27 março 2009

Quando a homofobia é pecado

O segundo, semelhante a este, é: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. (Mateus 22:39)

Ora, vendo isto, os fariseus perguntaram aos discípulos: Por que come o vosso Mestre com os publicanos e pecadores? Mas Jesus, ouvindo, disse: Os sãos não precisam de médico, e sim os doentes. Ide, porém, e aprendei o que significa: Misericórdia quero e não holocaustos; pois não vim chamar justos, e sim pecadores ao arrependimento. (Mateus 9:11-13)

Com homem não te deitarás, como se fosse mulher; é abominação. (Levítico 18:22)

Por causa disso, os entregou Deus a paixões infames; porque até as mulheres mudaram o modo natural de suas relações íntimas por outro, contrário à natureza; semelhantemente, os homens também, deixando o contato natural da mulher, se inflamaram mutuamente em sua sensualidade, cometendo torpeza, homens com homens, e recebendo em si mesmos, a merecida punição do seu erro. (Romanos 1:26-27)
De acordo com o dicionário Houaiss, homofobia é "rejeição ou aversão a homossexual e a homossexualidade". Hoje há um intenso debate na sociedade sobre o combate a essa rejeição. Os evangélicos se preocupam com a possibilidade de serem proibidos de pregar contra o homossexualismo. Por outro lado, muitas vezes os homossexuais são espancados e mortos e a igreja se silencia sobre o assunto.

A questão também está na agenda política. O Governo Federal se preocupa muito com os movimentos LGBT, tanto que criou o Prêmio Cultural LGBT 2009, que foi tema do post anterior do blog. A educação também não está fora das preocupações governamentais, tanto que o Ministério da Educação possui o programa Escola Sem Homofobia, que treina professores para conscientizarem os alunos e combaterem a homofobia.

Mas, qual deve ser o posicionamento bíblico em relação ao assunto? Até que ponto é válido criticar o comportamento homossexual? E quando a Igreja pode ser acusada de omissa por se calar na defesa dos homossexuais? Para responder a essa pergunta, precisamos colocar alguns pontos bíblicos.

1) Homossexualismo é pecado. Quanto a isso, não pode existir dúvidas. Tanto versículos do Antigo Testamento como do Novo Testamento deixam claro que o desejo e a prática homossexuais, em todas as suas variantes, são considerados abomináveis pelo Senhor. Não há margem para novas interpretações, defendendo uma diversidade sexual cristã, colocando que Deus aceita todas as formas de amor. Essas novas interpetações são defendidas por algumas igrejas "evangélicas", como a do Acalanto ou a Igreja da Comunidade Metropolitana. Se há dúvidas quanto a isso, é preciso entender que amor e justiça (ou seja, a prática adequada dos mandamentos divinos) andam juntos:
O amor(...) não se alegra com a injustiça, mas regozija-se com a verdade. (1 Coríntios 13:4a, 6)
Amar não é aceitar tudo o que a pessoa faz ou referendar os desejos das pessoas. O amor é de acordo com a vontade de Deus. E a Bíblia indica claramente que a condenação do homossexualismo não é algo cultural:
Ou não sabeis que os injustos não herdarão o reino de Deus? Não vos enganeis: nem impuros, nem idólatras, nem adúlteros, nem efeminados, nem sodomitas, nem ladrões, nem avarentos, nem bêbados, nem maldizentes, nem roubadores herdarão o reino de Deus. (1 Coríntios 6:9-10)
Se a condenação ao homossexualismo é cultural, então poderíamos dizer o mesmo do adultério, da idolatria, da bebedice...e talvez até mesmo da idéia em si de uma condenação. Nesse sentido, a Bíblia, Deus e os bons cristãos são sim homofóbicos.

2) Odiar os homossexuais é pecado. Uma coisa é reconhecer que o homossexualismo é pecado, outra coisa é odiar, ofender, agredir ou perseguir homossexuais. Embora a Bíblia condene o pecado, a ordem bíblica é a de que devemos amar o nosso próximo, seja ele quem for, tenha ele o comportamento que tiver. E amar é mais do que simplesmente respeitar, é desejar o bem, é fazer o bem em favor do nosso próximo, mesmo que ele seja homossexual. É pegarmos o texto de 1 Coríntios 13 e o aplicarmos a todas as pessoas, inclusive aos LGBT. Claro que, como disse acima, amor e justiça andam juntos, e, em se tratando de cristãos, amar os homossexuais significa sim desejar que eles deixem a homossexualidade. Significa pregar a eles, proclamar que esse tipo de comportamento é pecaminoso, mesmo que isso signifique atrair o ódio deles.

Aplicações
Toda a prática cristã a respeito da homofobia deve ser orientada pelas duas verdades acima. Mas, como isso se aplica. De várias formas:

1) Os evangélicos devem lutar pelo direito de pregar o que a Bíblia ensina sobre a homossexualidade. Devemos lutar contra qualquer projeto de lei que proíba a condenação do comportamento homossexual.
2) Os evangélicos também tem o direito de manifestar a sua opinião e votar contra o casamento gay ou a adoção de crianças por casais homossexuais.
3) Por outro lado, os evangélicos têm o dever de lamentar e lutar contra a discriminação contra os homossexuais. Uma coisa é a confrontação dura, mas piedosa. Outra é fazer piadas, imitar trejeitos, xingar ou ofender. Ou querer discriminar na hora de contratar, por exemplo. Afinal, se homossexuais são pecadores, os heterossexuais também o são: adúlteros, mentirosos, corruptos, etc. A discriminação é pecaminosa...e devemos nos envolver ativamente no combate a ela.
4) Os evangélicos devem lutar contra toda violência ou agressão física cometida contra os homossexuais. Também devemos nos engajar na luta contra esse tipo de pecado.
5) Os evangélicos devem batalhar para que a educação sexual seja tarefa da família, e não da escola. Para isso, devemos ser bem atuantes na fiscalização do dia-a-dia das escolas. Mas não devemos combater as campanhas educativas de combate a todo tipo de discriminação.

Não é, exatamente, o que tenho visto ser feito pelas igrejas. Aliás, há uma reflexão intensa sobre a condenação ao homossexualismo, mas pouca sobre como devemos lidar com a homofobia e os homossexuais em si (que não será assunto deste post, mas talvez de um próximo). Que este texto seja, digamos assim, a minha modesta (e talvez polêmica) contribuição sobre o assunto.

19 março 2009

Ministério da Cultura abre edital para Prêmio Cultural LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais e Transgêneros) 2009

Como sou funcionário público, não posso desenvolver muito a argumentação sobre este assunto. Mas a sociedade precisa saber que o Ministério da Cultura abriu o edital do Prêmio LGBT 2009, que vai dar R$ 23 mil a organizações que ajudem no combate à homofobia e trabalhem pela divulgação da causa de lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais e transgêneros, o movimento LGBT. Mais informações clicando aqui.

Embora vivamos em um Estado laico, onde há separação entre Igreja e Estado, creio que as igrejas têm sim o direito de se manifestar, inclusive condenando ações governamentais como essa. Acho que alguns questionamentos cabem:

1) Por que a orientação sexual é considerada cultura pelo Governo Federal? Qual a base lógica para isso? Que conceito de cultura é adotado pelo Governo, que é tão amplo a ponto de abranger esse tipo de iniciativa?

2) Uma coisa é permitir que cada um tenha a liberdade de fazer a sua "opção sexual". Mas é papel do Estado usar dinheiro público para divulgar ou incentivar movimentos que atuam em prol de uma opção?

Perguntas que os cristãos de todo o país deveriam estar se fazendo...e fazendo também às autoridades do Ministério da Cultura que pretendem investir R$ 1,242 mi de reais neste prêmio. Na minha visão, acho louvável o combate à homofobia em suas formas violentas e preconceituosas que firam o princípio do amor ao próximo (embora os cidadãos devam ter o direito político e bíblico de reprovarem abertamente o comportamento homossexual), mas não a promoção da causa pelo Estado.

Encerro o post com uma passagem bíblica que mostra o ponto de vista evangélico e protestante sobre o assunto:
Por causa disso, os entregou Deus a paixões infames; porque até as mulheres mudaram o modo natural de suas relações íntimas por outro, contrário à natureza; semelhantemente, os homens também, deixando o contato natural da mulher, se inflamaram mutuamente em sua sensualidade, cometendo torpeza, homens com homens, e recebendo, em si mesmos, a merecida punição do seu erro. (Romanos 1:26-27)

12 março 2009

Vale-tudo da fé?

Porque, sendo livre de todos, fiz-me escravo de todos, a fim de ganhar o maior número possível. Procedi, para com os judeus, como judeu, a fim de ganhar os judeus; para os que vivem sob o regime da lei, como se eu mesmo assim vivesse, para ganhar os que vivem debaixo da lei, embora não esteja eu debaixo da lei. Aos sem lei, como se eu mesmo o fosse, não estando sem lei para com Deus, mas debaixo da lei de Cristo, para ganhar os que vivem fora do regime da lei. Fiz-me fraco para com os fracos, com o fim de ganhar os fracos. Fiz-me tudo para com todos, com o fim de, por todos os modos, salvar alguns. Tudo faço por causa do evangelho, com o fim de me tornar cooperador com ele. Não sabeis vós que os que correm no estádio, todos, na verdade, correm, mas um só leva o prêmio? Correi de tal maneira que o alcanceis. Todo atleta em tudo se domina; aqueles, para alcançar uma coroa corruptível; nós, porém, a incorruptível. Assim corro também eu, não sem meta; assim luto, não como desferindo golpes no ar. Mas esmurro o meu corpo e o reduzo à escravidão, para que, tendo pregado a outros, não venha eu mesmo a ser desqualificado. (1 Coríntios 9:19-27)
Se para evangelizar é preciso aparecer, algumas denominações evangélicas realmente se superam para chamar a atenção da imprensa. A última agora é o primeiro campeonato de vale-tudo gospel promovido pela Igreja Renascer em Cristo. Segundo reportagem da Folha Online, as lutas já renderam 60 conversões e o objetivo é atrair mais jovens para a igreja.

Qual a justificativa para a realização desse tipo de estratégia evangelística? Para muitos pastores, a resposta está no texto bíblico lido acima. As lutas seriam uma forma de "proceder como judeu a fim de ganhar os judeus". O campeonato seria a mesma coisa que organizar um torneio esportivo de futebol na igreja, montar um show de heavy metal gospel ou skates no estacionamento do templo. Mas, será que é esse o caso?

Vamos dar uma olhadinha em alguns tópicos antes de me posicionar.

1) A igreja vai até o mundo antes do mundo ir até a igreja.
Uma coisa que me chama a atenção no texto era que Paulo ia até os judeus e os que viviam debaixo da Lei para conviver com eles. Hoje a estratégia me parece um pouco oposta...a idéia é fazer o evangelismo dentro da área de influência da igreja...montando um ringue ou uma boate no templo, e não o contrário.

Na verdade, o que quero destacar é que a atitude de Paulo foi individual. Assim, ele não diz que fez a igreja de Éfeso agir como uma igreja judia ou grega, não afirma que alterou o culto para adequá-lo ao público da ocasião, nada disso. Paulo é quem fez adaptações no comportamento.

E aqui cabe mais uma observação. A idéia que o texto traz é a de que Paulo fazia sacrifícios para pregar. Ele se esforçava para não escandalizar as pessoas para quem falava. Por exemplo, para judeus muito zelosos da Lei, ele se sacrificava para viver uma vida que não escandalizasse os legalistas (como se eu mesmo assim vivesse). Já com os gentios (não judeus) libertinos, que se recusavam a seguir leis, Paulo vivia como se estivesse sem lei, talvez evitando impor a eles de pronto um padrão que eles não aceitavam.

Por isso, creio que o espírito de Paulo era o seguinte: evitar escandalizar as pessoas e construir pontes para alcançá-las. E aí, o vale-tudo, ao meu ver, já fracassa...porque pode até construir pontes, mas escandaliza pela violência corporal associada a pregação de um Evangelho que parece ensinar exatamente o oposto:
Eu, porém, vos digo: não resistais ao perverso; mas, a qualquer que te ferir na face direita, volta-lhe também a outra... (Mateus 5:39)
Não que o versículo proíba o cristão de aprender e até de competir em artes marciais...mas competições com poucas regras de proteção, que glorificam o mais forte na arena, onde o chamariz é exatamente a violência e o número reduzido de regras (vale-tudo), como isso pode se harmonizar com ensino de Jesus?

2) A evangelização não compromete a santidade. Quando lemos o texto de modo mais completo, vendo depois do versículo 24, vemos que Paulo encarava a evangelização como um grande esforço e uma grande recompensa. Ele compara a evangelização a uma corrida no estádio, que exigia domínio (1 Co 9:25), metas (1 Co 9:26), lutas (1 Co 9:26) e até mesmo "murros e escravidão" (1 Co 9:27). O prêmio, no caso, são as almas alcançadas pelo Evangelho. Mas Paulo não se preocupava apenas em ganhar as pessoas, como é a mentalidade de hoje. A grande preocupação de Paulo era "para que, tendo pregado a outros, não venha eu mesmo a ser desqualificado." (1 Co 9:27)

Ao meu ver, uma das desqualificações seria exatamente escandalizar os ouvintes. Mas penso que, em outras palavras, Paulo se preocupava em não pecar, ou seja, em não ser desqualificado por sua própria pregação. Como ele poderia, de fato, anunciar a salvação em Cristo Jesus, se a vida dele fosse o retrato de alguém que não foi transformado por Cristo?

Sem santidade, sem uma vida de acordo com a Palavra (porque Paulo pregava a Palavra), não adianta se fazer de judeu com os judeus, de metaleiro com os metaleiros ou de chinês com os chineses. Se o futebol na igreja terminar em violência, se a boate dá lugar à impureza sexual, se o vale-tudo gera reações de reprovação...de que adianta?

Qualquer estratégia evangelística pecaminosa é uma desqualificação. A estratégia certa executada por pessoas sem testemunho também é uma desqualificação. A santidade acompanha a evangelização.

3) Evangelizar é pregar a Palavra.
Hoje, a exposição da Bíblia não parece lá muito essencial na evangelização. As grandes estratégias demandam muito tempo com a "isca adequada" (futebol, skate, rap, vale-tudo, ação social, etc) e outros detalhes, como ornamentação, convites, aparelhagem de som, montagem de estruturas (como ringues), figurino de peças de teatro, etc. Mas, quanto nós gastamos, em tempo e energia, pensando na forma certa de pregar o Evangelho? A pregação se tornou algo secundário.

Mas não para Paulo. Em 1 Coríntios 9:27, Paulo falava que pregava aos outros. O esforço dele em construir pontes, não escandalizar e ter uma conduta correta era para que ele tivesse uma oportunidade de pregar e ser ouvido.

Aliás, olhando para um contexto mais amplo, vemos que Paulo se preocupava era com a pregação mesmo, e não com outras coisas:
Porque não me enviou Cristo para batizar, mas para pregar o evangelho; não com sabedoria de palavra, para que não se anule a cruz de Cristo. (1 Coríntios 1:17)

Visto como, na sabedoria de Deus, o mundo não o conheceu por sua própria sabedoria, aprouve a Deus salvar os que crêem pela loucura da pregação. (1 Coríntios 1:21)

Porque decidi nada saber entre vós, senão a Jesus Cristo, e este crucificado. (1 Coríntios 2:2)
Parafraseando Paulo, Cristo não me chamou para organizar campeonatos esportivos, shows de músicas ou coisas assim...mas sim para pregar o Evangelho. É a pregação que salva, não o skate ou o vale-tudo. E, da minha parte, que eu me limite a pregar o Cristo crucificado aos que não O conhecem.

Claro que tenho sim, que construir pontes e contextualizar a mensagem com quem é diferente de mim. Mas, sem comprometer a santidade e evitando os escândalos. Para a glória de Cristo!

08 março 2009

Os erros e acertos do arcebispo

O caso da menina de nove anos que foi estuprada pelo padrasto, engravidou de gêmeos, abortou as crianças e viu a mãe e os médicos que a atenderam serem excomungados pelo arcebispo de Olinda e Recife comoveu o Brasil e se tornou objeto de uma intensa polêmica religiosa. Afinal, o aborto, neste caso, é ou não aceitável? E a excomunhão dos médicos e da mãe? E por que o padrasto não foi excomungado pela Igreja Católica?

E já que muitas pessoas querem saber o que os evangélicos pensam sobre o assunto, e eu sou um pastor com o dever de marcar posição, vou expor aqui o que, na minha visão, é o ponto de vista bíblico sobre o caso.

1) A Bíblia reconhece a vida dentro do útero. Na verdade, para a Bíblia, a origem da vida é a concepção, é identificada no momento da relação sexual, e não na nidação (quando o óvulo se fixa na parede do útero) ou na hora do parto:
Elcana coabitou com Ana, sua mulher, e, lembrando-se dela o SENHOR, ela concebeu e, passado o devido tempo, teve um filho, pois dizia: Do SENHOR o pedi. (1 Samuel 1:19b-20)

Ele (Judá), pois, lhos deu e a possuiu; e ela concebeu dele. (Gênesis 38:18)
Mais do que isso, após a concepção, a vida humana é plenamente reconhecida na Bíblia:
Pois tu formaste o meu interior, tu me teceste no seio de minha mãe. Graças te dou, visto que por modo assombrosamente maravilhoso me formaste; as tuas obras são admiráveis, e a minha alma o sabe muito bem; os meus ossos não te foram encobertos, quando no oculto fui formado e entretecido como nas profundezas da terra. Os teus olhos me viram a substância ainda informe, e no teu livro foram escritos todos os meus dias, cada um deles escrito e determinado, quando nem um deles havia ainda. (Salmo 139:13-16)

Antes que eu te formasse no ventre materno, eu te conheci, e, antes que saísses da madre, te consagrei, e te constituí profeta às nações. (Jeremias 1:5)

Pois ele será grande diante do Senhor, não beberá vinho nem bebida forte e será cheio do Espírito Santo, já do ventre materno. (Lucas 1:15)

Pois, logo que me chamou aos ouvidos a voz da tua saudação, a criança estremeceu de alegria dentro de mim. (Lucas 1:44)

Quando, porém, ao que me separou antes de eu nascer e me chamou pela sua graça... (Gálatas 1:15a)
Veja bem, antes das pessoas nascerem, a Bíblia diz que Deus as forma, as conhece, as consagra, as chama e até enche com o Espírito Santo. João Batista, por sua vez, já estremecia de alegria quando ouviu a voz de Maria, a mãe do Messias. Isso nos leva à segunda conclusão.

2) Aborto é igual a assassinato. Não há outra conclusão. O ser humano, em seus estágios embrionários, é reconhecido como um indivíduo pela Bíblia, como pudemos ver no tópico acima. E aí o arcebispo acertou. É ferir o sexto mandamento:
Não matarás. (Ex 20:13)
3) O estupro não é justificativa para o aborto...os filhos não levam os pecados dos pais. Que estupro é um pecado, é algo que nem precisava de prova bíblica. O post anterior desse blog já esclarece implicitamente essa questão. Mas, se há dúvidas, estupro na Bíblia é pecado comparado a homicídio:
Porém, se algum homem no campo achar moça desposada, e a forçar, e se deitar com ela, então, morrerá só o homem que se deitou com ela; à moça não farás nada; ela não tem culpa de morte, porque, como o homem que se levanta contra o seu próximo e lhe tira a vida, assim também é este caso. Pois a achou no campo; a moça desposada gritou, e não houve quem a livrasse. (Deuteronômio 22:23-26)
No entanto, se o estupro gerar uma criança, ela é inocente do pecado do pai. Matar um embrião apenas porque é fruto de uma violência sexual é fazer o filho morrer pelo pecado do pai, e isso é condenado na Bíblia:
Os pais não serão mortos em lugar dos filhos, nem os filhos, em lugar dos pais; cada qual será morto pelo seu pecado. (Deuteronômio 24:16)

A alma que pecar, essa morrerá; o filho não levará a iniqüidade do pai, nem o pai, a iniqüidade do filho; a justiça do justo ficará sobre ele, e a perversidade do perverso cairá sobre este. (Ezequiel 18:20)
Ou seja, embora a lei brasileira permita o aborto em caso de estupro, a lei de Deus não dá essa permissão. E aqui, quase que o arcebispo acertou...a lei de Deus está mesmo acima da lei dos homens. Pena é que ele se referia à lei canônica da Igreja Católica, e não à Bíblia. Mas aqui ele também errou feio. Estupro é sim motivo de excomunhão na Bíblia...é motivo até de pena de morte aplicada pelo Estado (sobre pena de morte, escrevo em outro post depois). Aliás, na Bíblia, qualquer pecado entre irmãos é motivo de excomunhão:
Se teu irmão pecar contra ti, vai argui-lo entre ti e ele só. Se ele te ouvir, ganhaste a teu irmão. Se, porém, não te ouvir, toma ainda contigo uma ou duas pessoas, para que, pelo depoimento de duas ou três testemunhas, toda palavra se estabeleça. E, se ele não os atender, dize-o à igreja; e, se recusar ouvir também a igreja, considera-o como gentio e publicano. (Mateus 18:15-17)
4) Há silêncio na Bíblia sobre aborto em caso de risco de morte para a mãe. Pelo menos eu não encontrei nenhum versículo ou episódio que mostre alguma sinalização nesse sentido. Mas eu entendo que o "Não matarás" inclui também a idéia de que a vida deve ser preservada o máximo possível. Há quem questione se realmente existe o dilema médico de "salvo a mãe" ou "salvo os filhos". Como não sou médico e não achei versículo, não posso falar muito. Mas, na minha opinião, nesse caso o aborto é sim justificável, para salvar a vida da mãe. Acho mesquinho o argumento de "mataram dois para salvar uma". Até porque, as três vidas poderiam morrer, e aí é melhor ter uma vida do que nenhuma. Não é aritmética, é um dilema ético que eu não desejo para ninguém. Mas, se acontecesse comigo, eu optaria pela mãe, porque a vida do feto não é tão preciosa quanto a da mãe:
Se homens brigarem, e ferirem mulher grávida, e forem causa de que aborte, porém sem maior dano, aquele que feriu será obrigado a indenizar segundo lhe exigir o marido da mulher; e pagará como os juízes lhe determinarem. Mas, se houver dano grave, então darás vida por vida, olho por olho, dente por dente, mão por mão, pé por pé, queimadura por queimadura, ferimento por ferimento, golpe por golpe. (Êxodo 21:23-25)
Desta maneira, ao meu ver, errou feio o arcebispo por excomungar a mãe e os médicos. No caso específico da menina, se era realmente arriscado demais prosseguir com a gestação, então entendo que o aborto é permitido.

No entanto, a minha posição não é um consenso entre os evangélicos. O Mastigue parece condenar o aborto como foi feito. O blog do Rev. Alfredo de Souza condena enfaticamente o aborto da menina. Já o Tempora Mores preferiu não emitir opinião. O que mostra como o assunto é polêmico.

De qualquer forma, há outros assuntos neste caso que merecem reflexão. O que deveria acontecer com o estuprador? Pra mim, era pena de morte. Como evitar esse tipo de situação dentro da família? Como Jesus pode restaurar a vida dessa menina e de sua família?

Que, ao invés de aumentar a dor dessa família, os verdadeiros cristãos se dediquem a orar por ela. E, caso haja a oportunidade, de pregarmos o Evangelho com ações e palavras a vidas tão destroçadas pelo pecado.

03 março 2009

Sexo antes do casamento

Não sabeis que os vossos corpos são membros de Cristo? E eu, porventura, tomaria os membros de Cristo e os faria membros de meretriz? Absolutamente, não. Ou não sabeis que o homem que se une à prostituta forma um só corpo com ela? Porque, como se diz, serão os dois uma só carne. Mas aquele que se une ao Senhor é um espírito com ele. Fugi da impureza. Qualquer outro pecado que uma pessoa cometer é fora do corpo; mas aquele que pratica a imoralidade peca contra o próprio corpo. Acaso, não sabeis que o vosso corpo é santuário do Espírito Santo, que está em vós, o qual tendes da parte de Deus, e que não sois de vós mesmos? Porque fostes comprados por preço. Agora, pois, glorificai a Deus no vosso corpo. (1 Coríntios 6:15-20)
Talvez a pergunta que mais surja na cabeça de jovens e adolescentes evangélicos é saber se é pecado ou não manter relações sexuais antes do casamento...e qual a base bíblica para isso. Alguns pastores têm ensinado que não há problema algum, mas a maioria, entre os quais eu me incluo, entende que o ensino claro da Bíblia é o de condenar o sexo antes e fora do casamento. As minhas razões seguem abaixo:

1) O lugar apropriado do sexo é o casamento. A oficialização do "casamento" varia conforme o tempo e o lugar. Nos tempos de Isaque e Rebeca, cerca de 1900 a.C, na região do Oriente Médio, isso podia ser feito mediante um acordo entre as famílias. Na sociedade ocidental do século XXI, o casamento é oficializado pelo Estado. (Para presbiterianos, não há casamento religioso, há apenas casamento). Mas, independente destas variantes culturais, a Bíblia identifica sexo e casamento quase que como sinônimos. O "tornar-se uma só carne" é, por razões óbvias, a relação sexual entre homem e mulher. Mas essa expressão é fortemente associada a casamento:
Por isso, deixa o homem pai e mãe e se une à sua mulher, tornando-se os dois uma só carne. (Gênesis 2:24)

Eis por que deixará o homem a seu pai e a sua mãe e se unirá à sua mulher e se tornarão os dois uma só carne. Grande é este mistério, mas eu me refiro à Cristo e à igreja. Não obstante, vós, cada um de per si também ame a própria esposa como a si mesmo, e a esposa respeite ao marido. (Efésios 5:31-33)

Por isso, deixará o homem a seu pai e mãe e unir-se-á a sua mulher, e com sua mulher, serão os dois uma só carne. De modo que já não são dois, mas uma só carne. Portanto, o que Deus ajuntou, não o separe o homem. (Marcos 10:7-9)
Esses textos mostram que, dentro de uma perspectiva bíblica, sexo e casamento são praticamente sinônimos. E esse é exatamente o padrão certo: o sexo deve ser vivenciado no casamento, e deve haver sexo no casamento (pelo menos em circunstâncias normais, quando não há impedimentos médicos). Na verdade, a Bíblia sempre pressupõe que os noivos são virgens:
Mas, se te casares, com isso não pecas; e também, se a virgem se casar; por isso não peca. Ainda assim, tais pessoas sofrerão angústia na carne, e eu quisera poupar-vos. (...) E, assim, quem casa a sua filha virgem faz bem; quem não a casa faz melhor. (1 Coríntios 7:28, 38)

Se um homem casar com uma mulher, e, depois de coabitar com ela, a aborrecer, e lhe atribuir atos vergonhosos, e contra ela divulgar má fama, dizendo: Casei com esta mulher e me cheguei a ela, porém não a achei virgem, então o pai da moça e sua mãe tomarão as provas da virgindade da moça e as levarão aos anciãos da cidade, à porta. (Deuteronômio 22:13-15)
Ou seja, se a mulher (e, por tabela, o homem) não fosse virgem no momento do casamento, alguma coisa estava errada. Um sinal forte de que, tanto no Novo como no Antigo Testamento, o sexo antes do casamento é condenado.

2) O corpo pertence a Deus. Em 1 Coríntios 6:15-20, Paulo faz quatro afirmações nesse sentido: nossos corpos são membros de Cristo, é santuário do Espírito Santo, não somos de nós mesmos e fomos comprados por preço. Em outras palavras, os cristãos não são livres para fazer o que quiserem com os seus corpos, pois eles são santos, "separados para o uso de Deus".

Para entendermos a gravidade dos pecados contra o corpo, talvez seja melhor fazermos uma comparação com o templo de Jerusalém, nos dias do Antigo Testamento. Deitar-se com uma prostituta é o mesmo que trazer uma prostituta para dentro do templo, na presença de Deus. É como misturar a prostituição com o culto ao Senhor. Os filhos de Eli caíram nesse pecado:
Era, porém, Eli já muito velho e ouvia tudo quanto seus filhos faziam a todo o Israel e de como se deitavam com as mulheres que serviam à porta da entrada da tenda da congregação. (1 Samuel 2:22)
E o "prêmio" deles por esse comportamento foi a morte:
Ser-te-à por sinal o que sobrevirá a teus dois filhos, a Hofni e Finéias: ambos morrerão no mesmo dia. (1 Samuel 2:34)
Da mesma forma, entregar o corpo à imoralidade, particularmente indo até à consumação do ato sexual de modo impuro, é como se nós estivéssemos trazendo um monte de ídolos e coisas imundas e colocando isso na Casa de Deus, diante da presença d'Ele!

Ou colocando de outra forma: imagine uma visita entrando na sua casa e começando a depositar sacos de lixo pela sua sala e emporcalhando o seu quarto e a sua cozinha com lama. Você assistiria impassível a essa ofensa? Agora, imagine a nossa falta de temor quando fazemos isso com o templo de Deus. Se nós ficamos furiosos, imaginem o Senhor!

O mesmo pode ser dito de outros pecados contra o corpo, como o uso de drogas e a má alimentação. Se nós somos o templo, então devemos preservá-lo, principalmente conservando a santidade.

3) "Ser uma só carne" é mais que uma união física. Se o corpo pertence ao Senhor, e um cristão se deita com uma meretriz, ele está indo além de uma simples profanação do templo do Espírito. Ele está promovendo uma espécie de união espiritual entre o Senhor e a meretriz. Afinal, quando alguém se une ao Senhor, a união é espiritual (1 Co 6:17). E, em conseqüência, quando ele se deita com a meretriz, ele está fazendo com que os membros de Cristo também sejam da meretriz (1 Co 6:15). Isso fica mais claro quando vemos que a relação sexual (união física) e o casamento são símbolos da união espiritual entre Cristo e a Igreja:
Porque ninguém jamais odiou a própria carne; antes, a alimenta e dela cuida, como também Cristo o faz com a igreja; porque somos membros do seu corpo. Eis por que deixará o homem a seu pai e a sua mãe e se unirá à sua mulher, e se tornarão os dois uma só carne. Grande é este mistério, mas eu me refiro a Cristo e à igreja. (Efésios 6:28-32)
Para Paulo, há um grande mistério no fato de homem e mulher se tornarem uma só carne. O que ele sabia é que essa união é uma referência ao casamento entre Cristo e a Igreja. E aqui fica um palpite meu: o ato sexual é mais que uma comunhão de corpos, é também uma comunhão de espíritos. Por mais que as pessoas façam sexo de modo casual e descompromissado, é sempre mais que um mero contato físico. Há sim envolvimentos emocionais, expectativas e desejos (conscientes ou não), algum tipo de envolvimento espiritual que nós não conseguimos quantificar. Uma intimidade que só é própria no casamento.

Não se relacionar fora do casamento é uma proteção emocional e espiritual. Evita que façamos apostas altas demais e tenhamos perdas severas e difíceis de reparar. É um sinal do amor de Deus por nós.

4) A Bíblia diz que sexo fora do casamento é pecado. Em 1 Coríntios 6, a Bíblia condena uma forma de "tornar-se uma só carne". Quando o cristão se deita com uma prostituta, isso é apontado como "impureza" (porneia) e "imoralidade" (porneuo) (v.18) (uso como aparece no dicionário, não a expressão flexionada, como está no texto grego). As palavras, segundo a Bíblia Online, significam "prostituir o próprio corpo para a concupiscência de outro, entregar-se a relação sexual ilícita, cometer fornicação, homossexualidade, lesbianismo, sexo com animais, entre outros". A ordem bíblica é clara, devemos fugir da "porneia", o que inclui a fornicação, o sexo fora do casamento. A imoralidade (porneuo) é um pecado que cometemos contra o nosso próprio corpo.

A mesma idéia surge em 1 Tessalonicenses 4:3-8:
Pois esta é a vontade de Deus: a vossa santificação, que vos abstenhais da prostituição (porneia); que cada um de vós saiba possuir o próprio corpo em santificação e honra, não com o desejo de lascívia (epithumia), como os gentios que não conhecem a Deus; e que, nesta matéria, ninguém ofenda (hyperbaino) nem defraude (pleonekteo) a seu irmão; porque o Senhor, contra todas estas coisas, como antes vos avisamos e testificamos claramente, é o vingador, porquanto Deus não nos chamou para a impureza (akatharsia), e sim para a santificação. Dessarte, quem rejeita estas coisas não rejeita o homem, e sim a Deus, que também vos dá o seu Espírito Santo.
Sonre porneia, já falamos o seu significado. Precisamos esclarecer outras palavras no grego:

* Epithumia = desejo, anelo, anseio, desejo pelo que é proibido, luxúria.
* Hyperbaino = passar sobre, além; transgredir, ultrapassar os limites, errar, pecar (metaf), de alguém que engana outro em negócios, sobressair.
* Pleonekteo = ter mais, ou parte ou porção maior; ser superior, exceder, superar, ter uma vantagem sobre; ganhar ou levar vantagem sobre os outros, superar.
* Akatharsia = impureza física; no sentido moral: impureza proveniente de desejos sexuais, luxuria, vida devassa; impureza de motivos.

Esclarecidos alguns significados, o que o texto de 1 Tessalonicenses 4:3-8 diz? Em primeiro lugar, que a vontade de Deus é que nos abstenhamos, que deixemos de praticar qualquer tipo de relação sexual ilícita, o que inclui o sexo fora do casamento (fornicação). Devemos tratar o corpo de modo santo e honroso, o que exclui até mesmo o desejo de fazer o que é proibido na área sexual. Isso já exclui, por exemplo, a pornografia. Viver "pensando naquilo", ardendo de desejos indevidos é ser como as pessoas que não conhecem a Deus.

E essas idéias não são novas. O Antigo Testamento condenava tanto a prática da fornicação como a maldade do coração, o cobiçar a mulher do próximo:
Não cobiçarás a casa do teu próximo. Não cobiçarás a mulher do teu próximo, nem o seu servo, nem a sua serva, nem o seu boi, nem o seu jumento, nem coisa alguma que pertença ao teu próximo. (Êxodo 20:17)

Se alguém seduzir qualquer virgem que não estava desposada e se deitar com ela, pagará seu dote e a tomará por mulher. Se o pai dela definitivamente recusar dar-lha, pagará ele em dinheiro conforme o dote das virgens. (Êxodo 22:16-17)
Desta maneira, há uma sólida base bíblica para afirmarmos, sem medo de errar, que o sexo antes do casamento é um pecado.

Mas, e quanto àqueles que já caíram neste erro? A solução aí é confessarmos o nosso pecado ao Senhor e deixá-lo. Como está escrito:
Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados e nos purificar de toda injustiça. (1 João 1:9)
Quando há arrependimento, há a segunda, a terceira e até a enésima chance. Deus não nos abandona e não será por isso que deixaremos de nos casar ou de sermos felizes. O que não podemos fazer é parar de lutar e nos entregarmos ao pecado. Mas, se confiarmos em Deus...Ele nos dará a vitória!