21 dezembro 2008

Alimentos e espiritualidade

Então lhes disse: Assim vós também não entendeis? Não compreendeis que tudo o que de fora entra no homem não o pode contaminar, porque não lhe entra no coração, mas no ventre, e sai para lugar escuso? E, assim, considerou ele puros todos os alimentos. (Marcos 7:19-20)
O que comida tem a ver com espiritualidade? Muita coisa, para dizer a verdade. A alimentação saudável é um dos pilares do adventismo do sétimo dia e das igrejas messiânicas. A abstinência de certos alimentos também é uma marca do judaísmo e do islamismo. Muitas ofertas feitas nas religiões afro-brasileiras envolvem comida. E até mesmo o cristianismo trata do assunto, quando aponta a gula (ou glutonaria) como um pecado:
invejas, bebedices, glutonarias e coisas semelhantes a estas, a respeito das quais eu vos declaro, como já, outrora, vos preveni, que não herdarão o reino de Deus os que tais coisas praticam. (Gálatas 5:21)
E por que a comida é tão importante? Ela não é apenas uma forma do corpo obter energia para a execução de suas atividades? O que algo tão "material" tem de tão importante?

Em primeiro lugar, não podemos esquecer que alimentação é um assunto de vida ou morte. Por causa da fome, conflitos ainda hoje eclodem no mundo. Por outro lado, a obesidade e a má alimentação provocam uma série de problemas de saúde, como doenças do coração, pressão alta e até mesmo ajudam a formar cânceres. A nossa relação com a comida também pode dizer muita coisa sobre o nosso caráter e emoções. Carência e tristeza podem ser compensadas com dois litros de sorvete de chocolate. Por outro lado, seguir uma dieta à risca é uma grande prova de persistência e disciplina.

No entanto, há um aspecto em que o cristianismo se diferencia de outras religiões. Judaísmo, islamismo, adventismo e messianismo tendem a enxergar algo de mal nos alimentos em si, daí a abstinência. A picanha gorda, o toucinho, os vegetais com agrotóxicos e a cachaça fazem mal, logo, o ato de consumi-las é um pecado ou, no mínimo, uma falta de respeito com o próprio corpo, uma forma de desequilibrá-lo. Abster-se dessas coisas é, simbolicamente falando, uma forma de se abster de tudo aquilo que é mal.

A Bíblia, ao contrário, condena o excesso (glutonaria), mas permite o livre acesso a todo tipo de alimento, inclusive ao pernil de porco natalino. O que isso ensina?

1) O verdadeiro problema do homem é interior, e não exterior. Espiritualizar demais os alimentos é atacar o problema errado. O pecado, o desequilíbrio, a enfermidade (segundo a Bíblia, a morte entra no mundo pelo pecado)...em última análise, tudo isso encontra a sua raiz no pecado do coração humano, e não em coisas exteriores, como a comida. O alimento, por si só, é puro. Como disse Jesus:
E dizia: O que sai do homem, isso é o que o contamina. Porque de dentro, do coração dos homens, é que procedem os maus desígnios, a prostituição, os furtos, os homicídios, os adultérios, a avareza, as malícias, o dolo, a lascívia, a inveja, a blasfêmia, a soberba, a loucura. Ora, todos esses males vêm de dentro e contaminam o homem. (Marcos 7:20-23)
2) A matéria não é má. Tudo o que Deus criou é bom. Uma outra conseqüência da abstinência de alimentos é que esse comportamento reforça a crença de que a matéria (ou parte dela) é má. Abster-se de certas comidas é uma forma de se desligar deste mundo e se tornar mais "espiritual". Mas, quando se age desta maneira, acaba-se condenando algo BOM que foi criado por Deus. Como diz Paulo:
Ora, o Espírito afirma expressamente que, nos últimos tempos, alguns apostatarão da fé, por obedecerem a espíritos enganadores e a ensinos de demônios (...) que proíbem o casamento e exigem abstinência de alimentos que Deus criou para serem recebidos, com ações de graças, pelos fiéis e por quantos conhecem plenamente a verdade. (1 Timóteo 4:1-3)
Cabe aqui lembrar que mesmo vilões como o colesterol, a gordura e os açúcares são necessários a todo ser humano. O atleta mais "seco" da Terra possui algum percentual de gordura e se vale dos carboidratos como fonte de energia. O problema não está na picanha em si, está no seu consumo exagerado (glutonaria). Um outro problema é o sedentarismo, que pode perfeitamente ser chamado de preguiça (um pecado no qual tenho caído). Mas não o alimento em si.

3) Nem excesso e nem abstinência, mas equilíbrio. No que diz respeito às coisas materiais (sexo, comida, álcool e até dinheiro) os extremos são errados. A Bìblia condena uma vida de prostituição, glutonaria, bebedices e avareza. Mas ela não exige o celibato e a pobreza de todos. A anorexia, com certeza, é pecado. Em todas essas matérias, o segredo da espiritualidade (e da saúde) é o equilíbrio: casamento, comida e bebida com moderação e contentamento com o que se tem.

Gostaria, no entanto, de fazer um esclarecimento sobre agrotóxicos e certos elementos industrializados, como a gordura trans. Hoje, um número muito maior de pessoas se alimenta graças aos agrotóxicos, que permitem uma redução de pragas. Claro, esse uso precisa ser controlado e ambientalmente responsável, senão é pecado, e dos grandes, o de matar pessoas por causa de lucro. O mesmo pode ser dito de certos componentes criados industrialmente que não trazem nenhum benefício nutricional real.

No entanto, isso não significa que abaster-se de certos alimentos seja sinal de espiritualidade. Não é. Mas também, nada contra os cristãos se envolverem com campanhas de reeducação alimentar saudável. Até porque os valores bíblicos de moderação tem MUITO a ensinar sobre este assunto.

11 dezembro 2008

A graça exclui o mérito da vida cristã?

Porque pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós; é dom de Deus; não de obras, para que ninguém se glorie. (Efésios 2:8-9)

Pois eu vos declaro: a todo o que tem dar-se-lhe-á; mas ao que não tem, o que tem lhe será tirado (Lucas 19:26)
Qual o papel das obras, qual o mérito pessoal que os salvos por Deus possuem? Nenhum, segundo a Bíblia, no que diz respeito à salvação. A Bíblia é clara quando diz que a salvação acontece pela graça e é um dom de Deus. E, para reforçar, ainda se diz claramente que não é por obras, para que ninguém possa se gloriar disso. Logo, é ponto pacífico que o mérito pessoal não possui papel algum na salvação. Somos salvos pelos méritos de Cristo.

Mas, há lugar para o mérito na vida cristã? Ele tem algum papel relevante em nosso destino eterno?

Na prática, em muitas igrejas a resposta tem sido "não". No lugar do mérito, a "igualdade" (ou a mediocridade, em minha opinião) tem sido valorizada. Se não merecemos a salvação, então a idéia de "merecer" alguma coisa não deve estar presente no dia-a-dia eclesiástico.

Como isso acontece na prática? De várias formas. Vai desde a gincana com crianças em que a campeã em decorar versiculos recebe o mesmo presente daquela que se comportou como uma verdadeira peste até a condescendência com que colocamos "qualquer um" em posições de liderança ministerial em nossas igrejas. A "competição" é vista como um inimigo a ser banido e a ética que prevalece é a da camaradagem.

Quando uma comunidade se sente constrangida em não renovar o mandato de um presbítero, mesmo sabendo que um jovem concorrente tem sido mais atuante do que ele, quando não expulsamos um jovem crente que não merece estar em um jogo de futebol (porque sua conduta é reprovável) e os crentes piedosos que não gostam de confusão precisam sair da quadra (se quiserem ter paz)...estamos deixando de premiar os melhores para favorecer os piores. Estamos agindo com base na camaradagem, e excluímos o mérito do nosso dia-a-dia.

O que, aliás, é um traço da cultura brasileira. Onde os melhores cargos no serviço público não são os da carreira, mas sim os de "confiança", franqueados aos amigos do chefe. Onde os políticos são eleitos, não por razões de mérito, mas porque "são gente como a gente" ou porque "é um conhecido meu" ou "me fez um favor". Onde se prefere criar cotas raciais do que políticas que permitam que todos concorram em igualdade de condições. O país onde todos devem ser iguais, e quem se destaca acima dos demais precisa "ser posto em seu lugar".

E esse é, talvez, o grande problema do mérito. É que, de fato, uns merecem mais que os outros. E a inveja nos leva a querer matar o sucesso do outro, como Caim fez com Abel, porque Deus se agradou da oferta de Abel, mas não da de Caim (Gênesis 4:1-8). No entanto, a Bíblia é cheia de textos que mostram que Deus considera, e muito, o mérito. Isso pode ser visto:

1) Nas parábolas de Jesus. Quando se lê a parábola das minas (Lucas 19:11-27) ou dos talentos (Mateus 25:14-30), o ensino é claro: quem cuidar melhor do que é de Deus, o que for mais hábil na aplicação do que recebeu, recebe mais.

2) No ensino bíblico sobre o galardão. Embora a salvação seja de graça, a recompensa a ser recebida (galardão) varia de pessoa para pessoa. Gostaria de destacar aqui dois versículos sobre o assunto:
Ora, o que planta e o que rega são um; e cada um receberá o seu galardão, segundo o seu próprio trabalho. (1 Coríntios 3:8)

E eis que venho sem demora, e comigo está o galardão que tenho para retribuir a cada um segundo as suas obras. (Apocalipse 22:12)
3) No estímulo de Jesus para o serviço. Quando Jesus queria estimular os discípulos a se dedicarem ao serviço, era comum que Ele fizesse referência à recompensa. Em certo sentido, quanto maior o mérito, maior o prêmio:
Jesus lhes respondeu: Em verdade vos digo que vós, os que me seguistes, quando, na regeneração, o Filho do Homem se assentar no trono da sua glória, também vos assentareis em doze tronos para julgar as doze tribos de Israel. E todo aquele que tiver deixado casas, ou irmãos, ou irmãs, ou pai, ou mãe, ou mulher, ou filhos, ou campos, por causa do meu nome, receberá muitas vezes mais e herdará a vida eterna. Porém muitos primeiros serão últimos, e os últimos, primeiros. (Mateus 19:28-30)

Não é assim entre vós; pelo contrário, quem quiser tornar-sse grande entre vós, será esse o que vos sirva; e quem quiser ser o primeiro entre vós será vosso servo; tal como o Filho do Homem, que não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos. (Mateus 20:26-28)
4) No ensino sobre pobreza e riqueza. Sim, é verdade que sistemas injustos conduzem a uma pobreza estrutural. Mas também é verdade que a Bíblia ensina que a pobreza de muitos se deve à preguiça ou a escolhas erradas, assim como a riqueza de outros é fruto do mérito pessoal. A idéia de mérito está por trás de quase todas as admoestações de Provérbios contra o homem preguiçoso, como podemos ver em alguns textos:
A mão diligente dominará, mas a remissa será sujeita a trabalhos forçados. (Provérbios 12:24)

O preguiçoso não assará a sua caça, mas o bem precioso do homem é ser ele diligente. (Provérbios 12:27)

O preguiçoso deseja e nada tem, mas a alma dos diligentes se farta; (Provérbios 13:4)
Desta forma, vemos que o mérito é uma forma divina de administração do mundo. O ideal de Deus é que as pessoas sejam recompensadas de acordo com o que fizeram...ou deixaram de fazer. Inclusive em nossa sociedade...e em nossas igrejas.

A ordem divina não é a de que todos sejam iguais, nivelados por baixo ou pela média. Deus quer que cada um receba o que é justo, de acordo com o seu mérito. Quem se destaca positivamente deve sim receber as distinções apropriadas e adequadas aos seus feitos. Seja na igreja ou em nossa sociedade.

Que não nos esqueçamos que o mérito pessoal tem sim valor na vida cristã, embora não tenha valor algum no que diz respeito à salvação.

09 dezembro 2008

Antes de partir

Aceitando a proposta do André Aloísio, do Teologia e Vida, escrevo abaixo oito coisas que gostaria de fazer antes de partir e me encontrar com o Senhor:

1) Casar com uma "Rebeca": mulher serva do Senhor, decidida (viram a firmeza com que ela deixou a família para ir se casar com Isaque?), formosa, trabalhadeira, mas que seja confiável (não use estratagemas comigo, como ela fez para favorecer a Jacó). E que eu possa amá-la com um amor maior do que o de Jacó por Raquel.

2) Ter dois filhos (ou filhas) e criá-los no caminho do Senhor.

3) Conseguir evangelizar com 10 vezes mais facilidade, sabedoria e desembaraço do que consigo hoje.

4) Conseguir ler a Bíblia no hebraico, aramaico e grego sem dificuldades, a ponto de fazer minhas devocionais no original.

5) Ser doutor em Teologia.

6) Tornar-me um escritor de livros, tanto na área devocional, como de treinamento de liderança leiga.

7) Ser um apologeta capaz de discutir, em nível acadêmico, com biólogos evolucionistas, físicos e filósofos, defendendo a fé cristã.

8) Ser um líder que leve às igrejas reformadas a aceitarem os dons carismáticos do Espírito Santo, de modo que elas sejam relevantes no cenário religioso brasileiro, com forte atuação social.

Mas, é claro, tudo de modo a honrar e a glorificar o nome de Cristo. E que a vontade de Deus, e não a minha, prevaleça sobre esses (e outros) desejos.

Esta brincadeira tem algumas regras:

- Escrever uma lista com oito coisas que sonhamos fazer antes de ir embora daqui;
- Passar o meme para oito pessoas;
- Comentar no blog de quem lhe passou o meme;
- Comentar no blog dos nossos(as) convidados(as), para que saibam da "intimação";
- Mencionar as regras

Meus oito amigos convidados são:

- Daniel Torres Cavalcante, do Quase Fácil.
- Cleber Filomeno, do O-I-A, que é um blog fechado.
- Vinicius Costa, do Blog do Vini.
- Rosana Steimbach, do Vamos Para O Leve?
- Ivonete Silva, do IvoneTirinhas
- Josaías Cardoso, do Erixplosm
- Fabinho Silva, do Raiz Duma Terra Seca
- Márcio Carneiro, do Warrior of Christ

E aí, que oito coisas vocês gostariam de fazer antes de se encontrar com Jesus?

06 dezembro 2008

Jogar na loteria é pecado?

A sorte se lança no regaço, mas do Senhor procede toda decisão. (Provérbios 16:33)
Um ditado evangélico diz que devemos ser claros naquilo que a Bíblia é clara, sermos cautelosos nos assuntos em que ela é obscura e nos calar quando ela se cala. O caso das loterias e rifas me parece o segundo caso. Não há um versículo que diga "Não jogarás" ou "Não apostarás". Mas há alguns princípios bíblicos que nos ajudam a formar uma opinião.

De modo geral, os evangélicos condenam as apostas nas loterias. Por outro lado, já há igrejas fazendo rifas para "fins piedosos". Há também quem lembre que parte do dinheiro apostado nas casas lotéricas brasileiras é empregada para fins sociais (como você pode conferir clicando aqui). E, a bem da verdade, rifas e loterias seguem um mesmo princípio: comprar, a baixos preços, uma chance de ganhar um prêmio material maior.

E, então, podemos ou não jogar? Antes de responder, precisamos considerar os seguintes princípios:

1) O desejo de ficar rico é pecaminoso. Eu diria que é muito difícil que alguém jogue na loteria sem ter como motivação principal o desejo de ficar rico. Os apostadores sonham com o que vão fazer com o prêmio, com a chance de ganhar alguns milhões ou milhares de reais apenas pelo preço de uma aposta. Só que esse desejo não é aprovado por Deus:
Ora, os que querem ficar ricos caem em tentação, e cilada, e em muitas concupiscências insensatas e perniciosas, as quais afogam os homens na ruína e perdição. Porque o amor ao dinheiro é raiz de todos os males; e alguns, nessa cobiça, se desviaram da fé e a si mesmos se atormentaram com muitas dores. Tu, pois, ó homem de Deus, foge destas coisas; antes, segue a justiça, a piedade, a fé, o amor, a constância, a mansidão (1 Timóteo 3:9-11)
Logo, se jogamos com o desejo de enriquecer, o ato de jogar já está contaminado pelo pecado de querer ficar rico.

2) A riqueza ganha às pressas não é abençoada. Aquele que enriquece com um bilhete de loteria ganha o seu dinheiro de uma vez. É uma riqueza que não foi conquistada por meio do trabalho, do mérito pessoal e nem mesmo do esforço de algum familiar. E esse tipo de prosperidade não é abençoada pelo Senhor:
O homem fiel será cumulado de bênçãos, mas o que se apressa a enriquecer não passará sem castigo. (Provérbios 28:20)
Na verdade, esse ponto é um desdobramento do anterior. O que se apressa a enriquecer é dominado pelo desejo de ficar rico, e nisso pode enveredar por caminhos não aprovados por Deus. As apostas a dinheiro são uma delas, mas o crime, a bajulação no trabalho, os "golpes do baú" e outras estratégias para enriquecer que desagradam a Deus são igualmente reprováveis.

3)Quem quer ajudar, deve fazê-lo sem esperar nada em troca. Há quem procure destacar o papel "social" da loteria e das rifas. Ao comprarmos o bilhete, estamos ajudando o esporte olímpico e paraolímpico, a cultura, a segurança nacional e até mesmo ajudando a pagar benefícios previdenciários e o financiamento estudantil de quem não pode pagar uma faculdade particular. Quando compramos uma rifa, estamos ajudando a levantar fundos para missões ou a pagar o acampamento da mocidade. Ora, mas quem "ajuda" e tem a expectativa de ganhar algo em troca fere o ensino de Jesus:
Quando, pois, deres esmola, não toques trombeta diante de ti, como fazem os hipócritas, nas sinagogas e nas ruas, para serem glorificados pelos homens. Em verdade vos digo que eles já receberam a recompensa. Tu, porém, ao dares a esmola, ignore a tua mão esquerda o que faz a tua mão direita; para que a tua esmola fique em secreto; e teu Pai, que vê em secreto, te recompensará (Mateus 6:3-4)

O amor (...) não procura os seus interesses... (1 Coríntios 13:4-5)
Por que a esmola deve ser dada em segredo? Porque a recompensa deve ser dada por Deus, e não pelos homens. Aquele que ama e, de fato, quer ajudar, o faz diretamente, sem esperar uma recompensa humana ou material.

Se alguém quer colaborar com missões, o acampamento da mocidade, o esporte, a cultura, os aposentados e a segurança, faça uma doação! É mais prático, objetivo e direto. E não faça alarde de sua boa ação. Deixe que Deus dê a recompensa.

Por fim, ao analisarmos os três princípios bíblicos acima mencionados, creio que as loterias (e as rifas) não são, de fato, compatíveis com a vida cristã. É pecado. E, portanto, fazem bem os evangélicos que evitam a "fezinha" de toda semana.

Até porque há muitos que se viciam no jogo...e, se este o caso, aí mesmo é que o cristão deve evitar a jogatina. Como diz a Bíblia:
Todas as coisas me são lícitas, mas nem todas convêm. Todas as coisas me são lícitas, mas eu não me deixarei dominar por nenhuma delas. (1 Coríntios 6:12)

02 dezembro 2008

Santa Catarina: A Nova Orleans brasileira



"Art. 21. Compete à União:
(...)
XVIII - planejar e promover a defesa permanente contra as calamidades públicas, especialmente as secas e as inundações" (Constituição da República Federativa do Brasil)

"Passei pelo campo do preguiçoso e junto à vinha do homem falto de entendimento; eis que tudo estava cheio de espinhos, a sua superfície, coberta de urtigas, e o seu muro de pedra, em ruínas. Tendo-o visto, considerei; vi e recebi a instrução. Um pouco para dormir, um pouco para tosquenejar, um pouco para encruzar os braços em repouso, assim sobrevirá a tua pobreza como um ladrão, e a tua necessidade, como um homem armado" (Provérbios 24:30-34)
As chuvas que castigam Santa Catarina há praticamente duas semanas são uma tragédia. Já são pelo menos 116 mortos, ainda há 69114 pessoas desabrigadas e desalojadas. Catorze municípios estão em estado de calamidade pública e 51 em estado de emergência.

Mas, seria essa uma tragédia inevitável, um acaso divino? Na verdade, acho que não. As enchentes em Santa Catarina são como as enchentes em São Paulo ou as secas no Nordeste. Eventos naturais que fazem parte do ciclo climático da região. São previsíveis. E, com a tecnologia que nós temos hoje, evitáveis ou, pelo menos, amenizáveis.

Duvida? A enchente que atingiu Santa Catarina não é a maior da História do Estado. Em 1983, o rio Itajaí-Açu subiu mais de 15 metros. Em 1911, chegou a quase 17. Logo, a cheia do rio não é imprevisível, como um terremoto ou a queda de um meteoro.

Por que então a tragédia? Em primeiro lugar, porque o ente responsável por criar um sistema de prevenção a calamidades públicas - a União - ainda não cumpriu o seu dever constitucional. Assim como, até hoje, não resolveu o problema da seca no Nordeste ou das inundações na Grande São Paulo. Chega a ser previsível no planejamento dos jornais...final de ano é epoca de monitorar cheias de rios e quedas de encostas em SP, RJ, MG, ES e no Sul do país!

Mas essa ausência do Estado não deixa de ser uma culpa de todos nós, cristãos, inclusive. Não somos muito diferentes do preguiçoso de Provérbios 24. Ao invés de arregaçarmos as mangas e tomarmos atitudes para arrumar o que está caído no nosso país, nós jogamos os problemas para amanhã. Em relação à política, economia, cobrança das autoridades constituídas e outros dramas "terrenos", nós cruzamos um pouco os braços aqui e cochilamos ali. Resultado: quando a necessidade chega (por exemplo, na forma de uma enchente, seca e até mesmo da violência) ela nos surpreende como um homem armado!

Não basta apenas orar e pedir que Deus tenha misericórdia das famílias afetadas. Mandar ofertas às igrejas atingidas ou contribuir com doações é o mínimo que a Igreja deve fazer. Mesmo medidas do Governo, como a liberação de crédito do FGTS para reconstruir as casas ou o envio de alimentos e outros materiais é insuficiente.

É preciso que a Igreja cobre das autoridades (neste caso, primeiramente, do Governo Federal) que tomem medidas para evitar esses problemas! Precisamos opinar sobre o orçamento, sobre a forma como o dinheiro é gasto em nosso país pelos governos. Exigir que o serviço público siga regras de eficiência administrativa e moralidade, mesmo que isso implique em sacrificar a estabilidade do funcionalismo.

E também precisamos fazer nossa parte. Devemos orar pelas autoridades (1 Timóteo 2:1-2), pagar os nossos impostos (Romanos 13:6) e exigir governos justos (Mateus 5:6). Além, é claro, de desenvolvermos projetos que nos ajudem a melhorar o nosso Brasil.

Precisamos erguer os olhos e ver que os campos do Brasil estão cheios de espinhos e urtigas, e que nosso muro de pedra está arruinado. E, além de cobrar que o Estado faça a sua parte, devemos nós, com maior empenho, fazer a nossa. E irmos até o campo arrancar as ervas daninhas e consertar os muros caídos.

Afinal, o Brasil é a nossa casa! E se a nossa casa está mal cuidada, é porque nós também não estamos cuidando dela direito.

A propósito, se você quer saber como doar dinheiro e alimentos à Defesa Civil de Santa Catarina, clique aqui ou ligue para 0800 482 020.

P.S: Se você não entendeu sobre Nova Orleans, eu me referia à enchente provocada pelo furacão Katrina, que devastou a cidade em 2005.