06 abril 2008

Algumas considerações sobre o sábado

Se essa pergunta não lhe veio à mente é porque você ainda não leu o Antigo Testamento. Afinal, por que as igrejas cristãs fazem os seus cultos no domingo, e não no sábado? A questão é um pouco mais complicada do que imaginamos...e bem mais simples do que os adventistas do sétimo dia colocam.

Podemos colocar a questão mais ou menos assim. Os protestantes costumam dividir a Lei de Moisés em três partes. A lei civil dizia respeito apenas ao Israel teocrático, governado por Deus no Antigo Testamento. Um exemplo seriam as leis referentes aos escravos presentes em Levítico 25:39-55. A lei cerimonial regulava o culto veterotestamentário. Todas as leis falando, por exemplo, de sacrifícios ou das regras de limpeza e imundícia podem ser colocadas aqui. E, por fim, há a lei moral, que fala de questões éticas e espirituais. Os Dez Mandamentos, em Êxodo 20:1-17 seriam um ótimo exemplo.

A maioria dos protestantes concorda que as leis civis e cerimoniais caíram. Por exemplo, hoje em dia não faz mais sentido regular a escravidão ou saber qual a forma certa de sacrificar um cordeiro para obter o perdão divino. Mas não há o que questionar sobre honrar pai e mãe. O problema é definir o que é e o que não é lei moral. E é aí que entra toda a confusão do sábado, afinal, o quarto mandamento fala claramente "Lembra-te do dia de sábado, para o santificar" (Ex 20:8). E, para reforçar, o sábado foi dado na criação, antes da Queda: "E abençoou Deus o dia sétimo e o santificou; porque nele descansou de toda a obra que, como Criador, fizera" (Gn 2:3).

E aí? Bom, e aí é que não dá simplesmente para descartar o quarto mandamento...até porque todos os outros nove são confirmados no Novo Testamento. Como sair desta enrascada? A resposta presbiteriana clássica é que devemos guardar o domingo. A minha resposta é que o sábado é um princípio. Devemos guardar um dia da semana para o Senhor, mas não creio que tenha que ser necessariamente o domingo. Se for o domingo, os jogadores de futebol e concurseiros são notáveis transgressores, por não respeitarem o dia do Senhor.

Meus argumentos? Vamos lá:

1) Ninguém deve ser julgado por causa do sábado. Vejam o que diz Colossenses 2:16-17: "Ninguém pois, vos julgue por causa de comida e bebida, ou dia de festa, ou lua nova, ou sábados, porque tudo isso tem sido sombra das coisas que haviam de vir; porém o corpo é de Cristo". Traduzindo, ninguém pode colocar o dedo na cara de ninguém por causa da guarda do sábado, ou de qualquer outro dia. O sábado é uma sombra de algo que viria (e que virá). O sábado é um sinal que aponta para uma realidade superior.

2) A guarda do sábado é um "rudimento fraco e pobre". É o que diz Paulo em Gálatas 4:8-11. Ali, Paulo censura os cristãos da Galácia por guardarem dias, meses, tempos e anos. Ele afirma que guardar esses dias é como voltar aos rudimentos fracos e pobres da Lei de Moisés. Mais do que isso, Paulo receava ter trabalhado em vão, inutilmente, porque os gálatas, ao invés de irem para a graça, ainda estavam presos na Lei. Ao meu ver, os presbiterianos que insistem na guarda do domingo caem no mesmo erro.

3) O Concílio de Jerusalém não exigiu a guarda do sábado. Em Atos 15 houve uma disputa entre os cristãos gentios (não judeus) e os cristãos judeus sobre o que os gentios deveriam ou não guardar da Lei de Moisés. Ficou decidido que os gentios deveriam se abster dos ídolos, das relações sexuais ilícitas, da carne de animais sufocados e do sangue (At 15:29). Essas coisas foram consideradas essenciais na Lei (At 15:28). A guarda do sábado foi descartada.

4) A Igreja fazia a Santa Ceia no domingo. Em Atos 20:7 lemos "No primeiro dia da semana, estando nós reunidos com o fim de partir o pão, Paulo, que devia seguir viagem no dia imediato, exortava-os e prolongou o discurso até à meia-noite". Partir o pão era a cerimônia da Ceia do Senhor. E isso acontecia no primeiro dia da semana, ou seja, no domingo. A Ceia era um elemento importantíssimo do culto cristão, como se pode ver em 1 Coríntios 11. Logo, muito provavelmente, a igreja de Atos cultuava ao Senhor de modo solene, com a Ceia do Senhor, aos domingos. Provavelmente havia cultos nos lares em outros dias...mas o único relato que temos de uma Ceia em Atos aconteceu em um domingo. Além disso, a igreja também recolhia ofertas no domingo (1 Co 16:2), outro forte indício de que, desde Atos, o culto cristão era feito aos domingos.

5) Jesus condenava a guarda exagerada do sábado. Basta dar uma rápida lida nos Evangelhos e não será difícil encontrar os fariseus brigando com Jesus por causa do sábado. Brigaram porque os apóstolos colheram espigas (Mc 2:23-28) e porque Jesus curava pessoas (Mc 3:1-5). Os judeus perseguiam a Jesus por causa disso (Jo 5:17). Chegaram a dizer que Jesus não era de Deus, porque Ele não "guardaria o sábado" (Jo 9:16).

Mas ainda há mais uma coisa a responder. O sábado é sinal de qual realidade? Ora, o sábado é uma sombra do céu. Basta ler Hebreus 4:1-13. Ali, a Bíblia nos diz que devemos entrar no descanso de Deus. E o sábado é usado como ilustração disso, como vemos em Hebreus 4:4-5: "Porque, em certo lugar, assim disse, no tocante ao sétimo dia: E descansou Deus, no sétimo dia, de todas as obras que fizera. E novamente, no mesmo lugar: Não entrarão no meu descanso". Se tivermos fé, entramos no descanso de Deus. Se não tivermos fé, não entramos no descanso. O sábado é apenas um sinal que aponta para esse descanso de Deus, que é o céu.

Desculpem o texto longo, mas acho que aí tem argumentos suficientes para derrubar crenças no adventismo do sétimo dia, do primeiro dia e de outro dia qualquer.

Um comentário:

Daniel. disse...
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