25 janeiro 2008

A igreja do "eu" sozinho

Não deixemos de congregar-nos, como é costume de alguns; antes, façamos
admoestações e tanto mais quanto vedes que o Dia se aproxima (Hb 10:25)

Conviver com outras pessoas, de fato, é uma arte. Afinal, ninguém pensa exatamente da mesma forma que nós. Os gostos e preferências das pessoas são tão diferentes que um ditado popular afirma “gosto não se discute”. E, nem sempre, estamos dispostos a ceder. A chance de tudo dar errado e começarmos a brigar e nos magoarmos com as outras pessoas é muito grande.

No entanto, Deus nos criou para que vivêssemos em sociedade. Como Ele mesmo disse sobre Adão, “não é bom que o homem esteja só” (Gn 2:18). Paulo vai além, ao afirmar que “No Senhor, nem a mulher é independente do homem, nem o homem, independente da mulher” (1 Co 11:11). Na verdade, nenhum ser humano é independente dos demais. Todos nós precisamos e dependemos uns dos outros.

Isso também é válido dentro das igrejas. Se olharmos para a Bíblia, veremos que Deus está sempre interessado que os seus filhos vivam em uma comunidade. Deus lidou com o homem Abraão, mas com o objetivo de formar uma grande nação que abençoasse todas as famílias da terra (Gn 12:2-3). Moisés foi enviado com a missão de tirar o povo de Israel do Egito (Ex 3:10). Quando o profeta Elias se imaginava o último servo de Deus, o Senhor o lembrou que ainda haviam servos fiéis (1 Rs 19:18) e lhe mandou Eliseu como companhia (1 Rs 19:16).

Até mesmo Cristo nunca esteve só. Jesus condenava o judaísmo de seus dias, mas tinha o costume de ir à sinagoga (Lc 4:16). Jesus não trabalhava sozinho, mas reuniu um grupo de doze apóstolos e outro de setenta discípulos que o acompanhavam. Na maior parte do tempo, Jesus estava acompanhado. E Cristo não veio morrer apenas para salvar pessoas, Ele veio para salvar um povo para Deus (Lc 1:68-75).

Congregar em uma igreja é difícil, assim como também é difícil casar, estudar em uma turma com outras pessoas ou trabalhar em equipe. Mas a vontade de Deus para os seus filhos é que eles vivam juntos, assim como nossos pais gostam ou gostariam de nos ver junto de nossos irmãos.
E, se viver em sociedade é difícil, no fundo nós sabemos que ninguém consegue viver só. E isso também é verdade nas questões espirituais. Por estas razões, sigamos o mandamento e não deixemos de congregar-nos, como é costume de alguns.

18 janeiro 2008

Ser feliz ou ter razão?

À vista disso, muitos dos seus discípulos o abandonaram e já não andavam
com ele. (João 6:66)

Um dos novos "dilemas" da sociedade é: se você tivesse que escolher entre ser feliz ou ter razão, qual seria a sua escolha? De um lado, aqueles que buscam a felicidade acima de tudo, mesmo que isso implique em relativizar uma verdade. Afinal, o que importa é ter o menor número possível de atritos e desfrutarmos de relacionamentos felizes. Do outro lado estão os que acreditam em uma verdade e a defendem, mesmo que isso signifique ser malvisto pelas pessoas. A verdade está acima de tudo, inclusive da nossa felicidade.

Qual deve ser a nossa escolha? A mesma que foi feita por Jesus. A verdade precisa ser defendida, mesmo que isso nos custe a rejeição de nossos ouvintes, amigos e até mesmo da nossa família.

E até nisso Cristo é nosso exemplo. Em João 6, Cristo fez a multiplicação dos pães e quase foi aclamado rei pela multidão (Jo 6:15). Mas, no outro dia, Jesus fez um discurso muito impopular. Disse à multidão que eles deveriam procurar o pão que dá vida, e que Ele mesmo era esse pão (Jo 6:41). Que os judeus deveriam se alimentar desse pão (Jo 6:52). Quando Jesus disse que ninguém poderia ir até Ele, se isso não fosse concedido pelo Pai, então ele foi abandonado por seus ouvintes e por muitos discípulos (Jo 6:65).

Se Jesus tivesse escolhido ser feliz, Ele não teria falado a verdade até ser abandonado pelas pessoas. Se Jesus preferisse ser feliz, Ele teria percebido as reações da multidão e teria se contido. Ao invés de ser rejeitado, Cristo teria aceito quando os judeus quiseram fazer dele um rei.

Mas Jesus enfrentou a rejeição e a incredulidade até mesmo dentro de casa. Em João 7:5, é dito que os irmãos de Jesus não criam nele. Em Marcos 3:21, ficamos sabendo que os parentes de Jesus chegaram a pensar em prendê-lo, achando que Ele estava fora de si. Mas isso não impediu a Cristo de falar a verdade.

Por que Cristo agia assim? Não seria mais racional se Ele fosse mais flexível? Na verdade, Cristo agia deste modo porque a felicidade eterna só pode ser obtida por meio da verdade. A vida eterna só está disponível àqueles que aceitam as verdades de Cristo e se submetem à Sua vontade.

Quem não aceita que Cristo tem razão pode até ser feliz, mas esta felicidade é temporária. Uma felicidade construída em cima de mentiras não dura. Mas, para aqueles que preferem ter razão ao lado de Jesus, a felicidade eterna será uma realidade. Ela pode demorar a chegar, mas, com certeza, chegará.

11 janeiro 2008

O governo central e plural da Igreja em Atos

No post anterior, vimos alguns ensinos dados por Cristo sobre o governo da Igreja. Vimos, por exemplo, que o governo da Igreja é central e plural, e que a autoridade deve ser usada para servir, e não para oprimir os fiéis. Também pudemos ver algumas referências bíblicas que mostram que a Igreja foi confiada aos apóstolos. Cabia a eles exercerem o comando visivel da Igreja em nome de Jesus Cristo.

E quando olhamos para o livro de Atos dos Apóstolos e as cartas do Novo Testamento, podemos notar que as decisões sempre eram tomadas de modo coletivo. É óbvio, por exemplo, que Pedro tinha um papel promeninente, particularmente no início. Mas ele não decidia nada sozinho. Matias foi indicado pela comunidade e confirmado pela oração (At 1:15-26). Quando os samaritanos se converteram, os apóstolos é quem decidiram enviar Pedro e João à Samaria (At 8:14). Naquela que foi a decisão mais difícil da Igreja Primitiva, sobre o que os gentios deveriam guardar ou não da Lei de Moisés, apóstolos e presbíteros se reuniram para decidir a questão (At 15:6). Quem bateu o martelo e fechou questão não foi Pedro, mas sim Tiago (At 15:13) e não foi o Tiago que era dos Doze (esse já havia morrido em Atos 12:2). Isso nos mostra que as decisões importantes da Igreja sempre eram tomadas em conjunto, e nunca individualmente.

Por outro lado, as igrejas pareciam gozar de uma grande autonomia. No entanto, elas ainda tinham que se reportar aos apóstolos. A igreja de Jerusalém mandou Pedro e João para verem o que estava acontecendo naquela cidade (At 8:14). Quando surgiu a primeira igreja dos gentios, a igreja de Antioquia, eles não ficaram sem supervisão. Barnabé foi enviado até lá para organizar a igreja (At 11:22-26). A questão doutrinária da circuncisão foi resolvida pelos apóstolos e presbíteros da igreja de Jerusalém (At 15:2) e suas decisões deveriam ser seguidas pelas igrejas de Antioquia, Síria e Cilícia (At 15:22).

Mas, o que estes textos nos ensinam sobre o governo da Igreja?

1) O governo da Igreja e das igrejas é plural. Todas as decisões importantes tomadas pela Igreja foram tomadas em conjunto. Nem Pedro, nem Paulo, nem qualquer outro apóstolo se atreveu a governar a Igreja sozinho, sem consultar os seus colegas de apostolado. No caso de uma questão doutrinária, os presbíteros também foram incluídos. Este mesmo padrão se repete nas igrejas locais. Em Atos 13:1-3, Paulo e Barnabé foram separados para a obra missionária por meio de uma orientação dada pelo Espírito Santo aos profetas e mestres da igreja de Antioquia. Mais uma vez a decisão não foi isolada. Paulo e Barnabé sempre fizeram suas viagens missionárias em equipe.

2) As igrejas não são independentes entre si. Embora as igrejas tivessem um certo grau de autonomia, elas não eram independentes. Como mostrado acima, nos momentos-chave do progresso da Igreja, a igreja de Jerusalém exercia algum tipo de supervisão ou acompanhamento do trabalho realizado. O que era natural, afinal, Jerusalém era a cidade dos doze apóstolos. Mas este mesmo padrão se repete depois. Quando Paulo e Barnabé terminam a primeira viagem missionária, eles voltam à igreja de Antioquia e relataram o que fizeram (At 14:26-27). Da mesma forma, ao final da segunda viagem, Paulo voltou novamente à Antioquia (At 18:22). Vemos também que, uma vez que um missionário plantava alguma igreja, ele acompanhava o progresso das igrejas plantadas. A segunda viagem missionária de Paulo tinha este objetivo (At 15:36), e as cartas mostram o quanto Paulo levou esta tarefa a sério.

Assim, vemos que não há lugar para um governo no estilo episcopal, em que os bispos é que mandam na Igreja. No caso das igrejas católicas, o bispo de Roma possui uma primazia que lhe dá o poder de nomear e indicar até mesmo os bispos e cardeais da Igreja Católica. Os fiéis não possuem autonomia para escolherem o padre da paróquia, pois é uma prerrogativa do bispo a escolha do sacerdote. Por outro lado, o mesmo acontece nas igrejas evangélicas, onde bispos e "apóstolos" mandam e desmandam, com uma autoridade que não pode ser contestada. O governo, seja no âmbito "universal", seja no contexto local, é plural.

Por outro lado, o congregacionalismo também não é a melhor forma de se entender o governo da Igreja. As igrejas locais não eram soltas. Elas se relacionavam entre si. Elas não tinham, por exemplo, a liberdade de definir qual a sua linha doutrinária. Os apóstolos acompanhavam o progresso das igrejas. Aliás, é interessante notar que mesmo homens como Pedro e Paulo tiveram que dar relatórios às igrejas. Isso mostra que existe uma certa centralidade no governo da Igreja. A negação deste princípio é uma das causas da enorme multiplicidade de igrejas evangélicas que temos hoje em dia. Se houvesse o reconhecimento de um governo central, com certeza existiriam menos divisões em nosso meio.

Quanto ao localismo, a doutrina que fala que só deve existir uma igreja em cada cidade, basta notar que não há nenhuma ordem nesse sentido em Atos. As igrejas eram organizadas segundo a conveniência geográfica. E, bem...independente do fato de extstirem três ou mais comunidades em Roma ou Jerusalém, o fato é que era tudo uma igreja só. Não havia problema em abrir a segunda igreja cristã de Roma por uma simples razão: a segunda igreja é a mesma igreja que a primeira. As duas seriam de um mesmo corpo. Ir além disso e querer insistir no localismo é querer enxergar muito mais do que os textos dizem.

Espero que estes textos ajudem a compreender melhor aquilo que entendo ser o sistema de Jesus para as igrejas: o governo presbiteriano. De certa forma, os princípios enunciados neste post e nos anteriores são os princípios do presbiterianismo. E que Deus nos ajude a compreendermos melhor como devemos cuidar de sua Igreja.

04 janeiro 2008

O sistema de Jesus para as igrejas locais

Como disse nos posts anteriores (para quem não leu, é só rolar a barra para baixo), é errada a idéia de que Jesus está contra todo e qualquer tipo de sistema. O Antigo Testamento (AT) nos mostra que Deus é ordeiro e sistematizador. Isso pode ser visto na criação e nas regras de culto da Lei de Moisés. Cristo nunca se colocou contra o sistema do AT em si, mas sim contra os abusos e deformidades feitos pelos fariseus e escribas.
No entanto, a chegada de Jesus ao mundo iria provocar mudanças no sistema de Deus. Em Gálatas 3:24-25, Paulo nos explica que a lei (aqui podemos entender como sendo todo o AT) tinha o objetivo de nos conduzir a Cristo. Depois que Cristo veio ao mundo, já não estamos subordinados à Lei.
Mas, o que Jesus tem a nos ensinar sobre o governo da igreja?
1) Cristo é a autoridade suprema. Isso é indicado em vários momentos. Jesus está acima do sábado, que foi instituído por Deus (Gn 2:3). Os fariseus apelavam para os antigos (Mt 5:21), Jesus falava baseado em sua própria autoridade (Mt 5:22). Logo, Cristo é maior que a tradição. Na verdade, ele é maior do que o grande rei Salomão e o profeta Jonas (Mt 12:41-42). Ele é o verdadeiro Sumo Sacerdote. Quando os dez leprosos foram curados, Jesus ordenou que eles se mostrassem aos sacerdotes (Lc 17:14). No entanto, o leproso samaritano, o único que voltou para agradecer, foi mostrar-se a Jesus, e não aos sacerdotes (Lc 17:16). Na verdade, Cristo é a autoridade suprema, porque Ele é o próprio Deus, a quem devemos adorar (Mt 8:2).
2) A Igreja foi confiada aos apóstolos. Não há a menor sombra de dúvida de que os apóstolos ocupam uma posição de maior autoridade que os demais discípulos de Jesus. Os doze estariam com Jesus e pregariam e expulsariam demônios em nome de Cristo (Mc 3:13-14). As chaves do reino dos céus foram dadas a um apóstolo (Mt 16:19) e apascentar as ovelhas de Cristo é um dever apostólico (Jo 21:17). Fica claro que os apóstolos é quem deveriam cuidar da Igreja depois que Cristo subisse aos céus. Se você achar que os Evangelhos não são claros a esse respeito, uma leitura superficial de Atos dos Apóstolos deverá retirar suas dúvidas sobre o assunto.
3) Governar é servir. Em Marcos 10:35-45 há uma história muito esclarecedora sobre esse ponto. Tiago e João pediram para ficar à direita e à esquerda de Jesus quando Ele estivesse em glória. Cristo não prometeu atender ao pedido deles, mas fez uma exortação a todos os apóstolos. Os governadores dos povos mantém as pessoas sob domínio. O foco está no poder em si, e não no bem ao próximo. Cristo, no entanto, diz que o maior deve ser o servo de todos (Mc 10:44). E Ele mesmo é um exemplo disso. Cristo não veio para ser servido, veio para servir e dar a sua vida em resgate por muitos (Mc 10:45).
Dessas três afirmações, existem outras que podemos extrair. Por exemplo, o governo da Igreja é um misto de centralidade e pluralidade. O governo é central porque está debaixo de Cristo e dos apóstolos. Mas é plural porque não está nas mãos de um único apóstolo (este ponto fica mais claro em Atos do que nos Evangelhos, e pretendo falar dele posteriormente). Por outro lado, a autoridade deve ser usada não para dominar, mas sim para servir à Igreja.
Existem outras coisas sobre o sistema de Jesus que eu gostaria de falar, mas ficam melhor em outros posts, mais específicos. Por exemplo, que Jesus aprovava a disciplina da Igreja, inclusive com a exclusão (Mt 18:15-18). Ou o ensino dele sobre o juízo divino. Mas isso fica para depois.
No próximo post pretendo falar sobre como os apóstolos estruturaram a igreja. E entrar em pontos como localismo, congregacionalismo, etc.