30 abril 2008

Os moradores de rua do Brasil

Saiu ontem uma pesquisa que deveria ser leitura obrigatória para todas as igrejas evangélicas do Brasil. Pelo menos daquelas que têm um mínimo de interesse social e convivem com mendigos na vizinhança, como é o caso da minha.

É a Pesquisa Nacional Sobre a População em Situação de Rua, feita pelo Ministério do Desenvolvimento Social. Foram feitas entrevistas em 71 cidades (23 capitais e 48 cidades com mais de 300 mil habitantes) com quase 32 mil moradores de rua. Alguns dados são surpreendentes:

1) 71% dos moradores de rua trabalham e apenas 16% dependem da mendicância para sobreviver. 59% afirmaram ter profissão, mas áreas de construção civil, comércio, trabalho doméstico e mecânica.

2) 52% deles possuem ao menos um parente na cidade em que moram, sendo que 39% dizem ter uma boa relação com a família e 34% mantém contato com os familiares

3) 74% sabem ler e escrever, mas 63,5% não concluíram o ensino fundamental

4) O alcoolismo e as drogas são as razões que levam a maioria dessas pessoas a morar na rua: 35,5%. A seguir vem o desemprego (30%) e conflitos familiares (29%).

Acho que antes de começar qualquer trabalho com moradores de rua, as igrejas deveriam se debruçar sobre estes números, entendê-los e iniciar projetos de ação social que encarem essa realidade. Se necessário, contratar sociólogos ou chamar os alunos de Sociologia e Serviço Social para darem uma ajuda.
Não sou sociólogo, mas já tirei algumas conclusões:

1) No Brasil, a mendicância é um problema moral e familiar. Ao contrário do que imaginamos, a maioria das pessoas que vão para a rua tomam essa decisão não por causa de dificuldades econômicas, mas sim porque tiveram a sua vida destruída pelo álcool e pelas drogas e por conflitos familiares. Não que a economia não conte, ela conta, e muito. Mas não é o fator principal, como os teólogos da libertação da Igreja Católica e suas variantes evangélicas propagam. Talvez, se essas pessoas não tivessem experimentado as drogas ou conseguissem resolver seus conflitos familiares, elas jamais teriam ido morar na rua.

2) As igrejas devem investir mais na prevenção ao uso de álcool e drogas. Não sou contrário ao consumo de bebidas alcóolicas por cristãos, como já demonstrei em um outro post. Acho que a proibição é um farisaísmo. Mas entendo que esse consumo não pode ser estimulado ou encorajado. O álcool é uma substância perigosa, pois, se não for consumido com moderação, pode destruir não apenas a saúde física de alguém, mas devastar a família e levar uma pessoa para a sarjeta. A igreja deve apoiar projetos de lei que restrinjam a publicidade e a venda de álcool e dar instruções claras combatendo o uso de outros tipos de droga.

3) A família deve ser a prioridade ministerial das igrejas. Quando conflitos familiares são o terceiro fator que mais tira pessoas de casa e as põe na rua, percebe-se o quanto a família está doente no Brasil e como ela pode ser determinante na vida de alguém. Enquanto a sociedade não vê problemas no aumento no número de divórcios e encoraja a falta de obediência dos filhos, pessoas estão jogando fora as suas vidas porque não conseguem paz dentro de casa. Filhos fogem do lar porque não se dão com os pais, famílias expulsam um pai bêbado, mulheres ficam sem opção de sustento por causa de um divórcio e da falta de apoio da família. Precisamos de igrejas orientadas para a educação das futuras famílias e para o pastoreio das famílias já existentes. Aconselhamentos pré-nupciais e para casais, palestras sobre educação de filhos, eventos onde pais e filhos brinquem juntos são apenas algumas iniciativas que podemos executar em nossas igrejas.

Não falo da questão econômica porque é muito difícil para as igrejas serem uma resposta para este tipo de problema. Só quem teve que montar o orçamento de uma igreja sabe como isso é difícil. As barreiras para que igrejas pequenas e médias montem programas de escolarização e profissionalização são enormes. Por outro lado, ensinar uma profissão não vai adiantar muita coisa se o caráter não for trabalhado.
Mas, ninguém ainda sabe qual é o impacto econômico produzido pela transformação do caráter. Se as igrejas forem ativas no combate e prevenção às drogas e na defesa e pastoreio das famílias, evitaremos que muitos cheguem à sarjeta e, com certeza, isso trará reflexos bastante positivos para a economia do Brasil.

25 abril 2008

E música do mundo: pode?

Alguns termômetros de santidade dos evangélicos são realmente estranhos. Ao invés de falarmos do amor, da justiça ou da fé das pessoas, escolhemos coisas mais simples de medir...e sem muita importância. A música é uma delas.

Não é difícil entrar no Google e descobrir estudos defendendo que evangélico não pode ouvir música "do mundo", ou seja, música não evangélica. Aí você encontra os pastores que tocam a música ao contrário e apontam mensagens subliminares. Ou então que vasculham a vida dos cantores e compositores, caçando a menor referência à orixás e outras formas de idolatria.

A única opção segura seriam as músicas evangélicas. Mas, mesmo assim, ainda há restrições: alguns acham que o rock, o rap e vários outros tipos de ritmos (principalmente música eletrônica) são, simplesmente demoníacos. Mesmo que em uma versão gospel. Dançar então...escândalo! Se podemos chamar um grupo de forró evangélico para tocar, é só para ouvir. Dançar é pecado gravíssimo. Quase mortal.

A solução encontrada pela maioria dos evangélicos é a criação de um gueto cultural. Criamos as versões evangélicas, para os nossos jovens se divertirem. Assim temos rock gospel, rap gospel, até mesmo raves gospel, como a Azzucar, aqui de Brasília. A opção foi o isolamento cultural. E, se um evangélico quebra esta barreira, tocando "música do mundo", ele já se torna malvisto. Todos o vêem como alguém que está prestes a se desviar do Evangelho. A crença-base é de que a música só é permitida se for dirigida de modo explícito a Deus.

Mas, e aí, pode ou não pode? Vou dar o meu ponto de vista sobre o assunto.

1) Tudo o que fazemos deve ser para a glória de Deus. Está lá, em 1 Coríntios 10:31: "Portanto, quer comais, quer bebais ou façais outra coisa qualquer, fazei tudo para a glória de Deus". Logo, quando ouvimos ou fazemos música, isso deve ser para a glória de Deus. Mas, será que isso significa que toda música que ouvimos ou fazemos tem que ser de adoração? Ora, as pessoas estudam para concursos públicos, comem pizza, se divertem em clubes, trabalham em bancos...e ninguém diz que Deus não pode ser glorificado nessas atividades. Assim sendo, é possível ouvir música não evangélica e glorificar a Deus.

2) Devemos controlar o que entra em nossa mente. O cristão não pode manter a sua mente "livre", divagando sobre qualquer coisa. Os nossos pensamentos podem sim influenciar o nosso caráter e comportamento. Não é à toa que Paulo diz que somos transformados pela renovação da nossa mente: "E não vos conformeis com este século, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente, para que experimenteis qual seja a boa, agradável e perfeita vontade de Deus" (Rm 12:2). Ou então que uma parte do seu ministério era levar todo pensamento cativo à obediência de Cristo (2 Co 10:5). E, com toda certeza, aquilo que lemos e assistimos influencia o nosso pensamento, assim como o nosso corpo é influenciado por aquilo que comemos. Em Filipenses 4:8, lemos o que deve ocupar a nossa mente: "Finalmente, irmãos, tudo o que é verdadeiro, tudo o que é respeitável, tudo o que é justo, tudo o que é puro, tudo o que é amável, tudo o que é de boa fama, se alguma virtude há e se algum louvor existe, seja isso o que ocupe o vosso pensamento" (Fp 4:8). Vejam bem que isso não quer dizer que só devemos ouvir músicas evangélicas...mas indica claramente que não podemos ouvir qualquer coisa. Músicas blasfemas, que faltam com o respeito e denigrem a Palavra de Deus devem ser evitadas. Quanto a isso, não pode haver dúvidas.

3) A fé do compositor ou do cantor não tem importância. Uma neurose evangélica, tipicamente pentecostal e neopentecostal (mas que, infelizmente, contamina vários históricos) é a do comprar ou ouvir algo consagrado a demônios. Escritores como Rebecca Brown ganharam muito dinheiro dizendo que quase tudo o que compramos e consumimos é fruto de um pacto com algum demônio. Mas, ainda que ela esteja certa (o que eu duvido muito), a Bíblia ainda tem a última Palavra e diz "Comei de tudo o que se vende no mercado, sem nada perguntardes por motivo de consciência, porque do Senhor é a terra e a sua plenitude" (1 Co 10:25-26). Ou seja, compre sem se preocupar se a pessoa é umbandista, espírita, católica ou evangélica. Tudo é do Senhor. Se não podemos ouvir música de um compositor não cristão, então não podemos ler um livro de escritores não cristãos, vermos programas de televisão de não cristãos, comprar uma camiseta costurada por uma operária não cristã...e por aí vai.

4) Não é pecado conhecer e conviver com a cultura ao redor. Se assim fosse, o profeta Daniel estava perdido. Daniel teve que conhecer a cultura e a língua dos caldeus (Dn 1:4). E Deus deu conhecimento e inteligência a Daniel em toda cultura e sabedoria (Dn 1:17). Obviamente, a cultura pagã dos caldeus (ou babilônios) estava no pacote da bênção divina. Paulo conhecia (e citava) poetas pagãos. Quando Paulo fala: "Foi mesmo, dentre eles, um seu profeta, que disse: Cretenses, sempre mentirosos, feras terríveis, ventres peguiçosos", ele citou o poeta grego Epimênides. Paulo também cita poetas gregos no seu discurso em Atenas: "pois nele vivemos, e nos movemos, e existimos, como alguns dos vossos poetas têm dito: Porque dele também somos geração" (At 17:28). Obviamente, o "vossos" se refere a poetas gregos.

5) Não há diferença prática entre ouvir música, ler livros e ir ao cinema. É, no mínimo, hipocrisia, uma pessoa que não ouve "música do mundo" não ver problema em ler livros não cristãos, assistir a programas de televisão (qualquer um) não cristãos ou ver filmes não evangélicos. Livros, televisão e filmes podem ser bons ou ruins, assim como a música. Todos alimentam o pensamento, assim como a música. Por que a neurose é só musical?

Gostaria de terminar olhando para Salomão. Em 1 Reis 4:29-34, a Bíblia fala da sabedoria que Deus deu a Salomão. Com essa sabedoria, Salomão compôs cinco mil provérbios e mil e cinco cânticos. Desses, nós só conhecemos um salmo de Salomão (o Sl 72) e o Cântico dos Cânticos. Tenho minhas dúvidas de que todos os mil e cinco cânticos foram exclusivos de adoração. Ainda mais porque Salomão era um homem de vários interesses, que conversava com pessoas de outros povos e tinha um profundo interesse científico (no caso, pela biologia).

Imagino que assim devem ser os cristãos. Pessoas inteligentes e sábias, ativas na ciência e na arte. Pessoas que convivem com os que não são cristãos e dialogam com elas. Pessoas tão capazes, como Salomão ou Daniel, a ponto de influenciarmos o pensamento e a sabedoria seculares. E o isolamento cultural não vai ajudar em nada.

Jesus não pediu que o Pai nos tirasse do mundo, mas sim que Ele nos guardasse do mal (Jo 17:15). Não somos do mundo, mas é nele que habitamos e é aqui que devemos cumprir a nossa missão. Se queremos tanto falar e sermos ouvidos, o mínimo que devemos fazer é não taparmos os nossos ouvidos ao que o mundo diz. Jesus não fez isso.

Mais uma coisa: a Bíblia não proíbe as pessoas de fazerem músicas de amor, de protesto ou sobre a vida. Se ela não proíbe, quem somos nós para proibir?

24 abril 2008

O cego evangelista

Eu sempre tive vontade de pregar sobre a cura do cego de nascença. Mas não só a parte da cura, e sim a história toda, mas ela ocupa os 41 versículos de João 9. Ou seja, é impraticável em um culto normal. Mas, no retiro que a minha igreja fez entre 19 e 21 de abril eu pude dar um estudo sobre o texto, e gostaria de compartilhar alguns ensinos sobre ele.

1) Jesus viu o propósito de Deus onde os outros só viam pecado. O texto começa com Jesus vendo o cego e tendo um diálogo com os apóstolos. Quando os últimos olharam para Jesus, eles só viram um homem castigado, seja por seus próprios pecados ou pelo pecado de seus pais (v.2). Em outras palavras, os discípulos nem conheciam o cego e já o julgaram. Ficaram especulando sobre o pecado dele. Já emitiam juízo de valor sobre a vida do homem. Mais ou menos do mesmo jeito como nós fazemos com mendigos ou outras pessoas em uma situação de "desgraça". No entanto, Jesus viu ali uma vida onde as obras de Deus seriam manifestas (v.3).

2) Até mesmo os novos convertidos são enviados. O texto não traz nenhuma ordem direta de Jesus para que o cego testemunhasse sobre Ele. No entanto, o cego deve se lavar no tanque de Siloé, que significa "enviado" (v.7). De certa forma, quando ele lava os seus olhos, é como se alma dele também fosse lavada. E, a partir daquele momento, ele passa a agir como um enviado para dar testemunho de Jesus. Não apenas os vizinhos e conhecidos reparam nele (v.8), como o enviam para falar aos fariseus (v.13).

3) Evangelizar é contar o que Jesus fez por nós. O cego não tinha muito o que contar aos fariseus ou aos seus vizinhos. Ele não sabia ler (era cego, o Braille não existia ainda), só podia ouvir o que era dito nas sinagogas, logo...não tinha conhecimento bíblico. A única coisa que ele podia dizer era o que Jesus fez por ele. E foi exatamente isso o que o cego fez: contou isso aos vizinhos (v.11) e aos fariseus (v.15, 25). Creio piamente que evangelizar é isso. O conhecimento bíblico é desejável, mas não é necessário. O que é realmente necessário é ter uma experiência com Jesus, é estar ligado a Jesus, é saber quem Ele é.

4) Não se importe com o que os outros pensam de você. Talvez o maior obstáculo para a evangelização em solo brasileiro é o medo da rejeição. O medo de como seremos vistos, de sermos rejeitados por nossos ouvintes. O cego já vinha de um passado de rejeição. Por causa de sua cegueira, era visto como um pecador ou um coitado. Mesmo tendo pais (v.18), ele era um mendigo (v.8). Mas, depois de encontrar-se com Jesus, ele continuou sendo rejeitado. Os pais não quiseram defendê-lo diante dos fariseus. O medo de serem expulsos da sinagoga foi maior do que o amor pelo filho (v.22). Os fariseus o injuriaram (v.28) e expulsaram (v.34).

5) Deus não escolhe como nós escolhemos. Quem você escolheria para dar testemunho de Jesus às pessoas mais cultas e religiosas de sua época? A nossa tendência é escolher alguém como o apóstolo Paulo, tão culto e religioso como eles. Mas Deus escolheu um cego para falar de seu Filho aos fariseus. Note que o cego era mendigo, e que ele não teve tempo de se lavar, barbear e mudar as vestes para falar com aqueles homens. Foi sujo e mal-vestido que ele deu testemunho de Jesus. E, mesmo analfabeto, ele compreendeu melhor do que os fariseus quem era Jesus, a ponto de ensiná-los (v.29-33).

6) Não precisamos saber tudo para evangelizar. No final do texto, não há como não ficar impressionado com o tamanho da ignorância do cego. Ele não sabia quem era o Filho do Homem (v.35-36), mas mesmo assim deu testemunho dele. Existem pessoas que sabem muito mais do que o cego sabia, e ainda assim não se consideram intelectualmente preparadas. Fico pensando se essas pessoas acham que os pastores sabem tudo o que a Bíblia significa ou ensina, porque senão não pregariam. Bom, pelo menos este pastor aqui e a maioria dos que conheço admitem que não entendem todos os textos bíblicos e todos os assuntos da Teologia. Mas, apesar disso, pregamos e assumimos o nosso ministério. Cem por cento preparado, ninguém está. Mas isso não é desculpa para fugirmos de nossa responsabilidade.

7) Quando os homens nos rejeitam, Jesus nos aceita. Para muitos de nós, a evangelização do cego foi mal-sucedida. Afinal, ninguém se converteu e ele ainda acabou sendo expulso. Mas o que determina o sucesso de uma evangelização não é a conversão dos ouvintes, e sim a aprovação de Deus. E, nesse aspecto, o ex-cego foi bem-sucedido. Assim que soube do que aconteceu, Jesus foi até o cego e confortou-o. Mais do que isso, Jesus disse com todas as letras que ele enxergava muito melhor do que os fariseus, porque o cego enxergou e aceitou quem Jesus era, enquanto os fariseus não quiseram fazer isso (v.39-41).

Que possamos ter a coragem e a simplicidade que esse cego teve quando formos evangelizar.

Vai uma cervejinha aí?

Afinal de contas, crente pode ou não beber? Na Alemanha, essa pergunta não faria sentido, lá é normal cristãos beberem. Mas, no Brasil, essa é uma questão que, para muitos, é um termômetro de santidade. Para pentecostais (e creio, para a maioria dos neopentecostais), beber é sinal de pecado. Mesmo nas igrejas históricas, o pastor que admitir tomar uma cervejinha de vez em quando é apontado como um pecador. As razões são mais ou menos as seguintes:

1) O vinho dos tempos bíblicos tinha um teor alcóolico muito menor do que o atual.
2) É mau testemunho para os incrédulos.
3) Crente não sabe beber moderadamente...logo, é melhor nem começar. Melhor cortar o mal pela raiz.
4) Escandaliza os outros cristãos, logo, melhor não beber.

Mas será que estes argumentos são válidos? Creio que não...e que o cristão não peca se consumir bebidas alcóolicas, desde que não se embebede, não se vicie no álcool e não faça um alcóolatra pecar. Antes que me joguem uma pedra, gostaria que alguns pontos fossem considerados:

1) Jesus era considerado um beberrão. Em Mateus 11:19, o próprio Jesus reconhece que os judeus o chamavam de bebedor de vinho: "Veio o Filho do homem, que come e bebe, e dizem: Eis aí um glutão e bebedor de vinho, amigo de publicanos e pecadores! Mas a sabedoria é justificada por suas obras". Além disso, o primeiro milagre de Jesus foi a transformação de aproximadamente 240 litros de água em vinho, e dos bons (Jo 2:9-10). Ora, se Jesus bebia...e se o primeiro milagre dele foi a transformação de água em vinho...por que não podemos beber?

2) O vinho era usado nas cerimônias religiosas do Antigo e do Novo Testamento. Em Números 15, vemos que o vinho deveria ser usado como libação para as ofertas queimadas, de holocausto, de sacrifício, de cumprimento de votos, voluntárias e nas festas fixas. "E de vinho para libação prepararás a quarta parte de um him para cada cordeiro, além do holocausto ou do sacrifício" (Nm 15:5). Os dízimos poderiam ser usados para a compra de bebidas alcóolicas: "Esse dinheiro, dá-lo-ás por tudo o que deseja a tua alma, por vacas, ou ovelhas, ou vinho, ou bebida forte, ou qualquer coisa que te pedir a tua alma; come-o ali perante o SENHOR, teu Deus, e te alegrarás, tu e a tua casa" (Dt 14:26). No Novo Testamento, basta lembrar da Santa Ceia: "Então lhes disse: Isto é o meu sangue, o sangue da nova aliança, derramado em favor de muitos. Em verdade vos digo que jamais beberei do fruto da videira, até àquele dia em que o hei de beber, novo, no reino de Deus" (Mc 14:24-25).

3) Vinho é sinônimo de bênçãos na Bíblia. Embora o vinho em excesso seja condenado na Bíblia, ele aparece muitas vezes como sinônimo de bênçãos. Quando Isaque abençoou a Jacó, uma das bênçãos era fartura de trigo e de mosto (vinho novo): "Deus te dê do orvalho do céu, e da exuberância da terra, e fartura de trigo e de mosto" (Gn 27:28). Da mesma forma, quando Jacó abençoou a Judá, disse "Ele amarrará o seu jumentinho à vide e o filho da sua jumenta, à videira mais excelente; lavará as suas vestes no vinho e a sua capa, em sangue de uvas" (Gn 49:11). Em Eclesiastes, Salomão manda "Vai, pois, come com alegria o teu pão e bebe gostosamente o teu vinho, pois Deus já de antemão se agrada das tuas obras" (Ec 9:7).

4) O vinho da Bíblia tinha álcool suficiente para deixar alguém bêbado. Basta lembrar que a primeira bebedeira bíblica aconteceu com Noé (Gn 9:21). Na igreja de Corinto, alguns chegaram a se embriagar na Ceia do Senhor (1 Co 11:21). Ou seja, o vinho da Bíblia era sim alcóolico. Não sei se ele tinha um teor alcóolico menor do que o dos vinhos de hoje. Mas eu sei que uma pessoa pode se embriagar com cidra (que é bem levinha) ou com vodca e absinto. O que torna uma bebida embriagante é a presença ou não de álcool, e não a quantidade de álcool nela. As bebidas mais leves podem ser mais perigosas que as pesadas, porque o gosto do álcool não é tão sentido e aí o exagero é mais fácil de acontecer.

5) Mau testemunho para os incrédulos é relativo. Na verdade, acho que os incrédulos não se impressionam muito se bebemos ou não. Os padres bebem vinho, e não são vistos como menos santos por isso. Para vários incrédulos, o fato dos crentes não beberem é visto como sinônimo de radicalismo. O que me parece é que beber é mau testemunho para os crentes, e não para os incrédulos.

6) Os fracos não devem julgar os fortes. Quando Paulo fala dos fortes e dos fracos em Romanos 14, a questão era alimentar. Os fortes entendiam corretamente que podiam comer de tudo. Já os fracos achavam que só podiam comer legumes (Rm 14:2). Nessa discussão é que Paulo afirma "É bom não comer carne, nem beber vinho, nem fazer outra coisa com que teu irmão venha a tropeçar ou se ofender ou se enfraquecer" (Rm 14:21). Se lermos apenas esse versículo, chegamos à conclusão que o melhor mesmo é não beber, para não ofender ninguém. Mas, quando lemos o capítulo todo, vemos que Paulo também escreveu "quem come não despreze o que não come; e o que não come não julgue o que come, porque Deus o acolheu. Quem és tu que julgas o servo alheio? Para o seu próprio senhor está em pé ou cai; mas estará em pé, porque o Senhor é poderoso para o suster" (Rm 14:3). Em outras palavras, é melhor não beber do que escandalizar as pessoas...mas quem não bebe não tem o direito de desprezar ou julgar os que bebem. Além disso, entendo que não é propósito de Deus que os fracos sejam sempre fracos. Uma vez convencidos de sua fraqueza, é de se esperar que eles se tornem fortes. Acho que devemos evitar escandalizar um novo convertido. Mas, uma vez que tenha sido dada a instrução correta sobre o assunto, entendo que, se o neófito se escandalizar, o pecado já fica apenas com ele.

7) A condenação do consumo de bebidas alcoólicas é farisaísmo. Um dos grandes problemas dos fariseus é que eles acrescentavam coisas à Bíblia. Talvez tentando "melhorá-la", eles fizeram da guarda do sábado um verdadeiro inferno. Por outro lado, aquilo que era realmente importante era burlado pelos fariseus. Por isso Jesus disse: "Guias cegos, que coais o mosquito e engolis o camelo!" (Mt 23:24). Os novos fariseus continuam no mesmo hábito: proibindo o que a Bíblia permite e deixando de lado a briga contra aquilo que é realmente importante. Eles ignoram que "o reino de Deus não é comida, nem bebida, mas justiça, e paz, e alegria no Espírito Santo" (Rm 14:17) e que "nenhuma coisa é de si mesmo impura, salvo para aquele que assim a considera; para esse é impura" (Rm 14:14).

Espero que este texto nos ajude a olharmos com mais maturidade e equilíbrio para a questão do consumo das bebidas alcóolicas.

E aí, vai uma cervejinha?

14 abril 2008

As multidões

Que atire a primeira pedra o pastor que nunca sonhou em cuidar de multidões. Admiramos pastores de grandes igrejas ou escritores que quebram recordes de vendagem de livros. Normalmente os grandes pregadores da História escreveram seu nome nos livros de homilética por causa do público que atingiram, e não exatamente pela qualidade dos sermões. Aquele que atrai as multidões tende a ser lembrado. O que prega bem ou pastoreia bem, mas não possui uma multidão de seguidores, provavelmente só vai ser recompensado no céu.

Na verdade, de certa forma, há até um certo mal-estar quando não somos campeões de popularidade. Afinal, Deus prometeu a Abraão uma descendência tão grande quanto as estrelas do céu (Gn 15:6). Moisés foi o líder de uma multidão no meio do deserto (Ex 12:37-38). A pregação de João Batista atraía multidões ao batismo (Lc 3:7) e ele não falava exatamente coisas agradáveis de serem ouvidas. E o mesmo acontecia com Jesus. Na verdade, algumas vezes Jesus parecia um ídolo pop, com multidões a procurá-lo (Jo 4:42). E a Igreja começou com pregações apoteóticas, onde milhares de pessoas se converteram de uma única vez (At 2:41, 4:4).

Com tantas evidências, a regra parece ser: se você seguir o caminho de Deus, sua igreja deve ser grande, explosiva, cheia de gente! Há as dificuldades e tribulações do caminho, mas apesar delas, a igreja será numerosa. Mas, será?

O cristianismo foi, de fato, popular em certas áreas do Império Romano, como o Egito e a Ásia Menor, mas ele nunca foi maioria no tempo dos apóstolos. A igreja de Jerusalém cresceu vertiginosamente, mas nunca conseguiu superar a membresia das sinagogas nos dias apostólicos. Além disso, as multidões que aclamavam a Cristo também o rejeitaram na crucificação, pedindo que lhes fosse dado Barrabás (Lc 22:18). E também não era tão difícil encontrar multidões perseguindo os apóstolos (At 14:19, 16:22, 21:27-36). Todavia, o Evangelho avançava e crescia mesmo assim.

Por outro lado, alguns grandes servos de Deus foram bem impopulares. Moisés e Arão quase foram apedrejados várias vezes (por exemplo, Nm 14:10). O profeta Jeremias era tão solitário que chegou a escrever "Bom é para o homem suportar o jugo na sua mocidade. Assente-se solitário e fique em silêncio, porquanto este jugo Deus pôs sobre ele" (Lm 3:27-28). Elias, apesar de ser um homem de Deus, não conseguiu ver o povo de Israel se converter de seus maus caminhos.

Até certo ponto, o mesmo acontece com as igrejas. As duas igrejas que não foram censuradas por Jesus no Apocalipse (Esmirna e Filadélfia) tinham em comum o fato de serem pequenas (Ap 2:9 e 3:8).

Por que essa reflexão? Ora, para um pastor de uma denominação pequena (menos de 0,5% da população brasileira) e de uma igreja pequena (menos de 150 membros), confesso que essas reflexões são perturbadoras. Principalmente quando se tem a sensação de que você não consegue conduzir muitas pessoas para Jesus (eu falo, as pessoas ouvem, acham legal, e só) ou convencer os crentes a seguirem aquilo que você acha correto.

Talvez a grande conclusão do cotejamento das referências bíblicas acima é a de que números não significam nada. As multidões podem tanto seguir a Jesus como persegui-Lo. Assim como não é válido o argumento de que, quando fazemos a vontade de Deus as igrejas lotam, também não é verdade que quando falamos a verdade, as igrejas se esvaziam.

Mas, mesmo assim, a pressão dos números permanece. Principalmente quando você vê tantas denominações e movimentos evangélicos atraindo verdadeiras multidões...e você nota que a sua mensagem e a sua teologia não são nada populares.

O que me consola é notar que as multidões seguem, mas na maioria das vezes, os discípulos são poucos. E isso em qualquer lugar. Uma igreja de mil membros parecerá vivíssima por ter cem crentes comprometidos com os ministérios. Mas, uma igreja de cem membros, com doze membros ativos, não nos parece tão viva assim, embora fosse proporcionalmente maior.

As multidões seguiam a Cristo, mas poucas pessoas o acompanharam até o fim. Uma multidão deixou o Egito, mas apenas dois foram aprovados por Deus. Até mesmo Paulo terminou os seus dias quase que sozinho (2 Tm 3:9-18).

Há exceções? Sim. Em alguns momentos, parece que toda uma geração, de fato, se entregou ao Senhor. Os que entraram na terra com Josué, os que viveram nos dias do rei Ezequias e mesmo a multidão de cristãos que permaneceu fiel, apesar das perseguições.

Não sei o que Deus espera de mim. Até agora, identifico-me muito mais com Jeremias e Elias do que com Pedro e Paulo. Sinto-me muito mais como o pregador que fala a um povo que não ouve do que com aquele que fala e vê o Espírito Santo agindo nas multidões.

Gostaria sim de ser ouvido (sim, eu tenho um lado humano), mas gostaria mais de sentir que a verdade encontra legiões de defensores, de sentir que não estou só, de ter no coração o descanso de ver a Igreja seguindo o caminho do Senhor. Mas hoje, o que sinto são os calafrios de quem vê a Igreja caminhando para a heresia e o erro, os calafrios de quem grita anunciando a catástrofe, mas não é ouvido.

Que Deus tenha misericórdia das multidões que o chamam de Senhor.

06 abril 2008

Algumas considerações sobre o sábado

Se essa pergunta não lhe veio à mente é porque você ainda não leu o Antigo Testamento. Afinal, por que as igrejas cristãs fazem os seus cultos no domingo, e não no sábado? A questão é um pouco mais complicada do que imaginamos...e bem mais simples do que os adventistas do sétimo dia colocam.

Podemos colocar a questão mais ou menos assim. Os protestantes costumam dividir a Lei de Moisés em três partes. A lei civil dizia respeito apenas ao Israel teocrático, governado por Deus no Antigo Testamento. Um exemplo seriam as leis referentes aos escravos presentes em Levítico 25:39-55. A lei cerimonial regulava o culto veterotestamentário. Todas as leis falando, por exemplo, de sacrifícios ou das regras de limpeza e imundícia podem ser colocadas aqui. E, por fim, há a lei moral, que fala de questões éticas e espirituais. Os Dez Mandamentos, em Êxodo 20:1-17 seriam um ótimo exemplo.

A maioria dos protestantes concorda que as leis civis e cerimoniais caíram. Por exemplo, hoje em dia não faz mais sentido regular a escravidão ou saber qual a forma certa de sacrificar um cordeiro para obter o perdão divino. Mas não há o que questionar sobre honrar pai e mãe. O problema é definir o que é e o que não é lei moral. E é aí que entra toda a confusão do sábado, afinal, o quarto mandamento fala claramente "Lembra-te do dia de sábado, para o santificar" (Ex 20:8). E, para reforçar, o sábado foi dado na criação, antes da Queda: "E abençoou Deus o dia sétimo e o santificou; porque nele descansou de toda a obra que, como Criador, fizera" (Gn 2:3).

E aí? Bom, e aí é que não dá simplesmente para descartar o quarto mandamento...até porque todos os outros nove são confirmados no Novo Testamento. Como sair desta enrascada? A resposta presbiteriana clássica é que devemos guardar o domingo. A minha resposta é que o sábado é um princípio. Devemos guardar um dia da semana para o Senhor, mas não creio que tenha que ser necessariamente o domingo. Se for o domingo, os jogadores de futebol e concurseiros são notáveis transgressores, por não respeitarem o dia do Senhor.

Meus argumentos? Vamos lá:

1) Ninguém deve ser julgado por causa do sábado. Vejam o que diz Colossenses 2:16-17: "Ninguém pois, vos julgue por causa de comida e bebida, ou dia de festa, ou lua nova, ou sábados, porque tudo isso tem sido sombra das coisas que haviam de vir; porém o corpo é de Cristo". Traduzindo, ninguém pode colocar o dedo na cara de ninguém por causa da guarda do sábado, ou de qualquer outro dia. O sábado é uma sombra de algo que viria (e que virá). O sábado é um sinal que aponta para uma realidade superior.

2) A guarda do sábado é um "rudimento fraco e pobre". É o que diz Paulo em Gálatas 4:8-11. Ali, Paulo censura os cristãos da Galácia por guardarem dias, meses, tempos e anos. Ele afirma que guardar esses dias é como voltar aos rudimentos fracos e pobres da Lei de Moisés. Mais do que isso, Paulo receava ter trabalhado em vão, inutilmente, porque os gálatas, ao invés de irem para a graça, ainda estavam presos na Lei. Ao meu ver, os presbiterianos que insistem na guarda do domingo caem no mesmo erro.

3) O Concílio de Jerusalém não exigiu a guarda do sábado. Em Atos 15 houve uma disputa entre os cristãos gentios (não judeus) e os cristãos judeus sobre o que os gentios deveriam ou não guardar da Lei de Moisés. Ficou decidido que os gentios deveriam se abster dos ídolos, das relações sexuais ilícitas, da carne de animais sufocados e do sangue (At 15:29). Essas coisas foram consideradas essenciais na Lei (At 15:28). A guarda do sábado foi descartada.

4) A Igreja fazia a Santa Ceia no domingo. Em Atos 20:7 lemos "No primeiro dia da semana, estando nós reunidos com o fim de partir o pão, Paulo, que devia seguir viagem no dia imediato, exortava-os e prolongou o discurso até à meia-noite". Partir o pão era a cerimônia da Ceia do Senhor. E isso acontecia no primeiro dia da semana, ou seja, no domingo. A Ceia era um elemento importantíssimo do culto cristão, como se pode ver em 1 Coríntios 11. Logo, muito provavelmente, a igreja de Atos cultuava ao Senhor de modo solene, com a Ceia do Senhor, aos domingos. Provavelmente havia cultos nos lares em outros dias...mas o único relato que temos de uma Ceia em Atos aconteceu em um domingo. Além disso, a igreja também recolhia ofertas no domingo (1 Co 16:2), outro forte indício de que, desde Atos, o culto cristão era feito aos domingos.

5) Jesus condenava a guarda exagerada do sábado. Basta dar uma rápida lida nos Evangelhos e não será difícil encontrar os fariseus brigando com Jesus por causa do sábado. Brigaram porque os apóstolos colheram espigas (Mc 2:23-28) e porque Jesus curava pessoas (Mc 3:1-5). Os judeus perseguiam a Jesus por causa disso (Jo 5:17). Chegaram a dizer que Jesus não era de Deus, porque Ele não "guardaria o sábado" (Jo 9:16).

Mas ainda há mais uma coisa a responder. O sábado é sinal de qual realidade? Ora, o sábado é uma sombra do céu. Basta ler Hebreus 4:1-13. Ali, a Bíblia nos diz que devemos entrar no descanso de Deus. E o sábado é usado como ilustração disso, como vemos em Hebreus 4:4-5: "Porque, em certo lugar, assim disse, no tocante ao sétimo dia: E descansou Deus, no sétimo dia, de todas as obras que fizera. E novamente, no mesmo lugar: Não entrarão no meu descanso". Se tivermos fé, entramos no descanso de Deus. Se não tivermos fé, não entramos no descanso. O sábado é apenas um sinal que aponta para esse descanso de Deus, que é o céu.

Desculpem o texto longo, mas acho que aí tem argumentos suficientes para derrubar crenças no adventismo do sétimo dia, do primeiro dia e de outro dia qualquer.