30 maio 2008

Uma decisão a se lamentar

Ontem o Supremo Tribunal Federal autorizou a pesquisa com células-tronco embrionárias. Para os cristãos que levam a Bíblia a sério, trata-se de uma decisão a ser lamentada, porque os embriões serão destruídos na pesquisa. Mesmo que ela seja feita apenas com embriões congelados há vários anos e, teoricamente, inviáveis à vida, esse tipo de pesquisa pode ser enquadrada como um assassinato.

A grande questão por trás deste assunto é quando começa a vida. O debate se concentra em torno daqueles que defendem o início da vida na fecundação e os que consideram que a vida só se inicia na nidação, quando o embrião se fixa na parede do útero. Em minha opinião, uma vez que há dúvidas sobre um assunto tão sério, a prudência, a sabedoria e o amor cristão recomendam que se vá pelo caminho mais seguro. Se há dúvidas sobre a destruição ou não de uma vida, você iria pelo caminho mais arriscado?

O ensino bíblico é claro e mostra que, para Deus, há vida antes do nascimento físico. Diz a Bíblia no Salmo 139:13-16:
Pois tu formaste o meu interior, tu me teceste no seio de minha mãe. Graças te dou, visto que por modo assombrosamente maravilhoso me formaste; as tuas obras são admiráveis, e a minha alma o sabe muito bem; os meus ossos não te foram encobertos, quando no oculto fui formado e entretecido como nas profundezas da terra. Os teus olhos me viram a substância ainda informe, e no teu livro foram escritos todos os meus dias, cada um deles escrito e determinado, quando nenhum deles havia ainda.
Em Jeremias 1:5, a Bíblia parece indicar que a vida humana começa antes da nidação, ou, pelo menos, antes da formação dos órgãos humanos:
Antes que eu te formasse no ventre materno, eu te conheci, e antes que saísses da madre, te consagrei, e te constituí profeta às nações.
Embora o nascimento de Jesus seja algo à parte, quando o anjo Gabriel descreve como Maria ficava grávida, ele diz que o momento em que o homem Jesus passa a existir seria quando o Espírito envolvesse Maria com a sua sombra. Isso já dá uma idéia mais próxima da fecundação do que de nidação (Lucas 1:35):
Respondeu-lhe o anjo: Descerá sobre ti o Espírito Santo, e o poder do Altíssimo te envolverá com a sua sombra; por isso, também o ente santo que há de nascer será chamado Filho de Deus.
Há que se registrar, no entanto, que na Lei de Moisés a morte de um feto era considerada menos grave que a morte de um ser humano já nascido. No entanto, a morte de um feto era pecado e devia ser reparado:
Se homens brigarem, e ferirem mulher grávida, e forem causa de que aborte, porém sem maior dano, aquele que feriu será obrigado a indenizar segundo o que lhe exigir o marido da mulher; e pagará como os juízes lhe determinarem. (Ex 21:22)
Creio que estes textos são mais do que suficientes para esclarecer a questão. Mas, embora os outros textos não sejam tão pertinentes, cabe lembrar que Sansão era nazireu de Deus no ventre de sua mãe (Jz 13:5), João Batista seria cheio do Espírito Santo no ventre materno (Lc 1:15) e que Paulo foi separado por Deus para pregar aos gentios antes mesmo de ter nascido (Gl 1:15).

Para os cristãos autênticos, a Bíblia tem precedência sobre qualquer ponto de vista científico quanto ao início da vida humana. Mesmo que a maioria dos óvulos fecundados naturalmente não se fixem no útero ou que os gêmeos univitelinos só se separem após a fecundação, ainda assim é preciso que reafirmemos o que a Bíblia diz e ensina sobre o assunto.

Não sou contrário a pesquisas com células-tronco que possam curar pessoas de lesões nervosas, paralisias e tantos outros tipos de doença. Sou contrário apenas a que seres humanos sejam mortos ou pecados sejam cometidos para que isso aconteça. Ou você aceitaria que eu matasse o seu filho para pegar uma córnea para transplantar no meu irmão e um fígado para mim?

E o que fazer com os embriões congelados há anos nas clínicas de reprodução? Sinceramente, esse problema só acontece por causa do pecado humano e pela recusa em aceitarmos que a vida começa na concepção. Esse excesso de embriões ocorre porque, nas fertilizações in vitro, são fertilizados 5, 6, 8 óvulos para aumentar as chances de uma gravidez. No meu ponto de vista, deveriam se fertilizar no máximo três óvulos e todos eles deveriam ser postos no útero. Fertilizar óvulos que podem nunca ser utilizados é brincar com a vida. E a adoção continua sendo uma opção mais saudável, segura e amorosa para os cristãos que são estéreis.

Vale a pena ler a nota distribuída pela Confedereção Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) comentando a decisão do STF.

28 maio 2008

Porque acredito em profecias nos dias de hoje

No post anterior, comecei a tratar da questão da contemporaneidade do dom de profecia. Em outras palavras, ainda há profecias nos dias de hoje? Apesar da resposta reformada tradicional ser "não", entendo que a Bíblia ensina o contrário.

1) Os últimos dias são marcados pela presença de profecias.

Em Atos 2:14-21, Pedro explica aos judeus porque os apóstolos estavam proclamando as grandezas de Deus em outras línguas. Gostaria de chamar a atenção para os versículos 16 a 18

Mas o que ocorre é o que foi dito por intermédio do profeta Joel: E acontecerá nos últimos dias, diz o Senhor, que derramarei do meu Espírito sobre toda a carne; vossos filhos e as vossas filhas profetizarão, vossos jovens terão visões, e sonharão vossos velhos; até sobre os meus servos e sobre as minhas servas derramarei do meu Espírito naqueles dias, e profetizarão

Repare que, de acordo com Pedro, o período da história conhecido como "últimos dias" será marcado por um derramamento do Espírito Santo sobre todo tipo de pessoa. Isso inclui até mesmo grupos que poderíamos considerar como menos importantes: filhos e filhas, jovens e velhos, servos e servas. E o sinal da presença do Espírito Santo nessas pessoas seriam manifestações ligadas à profecia: "profetizarão", "visões", "sonharão".

Se usarmos o argumento cessacionista, de que a profecia se restringia à época em que a Bíblia foi escrita ou ao período dos apóstolos, a profecia de Joel citada por Pedro perde o seu sentido. Se concordarmos com os cessacionistas, seria como se a profecia estivesse presente apenas nos primeiros minutos dos últimos dias...e não desse mais as caras em todas as horas restantes! Como as profecias podem ser uma marca dos últimos dias, se eles já duram uns 2 mil anos e cessaram nos primeiros 70 anos?

Na verdade, em 1 João 2:18, João é ainda mais enfático quando diz que nós estamos na última hora. Desde o momento em que Cristo morreu e ressuscitou, estamos na última etapa da História. Tanto que o apóstolo Paulo tinha a esperança de estar vivo na volta de Cristo: "nós, os vivos, os que ficarmos até a vinda do Senhor" (1 Ts 4:15).

Um último argumento. Tanto em Atos 2:16-21 como em Joel 2:28-32, a profecia fala no derramamento do Espírito, profecias, prodígios no céu e na terra, sangue, fogo, fumaça, Sol convertido em trevas e Lua transformada em sangue até o Dia do Senhor. Assim, quem argumenta que essa profecia já se cumpriu em Atos 2, se engana. Essa é uma profecia em cumprimento. Ela já começou a ser cumprida, mas não totalmente. O Espírito Santo e as manifestações proféticas preditas por Joel são sinais do tempo do fim, assim como os prodígios no céu ou o Sol convertido em trevas.

2) As profecias só cessam com a volta de Cristo.

Em 1 Coríntios 13, Paulo fala do amor e de como o amor é superior aos dons espirituais. E uma das razões é que os dons não são permanentes, ao passo que o amor permanecerá para sempre. Leia 1 Coríntios 13:8-12:

O amor jamais acaba; mas, havendo profecias, desaparecerão; havendo línguas, cessarão; havendo ciência, passará; porque, em parte, conhecemos e, em parte, profetizamos. Quando porém, vier o que é perfeito, então, o que é em parte será aniquilado. Quando eu era menino, falava como menino, sentia como menino, pensava como menino; quando cheguei a ser homem, desisti das coisas próprias de menino. Porque agora, vemos como em espelho, obscuramente; então, veremos face a face. Agora, conheço em parte; então, conhecerei como também sou conhecido.

As profecias não são para sempre, elas desaparecerão. Da mesma forma como os dons de línguas ou de ciência (conhecimento). Creio que, pelo contexto (leia 1 Co 13:1-3), isso se aplica a todos os dons. Os dons são algo incompleto, imperfeito. E, diz a Bíblia que, quando vier o que é perfeito, então, o que é em parte será aniquilado.

Os cessacionistas dizem que o "perfeito" ao que Paulo se refere é a Bíblia escrita. Embora reconheça a perfeição da Palavra, sou forçado a dizer que não é o mesmo tipo de perfeição descrito no texto. Se a perfeição é a Bíblia, então podemos dizer que vemos face a face e que conhecemos como somos conhecidos por Deus. Mais do que isso...estamos na frente de Paulo, porque, quando ele escrevia 1 Coríntios, ele ainda via como em espelho e conhecia em parte. Se você se sente com mais conhecimento do que Paulo, eu não estou no seu time.

A perfeição a que se refere 1 Co 13 não é apenas referente à revelação. É uma perfeição que nos atinge, a ponto de vermos as coisas como elas são. Em 1 Coríntios 15 Paulo deixa claro que ainda estamos bem longe disso, quando ele diz coisas como "Pois assim também é a ressurreição dos mortos. Semeia-se o corpo na corrupção, ressuscita na incorrupção. Semeia-se em desonra, ressuscita em glória. Semeia-se em fraqueza, ressuscita em poder" (1 Co 15:42-43). Desta forma, enquanto a ressurreição não vem, estamos na corrupção, desonra e fraqueza. Na ressurreição, estaremos em incorrupção, glória e poder.

E aí, à luz destes textos, a qual "perfeito" você acha que Paulo se refere?

3) Atos dos Apóstolos e as cartas do Novo Testamento mostram a profecia no dia-a-dia da igreja

Um dos argumentos cessacionistas é que a profecia era uma atividade sob supervisão apostólica. Os profetas que não eram apóstolos estariam sendo supervisionados pelo Colégio Apostólico. Se essa supervisão puder ser entendida como "a profecia não pode contrariar o ensino apostólico", podemos concordar. Mas, se acharmos que sempre que alguém profetizava um apóstolo estava lá para autenticar a mensagem, ou então que todas as profecias passavam por um crivo apostólico, então não há a menor possibilidade de concordar com essa teoria. Na verdade, o que vemos é que as profecias faziam parte do dia-a-dia da Igreja e era uma atividade exercida por leigos.

Em Atos 9:10-19, vemos Ananias tendo uma visão, conversando diretamente com Jesus e ouvindo uma espécie de profecia sobre o ministério de Paulo. Até aquele momento, Saulo não era nenhum apóstolo. Ananias agiu sem pedir permissão ou a autenticação de nenhum apóstolo. Ágabo não é apóstolo e profetiza em Atos 11:27-31 e Atos 21:10-14. Em Atos 19:6-7, doze recém-convertidos tomados pelo Espírito Santo profetizaram logo após receberem o batismo e explicações simples sobre o Espírito Santo. Filipe, o evangelista, morava em Cesaréia e tinha quatro filhas profetisas (At 21:9). Detalhe: não havia apóstolo algum morando em Cesaréia para supervisionar as profecias daquelas donzelas.

O mesmo pode ser dito das cartas. Paulo fala da profecia como um dom ou ministério à igreja de Roma (Rm 12:6), Corinto (1 Co 12:28-31) e Éfeso (Ef 4:11). Ele gasta um capítulo inteiro de 1 Coríntios para regular, entre outras coisas, como a profecia deveria ser usada no culto (1 Co 14). Lá ele diz que o dom de profecia deveria ser o mais buscado pelos coríntios (1 Co 14:1), esclarece o papel da profecia (1 Co 14:3), a relação entre línguas e profecia (1 Co 14:2-19), como a profecia pode ajudar na evangelização (1 Co 14:20-25), de que forma os profetas deveriam falar (1 Co 14:29-33) e até mesmo que as profecias deveriam ser examinadas (1 Co 14:29). Em 1 Tessalonicenses 5:20, ele diz claramente que não devemos desprezar as profecias. Paulo chega até mesmo a apelar a profecias feitas ao jovem Timóteo para que ele permanecesse firme na obra do Senhor (1 Tm 1:18).

Ora, se as profecias não existem mais...se elas duravam apenas enquanto a Bíblia estava sendo escrita...por que tanta tinta foi gasta para instruir as igrejas neotestamentárias sobre como elas deveriam lidar com os profetas? Veja que nem sempre Roma, Corinto, Éfeso ou Tessalônica tinham um apóstolo por lá, e mesmo assim as profecias aconteciam. Quando houve problemas (Corinto), Paulo regulamentou o uso do dom, mas não o proibiu nem exigiu que se anotasse tudo o que foi profetizado para que ele pudesse autenticar como verdadeiro ou não. A profecia era uma possibilidade tão normal que Paulo podia escrever: "Quando vos reunis, um tem salmo, outro doutrina, este traz revelação, aquele, outra língua, e ainda outro, interpretação" (1Co 14:26)

Assim sendo, termino aqui a minha argumentação bíblica para provar que as profecias continuam nos dias de hoje. Concordo que muito do que tem sido chamado de "profecia" nas igrejas de hoje não é, de fato, profecia bíblica. Mas também vejo muita atividade profética legítima acontecendo por aí.

Por fim...o ônus da prova recai sobre os cessacionistas. Que prova bíblica eles dão de que a profecia cessou?

12 maio 2008

Profecia e "Sola Scriptura"

No passado, eram as línguas...quando o pentecostalismo começou a influenciar as igrejas protestantes históricas, lá pelos idos de 60. Nesse tempo, as pessoas queriam saber é sobre o dom de línguas. Afinal, quem é batizado no Espírito Santo precisa orar em línguas estranhas, como os apóstolos fizeram em Atos 2? Quem não ora em línguas é ou não salvo?

Atualmente, o interesse é outro: o dom de profecia. Muitos evangélicos procuram aconselhamento e ficam confusos por causa de profecias que receberam. Por outro lado, outros tiveram experiências bastante positivas com profetas. Enquanto algumas igrejas proíbem as profecias (caso da Igreja Presbiteriana do Brasil), outras as valorizam tanto que parecem colocá-las acima até mesmo da Bíblia.

E aí fica uma questão: devemos crer ou não que as profecias do século XXI são legítimas?

Um dos argumentos usados para não se acreditar nas profecias de hoje em dia é o princípio do "Sola Scriptura", adotado na Reforma Protestante. Esse princípio afirma que a Bíblia está acima de todas as outras fontes de autoridade. Somente a Escritura serviria como regra de fé e prática para os cristãos.

Argumentam alguns que a profecia é incompatível com o "Sola Scriptura". Se a profecia é uma revelação, ou seja, se Deus fala literalmente por meio do profeta, então a profecia teria a mesma autoridade que a Bíblia. Mais do que isso, se ainda há profetas, o que os impediria de escreverem livros, relatando suas profecias? E, caso eles façam isso, por que não acrescentar esses livros à Bíblia? Desta forma, a permanência dos profetas implicaria em um cânon aberto da Bíblia. Ou seja, a Bíblia ainda seria um livro aberto, que poderia ser ampliado.

De fato, isso tem acontecido em alguns casos. Os mórmons entendem que Joseph Smith era um profeta e as visões dele ficaram registradas no Livro de Mórmon. De certa forma, o mesmo aconteceu com Maomé e o islamismo. Em várias igrejas evangélicas, o ensino bíblico é deixado de lado quando certas profecias contrariam o ensino da Palavra.

Mas, embora a relação entre profecia e o "Sola Scriptura" seja importante e precise ser considerada, não é isso que define se as profecias continuam ou não. É preciso analisar o que a Bíblia diz sobre o assunto. E, a não ser que a própria Bíblia ensine a cessação das profecias no tempo presente, não podemos descartá-las baseadas em um argumento teológico. E argumento teológico não é a mesma coisa que um argumento bíblico.

De qualquer forma, a existência de profetas não implica em um livro aberto. Primeiro porque a Bíblia é um livro autoritativo para todas as pessoas, em todos os tempos. Profecias podem ser específicas, dirigidas apenas a uma pessoa ou grupo de pessoas. Como exemplo, basta ler Atos 21:10-14. Ali, Ágabo dá uma profecia que é específica para o apóstolo Paulo. Em segundo lugar, porque muitos profetas não escreveram livros bíblicos. Ágabo profetizou no Novo Testamento, mas não temos o livro de Ágabo. Em Atos 20:9, lemos que as quatro filhas de Filipe profetizavam, mas não sabemos o conteúdo de nenhuma profecia delas. Logo, profecia não significa cânon aberto.

Claro que há muitas outras questões em jogo, que pretendo analisar neste blog. Mas, amanhã estarei em viagem e só volto no sábado. Até lá, os meus pouquíssimos leitores terão tempo de sobra para refletirem sobre este assunto e postarem seus comentários, se assim desejarem.

A boa mãe

O Dia das Mães já passou, mas gostaria de deixar registrado aqui um sermão que preguei sobre 1 Reis 3:16-28. Este texto nos fala da sabedoria de Salomão, mas também tem muito a ensinar sobre qualidades do amor de mãe. São elas:

1) Cuidado. Enquanto a outra mãe dormiu de modo descuidado, a ponto de matar o filho, a boa mãe zelava pelo seu filho. Primeiro, ela dormiu de uma maneira a não correr o risco de sufocar a sua criança. Naquele tempo, um berço, com certeza seria um luxo. Duas prostitutas não eram ricas, logo, era natural que elas dormissem na mesma cama que seus filhos. Uma das recomendações para evitar a morte de um bebê é não dormir de lado. Provavelmente, a boa mãe tomou esse cuidado. Além disso ela acordou à noite para amamentar, e no dia seguinte ela examinou o bebê morto e reconheceu que não era o seu. Em tudo isso, vemos uma mãe cuidadosa e zelosa. Hoje, precisamos de mães assim. Que tenham um zelo e um interesse genuínos em cuidar de seus filhos. Mães que se preocupam em saber se seus filhos oram e andam com Deus, em conhecer os amigos de seus filhos, onde eles vão, do que eles gostam. Mães que usam a sua autoridade para afastar os seus filhos dos perigos do mal e conduzi-los ao caminho de Cristo. Uma mãe que não cuida de seus filhos pode correr o risco de vê-los mortos: espiritualmente, entregues a vícios ou até mesmo por terem aderido a gangues e ao crime.

2) Proximidade. A boa mãe quer estar próxima de seu filho. A boa mãe não aceitou o estratagema da falsa mãe. Ela brigou pelo seu filho e levou o caso até o rei, mesmo sendo uma prostituta. Ela queria ser mãe de seu filho. Isso parece óbvio demais, mas não em nossa sociedade. O que vemos hoje são mães que até teriam condições financeiras de terem o seu filho, mas que preferem abortar para não "jogar sua vida fora". Um dos argumentos mais usados pelos pró-aborto é que a gravidez é indesejada, principalmente se a pessoa for pobre. Essa prostituta, se vivesse no século XXI, talvez considerasse uma bênção que a outra tenha roubado o seu filho! Uma criança a menos é uma boca a menos para sustentar, uma pessoa a menos para cuidar, um peso a menos. Mas, graças a Deus, ela vivia em Israel, no século X a.C. E, para ela, a criança era uma bênção. E ela lutou para ficar com o seu filho. Por outro lado, muitos pais e mães estão delegando a criação de seus filhos à televisão, babás, escolas e amigos. Estão com seus filhos, mas não estão próximos deles. E o diabo tem se aproveitado disso para tomar-lhes o lugar e induzir essas crianças e adolescentes a irem no caminho do pecado e do erro. Precisamos de mães brigadoras, que lutam pela vida de seus filhos. De mães que queiram, de fato, ser mães.

3) Sacrifício. O amor cristão é, necessariamente, sacrificial. A maior prova de amor que Jesus nos deu foi o fato d'Ele ter dado a Sua vida por nós (Jo 15:13). O verdadeiro amor "tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta" (1 Co 13:7). Traduzindo, quem ama se sacrifica. Ainda que o sacrifício seja a renúncia do convívio com a pessoa amada. Salomão sabia disso, e por isso deu ordens para que a criança fosse dividida ao meio. A verdadeira mãe sacrificaria o convívio com o seu próprio filho para que ele pudesse viver. Ela estava disposta a qualquer sacrifício pelo bem-estar de seu filho. E a maternidade é um chamado ao sacrifício. Ao sacrifício de noites de sono, por causa de uma doença. Ao sacrifício de bens materiais, que serão gastos ou economizados para o filho, e não para a mãe. E até mesmo para o sacrifício do convívio com o filho, quando ele se tornar maior. De entender que aquele emprego em outra cidade ou que aquele(a) menino(a) com quem ele(a) quer se casar fazem parte dos planos de Deus para o(a) filho(a).

Vale notar que essas três qualidades também se aplicam a pais e a todos os relacionamentos onde exista amor. O amor envolve o cuidado com o ser amado, o desejo de estar próximo e o sacrifício. E não devemos esquecer que Deus também tem cuidado de nossa vida, deseja que estejamos próximos d'Ele e fez o maior sacrifício para que escapássemos do juízo divino e recebêssemos a maior das bênçãos: o próprio Deus habitando em nós e nos recebendo em Seu lar.

10 maio 2008

Marcas de uma igreja verdadeiramente pentecostal

Atenção! Se você é presbiteriano ou um protestante histórico, antes de me crucificar, leia esse post primeiro. Depois volte e leia este.

Esclarecido o que quero dizer com "verdadeiramente pentecostal" fica a pergunta. O que isso significa? Acho que boa parte da resposta pode ser achada em Atos 2:1-41:

1) Oração. Lendo Atos 1:14, vemos que os apóstolos, as mulheres, Maria e os irmãos de Jesus perseveravam unânimes em oração. Um pouco antes, Jesus havia subido aos céus e orientado os discípulos a permanecerem em Jerusalém, aguardando o momento em que receberiam poder do alto (At 1:8). Passaram-se mais ou menos dez dias entre a ascensão de Jesus e o Pentecostes. O Espírito desceu enquanto os discípulos estavam reunidos em um mesmo lugar, provavelmente orando. A oração precedeu tudo o que viria depois.

2) Manifestações do Espírito Santo. É inevitável concluir isso. Não apenas pelo texto, mas por toda a história contada em Atos dos Apóstolos. O que muda o coração dos apóstolos é o Espírito. É pelo Espírito que a obra avança e as pessoas são convertidas. Isso pode ser visto no falar em outras línguas (At 2:4), mas também na pregação de Pedro (At 2:14-36). Pode ser visto nas curas, sinais e prodígios feitas em nome de Jesus (At 4:30) e na comunhão com os irmãos, no louvor a Deus e até mesmo na partilha de bens (At 2:42-47). O erro pentecostal é limitar essas manifestações apenas àquilo que é sobrenatural. O erro protestante (de alguns, pelo menos) é excluir a possibilidade do Espírito se manifestar de modo miraculoso. Aquele que considera tanto uma coisa quanto a outra, estará no caminho certo.

3) Perseguições. Esse é um detalhe que poucos dão importância quando lêem Atos 2. Veja o versículo 13. Para vários judeus, os apóstolos estavam bêbados, e não cheios do Espírito Santo. Não é muito diferente do que os fariseus diziam de Jesus. Quando uma igreja faz a vontade de Deus, ela vai achar quem fale mal dela.

4) Pregação da Palavra. E aqui é que está o grande segredo do Pentecostes. O mais importante não eram as línguas em si. Se repararmos bem no texto, o importante mesmo era o que Pedro iria dizer. As línguas atuaram como uma espécie de chamariz para as pessoas. Depois que elas tiveram sua atenção atraída, Pedro pregou e as pessoas se converteram. Reparem que os judeus não se converteram por causa das línguas, mas sim por causa da pregação: "Então, os que lhe aceitaram a palavra foram batizados, havendo um acréscimo naquele dia de quase três mil pessoas" (At 2:41).

5) Arrependimento. Olhando para o que Pedro pregou, vemos que ele explicou os fatos, mostrou ao povo quem era Jesus e conscientizou os judeus do pecado que cometeram, crucificando a Cristo. Quando o povo sentiu o peso do pecado, Pedro disse que o povo deveria se arrepender (At 2:38). O apelo de Pedro não foi para que as pessoas "aceitassem a Jesus", mas sim que eles se arrependessem e se salvassem de uma geração perversa.

Se pudermos ir além, e pegarmos Atos 2:42-47 vemos mais caractérísticas ainda: comunhão, temor de Deus, partilha de bens, louvor a Deus, simpatia do povo e crescimento da Igreja. E o texto volta a falar de doutrina, manifestações do Espírito e orações.

Acho que ninguém, em sã consciência, pode se opor a igrejas que busquem essas características. A todas elas. Os problemas surgem é quando selecionamos o que deve e o que não deve ser buscado. Por exemplo, quando só buscamos manifestações do Espírito e não valorizamos a pregação da Palavra. Ou então quando pregamos a Palavra, mas quase não oramos. É aí que nascem os erros das igrejas cristãs da atualidade.

Uma igreja verdadeiramente pentecostal

Domingo é Dia das Mães, mas também é o dia em que os cristãos comemoram o Pentecostes. Foi no dia de Pentecostes, sete semanas após a Páscoa, que o Espírito Santo desceu sobre os apóstolos e começou um novo capítulo na história da Igreja Cristã (At 2:1-41). Na verdade, o Pentecostes era uma festa judaica, instituída por Deus no início da colheita (Dt 16:9-12). Vale a pena notar que é nesse dia que Deus começou a sua "colheita" de novos discípulos para Jesus Cristo.

E há um verdadeiro fascínio no Brasil sobre os acontecimentos daquele dia de Pentecostes. Um grupo evangélico (o maior de todos) chega a se denominar pentecostal. Embora hoje isso esteja em mudanças, o pentecostal clássico acredita que os cristãos só são batizados no Espírito Santo quando falam em línguas. Suas igrejas enfatizam muito a ocorrência de milagres e outras manifestações sobrenaturais, como o dom da profecia. O Espírito Santo parece ocupar o centro das pregações e da vida da Igreja, sendo mais comentado do que Jesus ou o Pai. Os "usos e costumes" também são valorizados (comprimento da saia, proibição de maquiagem, entre outros), mas o século XXI está acabando com isso em várias igrejas do movimento. Como exemplo de igrejas pentecostais, cito as Assembléias de Deus, a Convenção Batista Nacional, a Igreja Presbiteriana Renovada, a Deus é Amor e a Brasil Para Cristo.

Mas o pentecostalismo já gerou dois "filhos". Um é a Renovação Carismática Católica, que mistura o catolicismo com as ênfases da doutrina pentecostal. O outro é o neopentecostalismo, que dá menos ênfase no batismo do Espírito Santo com dom de línguas e nos "usos e costumes". Em compensação, dá um destaque muito maior às contribuições financeiras e mantém a valorização dos milagres e do sobrenatural.

Teoricamente, as igrejas protestantes históricas, como a Igreja Presbiteriana do Brasil e a Convenção Batista Brasileira não seguem os princípios do pentecostalismo. Mas é inegável a influência que o movimento exerce sobre os membros dessas igrejas. Não é raro você ouvir um protestante reclamando que não vê nenhum milagre em sua congregação, mas que o pastor da igreja pentecostal da esquina vive fazendo atos sobrenaturais. Ou então um protestante procurar um profeta em uma igreja pentecostal para saber alguma coisa. Músicas de teologia pentecostal são cantadas nos cultos protestantes e quase ninguém se constrange com isso.

Não sou pentecostal, mas concordo que a igreja de Cristo deveria ser "pentecostal". Mas não no sentido em que o termo é usado pelos evangélicos. Ao meu ver, os pentecostais evangélicos erram porque focam demais no evento de Pentecostes. Eles ignoram que a descida do Espírito Santo foi um evento de inauguração de uma nova era da Igreja. Acompanhar as marcas que a Bíblia nos dá sobre a Igreja pós-Atos 2 seria muito mais útil do que olhar apenas para a descida do Espírito. Assim, uma igreja verdadeiramente pentecostal é aquela que vive na era do Pentecostes, e não uma que quer voltar para o evento do Pentecostes.

O que isso significa? Fica como assunto para próximos posts.