12 março 2009

Vale-tudo da fé?

Porque, sendo livre de todos, fiz-me escravo de todos, a fim de ganhar o maior número possível. Procedi, para com os judeus, como judeu, a fim de ganhar os judeus; para os que vivem sob o regime da lei, como se eu mesmo assim vivesse, para ganhar os que vivem debaixo da lei, embora não esteja eu debaixo da lei. Aos sem lei, como se eu mesmo o fosse, não estando sem lei para com Deus, mas debaixo da lei de Cristo, para ganhar os que vivem fora do regime da lei. Fiz-me fraco para com os fracos, com o fim de ganhar os fracos. Fiz-me tudo para com todos, com o fim de, por todos os modos, salvar alguns. Tudo faço por causa do evangelho, com o fim de me tornar cooperador com ele. Não sabeis vós que os que correm no estádio, todos, na verdade, correm, mas um só leva o prêmio? Correi de tal maneira que o alcanceis. Todo atleta em tudo se domina; aqueles, para alcançar uma coroa corruptível; nós, porém, a incorruptível. Assim corro também eu, não sem meta; assim luto, não como desferindo golpes no ar. Mas esmurro o meu corpo e o reduzo à escravidão, para que, tendo pregado a outros, não venha eu mesmo a ser desqualificado. (1 Coríntios 9:19-27)
Se para evangelizar é preciso aparecer, algumas denominações evangélicas realmente se superam para chamar a atenção da imprensa. A última agora é o primeiro campeonato de vale-tudo gospel promovido pela Igreja Renascer em Cristo. Segundo reportagem da Folha Online, as lutas já renderam 60 conversões e o objetivo é atrair mais jovens para a igreja.

Qual a justificativa para a realização desse tipo de estratégia evangelística? Para muitos pastores, a resposta está no texto bíblico lido acima. As lutas seriam uma forma de "proceder como judeu a fim de ganhar os judeus". O campeonato seria a mesma coisa que organizar um torneio esportivo de futebol na igreja, montar um show de heavy metal gospel ou skates no estacionamento do templo. Mas, será que é esse o caso?

Vamos dar uma olhadinha em alguns tópicos antes de me posicionar.

1) A igreja vai até o mundo antes do mundo ir até a igreja.
Uma coisa que me chama a atenção no texto era que Paulo ia até os judeus e os que viviam debaixo da Lei para conviver com eles. Hoje a estratégia me parece um pouco oposta...a idéia é fazer o evangelismo dentro da área de influência da igreja...montando um ringue ou uma boate no templo, e não o contrário.

Na verdade, o que quero destacar é que a atitude de Paulo foi individual. Assim, ele não diz que fez a igreja de Éfeso agir como uma igreja judia ou grega, não afirma que alterou o culto para adequá-lo ao público da ocasião, nada disso. Paulo é quem fez adaptações no comportamento.

E aqui cabe mais uma observação. A idéia que o texto traz é a de que Paulo fazia sacrifícios para pregar. Ele se esforçava para não escandalizar as pessoas para quem falava. Por exemplo, para judeus muito zelosos da Lei, ele se sacrificava para viver uma vida que não escandalizasse os legalistas (como se eu mesmo assim vivesse). Já com os gentios (não judeus) libertinos, que se recusavam a seguir leis, Paulo vivia como se estivesse sem lei, talvez evitando impor a eles de pronto um padrão que eles não aceitavam.

Por isso, creio que o espírito de Paulo era o seguinte: evitar escandalizar as pessoas e construir pontes para alcançá-las. E aí, o vale-tudo, ao meu ver, já fracassa...porque pode até construir pontes, mas escandaliza pela violência corporal associada a pregação de um Evangelho que parece ensinar exatamente o oposto:
Eu, porém, vos digo: não resistais ao perverso; mas, a qualquer que te ferir na face direita, volta-lhe também a outra... (Mateus 5:39)
Não que o versículo proíba o cristão de aprender e até de competir em artes marciais...mas competições com poucas regras de proteção, que glorificam o mais forte na arena, onde o chamariz é exatamente a violência e o número reduzido de regras (vale-tudo), como isso pode se harmonizar com ensino de Jesus?

2) A evangelização não compromete a santidade. Quando lemos o texto de modo mais completo, vendo depois do versículo 24, vemos que Paulo encarava a evangelização como um grande esforço e uma grande recompensa. Ele compara a evangelização a uma corrida no estádio, que exigia domínio (1 Co 9:25), metas (1 Co 9:26), lutas (1 Co 9:26) e até mesmo "murros e escravidão" (1 Co 9:27). O prêmio, no caso, são as almas alcançadas pelo Evangelho. Mas Paulo não se preocupava apenas em ganhar as pessoas, como é a mentalidade de hoje. A grande preocupação de Paulo era "para que, tendo pregado a outros, não venha eu mesmo a ser desqualificado." (1 Co 9:27)

Ao meu ver, uma das desqualificações seria exatamente escandalizar os ouvintes. Mas penso que, em outras palavras, Paulo se preocupava em não pecar, ou seja, em não ser desqualificado por sua própria pregação. Como ele poderia, de fato, anunciar a salvação em Cristo Jesus, se a vida dele fosse o retrato de alguém que não foi transformado por Cristo?

Sem santidade, sem uma vida de acordo com a Palavra (porque Paulo pregava a Palavra), não adianta se fazer de judeu com os judeus, de metaleiro com os metaleiros ou de chinês com os chineses. Se o futebol na igreja terminar em violência, se a boate dá lugar à impureza sexual, se o vale-tudo gera reações de reprovação...de que adianta?

Qualquer estratégia evangelística pecaminosa é uma desqualificação. A estratégia certa executada por pessoas sem testemunho também é uma desqualificação. A santidade acompanha a evangelização.

3) Evangelizar é pregar a Palavra.
Hoje, a exposição da Bíblia não parece lá muito essencial na evangelização. As grandes estratégias demandam muito tempo com a "isca adequada" (futebol, skate, rap, vale-tudo, ação social, etc) e outros detalhes, como ornamentação, convites, aparelhagem de som, montagem de estruturas (como ringues), figurino de peças de teatro, etc. Mas, quanto nós gastamos, em tempo e energia, pensando na forma certa de pregar o Evangelho? A pregação se tornou algo secundário.

Mas não para Paulo. Em 1 Coríntios 9:27, Paulo falava que pregava aos outros. O esforço dele em construir pontes, não escandalizar e ter uma conduta correta era para que ele tivesse uma oportunidade de pregar e ser ouvido.

Aliás, olhando para um contexto mais amplo, vemos que Paulo se preocupava era com a pregação mesmo, e não com outras coisas:
Porque não me enviou Cristo para batizar, mas para pregar o evangelho; não com sabedoria de palavra, para que não se anule a cruz de Cristo. (1 Coríntios 1:17)

Visto como, na sabedoria de Deus, o mundo não o conheceu por sua própria sabedoria, aprouve a Deus salvar os que crêem pela loucura da pregação. (1 Coríntios 1:21)

Porque decidi nada saber entre vós, senão a Jesus Cristo, e este crucificado. (1 Coríntios 2:2)
Parafraseando Paulo, Cristo não me chamou para organizar campeonatos esportivos, shows de músicas ou coisas assim...mas sim para pregar o Evangelho. É a pregação que salva, não o skate ou o vale-tudo. E, da minha parte, que eu me limite a pregar o Cristo crucificado aos que não O conhecem.

Claro que tenho sim, que construir pontes e contextualizar a mensagem com quem é diferente de mim. Mas, sem comprometer a santidade e evitando os escândalos. Para a glória de Cristo!

3 comentários:

Daniel. disse...

Considero boa a idéia de usar "iscas" legais pra evangelizar, mesmo que seja dentro da igreja. Considero ruim, isso sim, se essas iscas estiverem erradas. Não sei até que ponto o campeonato de vale-tudo gospel foi realmente "vale-tudo". Mas a grande verdade do seu texto é que pouco - Às vezes NENHUM - tempo é gasto na preparação da (e na) pregação, que deveria ser a parte principal do evangelismo.

Eu acho que seria muito massa fazer um campeonato de vale-tudo num lugar apropriado pra isso, levando um monte de crente pra competir, e levar alguém pra pregar lá. Rolava também de os lutadores crentes - CRENTES - darem uns testemunhos e tal. Bem melhor do que levar o campeonato de vale-tudo pra dentro da igreja. O ministério com esportes é importante, mas o pessoal acaba colocando os esportes com 95% do tempo e o RESTO fica pra falar o que realmente importa. Dá pra melhorar. Tempo é uma coisa muito espiritual, que nem dinheiro.

Alice disse...

Eu acredito que as iscas têm dois problemas, meio óbvios, um pra quem joga, outro pra quem morde: pra quem joga, prepará-las, organizá-las, acaba com que a atenção dos próprios organizadores se volte muito mais para o atrativo do que para a evangelização. Pra quem morde a isca, o problema é conseqüência do primeiro: como o foco dos organizadores fica no atrativo, e não na evangelização, o programa é desperdiçado. Vira pura diversão, e ainda tem o problema dos ‘pré-conceitos’ e das rotulações: crente é tudo à toa, tem muito tempo pra ficar fazendo essas programaçõezinhas...
Eu, opinião minha, não gosto das iscas. Acredito que necessariamente acabam por confundir a cabeça do não-crente, quanto a qual é o objetivo da programação. Acredito que para crentes (realmente crentes) pode-se utilizar desses artifícios para entretenimento, mas para isso apenas.
Ainda é necessário trilhar um longo caminho para desvendarmos um modo eficaz de evangelizar, que atraia, mas que não confunda, nem escandalize, nem perca o foco.
Abraço

R. Reis disse...

Helder, vá em "personalizar" -> layout -> elementos da página ->
Existe um item chamado "adicionar gadget". Clique nele e vá em IMAGEM e clique no sinal "+" (adicionar)
Coloque um título e faça o upload do selo (salve antes no seu PC). Após isso clique em SALVAR.

Talvez tenha outra forma, mas desconheço.
Espero ter ajudado!

Bom fim de semana!

Rocelma Reis

Ao Redor da Jabuticabeira