11 fevereiro 2009

A regra da contradição aparente: chave para entender a soberania de Deus e a liberdade do homem

Ó SENHOR, por que nos fazes desviar dos teus caminhos? Por que endureces o nosso coração, para que te não temamos? Volta, por amor dos teus servos e das tribos da tua herança. (Isaías 63:17)

Assim, pois, não depende de quem quer ou de quem corre, mas de usar Deus a sua misericórdia. Porque a Escritura diz a Faraó: Para isto mesmo te levantei, para mostrar em ti o meu poder e para que o meu nome seja anunciado por toda a terra. Logo, tem ele misericórdia de quem quer e também endurece a quem lhe apraz. (Romanos 9:16-18)

Contudo, não quereis vir a mim para terdes vida. (João 5:40)
Um dos mistérios da doutrina da soberania de Deus é entender como conciliar as idéias trazidas pelos versículos acima. Afinal, é Deus quem endurece o coração dos ímpios (e, às vezes, até mesmo o coração dos justos, segundo Isaías) ou somos nós que nos recusamos a ir até Deus?

As duas coisas. Existe uma regra de interpretação bíblica que chamo aqui de "regra da contradição aparente". Quando a Bíblia faz afirmações que sejam aparentemente contraditórias, e cuja conciliação não for possível, devemos afirmar, com igual ênfase, os dois lados do paradoxo. Essa é a regra usada, por exemplo, na formulação da doutrina da Trindade. Deus é um, mas isso não parece harmônico com a idéia de que o Pai, o Filho e o Espírito Santo sejam pessoas distintas, e sejam, ao mesmo tempo, Deus. A mente humana não concilia adequadamente as duas idéias, mas a Bíblia não vê problema em colocá-las uma do lado da outra. Quando isso acontece, devemos fazer como a Bíblia faz, e afirmar os dois lados.

É isso o que faz o calvinismo. A Bíblia ensina que pecamos porque queremos, que os réprobos rejeitam a Cristo de livre e espontânea vontade, mas também fala que é Deus quem endurece o coração dos que serão condenados ao inferno. Não precisamos afirmar apenas um dos lados, o correto é ensinar as duas coisas. Se assim fizermos, resolvemos a contradição aparente e entendemos um pouco melhor a relação entre a soberania de Deus e a liberdade do homem.

P.S: Sei que alguns calvinistas vão querer jogar pedras em mim por usar o termo "liberdade", ao invés de "responsabilidade", que, como diz Lutero, somos "nascidos escravos". Mas cabe sim o uso de "liberdade" aqui. Tanto justos, como ímpios, pecam porque quiseram pecar, porque o desejaram, porque assim escolheram, e, nesse sentido, usaram a sua liberdade para o mal. Uma palavra pode ter várias conotações, e não falo aqui de liberdade em termos absolutos, inclusive para ir contra a própria natureza, mas sim da liberdade de escolha cotidiana do dia-a-dia, a chamada "livre agência".

2 comentários:

cincosolas disse...

Hélder,

Não atirarei a primeira pedra. Não vejo problema no uso da palavra liberdade, desde que bem entendida.

Os arminianos usam liberdade com o sentido de capacidade. Neste sentido, é claro que o homem não tem liberdade de ir a Cristo. Por outro lado, se entendermos como liberdade de escolha como escolha feita sem nenhuma coerção externa, então liberdade pode ser utilizada.

Ótimo texto.

Em Cristo,

Clóvis

Daniel. disse...

Eu cocei a testa quando li liberdade, mas a coceira parou no início do parágrafo final.
Excelente texto.