11 janeiro 2008

O governo central e plural da Igreja em Atos

No post anterior, vimos alguns ensinos dados por Cristo sobre o governo da Igreja. Vimos, por exemplo, que o governo da Igreja é central e plural, e que a autoridade deve ser usada para servir, e não para oprimir os fiéis. Também pudemos ver algumas referências bíblicas que mostram que a Igreja foi confiada aos apóstolos. Cabia a eles exercerem o comando visivel da Igreja em nome de Jesus Cristo.

E quando olhamos para o livro de Atos dos Apóstolos e as cartas do Novo Testamento, podemos notar que as decisões sempre eram tomadas de modo coletivo. É óbvio, por exemplo, que Pedro tinha um papel promeninente, particularmente no início. Mas ele não decidia nada sozinho. Matias foi indicado pela comunidade e confirmado pela oração (At 1:15-26). Quando os samaritanos se converteram, os apóstolos é quem decidiram enviar Pedro e João à Samaria (At 8:14). Naquela que foi a decisão mais difícil da Igreja Primitiva, sobre o que os gentios deveriam guardar ou não da Lei de Moisés, apóstolos e presbíteros se reuniram para decidir a questão (At 15:6). Quem bateu o martelo e fechou questão não foi Pedro, mas sim Tiago (At 15:13) e não foi o Tiago que era dos Doze (esse já havia morrido em Atos 12:2). Isso nos mostra que as decisões importantes da Igreja sempre eram tomadas em conjunto, e nunca individualmente.

Por outro lado, as igrejas pareciam gozar de uma grande autonomia. No entanto, elas ainda tinham que se reportar aos apóstolos. A igreja de Jerusalém mandou Pedro e João para verem o que estava acontecendo naquela cidade (At 8:14). Quando surgiu a primeira igreja dos gentios, a igreja de Antioquia, eles não ficaram sem supervisão. Barnabé foi enviado até lá para organizar a igreja (At 11:22-26). A questão doutrinária da circuncisão foi resolvida pelos apóstolos e presbíteros da igreja de Jerusalém (At 15:2) e suas decisões deveriam ser seguidas pelas igrejas de Antioquia, Síria e Cilícia (At 15:22).

Mas, o que estes textos nos ensinam sobre o governo da Igreja?

1) O governo da Igreja e das igrejas é plural. Todas as decisões importantes tomadas pela Igreja foram tomadas em conjunto. Nem Pedro, nem Paulo, nem qualquer outro apóstolo se atreveu a governar a Igreja sozinho, sem consultar os seus colegas de apostolado. No caso de uma questão doutrinária, os presbíteros também foram incluídos. Este mesmo padrão se repete nas igrejas locais. Em Atos 13:1-3, Paulo e Barnabé foram separados para a obra missionária por meio de uma orientação dada pelo Espírito Santo aos profetas e mestres da igreja de Antioquia. Mais uma vez a decisão não foi isolada. Paulo e Barnabé sempre fizeram suas viagens missionárias em equipe.

2) As igrejas não são independentes entre si. Embora as igrejas tivessem um certo grau de autonomia, elas não eram independentes. Como mostrado acima, nos momentos-chave do progresso da Igreja, a igreja de Jerusalém exercia algum tipo de supervisão ou acompanhamento do trabalho realizado. O que era natural, afinal, Jerusalém era a cidade dos doze apóstolos. Mas este mesmo padrão se repete depois. Quando Paulo e Barnabé terminam a primeira viagem missionária, eles voltam à igreja de Antioquia e relataram o que fizeram (At 14:26-27). Da mesma forma, ao final da segunda viagem, Paulo voltou novamente à Antioquia (At 18:22). Vemos também que, uma vez que um missionário plantava alguma igreja, ele acompanhava o progresso das igrejas plantadas. A segunda viagem missionária de Paulo tinha este objetivo (At 15:36), e as cartas mostram o quanto Paulo levou esta tarefa a sério.

Assim, vemos que não há lugar para um governo no estilo episcopal, em que os bispos é que mandam na Igreja. No caso das igrejas católicas, o bispo de Roma possui uma primazia que lhe dá o poder de nomear e indicar até mesmo os bispos e cardeais da Igreja Católica. Os fiéis não possuem autonomia para escolherem o padre da paróquia, pois é uma prerrogativa do bispo a escolha do sacerdote. Por outro lado, o mesmo acontece nas igrejas evangélicas, onde bispos e "apóstolos" mandam e desmandam, com uma autoridade que não pode ser contestada. O governo, seja no âmbito "universal", seja no contexto local, é plural.

Por outro lado, o congregacionalismo também não é a melhor forma de se entender o governo da Igreja. As igrejas locais não eram soltas. Elas se relacionavam entre si. Elas não tinham, por exemplo, a liberdade de definir qual a sua linha doutrinária. Os apóstolos acompanhavam o progresso das igrejas. Aliás, é interessante notar que mesmo homens como Pedro e Paulo tiveram que dar relatórios às igrejas. Isso mostra que existe uma certa centralidade no governo da Igreja. A negação deste princípio é uma das causas da enorme multiplicidade de igrejas evangélicas que temos hoje em dia. Se houvesse o reconhecimento de um governo central, com certeza existiriam menos divisões em nosso meio.

Quanto ao localismo, a doutrina que fala que só deve existir uma igreja em cada cidade, basta notar que não há nenhuma ordem nesse sentido em Atos. As igrejas eram organizadas segundo a conveniência geográfica. E, bem...independente do fato de extstirem três ou mais comunidades em Roma ou Jerusalém, o fato é que era tudo uma igreja só. Não havia problema em abrir a segunda igreja cristã de Roma por uma simples razão: a segunda igreja é a mesma igreja que a primeira. As duas seriam de um mesmo corpo. Ir além disso e querer insistir no localismo é querer enxergar muito mais do que os textos dizem.

Espero que estes textos ajudem a compreender melhor aquilo que entendo ser o sistema de Jesus para as igrejas: o governo presbiteriano. De certa forma, os princípios enunciados neste post e nos anteriores são os princípios do presbiterianismo. E que Deus nos ajude a compreendermos melhor como devemos cuidar de sua Igreja.

Nenhum comentário: