem a melhorar o nosso Brasil.

Precisamos erguer os olhos e ver que os campos do Brasil estão cheios de espinhos e urtigas, e que nosso muro de pedra está arruinado. E, além de cobrar que o Estado faça a sua parte, devemos nós, com maior empenho, fazer a nossa. E irmos até o campo arrancar as ervas daninhas e consertar os muros caídos.

Afinal, o Brasil é a nossa casa! E se a nossa casa está mal cuidada, é porque nós também não estamos cuidando dela direito.

A propósito, se você quer saber como doar dinheiro e alimentos à Defesa Civil de Santa Catarina, clique aqui ou ligue para 0800 482 020.

P.S: Se você não entendeu sobre Nova Orleans, eu me referia à enchente provocada pelo furacão Katrina, que devastou a cidade em 2005.

11 novembro 2008

"Crente pode ficar triste?"

Na minha visão, a tristeza é um dos tabus que encontramos dentro da Igreja. Não é difícil encontrar quem pense que depressão é sempre um sinônimo de algum pecado ou problema de ordem espiritual. Ou então ser censurado quando você diz que está triste ou teve um dia ruim.

Por outro lado, as pessoas que parecem sempre estar bem são muito elogiadas. Um testemunho comum é o dos crentes que dizem ter evangelizado outras pessoas porque elas sempre estavam alegres. Por causa de tanta alegria, os não crentes se aproximaram e perguntaram porque elas sempre estavam bem.

Por causa disso, muitos crentes até sentem receio de admitirem que estão tristes ou deprimidos por alguma razão. E aí vem a pergunta: crente pode ficar triste?

Para responder a essa pergunta, gostaria de colocar alguns versículos:
No dia da minha angústia, procuro o Senhor; erguem-se as minhas mãos durante a noite e não se cansam; a minha alma recusa consolar-se. Lembro-me de Deus e passo a gemer; medito, e me desfalece o espírito. Não me deixas pregar os olhos, tão perturbado estou, que nem posso falar. (Salmo 77:2-4)

Então, disse eu: já pereceu a minha glória, como também a minha esperança no SENHOR. lembra-te da minha aflição e do meu pranto, do absinto e do veneno. Minha alma, continuamente os recorda e se abate dentro de mim. (Lamentações 3:18-20)

jesus, vendo-a chorar, e bem assim os judeus que a acompanhavam, agitou-se no espírito e comoveu-se. E perguntou: Onde o sepultastes? Eles lhe responderam: Senhor, vem e vê! Jesus chorou. (João 11:33-35)

E, levando consigo Pedro, Tiago e João, começou a sentir-se tomado de pavor e de angústia. E lhes disse: A minha alma está profundamente triste até à morte; ficai aqui e vigiai. (Marcos 14:33-34)
Tanto no Antigo como no Novo Testamento, vemos homens de Deus que ficaram tristes. A alma de Jesus chegou a ser tomada de angústia e pavor antes da crucificação, e Cristo não pecou. Não é pecado se sentir desanimado ou triste em um dia ou em uma fase ruim.

Claro que isso não significa que podemos nos entregar à murmuração, ao desespero, à depressão e à tristeza profunda. Essas não são as formas bíblicas de se resolver um problema. A alegria é um fruto do Espírito Santo (Gálatas 5:22). E, se algo nos angustia:
Está alguém entre vós sofrendo? Faça oração. (Tiago 5:13a)

Não andeis ansiosos de coisa alguma; em tudo, porém, sejam conhecidas, diante de Deus, as vossas petições, pela oração e pela súplica, com ações de graças. E a paz de Deus, que excede todo o entendimento, guardará o vosso coração e a vossa mente em Cristo Jesus. (Filipenses 4:6-7)
Uma última palavra: existe sim depressão por razões físicas. E aí, temos sim que procurar um médico. Não é pecado tomar antidepressivo. Se o fosse, também é pecado tomar aspirina para curar uma dor de cabeça. Não há diferença.

E...busque os amigos. Jesus buscou a ajuda dos apóstolos quando se sentiu angustiado. Mas, mesmo que seus amigos falhem com você na hora da tristeza, como os apóstolos falharam (e os amigos de Jó também), ore. O seu amigo Jesus Cristo, com toda certeza, não vai te deixar sozinho.

08 novembro 2008

"Mas Deus é um só"

Crês, tu, que Deus é um só? Fazes bem. Até os demônios crêem e tremem. (Tiago 2:19)
Existe um mistério lógico usado por pessoas quando falam de religião que eu não consigo resolver ou entender. Não é muito difícil encontrar pessoas que admitem que Deus é um só. Mas, logo a seguir, elas deduzem, não sei como, que "se Deus é um só, então todas as religiões são válidas" ou que "todos os caminhos levam a Deus".

Na verdade, é muito mais lógico pensar que, se Deus é um só, apenas um caminho ou uma única religião são válidas. Aliás, era nisso o que Jesus acreditava:
Quem não é por mim é contra mim; e quem comigo não ajunta espalha" (Mateus 12:30)

Respondeu-lhe Jesus: Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida; ninguém vem ao Pai senão por mim. (João 14:6)
Aliás, de uma forma geral, esse é o ensino da Bíblia: Deus é um só, e Ele não abriu caminho para outras possibilidades:
Vós sois as minhas testemunhas, diz o SENHOR, o meu servo a quem escolhi; para que o saibais, e me creiais, e entendais que sou eu mesmo, e que antes de mim deus nenhum se formou, e depois de mim nenhum haverá. Eu, eu sou o SENHOR, e fora de mim não há salvador. Eu anunciei salvação, realizei-a e a fiz ouvir; deus estranho não houve entre vós, pois vós sois as minhas testemunhas, diz o SENHOR; eu sou Deus. (Isaías 43:10-12)

"Vê que proponho, hoje, a vida e o bem, a morte e o mal; se guardares o mandamento que hoje te ordeno, que ames o SENHOR, teu Deus, andes nos seus caminhos, e guardes os seus mandamentos, e os seus estatutos, e os seus juízos, então, viverás e te multiplicarás, e o SENHOR, teu Deus, te abençoará na terra à qual passas para possuí-la. Porém, se o teu coração se desviar, e não quiseres dar ouvidos, e fores seduzido, e te inclinares a outros deuses, e os servires, então, hoje, te declaro que, certamente, perecerás; não permanecerás longo tempo na terra à qual vais, passando o Jordão, para a possuíres. (Deuteronômio 30:15-18)

Eu sou o SENHOR, este é o meu nome; a minha glória, pois, não a darei a outrem, nem a minha honra, às imagens de escultura. (Isaías 42:8)
Na verdade, a conseqüência bíblica e lógica do monoteísmo, da crença em um único Deus, é essa: só existe um único caminho, uma única religião verdadeira, uma forma certa de se buscar e adorar a Deus.

Até porque, se Deus é um, e criou várias formas, várias religiões, vários caminhos até Ele, é de se perguntar algumas coisas:

1) Por que os caminhos são, muitas vezes, contraditórios? Enquanto o hinduísmo e o espiritismo ensinam a crença em vidas passadas e reencarnações, o cristianismo ensina que as pessoas morrem uma vez só: "E assim como aos homens está ordenado morrerem uma só vez, vindo, depois disso, o juízo" (Hebreus 9:27). Por que o islamismo tem repulsa pela idéia de vários deuses e o hinduísmo tem mais de um milhão de divindades? Se Deus é um só, por que Ele não nos dá um caminho confiável, mas uma série de opções que se condenam e que não são logicamente conciliáveis?

2) Um Deus que apresenta caminhos contraditórios é confiável? Imagine uma pessoa dizendo para você que o caminho da saúde perfeita é uma boa alimentação, livre de excessos; a uma segunda que a saúde perfeita se adquire por meio do descanso e a uma terceira que é por meio do consumo de drogas. A opinião dela é confiável? Qual é, de fato, a melhor forma de ter uma boa saúde? É mais ou menos o que fazemos com Deus. Se todos os caminhos são válidos para Deus, então o caminho da felicidade pode ser a renúncia a qualquer desejo (budismo), a obediência completa a Alá (islamismo) ou o pagamento de dívidas contraídas em vidas passadas e a ida para um plano superior (hinduísmo/espiritismo). Será que esse Deus não é capaz de dizer, de modo simples e claro, o que Ele espera de nós?

Logo, como bem diz a Bíblia, não adianta apenas crer que Deus é um só. Isso até os demônios fazem. É preciso que nós assumamos as implicações lógicas e racionais dessa crença. E isso, mais uma vez, implica em assumir que só há um único caminho que leva até Deus.

06 novembro 2008

"Não gosto de crente, porque eles sempre acham que estão certos e que só eles serão salvos"

Respondeu-lhes Jesus: Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida; ninguém vem ao Pai senão por mim" (João 14:6)
Acho que poucas coisas irritam tanto os não-evangélicos do que a convicção de verdade que nós temos. Se dissermos que estamos absolutamente convencidos de que a Bíblia é a Palavra de Deus, que Jesus é o único caminho ou que, com certeza, seremos salvos, é quase certo que seremos identificados como pessoas arrogantes e metidas, e teremos a antipatia da "platéia".

O que talvez as pessoas não entendam é que essa convicção não é, exatamente, uma arrogância dos cristãos. Ela é, antes de tudo, uma marca do discurso de Jesus Cristo.

Ao contrário da imagem que hoje temos de Jesus, Ele não era uma pessoa aberta a ter comunhão religiosa com os pagãos ou com quem não servisse ao Deus de Israel. Você nunca vai encontrar Jesus indo a um templo pagão ou mostrando que outras religiões são caminhos que levam a Deus. Muito pelo contrário, como lemos anteriormente, segundo Jesus, "ninguém vem ao Pai senão por mim". Todos os outros caminhos e opções estão excluídas.

Em outras passagens Jesus diz exatamente a mesma coisa: o caminho certo até Deus é Jesus, e nada mais:
Quem é de Deus ouve as palavras de Deus; por isso, não me dais ouvidos, porque não sois de Deus. (João 8:47)

Por isso, eu vos disse que morrereis nos vossos pecados; porque, se não crerdes que EU SOU, morrereis nos vossos pecados. (João 8:24)

Respondeu-lhes Jesus: Em verdade, em verdade vos digo: se não comerdes a carne do Filho do Homem e não beberdes o seu sangue, não tendes vida em vós mesmos. (João 6:53)

Porquanto Deus enviou o seu Filho ao mundo, não para que julgasse o mundo, mas para que o mundo fosse salvo por ele. Quem nele crê não é julgado; o que não crê já está julgado, porquanto não crê no nome do unigênito Filho de Deus. (João 3:17-18)
O que todos estes textos têm em comum? Uma convicção inabalável de Jesus: os que ouvem a minha voz são de Deus e os que crêem em Cristo não são julgados. Por outro lado, quem não ouve a Cristo não é de Deus, os que não crêem em Cristo morrem em seus pecados e estão julgados, quem não comer e beber a carne e o sangue de Cristo não tem vida em si mesmo.

Se nós, cristãos, dissermos a outros que não temos certeza de que estamos no caminho certo e sobre a nossa salvação, então pecamos, porque estamos pondo em dúvida as palavras de Jesus. Se somos cristãos e chamamos a Cristo de Deus, então, nada mais natural do que acreditarmos no que Ele diz, e termos plena convicção sobre o nosso estado...e sobre o estado dos que se recusam a aceitar a Cristo.

Por outro lado, de duas uma: ou Cristo diz a verdade...e é Deus...ou ele é um mentiroso megalomaníaco, e não deveria ser apontado por minguém como um exemplo de moral. A escolha é de cada um de nós.

Mas, mesmo que você não seja um cristão, pelo menos entenda as implicações lógicas assumidas por aqueles que decidiram acreditar nas palavras de Jesus. O exclusivismo e a convicção de verdade e salvação não são opcionais. Para quem leva Jesus a sério, são valores dos quais não podemos abrir mão.

Use a sua TV para evangelizar

De hoje (dia 6) até sábado (dia 8), às 21 horas, na Rede Bandeirantes, a Associação Evangelística Billy Graham vai transmitir 3 programas evangelísticos de TV. Hoje e amanhã os programas são de 30 minutos. No sábado, vai ser um filme de 90 minutos.

Hoje quem vai pregar é o Billy Graham, com testemunho do Kaká. Amanhã vai ser o Franklin Graham. E vai ter umas músicas da Aline Barros e de outras pessoas.

Para quem é tímido, é uma ótima oportunidade. Convide seus amigos que não conhecem a Cristo a assistirem o programa "Minha Esperança". Depois, se coloque à disposição para conversar sobre Jesus, se seus amigos quiserem. Ou, faça como as igrejas do projeto, chame parentes, amigos e chegados para assistirem o programa com você em sua casa. Assim, fica mais fácil conversar depois.

Há alguns presbiterianos criticando a iniciativa, porque Billy Graham é arminiano (não crê em predestinação como os calvinistas) e pragmático. Também porque ele costuma fazer um arco de alianças bem amplo (o vídeo de divulgação do Minha Esperança vai desde Casa da Bênção até a IPB).

Mas, sinceramente...isso é um grande reducionismo. Para levar as pessoas a Cristo, não precisamos ensinar predestinação, formas de governo da Igreja e outras doutrinas.

E, quanto ao pragmatismo...tenho certeza que Paulo usaria TV, Internet, rádio...o que pudesse para evangelizar. Afinal:
Fiz-me fraco para com os fracos, com o fim de ganhar os fracos. Fiz-me tudo para com todos, com o fim de, por todos os modos, salvar alguns. Tudo faço por causa do evangelho, com o fim de me tornar cooperador com ele. (1 Co 9:22-23)
É claro que o "todos os modos" e o "tudo" não incluem pecados. Mas, com certeza, incluiria a TV.

Portanto, hoje, amanhã e sábado...é Minha Esperança na sua TV! 21 horas, lá na Band. Assista!

04 novembro 2008

Homens pelo fim da violência contra a mulher

Maridos, amai vossa mulher, como também Cristo amou a igreja e a si mesmo se entregou por ela (...) Assim também os maridos devem amar a sua mulher como ao próprio corpo. Quem ama a esposa a si mesmo se ama. Porque ninguém jamais odiou a própria carne; antes, a alimenta e dela cuida, como também Cristo o faz com a igreja; porque somos membros do seu corpo (Ef 5:25, 28-30)
Sobre qualquer ângulo que se analise, a violência contra a mulher é injustificável. Pelo princípio do amor ao próximo, bater na esposa, maltratá-la ou xingá-la são, claramente, pecados. Mas quando lemos os versículos acima, da carta de Paulo aos Efésios, mostram que devemos tratar bem as esposas, cuidando delas com o mesmo amor que cuidamos de nós mesmos.

Por esta razão, quero incentivar os homens leitores desse blog a deixarem uma assinatura virtual no site Homens Pelo Fim da Violência. É uma campanha da Secretaria Especial de Políticas Para As Mulheres em parceria com várias entidades da sociedade civil, para que homens assumam o compromisso de não tolerar mais a violência doméstica no nosso país. Precisamos entender que, quando homens começam a espancar mulheres e a achar que são donos delas, a ponto de cometerem crimes passionais (seqüestros, assassinatos, etc), a briga não é mais "problema de marido e mulher". É problema nosso também, e deve ser denunciado. Além disso, precisamos educar homens, dentro e fora de nossas igrejas, a nunca mais cometerem esse tipo de atrocidade. Assinar o manifesto é assumir esse compromisso.

Vale lembrar, no entanto, que a Bíblia autoriza o uso de disciplina física para a correção de filhos e filhas. Mas sem excessos:
Castiga a teu filho, enquanto há esperança, mas não te excedas a ponto de matá-lo. (Pv 19:18)
Mas, em momento algum, autoriza homens a baterem ou tratarem mal suas esposas. Portanto, envolva-se nessa causa! Assine!

27 agosto 2008

Com quem Caim se casou?

E coabitou Caim com sua mulher; ela concebeu e deu à luz a Enoque. Caim edificou uma cidade e lhe chamou Enoque, o nome de seu filho. (Gênesis 4:17)
Uma das dúvidas mais comuns de quem lê a Bíblia é saber com quem Caim se casou. Afinal, até Gênesis 4:16 só ficamos sabendo de dois filhos de Adão e Eva: Caim e Abel. Para vários não cristãos, a mulher de Caim seria uma prova de erro da Bíblia. Os mais condescendentes diriam que Gênesis 4:17 mostram que Adão e Eva não seriam os pais de todos os homens, mas apenas de um ramo da humanidade.

Mas, afinal, com quem Caim se casou, se Adão e Eva tiveram apenas a Caim e Abel? Em primeiro lugar, não é verdade que Adão e Eva tiveram apenas a Caim e Abel. Leia Gênesis 5:4
Depois que gerou a Sete, viveu Adão oitocentos anos; e teve filhos e filhas.
Logo, Adão e Eva tiveram filhos...e filhas. Portanto, Caim se casou com uma de suas irmãs. E aí surge uma outra dificuldade. Deus não condena o incesto? Como é possível que Caim ou Sete tenham se casado com uma de suas irmãs?

Aí eu gostaria de evocar um princípio do Direito que também se aplica à Bíblia. Não há crime sem uma lei anterior que o defina. Da mesma forma, não há pecado antes que Deus determine que uma ação ou pensamento é pecaminoso. Ou, nas palavras do apóstolo Paulo, "sem lei, está morto o pecado":
Que diremos, pois? É a lei pecado? De modo nenhum! Mas eu não teria conhecido o pecado, senão por intermédio da lei; pois não teria eu conhecido a cobiça, se a lei não dissera: Não cobiçarás. Mas o pecado, tomando ocasião pelo mandamento, despertou em mim toda sorte de concupiscência; porque, sem lei, está morto o pecado. (Romanos 7:7-8)
Logo, casar-se com uma irmã só se tornou um pecado depois que Deus proibiu esse tipo de casamento. O que só aconteceu em Levítico:
A nudez da tua irmã, filha de teu pai ou filha de tua mãe, nascida em casa ou fora de casa, a sua nudez não descobrirás. (Levítico 18:9)
Antes disso, não era pecado casar-se com uma irmã. Tanto que Abraão se casou com sua irmã Sara:
Por outro lado, ela, de fato, é também minha irmã, filha de meu pai e não de minha mãe; e veio a ser minha mulher. (Gênesis 20:12)
Anrão, o pai de Arão e Moisés, era casado com uma tia:
Anrão tomou por mulher a Joquebede, sua tia; e ela lhe deu a Arão e Moisés; e os anos da vida de Anrão foram cento e trinta e sete. (Êxodo 6:20)
É claro que hoje tais casamentos são condenados pela Bíblia. Mas não eram condenados antes de Levítico. Logo, nem Caim, nem Abraão e nem Anrão pecaram por terem se casado com parentas próximas.

07 julho 2008

Jesus e Madalena

Uma das suspeitas que pairavam sobre a conduta do Nazareno era a presença de mulheres em suas andanças. Uma delas chegava a provocar ciúmes entre os apóstolos mais chegados. (Carlos Heitor Cony, na Folha de São Paulo de 07/07/2008)
Alguém, por favor, poderia me mostrar um único versículo dos Evangelhos em que isso acontece? Eu me lembro dos apóstolos com ciúmes uns dos outros, mas não deles com ciúme de alguma mulher, muito menos de Maria Madalena.

Incrível como certas teorias ganham força sem uma base bíblica. Mas parece que o mundo resolve dar mais crédito a livros apócrifos do que à Bíblia...

02 julho 2008

Reforma é Carisma!

Sonho com uma igreja reformada e carismática. O que isso significa? Basicamente duas coisas:

1) Uma igreja que defende a supremacia e a inerrância bíblicas. (Reforma) O liberalismo (a crença de que a Bíblia contém a Palavra de Deus), a neo-ortodoxia (a crença de que a Bíblia se torna a Palavra de Deus) e os abusos do movimento pentecostal e neopentecostal (profecias e "apóstolos" no mesmo nível ou acima da Escritura) são ameaças bem reais às igrejas cristãs. As conseqüências destes movimentos são claras: a Bíblia deixa de ser um livro confiável e acaba perdendo a sua posição de autoridade máxima. No lugar, entra a razão, as profecias, a opinião do clero ou os esquemas teológicos oficiais das igrejas (tradição). Isso tem que acabar. A Bíblia precisa ser reafirmada como o tribunal supremo dos cristãos, estando acima de novidades teológicas, da cultura, de tradições e até mesmo dos concílios, credos e confissões de fé. Para isso, é preciso que a doutrina da inerrância bíblica seja exigida de todos os pastores e oficiais das igrejas. O pastor ou oficial que não crê na inerrância da Palavra de Deus não pode permanecer na liderança das igrejas. A razão é simples: se a Bíblia é falha, ela não pode ser a nossa fonte última de autoridade. E, se é assim, Lutero estava erradíssimo em deixar a Igreja Católica.

2) Uma igreja que leve a sério o uso dos dons do Espírito Santo. (Carisma) Basta uma lida rápida em 1 Coríntios 12-14, Efésios e Romanos 12, para perceber que uma compreensão correta dos dons espirituais é essencial para saber como as igrejas devem agir nos dias de hoje. É um erro que um assunto tão importante mal seja estudado nas igrejas históricas. Como também é absurdo que se estudem apenas dons "sobrenaturais" em algumas igrejas pentecostais e neopentecostais. Os protestantes históricos erram por ignorar dons "sobrenaturais" e não estudarem este assunto de modo sério e profundo com a membresia. Por outro lado, os pentecostais e neopentecostais erram quando pensam que dons se resumem a profecia, línguas, interpretação, curas e milagres.

Na verdade, o ponto 2 é um desdobramento do ponto 1. Sou carismático por entender que este é o ensino bíblico. Muitas vezes o carismatismo não é aceito porque ele não se encaixa em um esquema "racional" de explicação bíblica. Logo, "Carisma" é conseqüência de "Reforma".

Todas as outras questões podem ser resolvidas com esses pontos. Forma de culto, costumes, questões bioéticas...se a Bíblia ocupar o lugar que lhe é devido, tudo isso pode ser resolvido.

É verdade que todo mundo deveria aprender hermenêutica (como interpretar a Bíblia) na Escola Bíblica Dominical. Mas, um dia, se o Senhor permitir...você vai poder baixar a minha apostila de hermenêutica para leigos algum dia. =D

23 junho 2008

Mas, se Deus permite...(ou permitiu)

Portanto, aquele que sabe que deve fazer o bem e não o faz nisso está pecando. (Tiago 4:17).
Temos a tendência de pensar que o pecado é sempre uma ação. Pecamos quando fazemos algo de errado. Mas é fácil nos esquecermos que também pecamos por omissão, quando deixamos de fazer algo bom que sabemos que deve ser feito.

E minha experiência diz que uma das causas da omissão é o desejo de não assumir responsabilidades. Muitas vezes deixamos de lutar contra maus políticos, abusos na Igreja ou causas polêmicas e incômodas (aborto, homossexualismo, células-tronco, etc) usando Deus como desculpa.

Você já deve ter ouvido comentários do tipo "ah, mas se Deus permitiu":

1) Que o aborto seja algo socialmente aceito, então, não preciso lutar contra isso;
2) Que as pesquisas com células-tronco avançassem tanto e que a sociedade aceite o uso de células embrionárias, então, vamos aceitar isso e deixar acontecer;
3) Que o homossexualismo alcance tanto respaldo, que até o Governo Federal já fez um encontro nacional sobre o assunto, então, vamos parar de dizer que isso é pecado;
4) Que vivamos em uma sociedade com tanta liberdade sexual, então, vamos parar de condenar o sexo antes (e fora) do casamento.

Entre vários outros "se Deus permitiu".

E aqui eu preciso fazer uma ressalva. De fato, Deus permite muita coisa que Ele não concorda. Deus permitiu, entre outros:

1) A queda de Adão;
2) A escravidão dos negros na América;
3) O massacre de protestantes na Noite de São Bartolomeu;
4) Que Adolf Hitler matasse 6 milhões de judeus na Segunda Guerra Mundial;
5) Que o racismo tivesse crescido e se desenvolvido nos Estados Unidos e na África do Sul
6) Os conflitos étnicos na África, a ditadura de Mianmar, a execução de jovens no Morro da Providência, e muitos outros pecados que acontecem por aí.

Uma coisa que precisamos entender é que Deus permite sim que o homem peque e se destrúa. Deus adverte, mostra o caminho, mas não impede as pessoas de pecarem.

O cristão que se omite de defender o que é certo com o argumento de que "Deus permitiu" está é jogando a culpa e a responsabilidade de seus pecados em cima de Deus! Em outras palavras, o responsável é Deus...e eu não tenho responsabilidades sobre isso.

Não defender aquilo que é certo e direito, não se levantar para combater o que existe de podre em nosso mundo, cruzar os braços quando a injustiça reina...tudo isso é não fazer o bem que se sabe que deve fazer.

E, com toda certeza...isso é PECADO.

30 maio 2008

Uma decisão a se lamentar

Ontem o Supremo Tribunal Federal autorizou a pesquisa com células-tronco embrionárias. Para os cristãos que levam a Bíblia a sério, trata-se de uma decisão a ser lamentada, porque os embriões serão destruídos na pesquisa. Mesmo que ela seja feita apenas com embriões congelados há vários anos e, teoricamente, inviáveis à vida, esse tipo de pesquisa pode ser enquadrada como um assassinato.

A grande questão por trás deste assunto é quando começa a vida. O debate se concentra em torno daqueles que defendem o início da vida na fecundação e os que consideram que a vida só se inicia na nidação, quando o embrião se fixa na parede do útero. Em minha opinião, uma vez que há dúvidas sobre um assunto tão sério, a prudência, a sabedoria e o amor cristão recomendam que se vá pelo caminho mais seguro. Se há dúvidas sobre a destruição ou não de uma vida, você iria pelo caminho mais arriscado?

O ensino bíblico é claro e mostra que, para Deus, há vida antes do nascimento físico. Diz a Bíblia no Salmo 139:13-16:
Pois tu formaste o meu interior, tu me teceste no seio de minha mãe. Graças te dou, visto que por modo assombrosamente maravilhoso me formaste; as tuas obras são admiráveis, e a minha alma o sabe muito bem; os meus ossos não te foram encobertos, quando no oculto fui formado e entretecido como nas profundezas da terra. Os teus olhos me viram a substância ainda informe, e no teu livro foram escritos todos os meus dias, cada um deles escrito e determinado, quando nenhum deles havia ainda.
Em Jeremias 1:5, a Bíblia parece indicar que a vida humana começa antes da nidação, ou, pelo menos, antes da formação dos órgãos humanos:
Antes que eu te formasse no ventre materno, eu te conheci, e antes que saísses da madre, te consagrei, e te constituí profeta às nações.
Embora o nascimento de Jesus seja algo à parte, quando o anjo Gabriel descreve como Maria ficava grávida, ele diz que o momento em que o homem Jesus passa a existir seria quando o Espírito envolvesse Maria com a sua sombra. Isso já dá uma idéia mais próxima da fecundação do que de nidação (Lucas 1:35):
Respondeu-lhe o anjo: Descerá sobre ti o Espírito Santo, e o poder do Altíssimo te envolverá com a sua sombra; por isso, também o ente santo que há de nascer será chamado Filho de Deus.
Há que se registrar, no entanto, que na Lei de Moisés a morte de um feto era considerada menos grave que a morte de um ser humano já nascido. No entanto, a morte de um feto era pecado e devia ser reparado:
Se homens brigarem, e ferirem mulher grávida, e forem causa de que aborte, porém sem maior dano, aquele que feriu será obrigado a indenizar segundo o que lhe exigir o marido da mulher; e pagará como os juízes lhe determinarem. (Ex 21:22)
Creio que estes textos são mais do que suficientes para esclarecer a questão. Mas, embora os outros textos não sejam tão pertinentes, cabe lembrar que Sansão era nazireu de Deus no ventre de sua mãe (Jz 13:5), João Batista seria cheio do Espírito Santo no ventre materno (Lc 1:15) e que Paulo foi separado por Deus para pregar aos gentios antes mesmo de ter nascido (Gl 1:15).

Para os cristãos autênticos, a Bíblia tem precedência sobre qualquer ponto de vista científico quanto ao início da vida humana. Mesmo que a maioria dos óvulos fecundados naturalmente não se fixem no útero ou que os gêmeos univitelinos só se separem após a fecundação, ainda assim é preciso que reafirmemos o que a Bíblia diz e ensina sobre o assunto.

Não sou contrário a pesquisas com células-tronco que possam curar pessoas de lesões nervosas, paralisias e tantos outros tipos de doença. Sou contrário apenas a que seres humanos sejam mortos ou pecados sejam cometidos para que isso aconteça. Ou você aceitaria que eu matasse o seu filho para pegar uma córnea para transplantar no meu irmão e um fígado para mim?

E o que fazer com os embriões congelados há anos nas clínicas de reprodução? Sinceramente, esse problema só acontece por causa do pecado humano e pela recusa em aceitarmos que a vida começa na concepção. Esse excesso de embriões ocorre porque, nas fertilizações in vitro, são fertilizados 5, 6, 8 óvulos para aumentar as chances de uma gravidez. No meu ponto de vista, deveriam se fertilizar no máximo três óvulos e todos eles deveriam ser postos no útero. Fertilizar óvulos que podem nunca ser utilizados é brincar com a vida. E a adoção continua sendo uma opção mais saudável, segura e amorosa para os cristãos que são estéreis.

Vale a pena ler a nota distribuída pela Confedereção Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) comentando a decisão do STF.

28 maio 2008

Porque acredito em profecias nos dias de hoje

No post anterior, comecei a tratar da questão da contemporaneidade do dom de profecia. Em outras palavras, ainda há profecias nos dias de hoje? Apesar da resposta reformada tradicional ser "não", entendo que a Bíblia ensina o contrário.

1) Os últimos dias são marcados pela presença de profecias.

Em Atos 2:14-21, Pedro explica aos judeus porque os apóstolos estavam proclamando as grandezas de Deus em outras línguas. Gostaria de chamar a atenção para os versículos 16 a 18

Mas o que ocorre é o que foi dito por intermédio do profeta Joel: E acontecerá nos últimos dias, diz o Senhor, que derramarei do meu Espírito sobre toda a carne; vossos filhos e as vossas filhas profetizarão, vossos jovens terão visões, e sonharão vossos velhos; até sobre os meus servos e sobre as minhas servas derramarei do meu Espírito naqueles dias, e profetizarão

Repare que, de acordo com Pedro, o período da história conhecido como "últimos dias" será marcado por um derramamento do Espírito Santo sobre todo tipo de pessoa. Isso inclui até mesmo grupos que poderíamos considerar como menos importantes: filhos e filhas, jovens e velhos, servos e servas. E o sinal da presença do Espírito Santo nessas pessoas seriam manifestações ligadas à profecia: "profetizarão", "visões", "sonharão".

Se usarmos o argumento cessacionista, de que a profecia se restringia à época em que a Bíblia foi escrita ou ao período dos apóstolos, a profecia de Joel citada por Pedro perde o seu sentido. Se concordarmos com os cessacionistas, seria como se a profecia estivesse presente apenas nos primeiros minutos dos últimos dias...e não desse mais as caras em todas as horas restantes! Como as profecias podem ser uma marca dos últimos dias, se eles já duram uns 2 mil anos e cessaram nos primeiros 70 anos?

Na verdade, em 1 João 2:18, João é ainda mais enfático quando diz que nós estamos na última hora. Desde o momento em que Cristo morreu e ressuscitou, estamos na última etapa da História. Tanto que o apóstolo Paulo tinha a esperança de estar vivo na volta de Cristo: "nós, os vivos, os que ficarmos até a vinda do Senhor" (1 Ts 4:15).

Um último argumento. Tanto em Atos 2:16-21 como em Joel 2:28-32, a profecia fala no derramamento do Espírito, profecias, prodígios no céu e na terra, sangue, fogo, fumaça, Sol convertido em trevas e Lua transformada em sangue até o Dia do Senhor. Assim, quem argumenta que essa profecia já se cumpriu em Atos 2, se engana. Essa é uma profecia em cumprimento. Ela já começou a ser cumprida, mas não totalmente. O Espírito Santo e as manifestações proféticas preditas por Joel são sinais do tempo do fim, assim como os prodígios no céu ou o Sol convertido em trevas.

2) As profecias só cessam com a volta de Cristo.

Em 1 Coríntios 13, Paulo fala do amor e de como o amor é superior aos dons espirituais. E uma das razões é que os dons não são permanentes, ao passo que o amor permanecerá para sempre. Leia 1 Coríntios 13:8-12:

O amor jamais acaba; mas, havendo profecias, desaparecerão; havendo línguas, cessarão; havendo ciência, passará; porque, em parte, conhecemos e, em parte, profetizamos. Quando porém, vier o que é perfeito, então, o que é em parte será aniquilado. Quando eu era menino, falava como menino, sentia como menino, pensava como menino; quando cheguei a ser homem, desisti das coisas próprias de menino. Porque agora, vemos como em espelho, obscuramente; então, veremos face a face. Agora, conheço em parte; então, conhecerei como também sou conhecido.

As profecias não são para sempre, elas desaparecerão. Da mesma forma como os dons de línguas ou de ciência (conhecimento). Creio que, pelo contexto (leia 1 Co 13:1-3), isso se aplica a todos os dons. Os dons são algo incompleto, imperfeito. E, diz a Bíblia que, quando vier o que é perfeito, então, o que é em parte será aniquilado.

Os cessacionistas dizem que o "perfeito" ao que Paulo se refere é a Bíblia escrita. Embora reconheça a perfeição da Palavra, sou forçado a dizer que não é o mesmo tipo de perfeição descrito no texto. Se a perfeição é a Bíblia, então podemos dizer que vemos face a face e que conhecemos como somos conhecidos por Deus. Mais do que isso...estamos na frente de Paulo, porque, quando ele escrevia 1 Coríntios, ele ainda via como em espelho e conhecia em parte. Se você se sente com mais conhecimento do que Paulo, eu não estou no seu time.

A perfeição a que se refere 1 Co 13 não é apenas referente à revelação. É uma perfeição que nos atinge, a ponto de vermos as coisas como elas são. Em 1 Coríntios 15 Paulo deixa claro que ainda estamos bem longe disso, quando ele diz coisas como "Pois assim também é a ressurreição dos mortos. Semeia-se o corpo na corrupção, ressuscita na incorrupção. Semeia-se em desonra, ressuscita em glória. Semeia-se em fraqueza, ressuscita em poder" (1 Co 15:42-43). Desta forma, enquanto a ressurreição não vem, estamos na corrupção, desonra e fraqueza. Na ressurreição, estaremos em incorrupção, glória e poder.

E aí, à luz destes textos, a qual "perfeito" você acha que Paulo se refere?

3) Atos dos Apóstolos e as cartas do Novo Testamento mostram a profecia no dia-a-dia da igreja

Um dos argumentos cessacionistas é que a profecia era uma atividade sob supervisão apostólica. Os profetas que não eram apóstolos estariam sendo supervisionados pelo Colégio Apostólico. Se essa supervisão puder ser entendida como "a profecia não pode contrariar o ensino apostólico", podemos concordar. Mas, se acharmos que sempre que alguém profetizava um apóstolo estava lá para autenticar a mensagem, ou então que todas as profecias passavam por um crivo apostólico, então não há a menor possibilidade de concordar com essa teoria. Na verdade, o que vemos é que as profecias faziam parte do dia-a-dia da Igreja e era uma atividade exercida por leigos.

Em Atos 9:10-19, vemos Ananias tendo uma visão, conversando diretamente com Jesus e ouvindo uma espécie de profecia sobre o ministério de Paulo. Até aquele momento, Saulo não era nenhum apóstolo. Ananias agiu sem pedir permissão ou a autenticação de nenhum apóstolo. Ágabo não é apóstolo e profetiza em Atos 11:27-31 e Atos 21:10-14. Em Atos 19:6-7, doze recém-convertidos tomados pelo Espírito Santo profetizaram logo após receberem o batismo e explicações simples sobre o Espírito Santo. Filipe, o evangelista, morava em Cesaréia e tinha quatro filhas profetisas (At 21:9). Detalhe: não havia apóstolo algum morando em Cesaréia para supervisionar as profecias daquelas donzelas.

O mesmo pode ser dito das cartas. Paulo fala da profecia como um dom ou ministério à igreja de Roma (Rm 12:6), Corinto (1 Co 12:28-31) e Éfeso (Ef 4:11). Ele gasta um capítulo inteiro de 1 Coríntios para regular, entre outras coisas, como a profecia deveria ser usada no culto (1 Co 14). Lá ele diz que o dom de profecia deveria ser o mais buscado pelos coríntios (1 Co 14:1), esclarece o papel da profecia (1 Co 14:3), a relação entre línguas e profecia (1 Co 14:2-19), como a profecia pode ajudar na evangelização (1 Co 14:20-25), de que forma os profetas deveriam falar (1 Co 14:29-33) e até mesmo que as profecias deveriam ser examinadas (1 Co 14:29). Em 1 Tessalonicenses 5:20, ele diz claramente que não devemos desprezar as profecias. Paulo chega até mesmo a apelar a profecias feitas ao jovem Timóteo para que ele permanecesse firme na obra do Senhor (1 Tm 1:18).

Ora, se as profecias não existem mais...se elas duravam apenas enquanto a Bíblia estava sendo escrita...por que tanta tinta foi gasta para instruir as igrejas neotestamentárias sobre como elas deveriam lidar com os profetas? Veja que nem sempre Roma, Corinto, Éfeso ou Tessalônica tinham um apóstolo por lá, e mesmo assim as profecias aconteciam. Quando houve problemas (Corinto), Paulo regulamentou o uso do dom, mas não o proibiu nem exigiu que se anotasse tudo o que foi profetizado para que ele pudesse autenticar como verdadeiro ou não. A profecia era uma possibilidade tão normal que Paulo podia escrever: "Quando vos reunis, um tem salmo, outro doutrina, este traz revelação, aquele, outra língua, e ainda outro, interpretação" (1Co 14:26)

Assim sendo, termino aqui a minha argumentação bíblica para provar que as profecias continuam nos dias de hoje. Concordo que muito do que tem sido chamado de "profecia" nas igrejas de hoje não é, de fato, profecia bíblica. Mas também vejo muita atividade profética legítima acontecendo por aí.

Por fim...o ônus da prova recai sobre os cessacionistas. Que prova bíblica eles dão de que a profecia cessou?

12 maio 2008

Profecia e "Sola Scriptura"

No passado, eram as línguas...quando o pentecostalismo começou a influenciar as igrejas protestantes históricas, lá pelos idos de 60. Nesse tempo, as pessoas queriam saber é sobre o dom de línguas. Afinal, quem é batizado no Espírito Santo precisa orar em línguas estranhas, como os apóstolos fizeram em Atos 2? Quem não ora em línguas é ou não salvo?

Atualmente, o interesse é outro: o dom de profecia. Muitos evangélicos procuram aconselhamento e ficam confusos por causa de profecias que receberam. Por outro lado, outros tiveram experiências bastante positivas com profetas. Enquanto algumas igrejas proíbem as profecias (caso da Igreja Presbiteriana do Brasil), outras as valorizam tanto que parecem colocá-las acima até mesmo da Bíblia.

E aí fica uma questão: devemos crer ou não que as profecias do século XXI são legítimas?

Um dos argumentos usados para não se acreditar nas profecias de hoje em dia é o princípio do "Sola Scriptura", adotado na Reforma Protestante. Esse princípio afirma que a Bíblia está acima de todas as outras fontes de autoridade. Somente a Escritura serviria como regra de fé e prática para os cristãos.

Argumentam alguns que a profecia é incompatível com o "Sola Scriptura". Se a profecia é uma revelação, ou seja, se Deus fala literalmente por meio do profeta, então a profecia teria a mesma autoridade que a Bíblia. Mais do que isso, se ainda há profetas, o que os impediria de escreverem livros, relatando suas profecias? E, caso eles façam isso, por que não acrescentar esses livros à Bíblia? Desta forma, a permanência dos profetas implicaria em um cânon aberto da Bíblia. Ou seja, a Bíblia ainda seria um livro aberto, que poderia ser ampliado.

De fato, isso tem acontecido em alguns casos. Os mórmons entendem que Joseph Smith era um profeta e as visões dele ficaram registradas no Livro de Mórmon. De certa forma, o mesmo aconteceu com Maomé e o islamismo. Em várias igrejas evangélicas, o ensino bíblico é deixado de lado quando certas profecias contrariam o ensino da Palavra.

Mas, embora a relação entre profecia e o "Sola Scriptura" seja importante e precise ser considerada, não é isso que define se as profecias continuam ou não. É preciso analisar o que a Bíblia diz sobre o assunto. E, a não ser que a própria Bíblia ensine a cessação das profecias no tempo presente, não podemos descartá-las baseadas em um argumento teológico. E argumento teológico não é a mesma coisa que um argumento bíblico.

De qualquer forma, a existência de profetas não implica em um livro aberto. Primeiro porque a Bíblia é um livro autoritativo para todas as pessoas, em todos os tempos. Profecias podem ser específicas, dirigidas apenas a uma pessoa ou grupo de pessoas. Como exemplo, basta ler Atos 21:10-14. Ali, Ágabo dá uma profecia que é específica para o apóstolo Paulo. Em segundo lugar, porque muitos profetas não escreveram livros bíblicos. Ágabo profetizou no Novo Testamento, mas não temos o livro de Ágabo. Em Atos 20:9, lemos que as quatro filhas de Filipe profetizavam, mas não sabemos o conteúdo de nenhuma profecia delas. Logo, profecia não significa cânon aberto.

Claro que há muitas outras questões em jogo, que pretendo analisar neste blog. Mas, amanhã estarei em viagem e só volto no sábado. Até lá, os meus pouquíssimos leitores terão tempo de sobra para refletirem sobre este assunto e postarem seus comentários, se assim desejarem.

A boa mãe

O Dia das Mães já passou, mas gostaria de deixar registrado aqui um sermão que preguei sobre 1 Reis 3:16-28. Este texto nos fala da sabedoria de Salomão, mas também tem muito a ensinar sobre qualidades do amor de mãe. São elas:

1) Cuidado. Enquanto a outra mãe dormiu de modo descuidado, a ponto de matar o filho, a boa mãe zelava pelo seu filho. Primeiro, ela dormiu de uma maneira a não correr o risco de sufocar a sua criança. Naquele tempo, um berço, com certeza seria um luxo. Duas prostitutas não eram ricas, logo, era natural que elas dormissem na mesma cama que seus filhos. Uma das recomendações para evitar a morte de um bebê é não dormir de lado. Provavelmente, a boa mãe tomou esse cuidado. Além disso ela acordou à noite para amamentar, e no dia seguinte ela examinou o bebê morto e reconheceu que não era o seu. Em tudo isso, vemos uma mãe cuidadosa e zelosa. Hoje, precisamos de mães assim. Que tenham um zelo e um interesse genuínos em cuidar de seus filhos. Mães que se preocupam em saber se seus filhos oram e andam com Deus, em conhecer os amigos de seus filhos, onde eles vão, do que eles gostam. Mães que usam a sua autoridade para afastar os seus filhos dos perigos do mal e conduzi-los ao caminho de Cristo. Uma mãe que não cuida de seus filhos pode correr o risco de vê-los mortos: espiritualmente, entregues a vícios ou até mesmo por terem aderido a gangues e ao crime.

2) Proximidade. A boa mãe quer estar próxima de seu filho. A boa mãe não aceitou o estratagema da falsa mãe. Ela brigou pelo seu filho e levou o caso até o rei, mesmo sendo uma prostituta. Ela queria ser mãe de seu filho. Isso parece óbvio demais, mas não em nossa sociedade. O que vemos hoje são mães que até teriam condições financeiras de terem o seu filho, mas que preferem abortar para não "jogar sua vida fora". Um dos argumentos mais usados pelos pró-aborto é que a gravidez é indesejada, principalmente se a pessoa for pobre. Essa prostituta, se vivesse no século XXI, talvez considerasse uma bênção que a outra tenha roubado o seu filho! Uma criança a menos é uma boca a menos para sustentar, uma pessoa a menos para cuidar, um peso a menos. Mas, graças a Deus, ela vivia em Israel, no século X a.C. E, para ela, a criança era uma bênção. E ela lutou para ficar com o seu filho. Por outro lado, muitos pais e mães estão delegando a criação de seus filhos à televisão, babás, escolas e amigos. Estão com seus filhos, mas não estão próximos deles. E o diabo tem se aproveitado disso para tomar-lhes o lugar e induzir essas crianças e adolescentes a irem no caminho do pecado e do erro. Precisamos de mães brigadoras, que lutam pela vida de seus filhos. De mães que queiram, de fato, ser mães.

3) Sacrifício. O amor cristão é, necessariamente, sacrificial. A maior prova de amor que Jesus nos deu foi o fato d'Ele ter dado a Sua vida por nós (Jo 15:13). O verdadeiro amor "tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta" (1 Co 13:7). Traduzindo, quem ama se sacrifica. Ainda que o sacrifício seja a renúncia do convívio com a pessoa amada. Salomão sabia disso, e por isso deu ordens para que a criança fosse dividida ao meio. A verdadeira mãe sacrificaria o convívio com o seu próprio filho para que ele pudesse viver. Ela estava disposta a qualquer sacrifício pelo bem-estar de seu filho. E a maternidade é um chamado ao sacrifício. Ao sacrifício de noites de sono, por causa de uma doença. Ao sacrifício de bens materiais, que serão gastos ou economizados para o filho, e não para a mãe. E até mesmo para o sacrifício do convívio com o filho, quando ele se tornar maior. De entender que aquele emprego em outra cidade ou que aquele(a) menino(a) com quem ele(a) quer se casar fazem parte dos planos de Deus para o(a) filho(a).

Vale notar que essas três qualidades também se aplicam a pais e a todos os relacionamentos onde exista amor. O amor envolve o cuidado com o ser amado, o desejo de estar próximo e o sacrifício. E não devemos esquecer que Deus também tem cuidado de nossa vida, deseja que estejamos próximos d'Ele e fez o maior sacrifício para que escapássemos do juízo divino e recebêssemos a maior das bênçãos: o próprio Deus habitando em nós e nos recebendo em Seu lar.

10 maio 2008

Marcas de uma igreja verdadeiramente pentecostal

Atenção! Se você é presbiteriano ou um protestante histórico, antes de me crucificar, leia esse post primeiro. Depois volte e leia este.

Esclarecido o que quero dizer com "verdadeiramente pentecostal" fica a pergunta. O que isso significa? Acho que boa parte da resposta pode ser achada em Atos 2:1-41:

1) Oração. Lendo Atos 1:14, vemos que os apóstolos, as mulheres, Maria e os irmãos de Jesus perseveravam unânimes em oração. Um pouco antes, Jesus havia subido aos céus e orientado os discípulos a permanecerem em Jerusalém, aguardando o momento em que receberiam poder do alto (At 1:8). Passaram-se mais ou menos dez dias entre a ascensão de Jesus e o Pentecostes. O Espírito desceu enquanto os discípulos estavam reunidos em um mesmo lugar, provavelmente orando. A oração precedeu tudo o que viria depois.

2) Manifestações do Espírito Santo. É inevitável concluir isso. Não apenas pelo texto, mas por toda a história contada em Atos dos Apóstolos. O que muda o coração dos apóstolos é o Espírito. É pelo Espírito que a obra avança e as pessoas são convertidas. Isso pode ser visto no falar em outras línguas (At 2:4), mas também na pregação de Pedro (At 2:14-36). Pode ser visto nas curas, sinais e prodígios feitas em nome de Jesus (At 4:30) e na comunhão com os irmãos, no louvor a Deus e até mesmo na partilha de bens (At 2:42-47). O erro pentecostal é limitar essas manifestações apenas àquilo que é sobrenatural. O erro protestante (de alguns, pelo menos) é excluir a possibilidade do Espírito se manifestar de modo miraculoso. Aquele que considera tanto uma coisa quanto a outra, estará no caminho certo.

3) Perseguições. Esse é um detalhe que poucos dão importância quando lêem Atos 2. Veja o versículo 13. Para vários judeus, os apóstolos estavam bêbados, e não cheios do Espírito Santo. Não é muito diferente do que os fariseus diziam de Jesus. Quando uma igreja faz a vontade de Deus, ela vai achar quem fale mal dela.

4) Pregação da Palavra. E aqui é que está o grande segredo do Pentecostes. O mais importante não eram as línguas em si. Se repararmos bem no texto, o importante mesmo era o que Pedro iria dizer. As línguas atuaram como uma espécie de chamariz para as pessoas. Depois que elas tiveram sua atenção atraída, Pedro pregou e as pessoas se converteram. Reparem que os judeus não se converteram por causa das línguas, mas sim por causa da pregação: "Então, os que lhe aceitaram a palavra foram batizados, havendo um acréscimo naquele dia de quase três mil pessoas" (At 2:41).

5) Arrependimento. Olhando para o que Pedro pregou, vemos que ele explicou os fatos, mostrou ao povo quem era Jesus e conscientizou os judeus do pecado que cometeram, crucificando a Cristo. Quando o povo sentiu o peso do pecado, Pedro disse que o povo deveria se arrepender (At 2:38). O apelo de Pedro não foi para que as pessoas "aceitassem a Jesus", mas sim que eles se arrependessem e se salvassem de uma geração perversa.

Se pudermos ir além, e pegarmos Atos 2:42-47 vemos mais caractérísticas ainda: comunhão, temor de Deus, partilha de bens, louvor a Deus, simpatia do povo e crescimento da Igreja. E o texto volta a falar de doutrina, manifestações do Espírito e orações.

Acho que ninguém, em sã consciência, pode se opor a igrejas que busquem essas características. A todas elas. Os problemas surgem é quando selecionamos o que deve e o que não deve ser buscado. Por exemplo, quando só buscamos manifestações do Espírito e não valorizamos a pregação da Palavra. Ou então quando pregamos a Palavra, mas quase não oramos. É aí que nascem os erros das igrejas cristãs da atualidade.

Uma igreja verdadeiramente pentecostal

Domingo é Dia das Mães, mas também é o dia em que os cristãos comemoram o Pentecostes. Foi no dia de Pentecostes, sete semanas após a Páscoa, que o Espírito Santo desceu sobre os apóstolos e começou um novo capítulo na história da Igreja Cristã (At 2:1-41). Na verdade, o Pentecostes era uma festa judaica, instituída por Deus no início da colheita (Dt 16:9-12). Vale a pena notar que é nesse dia que Deus começou a sua "colheita" de novos discípulos para Jesus Cristo.

E há um verdadeiro fascínio no Brasil sobre os acontecimentos daquele dia de Pentecostes. Um grupo evangélico (o maior de todos) chega a se denominar pentecostal. Embora hoje isso esteja em mudanças, o pentecostal clássico acredita que os cristãos só são batizados no Espírito Santo quando falam em línguas. Suas igrejas enfatizam muito a ocorrência de milagres e outras manifestações sobrenaturais, como o dom da profecia. O Espírito Santo parece ocupar o centro das pregações e da vida da Igreja, sendo mais comentado do que Jesus ou o Pai. Os "usos e costumes" também são valorizados (comprimento da saia, proibição de maquiagem, entre outros), mas o século XXI está acabando com isso em várias igrejas do movimento. Como exemplo de igrejas pentecostais, cito as Assembléias de Deus, a Convenção Batista Nacional, a Igreja Presbiteriana Renovada, a Deus é Amor e a Brasil Para Cristo.

Mas o pentecostalismo já gerou dois "filhos". Um é a Renovação Carismática Católica, que mistura o catolicismo com as ênfases da doutrina pentecostal. O outro é o neopentecostalismo, que dá menos ênfase no batismo do Espírito Santo com dom de línguas e nos "usos e costumes". Em compensação, dá um destaque muito maior às contribuições financeiras e mantém a valorização dos milagres e do sobrenatural.

Teoricamente, as igrejas protestantes históricas, como a Igreja Presbiteriana do Brasil e a Convenção Batista Brasileira não seguem os princípios do pentecostalismo. Mas é inegável a influência que o movimento exerce sobre os membros dessas igrejas. Não é raro você ouvir um protestante reclamando que não vê nenhum milagre em sua congregação, mas que o pastor da igreja pentecostal da esquina vive fazendo atos sobrenaturais. Ou então um protestante procurar um profeta em uma igreja pentecostal para saber alguma coisa. Músicas de teologia pentecostal são cantadas nos cultos protestantes e quase ninguém se constrange com isso.

Não sou pentecostal, mas concordo que a igreja de Cristo deveria ser "pentecostal". Mas não no sentido em que o termo é usado pelos evangélicos. Ao meu ver, os pentecostais evangélicos erram porque focam demais no evento de Pentecostes. Eles ignoram que a descida do Espírito Santo foi um evento de inauguração de uma nova era da Igreja. Acompanhar as marcas que a Bíblia nos dá sobre a Igreja pós-Atos 2 seria muito mais útil do que olhar apenas para a descida do Espírito. Assim, uma igreja verdadeiramente pentecostal é aquela que vive na era do Pentecostes, e não uma que quer voltar para o evento do Pentecostes.

O que isso significa? Fica como assunto para próximos posts.

30 abril 2008

Os moradores de rua do Brasil

Saiu ontem uma pesquisa que deveria ser leitura obrigatória para todas as igrejas evangélicas do Brasil. Pelo menos daquelas que têm um mínimo de interesse social e convivem com mendigos na vizinhança, como é o caso da minha.

É a Pesquisa Nacional Sobre a População em Situação de Rua, feita pelo Ministério do Desenvolvimento Social. Foram feitas entrevistas em 71 cidades (23 capitais e 48 cidades com mais de 300 mil habitantes) com quase 32 mil moradores de rua. Alguns dados são surpreendentes:

1) 71% dos moradores de rua trabalham e apenas 16% dependem da mendicância para sobreviver. 59% afirmaram ter profissão, mas áreas de construção civil, comércio, trabalho doméstico e mecânica.

2) 52% deles possuem ao menos um parente na cidade em que moram, sendo que 39% dizem ter uma boa relação com a família e 34% mantém contato com os familiares

3) 74% sabem ler e escrever, mas 63,5% não concluíram o ensino fundamental

4) O alcoolismo e as drogas são as razões que levam a maioria dessas pessoas a morar na rua: 35,5%. A seguir vem o desemprego (30%) e conflitos familiares (29%).

Acho que antes de começar qualquer trabalho com moradores de rua, as igrejas deveriam se debruçar sobre estes números, entendê-los e iniciar projetos de ação social que encarem essa realidade. Se necessário, contratar sociólogos ou chamar os alunos de Sociologia e Serviço Social para darem uma ajuda.
Não sou sociólogo, mas já tirei algumas conclusões:

1) No Brasil, a mendicância é um problema moral e familiar. Ao contrário do que imaginamos, a maioria das pessoas que vão para a rua tomam essa decisão não por causa de dificuldades econômicas, mas sim porque tiveram a sua vida destruída pelo álcool e pelas drogas e por conflitos familiares. Não que a economia não conte, ela conta, e muito. Mas não é o fator principal, como os teólogos da libertação da Igreja Católica e suas variantes evangélicas propagam. Talvez, se essas pessoas não tivessem experimentado as drogas ou conseguissem resolver seus conflitos familiares, elas jamais teriam ido morar na rua.

2) As igrejas devem investir mais na prevenção ao uso de álcool e drogas. Não sou contrário ao consumo de bebidas alcóolicas por cristãos, como já demonstrei em um outro post. Acho que a proibição é um farisaísmo. Mas entendo que esse consumo não pode ser estimulado ou encorajado. O álcool é uma substância perigosa, pois, se não for consumido com moderação, pode destruir não apenas a saúde física de alguém, mas devastar a família e levar uma pessoa para a sarjeta. A igreja deve apoiar projetos de lei que restrinjam a publicidade e a venda de álcool e dar instruções claras combatendo o uso de outros tipos de droga.

3) A família deve ser a prioridade ministerial das igrejas. Quando conflitos familiares são o terceiro fator que mais tira pessoas de casa e as põe na rua, percebe-se o quanto a família está doente no Brasil e como ela pode ser determinante na vida de alguém. Enquanto a sociedade não vê problemas no aumento no número de divórcios e encoraja a falta de obediência dos filhos, pessoas estão jogando fora as suas vidas porque não conseguem paz dentro de casa. Filhos fogem do lar porque não se dão com os pais, famílias expulsam um pai bêbado, mulheres ficam sem opção de sustento por causa de um divórcio e da falta de apoio da família. Precisamos de igrejas orientadas para a educação das futuras famílias e para o pastoreio das famílias já existentes. Aconselhamentos pré-nupciais e para casais, palestras sobre educação de filhos, eventos onde pais e filhos brinquem juntos são apenas algumas iniciativas que podemos executar em nossas igrejas.

Não falo da questão econômica porque é muito difícil para as igrejas serem uma resposta para este tipo de problema. Só quem teve que montar o orçamento de uma igreja sabe como isso é difícil. As barreiras para que igrejas pequenas e médias montem programas de escolarização e profissionalização são enormes. Por outro lado, ensinar uma profissão não vai adiantar muita coisa se o caráter não for trabalhado.
Mas, ninguém ainda sabe qual é o impacto econômico produzido pela transformação do caráter. Se as igrejas forem ativas no combate e prevenção às drogas e na defesa e pastoreio das famílias, evitaremos que muitos cheguem à sarjeta e, com certeza, isso trará reflexos bastante positivos para a economia do Brasil.

25 abril 2008

E música do mundo: pode?

Alguns termômetros de santidade dos evangélicos são realmente estranhos. Ao invés de falarmos do amor, da justiça ou da fé das pessoas, escolhemos coisas mais simples de medir...e sem muita importância. A música é uma delas.

Não é difícil entrar no Google e descobrir estudos defendendo que evangélico não pode ouvir música "do mundo", ou seja, música não evangélica. Aí você encontra os pastores que tocam a música ao contrário e apontam mensagens subliminares. Ou então que vasculham a vida dos cantores e compositores, caçando a menor referência à orixás e outras formas de idolatria.

A única opção segura seriam as músicas evangélicas. Mas, mesmo assim, ainda há restrições: alguns acham que o rock, o rap e vários outros tipos de ritmos (principalmente música eletrônica) são, simplesmente demoníacos. Mesmo que em uma versão gospel. Dançar então...escândalo! Se podemos chamar um grupo de forró evangélico para tocar, é só para ouvir. Dançar é pecado gravíssimo. Quase mortal.

A solução encontrada pela maioria dos evangélicos é a criação de um gueto cultural. Criamos as versões evangélicas, para os nossos jovens se divertirem. Assim temos rock gospel, rap gospel, até mesmo raves gospel, como a Azzucar, aqui de Brasília. A opção foi o isolamento cultural. E, se um evangélico quebra esta barreira, tocando "música do mundo", ele já se torna malvisto. Todos o vêem como alguém que está prestes a se desviar do Evangelho. A crença-base é de que a música só é permitida se for dirigida de modo explícito a Deus.

Mas, e aí, pode ou não pode? Vou dar o meu ponto de vista sobre o assunto.

1) Tudo o que fazemos deve ser para a glória de Deus. Está lá, em 1 Coríntios 10:31: "Portanto, quer comais, quer bebais ou façais outra coisa qualquer, fazei tudo para a glória de Deus". Logo, quando ouvimos ou fazemos música, isso deve ser para a glória de Deus. Mas, será que isso significa que toda música que ouvimos ou fazemos tem que ser de adoração? Ora, as pessoas estudam para concursos públicos, comem pizza, se divertem em clubes, trabalham em bancos...e ninguém diz que Deus não pode ser glorificado nessas atividades. Assim sendo, é possível ouvir música não evangélica e glorificar a Deus.

2) Devemos controlar o que entra em nossa mente. O cristão não pode manter a sua mente "livre", divagando sobre qualquer coisa. Os nossos pensamentos podem sim influenciar o nosso caráter e comportamento. Não é à toa que Paulo diz que somos transformados pela renovação da nossa mente: "E não vos conformeis com este século, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente, para que experimenteis qual seja a boa, agradável e perfeita vontade de Deus" (Rm 12:2). Ou então que uma parte do seu ministério era levar todo pensamento cativo à obediência de Cristo (2 Co 10:5). E, com toda certeza, aquilo que lemos e assistimos influencia o nosso pensamento, assim como o nosso corpo é influenciado por aquilo que comemos. Em Filipenses 4:8, lemos o que deve ocupar a nossa mente: "Finalmente, irmãos, tudo o que é verdadeiro, tudo o que é respeitável, tudo o que é justo, tudo o que é puro, tudo o que é amável, tudo o que é de boa fama, se alguma virtude há e se algum louvor existe, seja isso o que ocupe o vosso pensamento" (Fp 4:8). Vejam bem que isso não quer dizer que só devemos ouvir músicas evangélicas...mas indica claramente que não podemos ouvir qualquer coisa. Músicas blasfemas, que faltam com o respeito e denigrem a Palavra de Deus devem ser evitadas. Quanto a isso, não pode haver dúvidas.

3) A fé do compositor ou do cantor não tem importância. Uma neurose evangélica, tipicamente pentecostal e neopentecostal (mas que, infelizmente, contamina vários históricos) é a do comprar ou ouvir algo consagrado a demônios. Escritores como Rebecca Brown ganharam muito dinheiro dizendo que quase tudo o que compramos e consumimos é fruto de um pacto com algum demônio. Mas, ainda que ela esteja certa (o que eu duvido muito), a Bíblia ainda tem a última Palavra e diz "Comei de tudo o que se vende no mercado, sem nada perguntardes por motivo de consciência, porque do Senhor é a terra e a sua plenitude" (1 Co 10:25-26). Ou seja, compre sem se preocupar se a pessoa é umbandista, espírita, católica ou evangélica. Tudo é do Senhor. Se não podemos ouvir música de um compositor não cristão, então não podemos ler um livro de escritores não cristãos, vermos programas de televisão de não cristãos, comprar uma camiseta costurada por uma operária não cristã...e por aí vai.

4) Não é pecado conhecer e conviver com a cultura ao redor. Se assim fosse, o profeta Daniel estava perdido. Daniel teve que conhecer a cultura e a língua dos caldeus (Dn 1:4). E Deus deu conhecimento e inteligência a Daniel em toda cultura e sabedoria (Dn 1:17). Obviamente, a cultura pagã dos caldeus (ou babilônios) estava no pacote da bênção divina. Paulo conhecia (e citava) poetas pagãos. Quando Paulo fala: "Foi mesmo, dentre eles, um seu profeta, que disse: Cretenses, sempre mentirosos, feras terríveis, ventres peguiçosos", ele citou o poeta grego Epimênides. Paulo também cita poetas gregos no seu discurso em Atenas: "pois nele vivemos, e nos movemos, e existimos, como alguns dos vossos poetas têm dito: Porque dele também somos geração" (At 17:28). Obviamente, o "vossos" se refere a poetas gregos.

5) Não há diferença prática entre ouvir música, ler livros e ir ao cinema. É, no mínimo, hipocrisia, uma pessoa que não ouve "música do mundo" não ver problema em ler livros não cristãos, assistir a programas de televisão (qualquer um) não cristãos ou ver filmes não evangélicos. Livros, televisão e filmes podem ser bons ou ruins, assim como a música. Todos alimentam o pensamento, assim como a música. Por que a neurose é só musical?

Gostaria de terminar olhando para Salomão. Em 1 Reis 4:29-34, a Bíblia fala da sabedoria que Deus deu a Salomão. Com essa sabedoria, Salomão compôs cinco mil provérbios e mil e cinco cânticos. Desses, nós só conhecemos um salmo de Salomão (o Sl 72) e o Cântico dos Cânticos. Tenho minhas dúvidas de que todos os mil e cinco cânticos foram exclusivos de adoração. Ainda mais porque Salomão era um homem de vários interesses, que conversava com pessoas de outros povos e tinha um profundo interesse científico (no caso, pela biologia).

Imagino que assim devem ser os cristãos. Pessoas inteligentes e sábias, ativas na ciência e na arte. Pessoas que convivem com os que não são cristãos e dialogam com elas. Pessoas tão capazes, como Salomão ou Daniel, a ponto de influenciarmos o pensamento e a sabedoria seculares. E o isolamento cultural não vai ajudar em nada.

Jesus não pediu que o Pai nos tirasse do mundo, mas sim que Ele nos guardasse do mal (Jo 17:15). Não somos do mundo, mas é nele que habitamos e é aqui que devemos cumprir a nossa missão. Se queremos tanto falar e sermos ouvidos, o mínimo que devemos fazer é não taparmos os nossos ouvidos ao que o mundo diz. Jesus não fez isso.

Mais uma coisa: a Bíblia não proíbe as pessoas de fazerem músicas de amor, de protesto ou sobre a vida. Se ela não proíbe, quem somos nós para proibir?

24 abril 2008

O cego evangelista

Eu sempre tive vontade de pregar sobre a cura do cego de nascença. Mas não só a parte da cura, e sim a história toda, mas ela ocupa os 41 versículos de João 9. Ou seja, é impraticável em um culto normal. Mas, no retiro que a minha igreja fez entre 19 e 21 de abril eu pude dar um estudo sobre o texto, e gostaria de compartilhar alguns ensinos sobre ele.

1) Jesus viu o propósito de Deus onde os outros só viam pecado. O texto começa com Jesus vendo o cego e tendo um diálogo com os apóstolos. Quando os últimos olharam para Jesus, eles só viram um homem castigado, seja por seus próprios pecados ou pelo pecado de seus pais (v.2). Em outras palavras, os discípulos nem conheciam o cego e já o julgaram. Ficaram especulando sobre o pecado dele. Já emitiam juízo de valor sobre a vida do homem. Mais ou menos do mesmo jeito como nós fazemos com mendigos ou outras pessoas em uma situação de "desgraça". No entanto, Jesus viu ali uma vida onde as obras de Deus seriam manifestas (v.3).

2) Até mesmo os novos convertidos são enviados. O texto não traz nenhuma ordem direta de Jesus para que o cego testemunhasse sobre Ele. No entanto, o cego deve se lavar no tanque de Siloé, que significa "enviado" (v.7). De certa forma, quando ele lava os seus olhos, é como se alma dele também fosse lavada. E, a partir daquele momento, ele passa a agir como um enviado para dar testemunho de Jesus. Não apenas os vizinhos e conhecidos reparam nele (v.8), como o enviam para falar aos fariseus (v.13).

3) Evangelizar é contar o que Jesus fez por nós. O cego não tinha muito o que contar aos fariseus ou aos seus vizinhos. Ele não sabia ler (era cego, o Braille não existia ainda), só podia ouvir o que era dito nas sinagogas, logo...não tinha conhecimento bíblico. A única coisa que ele podia dizer era o que Jesus fez por ele. E foi exatamente isso o que o cego fez: contou isso aos vizinhos (v.11) e aos fariseus (v.15, 25). Creio piamente que evangelizar é isso. O conhecimento bíblico é desejável, mas não é necessário. O que é realmente necessário é ter uma experiência com Jesus, é estar ligado a Jesus, é saber quem Ele é.

4) Não se importe com o que os outros pensam de você. Talvez o maior obstáculo para a evangelização em solo brasileiro é o medo da rejeição. O medo de como seremos vistos, de sermos rejeitados por nossos ouvintes. O cego já vinha de um passado de rejeição. Por causa de sua cegueira, era visto como um pecador ou um coitado. Mesmo tendo pais (v.18), ele era um mendigo (v.8). Mas, depois de encontrar-se com Jesus, ele continuou sendo rejeitado. Os pais não quiseram defendê-lo diante dos fariseus. O medo de serem expulsos da sinagoga foi maior do que o amor pelo filho (v.22). Os fariseus o injuriaram (v.28) e expulsaram (v.34).

5) Deus não escolhe como nós escolhemos. Quem você escolheria para dar testemunho de Jesus às pessoas mais cultas e religiosas de sua época? A nossa tendência é escolher alguém como o apóstolo Paulo, tão culto e religioso como eles. Mas Deus escolheu um cego para falar de seu Filho aos fariseus. Note que o cego era mendigo, e que ele não teve tempo de se lavar, barbear e mudar as vestes para falar com aqueles homens. Foi sujo e mal-vestido que ele deu testemunho de Jesus. E, mesmo analfabeto, ele compreendeu melhor do que os fariseus quem era Jesus, a ponto de ensiná-los (v.29-33).

6) Não precisamos saber tudo para evangelizar. No final do texto, não há como não ficar impressionado com o tamanho da ignorância do cego. Ele não sabia quem era o Filho do Homem (v.35-36), mas mesmo assim deu testemunho dele. Existem pessoas que sabem muito mais do que o cego sabia, e ainda assim não se consideram intelectualmente preparadas. Fico pensando se essas pessoas acham que os pastores sabem tudo o que a Bíblia significa ou ensina, porque senão não pregariam. Bom, pelo menos este pastor aqui e a maioria dos que conheço admitem que não entendem todos os textos bíblicos e todos os assuntos da Teologia. Mas, apesar disso, pregamos e assumimos o nosso ministério. Cem por cento preparado, ninguém está. Mas isso não é desculpa para fugirmos de nossa responsabilidade.

7) Quando os homens nos rejeitam, Jesus nos aceita. Para muitos de nós, a evangelização do cego foi mal-sucedida. Afinal, ninguém se converteu e ele ainda acabou sendo expulso. Mas o que determina o sucesso de uma evangelização não é a conversão dos ouvintes, e sim a aprovação de Deus. E, nesse aspecto, o ex-cego foi bem-sucedido. Assim que soube do que aconteceu, Jesus foi até o cego e confortou-o. Mais do que isso, Jesus disse com todas as letras que ele enxergava muito melhor do que os fariseus, porque o cego enxergou e aceitou quem Jesus era, enquanto os fariseus não quiseram fazer isso (v.39-41).

Que possamos ter a coragem e a simplicidade que esse cego teve quando formos evangelizar.

Vai uma cervejinha aí?

Afinal de contas, crente pode ou não beber? Na Alemanha, essa pergunta não faria sentido, lá é normal cristãos beberem. Mas, no Brasil, essa é uma questão que, para muitos, é um termômetro de santidade. Para pentecostais (e creio, para a maioria dos neopentecostais), beber é sinal de pecado. Mesmo nas igrejas históricas, o pastor que admitir tomar uma cervejinha de vez em quando é apontado como um pecador. As razões são mais ou menos as seguintes:

1) O vinho dos tempos bíblicos tinha um teor alcóolico muito menor do que o atual.
2) É mau testemunho para os incrédulos.
3) Crente não sabe beber moderadamente...logo, é melhor nem começar. Melhor cortar o mal pela raiz.
4) Escandaliza os outros cristãos, logo, melhor não beber.

Mas será que estes argumentos são válidos? Creio que não...e que o cristão não peca se consumir bebidas alcóolicas, desde que não se embebede, não se vicie no álcool e não faça um alcóolatra pecar. Antes que me joguem uma pedra, gostaria que alguns pontos fossem considerados:

1) Jesus era considerado um beberrão. Em Mateus 11:19, o próprio Jesus reconhece que os judeus o chamavam de bebedor de vinho: "Veio o Filho do homem, que come e bebe, e dizem: Eis aí um glutão e bebedor de vinho, amigo de publicanos e pecadores! Mas a sabedoria é justificada por suas obras". Além disso, o primeiro milagre de Jesus foi a transformação de aproximadamente 240 litros de água em vinho, e dos bons (Jo 2:9-10). Ora, se Jesus bebia...e se o primeiro milagre dele foi a transformação de água em vinho...por que não podemos beber?

2) O vinho era usado nas cerimônias religiosas do Antigo e do Novo Testamento. Em Números 15, vemos que o vinho deveria ser usado como libação para as ofertas queimadas, de holocausto, de sacrifício, de cumprimento de votos, voluntárias e nas festas fixas. "E de vinho para libação prepararás a quarta parte de um him para cada cordeiro, além do holocausto ou do sacrifício" (Nm 15:5). Os dízimos poderiam ser usados para a compra de bebidas alcóolicas: "Esse dinheiro, dá-lo-ás por tudo o que deseja a tua alma, por vacas, ou ovelhas, ou vinho, ou bebida forte, ou qualquer coisa que te pedir a tua alma; come-o ali perante o SENHOR, teu Deus, e te alegrarás, tu e a tua casa" (Dt 14:26). No Novo Testamento, basta lembrar da Santa Ceia: "Então lhes disse: Isto é o meu sangue, o sangue da nova aliança, derramado em favor de muitos. Em verdade vos digo que jamais beberei do fruto da videira, até àquele dia em que o hei de beber, novo, no reino de Deus" (Mc 14:24-25).

3) Vinho é sinônimo de bênçãos na Bíblia. Embora o vinho em excesso seja condenado na Bíblia, ele aparece muitas vezes como sinônimo de bênçãos. Quando Isaque abençoou a Jacó, uma das bênçãos era fartura de trigo e de mosto (vinho novo): "Deus te dê do orvalho do céu, e da exuberância da terra, e fartura de trigo e de mosto" (Gn 27:28). Da mesma forma, quando Jacó abençoou a Judá, disse "Ele amarrará o seu jumentinho à vide e o filho da sua jumenta, à videira mais excelente; lavará as suas vestes no vinho e a sua capa, em sangue de uvas" (Gn 49:11). Em Eclesiastes, Salomão manda "Vai, pois, come com alegria o teu pão e bebe gostosamente o teu vinho, pois Deus já de antemão se agrada das tuas obras" (Ec 9:7).

4) O vinho da Bíblia tinha álcool suficiente para deixar alguém bêbado. Basta lembrar que a primeira bebedeira bíblica aconteceu com Noé (Gn 9:21). Na igreja de Corinto, alguns chegaram a se embriagar na Ceia do Senhor (1 Co 11:21). Ou seja, o vinho da Bíblia era sim alcóolico. Não sei se ele tinha um teor alcóolico menor do que o dos vinhos de hoje. Mas eu sei que uma pessoa pode se embriagar com cidra (que é bem levinha) ou com vodca e absinto. O que torna uma bebida embriagante é a presença ou não de álcool, e não a quantidade de álcool nela. As bebidas mais leves podem ser mais perigosas que as pesadas, porque o gosto do álcool não é tão sentido e aí o exagero é mais fácil de acontecer.

5) Mau testemunho para os incrédulos é relativo. Na verdade, acho que os incrédulos não se impressionam muito se bebemos ou não. Os padres bebem vinho, e não são vistos como menos santos por isso. Para vários incrédulos, o fato dos crentes não beberem é visto como sinônimo de radicalismo. O que me parece é que beber é mau testemunho para os crentes, e não para os incrédulos.

6) Os fracos não devem julgar os fortes. Quando Paulo fala dos fortes e dos fracos em Romanos 14, a questão era alimentar. Os fortes entendiam corretamente que podiam comer de tudo. Já os fracos achavam que só podiam comer legumes (Rm 14:2). Nessa discussão é que Paulo afirma "É bom não comer carne, nem beber vinho, nem fazer outra coisa com que teu irmão venha a tropeçar ou se ofender ou se enfraquecer" (Rm 14:21). Se lermos apenas esse versículo, chegamos à conclusão que o melhor mesmo é não beber, para não ofender ninguém. Mas, quando lemos o capítulo todo, vemos que Paulo também escreveu "quem come não despreze o que não come; e o que não come não julgue o que come, porque Deus o acolheu. Quem és tu que julgas o servo alheio? Para o seu próprio senhor está em pé ou cai; mas estará em pé, porque o Senhor é poderoso para o suster" (Rm 14:3). Em outras palavras, é melhor não beber do que escandalizar as pessoas...mas quem não bebe não tem o direito de desprezar ou julgar os que bebem. Além disso, entendo que não é propósito de Deus que os fracos sejam sempre fracos. Uma vez convencidos de sua fraqueza, é de se esperar que eles se tornem fortes. Acho que devemos evitar escandalizar um novo convertido. Mas, uma vez que tenha sido dada a instrução correta sobre o assunto, entendo que, se o neófito se escandalizar, o pecado já fica apenas com ele.

7) A condenação do consumo de bebidas alcoólicas é farisaísmo. Um dos grandes problemas dos fariseus é que eles acrescentavam coisas à Bíblia. Talvez tentando "melhorá-la", eles fizeram da guarda do sábado um verdadeiro inferno. Por outro lado, aquilo que era realmente importante era burlado pelos fariseus. Por isso Jesus disse: "Guias cegos, que coais o mosquito e engolis o camelo!" (Mt 23:24). Os novos fariseus continuam no mesmo hábito: proibindo o que a Bíblia permite e deixando de lado a briga contra aquilo que é realmente importante. Eles ignoram que "o reino de Deus não é comida, nem bebida, mas justiça, e paz, e alegria no Espírito Santo" (Rm 14:17) e que "nenhuma coisa é de si mesmo impura, salvo para aquele que assim a considera; para esse é impura" (Rm 14:14).

Espero que este texto nos ajude a olharmos com mais maturidade e equilíbrio para a questão do consumo das bebidas alcóolicas.

E aí, vai uma cervejinha?