24 abril 2008

Vai uma cervejinha aí?

Afinal de contas, crente pode ou não beber? Na Alemanha, essa pergunta não faria sentido, lá é normal cristãos beberem. Mas, no Brasil, essa é uma questão que, para muitos, é um termômetro de santidade. Para pentecostais (e creio, para a maioria dos neopentecostais), beber é sinal de pecado. Mesmo nas igrejas históricas, o pastor que admitir tomar uma cervejinha de vez em quando é apontado como um pecador. As razões são mais ou menos as seguintes:

1) O vinho dos tempos bíblicos tinha um teor alcóolico muito menor do que o atual.
2) É mau testemunho para os incrédulos.
3) Crente não sabe beber moderadamente...logo, é melhor nem começar. Melhor cortar o mal pela raiz.
4) Escandaliza os outros cristãos, logo, melhor não beber.

Mas será que estes argumentos são válidos? Creio que não...e que o cristão não peca se consumir bebidas alcóolicas, desde que não se embebede, não se vicie no álcool e não faça um alcóolatra pecar. Antes que me joguem uma pedra, gostaria que alguns pontos fossem considerados:

1) Jesus era considerado um beberrão. Em Mateus 11:19, o próprio Jesus reconhece que os judeus o chamavam de bebedor de vinho: "Veio o Filho do homem, que come e bebe, e dizem: Eis aí um glutão e bebedor de vinho, amigo de publicanos e pecadores! Mas a sabedoria é justificada por suas obras". Além disso, o primeiro milagre de Jesus foi a transformação de aproximadamente 240 litros de água em vinho, e dos bons (Jo 2:9-10). Ora, se Jesus bebia...e se o primeiro milagre dele foi a transformação de água em vinho...por que não podemos beber?

2) O vinho era usado nas cerimônias religiosas do Antigo e do Novo Testamento. Em Números 15, vemos que o vinho deveria ser usado como libação para as ofertas queimadas, de holocausto, de sacrifício, de cumprimento de votos, voluntárias e nas festas fixas. "E de vinho para libação prepararás a quarta parte de um him para cada cordeiro, além do holocausto ou do sacrifício" (Nm 15:5). Os dízimos poderiam ser usados para a compra de bebidas alcóolicas: "Esse dinheiro, dá-lo-ás por tudo o que deseja a tua alma, por vacas, ou ovelhas, ou vinho, ou bebida forte, ou qualquer coisa que te pedir a tua alma; come-o ali perante o SENHOR, teu Deus, e te alegrarás, tu e a tua casa" (Dt 14:26). No Novo Testamento, basta lembrar da Santa Ceia: "Então lhes disse: Isto é o meu sangue, o sangue da nova aliança, derramado em favor de muitos. Em verdade vos digo que jamais beberei do fruto da videira, até àquele dia em que o hei de beber, novo, no reino de Deus" (Mc 14:24-25).

3) Vinho é sinônimo de bênçãos na Bíblia. Embora o vinho em excesso seja condenado na Bíblia, ele aparece muitas vezes como sinônimo de bênçãos. Quando Isaque abençoou a Jacó, uma das bênçãos era fartura de trigo e de mosto (vinho novo): "Deus te dê do orvalho do céu, e da exuberância da terra, e fartura de trigo e de mosto" (Gn 27:28). Da mesma forma, quando Jacó abençoou a Judá, disse "Ele amarrará o seu jumentinho à vide e o filho da sua jumenta, à videira mais excelente; lavará as suas vestes no vinho e a sua capa, em sangue de uvas" (Gn 49:11). Em Eclesiastes, Salomão manda "Vai, pois, come com alegria o teu pão e bebe gostosamente o teu vinho, pois Deus já de antemão se agrada das tuas obras" (Ec 9:7).

4) O vinho da Bíblia tinha álcool suficiente para deixar alguém bêbado. Basta lembrar que a primeira bebedeira bíblica aconteceu com Noé (Gn 9:21). Na igreja de Corinto, alguns chegaram a se embriagar na Ceia do Senhor (1 Co 11:21). Ou seja, o vinho da Bíblia era sim alcóolico. Não sei se ele tinha um teor alcóolico menor do que o dos vinhos de hoje. Mas eu sei que uma pessoa pode se embriagar com cidra (que é bem levinha) ou com vodca e absinto. O que torna uma bebida embriagante é a presença ou não de álcool, e não a quantidade de álcool nela. As bebidas mais leves podem ser mais perigosas que as pesadas, porque o gosto do álcool não é tão sentido e aí o exagero é mais fácil de acontecer.

5) Mau testemunho para os incrédulos é relativo. Na verdade, acho que os incrédulos não se impressionam muito se bebemos ou não. Os padres bebem vinho, e não são vistos como menos santos por isso. Para vários incrédulos, o fato dos crentes não beberem é visto como sinônimo de radicalismo. O que me parece é que beber é mau testemunho para os crentes, e não para os incrédulos.

6) Os fracos não devem julgar os fortes. Quando Paulo fala dos fortes e dos fracos em Romanos 14, a questão era alimentar. Os fortes entendiam corretamente que podiam comer de tudo. Já os fracos achavam que só podiam comer legumes (Rm 14:2). Nessa discussão é que Paulo afirma "É bom não comer carne, nem beber vinho, nem fazer outra coisa com que teu irmão venha a tropeçar ou se ofender ou se enfraquecer" (Rm 14:21). Se lermos apenas esse versículo, chegamos à conclusão que o melhor mesmo é não beber, para não ofender ninguém. Mas, quando lemos o capítulo todo, vemos que Paulo também escreveu "quem come não despreze o que não come; e o que não come não julgue o que come, porque Deus o acolheu. Quem és tu que julgas o servo alheio? Para o seu próprio senhor está em pé ou cai; mas estará em pé, porque o Senhor é poderoso para o suster" (Rm 14:3). Em outras palavras, é melhor não beber do que escandalizar as pessoas...mas quem não bebe não tem o direito de desprezar ou julgar os que bebem. Além disso, entendo que não é propósito de Deus que os fracos sejam sempre fracos. Uma vez convencidos de sua fraqueza, é de se esperar que eles se tornem fortes. Acho que devemos evitar escandalizar um novo convertido. Mas, uma vez que tenha sido dada a instrução correta sobre o assunto, entendo que, se o neófito se escandalizar, o pecado já fica apenas com ele.

7) A condenação do consumo de bebidas alcoólicas é farisaísmo. Um dos grandes problemas dos fariseus é que eles acrescentavam coisas à Bíblia. Talvez tentando "melhorá-la", eles fizeram da guarda do sábado um verdadeiro inferno. Por outro lado, aquilo que era realmente importante era burlado pelos fariseus. Por isso Jesus disse: "Guias cegos, que coais o mosquito e engolis o camelo!" (Mt 23:24). Os novos fariseus continuam no mesmo hábito: proibindo o que a Bíblia permite e deixando de lado a briga contra aquilo que é realmente importante. Eles ignoram que "o reino de Deus não é comida, nem bebida, mas justiça, e paz, e alegria no Espírito Santo" (Rm 14:17) e que "nenhuma coisa é de si mesmo impura, salvo para aquele que assim a considera; para esse é impura" (Rm 14:14).

Espero que este texto nos ajude a olharmos com mais maturidade e equilíbrio para a questão do consumo das bebidas alcóolicas.

E aí, vai uma cervejinha?

3 comentários:

Anônimo disse...

Texto muito pertinente para reflexão.
Helder, esse critério pode ser aplicado também a outras práticas condenadas pelo evangelicalismo brasileiro? Ouvir música não gospel (profana), por exemplo?
Fique com Deus.
Emerson.

Vini Costa disse...

Acho que vale sempre a questão de não "embebedar-se". Ou seja, ouvir é uma coisa, comprar um abadá para o carnaval de Salvador é outra. Mas quem sabe o "japa" não está preparando outro texto sobre o assunto?

JOSÉ MARCOS ANTUNES disse...

bebe, pode beber sim, o que não pode é embriagar, aproveite afinal até jesus era chamado de beberrão, então se vc for chamado de beberrão vai ficar parecido com jesus, certo! certo?