08 março 2009

Os erros e acertos do arcebispo

O caso da menina de nove anos que foi estuprada pelo padrasto, engravidou de gêmeos, abortou as crianças e viu a mãe e os médicos que a atenderam serem excomungados pelo arcebispo de Olinda e Recife comoveu o Brasil e se tornou objeto de uma intensa polêmica religiosa. Afinal, o aborto, neste caso, é ou não aceitável? E a excomunhão dos médicos e da mãe? E por que o padrasto não foi excomungado pela Igreja Católica?

E já que muitas pessoas querem saber o que os evangélicos pensam sobre o assunto, e eu sou um pastor com o dever de marcar posição, vou expor aqui o que, na minha visão, é o ponto de vista bíblico sobre o caso.

1) A Bíblia reconhece a vida dentro do útero. Na verdade, para a Bíblia, a origem da vida é a concepção, é identificada no momento da relação sexual, e não na nidação (quando o óvulo se fixa na parede do útero) ou na hora do parto:
Elcana coabitou com Ana, sua mulher, e, lembrando-se dela o SENHOR, ela concebeu e, passado o devido tempo, teve um filho, pois dizia: Do SENHOR o pedi. (1 Samuel 1:19b-20)

Ele (Judá), pois, lhos deu e a possuiu; e ela concebeu dele. (Gênesis 38:18)
Mais do que isso, após a concepção, a vida humana é plenamente reconhecida na Bíblia:
Pois tu formaste o meu interior, tu me teceste no seio de minha mãe. Graças te dou, visto que por modo assombrosamente maravilhoso me formaste; as tuas obras são admiráveis, e a minha alma o sabe muito bem; os meus ossos não te foram encobertos, quando no oculto fui formado e entretecido como nas profundezas da terra. Os teus olhos me viram a substância ainda informe, e no teu livro foram escritos todos os meus dias, cada um deles escrito e determinado, quando nem um deles havia ainda. (Salmo 139:13-16)

Antes que eu te formasse no ventre materno, eu te conheci, e, antes que saísses da madre, te consagrei, e te constituí profeta às nações. (Jeremias 1:5)

Pois ele será grande diante do Senhor, não beberá vinho nem bebida forte e será cheio do Espírito Santo, já do ventre materno. (Lucas 1:15)

Pois, logo que me chamou aos ouvidos a voz da tua saudação, a criança estremeceu de alegria dentro de mim. (Lucas 1:44)

Quando, porém, ao que me separou antes de eu nascer e me chamou pela sua graça... (Gálatas 1:15a)
Veja bem, antes das pessoas nascerem, a Bíblia diz que Deus as forma, as conhece, as consagra, as chama e até enche com o Espírito Santo. João Batista, por sua vez, já estremecia de alegria quando ouviu a voz de Maria, a mãe do Messias. Isso nos leva à segunda conclusão.

2) Aborto é igual a assassinato. Não há outra conclusão. O ser humano, em seus estágios embrionários, é reconhecido como um indivíduo pela Bíblia, como pudemos ver no tópico acima. E aí o arcebispo acertou. É ferir o sexto mandamento:
Não matarás. (Ex 20:13)
3) O estupro não é justificativa para o aborto...os filhos não levam os pecados dos pais. Que estupro é um pecado, é algo que nem precisava de prova bíblica. O post anterior desse blog já esclarece implicitamente essa questão. Mas, se há dúvidas, estupro na Bíblia é pecado comparado a homicídio:
Porém, se algum homem no campo achar moça desposada, e a forçar, e se deitar com ela, então, morrerá só o homem que se deitou com ela; à moça não farás nada; ela não tem culpa de morte, porque, como o homem que se levanta contra o seu próximo e lhe tira a vida, assim também é este caso. Pois a achou no campo; a moça desposada gritou, e não houve quem a livrasse. (Deuteronômio 22:23-26)
No entanto, se o estupro gerar uma criança, ela é inocente do pecado do pai. Matar um embrião apenas porque é fruto de uma violência sexual é fazer o filho morrer pelo pecado do pai, e isso é condenado na Bíblia:
Os pais não serão mortos em lugar dos filhos, nem os filhos, em lugar dos pais; cada qual será morto pelo seu pecado. (Deuteronômio 24:16)

A alma que pecar, essa morrerá; o filho não levará a iniqüidade do pai, nem o pai, a iniqüidade do filho; a justiça do justo ficará sobre ele, e a perversidade do perverso cairá sobre este. (Ezequiel 18:20)
Ou seja, embora a lei brasileira permita o aborto em caso de estupro, a lei de Deus não dá essa permissão. E aqui, quase que o arcebispo acertou...a lei de Deus está mesmo acima da lei dos homens. Pena é que ele se referia à lei canônica da Igreja Católica, e não à Bíblia. Mas aqui ele também errou feio. Estupro é sim motivo de excomunhão na Bíblia...é motivo até de pena de morte aplicada pelo Estado (sobre pena de morte, escrevo em outro post depois). Aliás, na Bíblia, qualquer pecado entre irmãos é motivo de excomunhão:
Se teu irmão pecar contra ti, vai argui-lo entre ti e ele só. Se ele te ouvir, ganhaste a teu irmão. Se, porém, não te ouvir, toma ainda contigo uma ou duas pessoas, para que, pelo depoimento de duas ou três testemunhas, toda palavra se estabeleça. E, se ele não os atender, dize-o à igreja; e, se recusar ouvir também a igreja, considera-o como gentio e publicano. (Mateus 18:15-17)
4) Há silêncio na Bíblia sobre aborto em caso de risco de morte para a mãe. Pelo menos eu não encontrei nenhum versículo ou episódio que mostre alguma sinalização nesse sentido. Mas eu entendo que o "Não matarás" inclui também a idéia de que a vida deve ser preservada o máximo possível. Há quem questione se realmente existe o dilema médico de "salvo a mãe" ou "salvo os filhos". Como não sou médico e não achei versículo, não posso falar muito. Mas, na minha opinião, nesse caso o aborto é sim justificável, para salvar a vida da mãe. Acho mesquinho o argumento de "mataram dois para salvar uma". Até porque, as três vidas poderiam morrer, e aí é melhor ter uma vida do que nenhuma. Não é aritmética, é um dilema ético que eu não desejo para ninguém. Mas, se acontecesse comigo, eu optaria pela mãe, porque a vida do feto não é tão preciosa quanto a da mãe:
Se homens brigarem, e ferirem mulher grávida, e forem causa de que aborte, porém sem maior dano, aquele que feriu será obrigado a indenizar segundo lhe exigir o marido da mulher; e pagará como os juízes lhe determinarem. Mas, se houver dano grave, então darás vida por vida, olho por olho, dente por dente, mão por mão, pé por pé, queimadura por queimadura, ferimento por ferimento, golpe por golpe. (Êxodo 21:23-25)
Desta maneira, ao meu ver, errou feio o arcebispo por excomungar a mãe e os médicos. No caso específico da menina, se era realmente arriscado demais prosseguir com a gestação, então entendo que o aborto é permitido.

No entanto, a minha posição não é um consenso entre os evangélicos. O Mastigue parece condenar o aborto como foi feito. O blog do Rev. Alfredo de Souza condena enfaticamente o aborto da menina. Já o Tempora Mores preferiu não emitir opinião. O que mostra como o assunto é polêmico.

De qualquer forma, há outros assuntos neste caso que merecem reflexão. O que deveria acontecer com o estuprador? Pra mim, era pena de morte. Como evitar esse tipo de situação dentro da família? Como Jesus pode restaurar a vida dessa menina e de sua família?

Que, ao invés de aumentar a dor dessa família, os verdadeiros cristãos se dediquem a orar por ela. E, caso haja a oportunidade, de pregarmos o Evangelho com ações e palavras a vidas tão destroçadas pelo pecado.

2 comentários:

Alice disse...

Começando do mais óbvio, a Igreja Católica excomunga quem aprova aborto, assim como não aprova contracepção. Então, acredito que para a Igreja, não foi um problema de justificativas suficientes para o aborto. Em qualquer circunstância, a gestação deveria ser mantida.
Quanto a 'matar dois pra salvar um', isso poderia ser considerado caso a garota estivesse em condições de continuar com saúde satisfatória durante a gestação. Entretanto, o próprio corpo dela, mais adiante, poderia dar um jeito de se livrar do problema.
Quanto ao pai, seja feita a justiça que está às nossas mãos, e a justiça divina será também acometida ao agressor.
O que mais me incomoda é o estado psicológico da menina. 9 anos, agredida, estuprada, engravida, gêmeos, faz um aborto (com discussões sobre fazer ou não). O que será que passa na cabeça dela? Uma criança. Vítima em todas as circunstâncias. Eu acredito que o aborto encerra a história - por mais que ela fique na memória. Se a gestação continuasse, acredito que toda essa situação a que está submetida se manteria, talvez, indefinidamente.
Eu sou a favor de aborto em casos de estupro ou risco de morte da mãe. E a favor de contracepção.


Abraço

matheusme disse...

sobre este texto da lei mosaica, existem comentários interessantes num fórum:
http://forum.monergismo.com/index.php?topic=303.0