15 abril 2009

Por que coisas ruins acontecem a pessoas boas?

Respondeu-lhe Jesus: Por que me perguntas acerca do que é bom? Bom só existe um. Se queres, porém, entrar na vidam guarda os mandamentos. (Mateus 19:16)

pois todos pecaram e carecem da glória de Deus. (Romanos 3:23)

porque o salário do pecado é a morte, mas o dom gratuito de Deus é a vida eterna em Cristo Jesus, nosso Senhor. (Romanos 6:23)
Uma das acusações mais frequentes feitas pelos homens contra Deus é a de que Ele é injusto. Afinal, os maus prosperam...ganham supersalários, vivem às custas do dinheiro público, são violentos...ao passo que, muitas vezes, os "bons", os justos, os que fazem o que é direito continuam sendo demitidos, ficando doentes, sozinhos e enfrentando aquilo que, aos nossos olhos, é uma grande injustiça. De fato, a pergunta é tão relevante que até virou um livro do rabino Harold Kushner, que ainda não li, mas confesso que é um dos objetivos de leitura da minha vida.

Mas a questão também é extremamente relevante do ponto de vista pastoral. Quando cristãos piedosos, que realmente se esforçaram para viver de acordo com os mandamentos de Jesus, sofrem perdas severas ou enfrentam períodos de intensa tribulação, a fé costuma vacilar. Foi o que aconteceu, por exemplo, com Asafe, quando ele escreveu o Salmo 73. Foi o tipo de dilema que levou Jó a entrar em crise no seu relacionamento com Deus. E, embora a Bíblia não traga detalhes a respeito, deve também ter atormentado a José do Egito, cuja história encontramos no livro de Gênesis.

Desta maneira, achar uma resposta a esta pergunta pode ser crucial. Não encontrá-la ou respondê-la de modo inadequado pode significar, de modo bem real, uma porta aberta para a apostasia, ou seja, para o abandono da fé.

Então, sem mais delongas...por que coisas ruins acontecem a pessoas boas?

1) Porque ninguém é bom. É exatamente o que disse Jesus ao jovem rico, quando este o procurou perguntando o que ele poderia fazer de bom. Na verdade, na minha opinião, Jesus já estava querendo mostrar que o jovem rico não era bom, como ele pensava. Afinal, como diz a parábola do servo inútil, em Lucas 17:10, se fizermos toda a Lei de Deus, somos servos inúteis, que só fizeram o que lhes foi ordenado. Não temos crédito algum com Deus.

Mas o status de "inútil", na verdade, está muito além do que o melhor de nós poderia sonhar. A grande realidade é que somos todos pecadores, transgressores, servos que desobedeceram às ordens do Senhor. Como diz Isaías, o nosso melhor ainda é imundo para Deus:
Mas todos nós somos como o imundo, e todas as nossas justiças, como trapo de imundícia; todos nós murchamos como a folha, e as nossas iniquidades, como um vento, nos arrebatam. (Isaías 64:6)
E qual a pena para esse crime? Como vimos acima é a morte. Ou, dito de modo mais claro, é o inferno, a condenação eterna, que a Bíblia chama de segunda morte:
Quanto, porém, aos covardes, aos incrédulos, aos abomináveis, aos assassinos, aos impuros, aos feiticeiros, aos idólatras e a todos os mentirosos, a parte que lhes cabe será no lago que arde com fogo e enxofre, a saber, a segunda morte. (Apocalipse 21:8)
Ainda que você pense não estar em nenhuma das categorias do versículo, já adianto que, se você cometeu um pecado, qualquer que seja, você já é abominável aos olhos de Deus e precisa da salvação em Cristo. Logo, a conclusão lógica é a de que o que nós realmente merecemos é o inferno.

Portanto, por mais duro que seja, mas qualquer coisa que recebamos além do inferno já é graça de Deus, isto é, um favor além do nosso merecimento, uma bênção. Estamos doentes? A enfermidade é uma graça...porque ela é melhor que o inferno. Está sendo preso, perseguido...caiu na miséria...foi rejeitado pela mulher? Isso tudo ainda é melhor que ir para o inferno. Ainda que aconteça conosco o mesmo que sucedeu a Jó...que perdeu filhos, bens, saúde, além do respeito dos amigos, da comunidade e da própria esposa, ainda assim...isso é melhor que ir para o inferno e é uma expressão da graça de Deus a nosso favor.

2) O julgamento começa pela casa de Deus.
A primeira carta de Pedro procura animar uma igreja sendo perseguida no Império Romano. E, enquanto Pedro fala acerca dos sofrimentos da igreja no capítulo 4, ele diz um versículo que revela muito, mas também é pouco lembrado:
Porque a ocasião de começar o juízo pela casa de Deus é chegada; ora, se primeiro vem por nós, qual será o fim daqueles que não obedecem ao evangelho de Deus? (1 Pedro 4:17)
O julgamento de Deus sobre a humanidade já começou...e os primeiros a comparecerem ao tribunal são, exatamente, os salvos! Isso não significa que estejamos sofrendo uma condenação ou pagando uma pena pelos nossos pecados, como se o sacrifício de Cristo não fosse suficiente para nos purificar por completo. Mas sim que somos disciplinados pelo Senhor, corrigidos por Ele. Como diz o autor de Hebreus (uma outra carta para encorajar uma igreja em sofrimento):
Ora, na vossa luta contra o pecado, ainda não tendes resistido até o sangue e estais esquecidos da exortação que, como a filhos, discorre convosco: Filho meu, não menosprezes a correção que vem do Senhor, nem desmaies quando por ele és reprovado; porque o Senhor corrige a quem ama e açoita a todo filho a quem recebe. É para disciplina que perseverais (Deus vos trata como filhos); pois que filho há que o pai não corrige? Mas, se estais sem correção, de que todos se têm tornado participantes, logo, sois bastardos e não filhos. (Hebreus 12:4-8)
Os sofrimentos são disciplinas que Deus coloca em nosso caminho. São formas usadas por Deus para corrigir nossos defeitos. Mais do que isso, são prova de que somos filhos de Deus, e não bastardos esquecidos. E quais os benefícios desse julgamento, dessa correção?
...Deus, porém, nos disciplina para aproveitamento, a fim de sermos participantes de sua santidade. Toda disciplina, com efeito, no momento não parece ser motivo de alegria, mas de tristeza; ao depois, entretanto, produz fruto pacífico aos que têm sido por ela exercitados, fruto de justiça. Por isso, restabelecei as mãos descaídas e os joelhos trôpegos; e fazei caminhos retos para os pés, para que não se extravie o que é manco; antes, seja curado. (Hebreus 12:10b-13)
Por meio do sofrimento, nos tornamos participantes da santidade divina. Os que suportam essa pedagogia divina produzem um fruto de justiça. Mas, há riscos...por isso a ordem bíblica é que ajudemos os que estão cansados por causa do sofrimento e os ajudemos a permanecerem no caminho de Deus e a receberem a cura divina.

3) O sofrimento será compensado no último dia. Se alguém podia perguntar por que coisas ruins acontecem a pessoas boas...esse alguém era Paulo. Apóstolo dedicado, pregador incansável...a recompensa de Paulo foram perseguições, espancamentos, rejeição, abandono...é de se perguntar se é assim que Deus trata os seus servos fiéis! Mas, estranhamente, Paulo não apresentava a revolta que achamos em muitos cristãos que sofrem (eu incluído). Vejam como ele encarava as coisas ruins que lhe aconteciam:
Porque para mim tenho por certo que os sofrimentos do tempo presente não podem ser comparados com a glória a ser revelada em nós. (Romanos 8:18)
Certamente, os sofrimentos do apóstolo jamais seriam compensados nesse mundo em que vivemos. Mas Paulo olhava além do horizonte da vida física, ele via a existência de uma nova vida, onde a glória e o prazer dos salvos compensaria toda a dor deste mundo. Talvez ele se lembrasse da parábola do rico e do mendigo contada por Jesus:
Disse, porém, Abraão: Filho, lembra-te de que recebeste os teus bens em tua vida, e Lázaro igualmente, os males; agora, porém, aqui, ele está consolado; tu, em tormentos. (Lucas 16:25)
E, por esta razão, mesmo preso, ele podia dizer aos filipenses:
Alegrai-vos sempre no Senhor; outra vez digo: alegrai-vos. (Filipenses 4:4)
E, por se lembrar da recompensa do céu, que os sofrimentos nos aperfeiçoam e que, mesmo assim, eles são uma graça divina, ele pudesse ordenar:
Em tudo, dai graças, porque esta é a vontade de Deus em Cristo Jesus para convosco. (1 Tessalonicenses 5:18)

Conclusão
Gostaria de encerrar este estudo lembrando porém que é normal o cristão sofrer e se angustiar em fases de intensa tribulação. Que grandes homens de Deus, como Davi e Asafe, expressaram essa angústia em orações, registradas nos Salmos. E que Jó e José do Egito, verdadeiros campeões do sofrimento, terminaram recompensados.

Mas também é preciso lembrar que a vida, neste mundo, não é conto de fadas. Talvez aquela enfermidade dolorosa nos acompanhe até o túmulo, e com certeza, alguns carregarão este fardo. Nem todos poderão ter um emprego público ou enriquecer. Alguns sonharão até a morte com o casamento, e não receberão esta dádiva do Senhor (eu mesmo não sei se a receberei). Paulo morreu tido como um criminoso pelo Império Romano, assim como os demais apóstolos, sem ser reconhecido em vida pela sociedade.

No entanto, se olharmos para a eternidade, tenha a certeza de que, os que permanecerem fiéis ao Senhor, terão sim a sua recompensa. Seremos todos como Jó...ainda que, para muitos, o "dobro" só venha quando o nosso Senhor Jesus voltar em glória.
Eles serão para mim particular tesouro, naquele dia que prepararei, diz o SENHOR dos Exércitos; poupá-los-ei como um homem poupa a seu filho que o serve. Então, vereis outra vez a diferença entre o justo e o perverso, entre o que serve a Deus o que não o serve. (Malaquias 3:17-18)

14 abril 2009

Porque o homem não se volta voluntariamente para Deus

O livre-arbítrio dos homens nos dias de hoje é uma unanimidade do cristianismo, certo? Bom, talvez a maioria das pessoas pense desta maneira, mas não é bem assim. Já começa com um problema básico: a definição do termo. De acordo com o dicionário Houaiss:
possibilidade de decidir, escolher em função da própria vontade, isenta de qualquer condicionamento, motivo ou causa determinante
Aplicando isso à doutrina bíblica da salvação, isso significa que o homem seria capaz de decidir seguir a Deus, por vontade própria, sem que fosse condicionado de qualquer forma a fazer isso.

E, aparentemente, é isso o que acontece. Uma vez confrontados com as verdades do Evangelho, os cristãos, espontaneamente, escolhem seguir a Deus e nascem de novo. Certo?

Errado...se pararmos para analisar alguns textos bíblicos:
Não há justo, nem um sequer, não há quem entenda, não há quem busque a Deus; todos se extraviaram, à uma se fizeram inúteis; não há quem faça o bem, não há nem um sequer. (Romanos 3:10-12)
A força destes versículos é sempre ignorada pelas pessoas que defendem o livre-arbítrio. De acordo com a Bíblia, o pecado afetou de tal forma o ser humano que ele se recusa a buscar a Deus. Paulo aqui cita Salmo 14:1-3, onde Davi retrata um Deus que busca entre os homens alguém que o busque, mas não encontra ninguém. A mesma idéia é repetida no Salmo 53.

Por que isso acontece? Simples...porque o homem sem Cristo é controlado pela sua carne, ou seja, pela sua natureza pecaminosa. E é impossível que essa natureza se volte para Deus:
Porque os que se inclinam para a carne cogitam das coisas da carne; mas o que se inclinam para o Espírito, das coisas do Espírito. Porque o pendor da carne dá para a morte, mas o do Espírito, para a vida e paz. Por isso, o pendor da carne é inimizade contra Deus, pois não está sujeito à lei de Deus, nem mesmo pode estar. Portanto, os que estão na carne não podem agradar a Deus. (Romanos 8:5-8)
O texto é claríssimo, mas não percebemos isso. Há duas classes de pessoas: as que se inclinam para a carne (não salvas) e as que se inclinam para o Espírito (salvos). Mesmo os que são salvos hoje, em algum momento do passado, elas estavam sujeitas à carne até o momento da conversão. Mas, vejam só...os que estão na carne não podem agradar a Deus. Não podem, isto está além da capacidade delas. Elas não podem, por exemplo, ter uma fé salvadora, agradável a Cristo. Mais do que isso: a carne não se sujeita a lei de Deus, e nem mesmo pode estar sujeita. Traduzindo: é impossível para a carne obedecer às leis de Deus, por exemplo, crendo em Jesus.

A conclusão é óbvia: pelo assim chamado "livre-arbítrio", o homem nunca se converterá a Cristo, porque isso é impossível para ele.

Qual a saída? Por que então pessoas se convertem? A resposta é a predestinação. As pessoas não escolhem a Deus porque querem...elas escolhem a Deus porque antes foram escolhidas por Ele...porque Deus faz nascer em seus eleitos uma nova natureza que, ao ouvir o Evangelho, crê em Cristo e tem fé n'Ele. Como diz Jesus:
A isto, respondeu Jesus: Em verdade, em verdade te digo que, se alguém não nascer de novo, não pode ver o reino de Deus. (João 3:3)
E, assim como nós não escolhemos nascer fisicamente, também não temos poder algum sobre o nosso nascimento espiritual:
Mas a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder se serem feitos filhos de Deus, a saber, aos que crêem no seu nome; os quais não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus. (João 1:12-13)
Logo, o novo nascimento é uma obra exclusivamente divina, onde a vontade humana não participa, de modo algum. Como diz Paulo:
Assim, não depende de quem quer ou de quem corre, mas de usar Deus a sua misericórdia. (Romanos 9:16)
E, antes que digam que tal predestinação é injusta, quero apenas fazer aqui uma observação. Se Deus não predestinasse ninguém, se Ele não escolhesse ninguém, se Ele não agisse sobre a vontade humana por meio do novo nascimento...ninguém se converteria. Se não existisse predestinação, e tudo fosse deixado ao bel-prazer da vontade humana, ninguém seria salvo. A predestinação não é o capricho cruel de um Deus injusto, mas sim a misericórdia benevolente de um Deus Salvador.

E não poderia ser de outro jeito. Se todos os homens fossem condenados, o diabo iria para o inferno com o troféu de ter estragado completamente a coroa da criação divina, os seres que são "a imagem e a semelhança de Deus" (Gênesis 1:27). Deus não poderia, jamais...deixar que a sua criação mais excelente (junto, talvez, com a criação dos anjos) se perdesse por completo. Daí a necessidade da predestinação...para preservar a glória, a perfeição e a majestade do caráter divino.

12 abril 2009

Carta do Som do Céu - Manifesto de Artistas Cristãos

O "Som do Céu" é um acampamento promovido pela Mocidade Para Cristo (MPC), missão na qual já fui voluntário e a quem, de certa forma, devo a minha conversão, pois sou fruto do persistente trabalho de evangelização feito por um amigo no Colégio Militar de Brasília, o Rafael Garcia. Embora ele não fosse da MPC, foi essa a missão quem enfatizou fortemente a idéia de que escola é sim, lugar de evangelizar.

Lá eles publicaram um manifesto, assinado, entre outros, por João Alexandre, Jorge Camargo e Carlinhos Veiga. Você pode acessá-lo no Raiz Duma Terra Seca ou clicando aqui. Em princípio, ali se reflete exatamente o que eu penso sobre cristianismo e cultura.

03 abril 2009

Misericórdia ou impunidade?

Meus irmãos, não tenhais a fé em nosso Senhor Jesus Cristo, em acepção de pessoas. Se, portanto, entrar na vossa sinagoga algum homem com anéis de ouro nos dedos, em trajos de luxo, e entrar também algum pobre andrajoso, e tratardes com deferência o que tem os trajos de luxo e lhe disserdes: Tu, assenta-te aqui em lugar de honra; e disserdes ao pobre: Tu, fica ali em pé ou assenta-te aqui abaixo do estrado dos meus pés, não fazeis distinção entre vós mesmos e não vos tornastes juízes tomados de perversos pensamentos? Ouvi, meus amados irmãos. Não escolheu Deus os que para o mundo são pobres, para serem ricos em fé e herdeiros do reino que ele prometeu aos que o amam? Entretanto, vós outros menoprezastes o pobre. Não são os ricos que vos oprimem e não são eles que vos arrastam para tribunais? Não são eles os que blasfemam o bom nome que sobre vós foi invocado? Se vós, contudo, observais a lei régia segundo a Escritura: Amarás o teu próximo como a ti mesmo, fazeis bem; se, todavia, fazeis acepção de pessoas, cometeis pecado, sendo argüidos pela lei como transgressores. Pois qualquer que guarda toda a lei, mas tropeça em um só ponto, se torna culpado de todos. Porquanto, aquele que disse: Não adulterarás, também ordenou: Não matarás. Ora, se não adulteras, porém matas, vens a ser transgressor da lei. Falai de tal maneira e de tal maneira procedei como aqueles que hão de ser julgados pela lei da liberdade. Porque o juízo é sem misericórdia para com aquele que não usou de misericórdia. A misericórdia triunfa sobre o juízo.

Meus irmãos, qual é o proveito, se alguém disser que tem fé, mas não tiver obras? Pode, acaso, semelhante fé salvá-lo? Se um irmão ou uma irmã estiverem carecidos de roupa e necessitados de alimento cotidiano, e qualquer dentre vós lhes disser: Ide em paz, aquecei-vos, e fartai-vos, sem, contudo, lhes dar o necessário para o corpo, qual é o proveito disso? Assim, também a fé, se não tiver obras, por si só está morta.

Mas alguém dirá: Tu tens fé, e eu tenho obras; mostra-me essa tua fé sem as obras, e eu, com as obras, te mostrarei a minha fé. Crês tu que Deus é um só? Fazes bem. Até os demônios crêem e tremem. Queres, pois, ficar certo, ó homem insensato, de que a fé sem as obras é inoperante? Não foi por obras que Abraão, o nosso pai, foi justificado, quando ofereceu sobre altar o próprio filho, Isaque? V~es como a fé operava juntamente com as suas obras; com efeito, foi pelas obras que a fé se consumou, e se cumpriu a Escritura, a qual diz: Ora, Abraão creu em Deus, e isso lhe foi imputado para justiça; e: Foi chamado amigo de Deus. Verificais que uma pessoa é justificada por obras e não por fé somente. De igual modo, não foi também justificada por obras a meretriz Raabe, quando acolheu os emissários e os fez partir por outro caminho? Porque, assim como o corpo sem espírito é morto, assim também a fé sem obras é morta. (Tiago 2:1-26)
Perdão pelo texto enorme, mas para entendermos a expressão "A misericórdia triunfa sobre o juízo", no versículo 13 é preciso compreendermos o contexto próximo do versículo...e aí não tem jeito, tem que ser todo o capítulo 2...e mais alguns textos, tanto de Tiago, como de outros livros da Bíblia.

Tg 2:13 e a disciplina eclesiástica
Há uma reação muito forte hoje por parte dos evangélicos contra a disciplina exercida pela igreja. Afinal, se a salvação é pela graça, se a graça é inclusive um lema da Reforma ("Sola gratia"), então a aplicação da justiça seria um erro. E um dos versículos usados é exatamente Tiago 5:13. Se um cristão apela para que a justiça seja feita contra o erro de um outro cristão, é quase certo que algum iluminado pedirá que ele desista, com o argumento de que "a misericórdia triunfa sobre o juízo".

Mas cabem aí uma série de questionamentos. O que Tiago quer dizer quando ele disse esta frase? Isto significa que o juízo não faz mais parte da vida do cristão? E, a minha pergunta pessoal...o versículo ensina que devemos deixar impunes os erros cometidos e abrir mão da disciplina eclesiástica? A misericórdia exclui o juízo? Afinal, quando é misericórdia e quando é, simplesmente, impunidade?

O contexto anterior

É interessante notar que, antes de chegar ao versículo 13, Tiago faz uma longa exposição condenando a prática do pecado. Ele parte de uma situação que, provavelmente, era um problema da igreja em seu tempo: o tratamento diferenciado dado aos ricos, em detrimento dos pobres (qualquer semelhança com os dias de hoje é "mera coincidência"). Tiago não hesita em apontar as pessoas que fazem isso como "tomadas de perversos pensamentos" (Tg 2:4), que não cumprem o mandamento de amar ao próximo (Tg 2:8) e, por isso, cometem pecado e transgridem a Lei (Tg 2:9). Mas Tiago vai além, ao lembrar que quem tropeça em um ponto da Lei se torna culpado de todos (Tg 2:10).

Ora, ao meu ver, fica evidente que a misericórdia não exclui o juízo. E Tiago, ao confrontar o pecado da acepção de pessoas, está sim emitindo um juízo sobre as pessoas que incorrem neste erro. Ok, ele anuncia o juízo de Deus, e não o seu próprio juízo, mas, de fato, um julgamento é feito. Isso pode ficar ainda mais evidente quando ele usa termos como "culpado" ou "transgressor".

Mas o texto segue. E aí, surpreendentemente, Tiago faz duas coisas. Primeiro, ele fala bem da Lei, ao chamá-la de Lei da Liberdade (Tg 2:12). Na verdade, pouco antes, Tiago elogia aqueles que observam, por exemplo, a lei régia, como pessoas que fazem bem em segui-la (Tg 2:8). Para Tiago, a lei, ao invés de escravizar ou oprimir o homem, o liberta. Como diz o Dr. Simon Kistemaker:
A lei é perfeita e completa. Ela se expressa no "amor perfeito" que flui de Deus para os seres humanos e dos seres humanos para Deus e para o seu próximo. Na liberdade da lei do amor, o filho de Deus se desenvolve. Assim, o cristão não vive debaixo do medo da lei, mas na alegria dos preceitos de Deus. Enquanto fica dentro dos limites da lei de Deus, ele goza de completa liberdade, mas, no momento em que ultrapassa um desses limites, torna-se escravo do pecado e perde sua liberdade. (KISTEMAKER, Simon. Tiago e Epístolas de João. São Paulo: Cultura Cristã, 2006, p.117-118)
A segunda afirmação impressionante de Tiago é a de que devemos viver uma vida correta, porque todos seremos julgados: "Falai de tal maneira e de tal maneira procedei...hão de ser julgados pela lei da liberdade" (Tg 2:12). Na verdade, o versículo 13 é uma afirmação legal, um regulamento sobre como a misericórdia será usada no tribunal divino: "Porque o juízo é sem misericórdia para com aquele que não usou de misericórdia". (Tg 2:13a).

Só aqui, ja podemos tirar as seguintes conclusões:

1) A misericórdia não exclui o juízo
2) O juízo é universal e alcançará a todos
3) A misericórdia não impede a condenação do pecado, nem o anúncio do juízo de Deus sobre os pecadores
4) A misericórdia não exclui as ordens bíblicas de levar uma vida santa
5) A Lei não é uma inimiga para o cristão, mas sim uma liberdade
6) Quem não for misericordioso, não receberá misericórdia

Ainda há mais uma informação que podemos obter aqui. No texto, misericórdia é o termo grego eleos. Segundo a Bíblia Online, o significado é:
misericórdia: bondade e boa vontade ao miserável e ao aflito, associada ao desejo de ajudá-los
1a) de pessoa para pessoa: exercitar a virtude da misericórdia, mostrar-se misericordioso
1b) de Deus para os homens: em geral, providência; a misericórdia e clemência de Deus em prover e oferecer aos homens salvação em Cristo
1c) a misericórdia de Cristo, pela qual, em seu retorno para julgamento, Ele
abençoará os verdadeiros cristãos com a vida eterna
Quando a Bíblia fala aqui do juízo sem misericórdia, ela se refere, obviamente, à misericórdia de Deus pela qual Ele perdoará os nossos pecados no último dia (sentidos 1b e 1c). Na verdade, ao meu ver, quando o texto fala aqui da "misericórdia que triunfa sobre o juízo", Tiago está falando é da salvação em Cristo Jesus (sentido 1b). Não é da misericórdia humana que Tiago fala, e sim da misericórdia divina. Afinal, como ele mesmo reconhece mais adiante, todos tropeçaram. E, usando a lógica, por causa disso, todos precisam de misericórdia:
Porque todos tropeçamos em muitas coisas. Se alguém não tropeça no falar, é perfeito varão, capaz de refrear também todo o corpo. (Tiago 3:2)
Agora, é claro que os alvos da misericórdia de Jesus também devem refletir essa misericórdia aos outros. E aí, é mais que perdoar...é também ser bondoso, querer ajudar. A misericórdia que nós devemos refletir é aquela que Cristo demonstrou por nós, como afirma Kistemaker:
Em resposta à pergunta de Pedro sobre perdoar-se um irmão que pecou, Jesus contou a parábola do servo que recebeu misericórdia do rei, mas não teve misericórdia de seu próximo. Quando o rei soube que o homem que havia sido perdoado não mostrou misericórdia para com seu conservo, disse: "Servo malvado, perdoei-te aquela dívida toda porque me suplicaste; não devias tu compadecer-te do teu conservo, como também eu me compadeci de ti?" (Mt 18.32, 33). Quando pedimos a ele, Deus nos concede misericórdia livremente, mas ele espera que o imitemos. (KISTEMAKER, Simon. Tiago e as Epístolas de João. São Paulo: Cultura Cristã, 2006, p.118)
Ou seja, é sim, dever do cristão perdoar. Mas, como um reflexo da graça. E aí cabe observar que o servo suplicou o perdão do rei e o conservo suplicou o perdão do servo. Houve o reconhecimento de uma dívida (eles não a negam) e uma súplica, um pedido de perdão. Na verdade, o ensino de Jesus sempre coloca o arrependimento (o reconhecimento do erro, seguido de mudança de comportamento) como sendo essencial para o recebimento da graça. Na parábola do fariseu e do publicano, ele se coloca diante de Deus como pecador:
O publicano, estando em pé, longe, não ousava nem ainda levantar os olhos ao céu, mas batia no peito, dizendo: Ó Deus, sê propício a mim, pecador! (Lucas 18:13)
A parábola do filho pródigo é uma outra história clássica de misericórdia, mas que só acontece quando o filho se arrepende:
Então, caindo em si, disse: Quantos trabalhadores de meu pai têm pão com fartura, e eu aqui morro de fome! Levantar-me-ei, e irei ter com o meu pai, e lhe direi: Pai, pequei contra o céu e diante de ti; já não sou digno de ser chamado teu filho; trata-me como um dos teus trabalhadores. E, levantando-se, foi para seu pai. (Lucas 15:17-20a)
Tanto o publicano como o filho pródigo só receberam a misericórdia de Deus porque se arrependeram do que fizeram. E este mesmo princípio é aplicado por Jesus nas divergências entre irmãos:
Se teu irmão pecar contra ti, vai argüi-lo entre ti e ele só. Se ele te ouvir ganhaste a teu irmão. Se, porém, não te ouvir, toma ainda contigo uma ou duas pessoas, para que, pelo depoimento de duas ou trÇês testemunhas, toda palavra se estabeleça. E, se ele não os atender, dize-o à igreja; e, se recusar ouvir também a igreja, considera-o como gentio e publicano. (Mateus 18:15-17)
Em outras palavras, se há um pecado, ele deve ser confrontado. Se o pecador não se arrepender e permanecer obstinado, o veredito de Jesus é que a justiça deve ser feita. Sem misericórdia...o pecador deve ser expulso da igreja, que é uma forma de disciplina eclesiástica. E, então, podemos acrescentar um sétimo ensino, derivado da conseqüência da nossa misericórdia refletir a de Cristo:

7) Nâo há misericórdia para pecadores que se recusam a arrepender de seus pecados.

O contexto posterior
Se Tiago estava falando sobre a misericórdia de Cristo (como eu acredito), nada mais apropriado do que falar, a seguir sobre a fé, que é o meio pelo qual nós nos apossamos dessa bênção. E, entre os versículos 14 a 26, é como se Tiago estivesse tentando evitar que seus leitores o interpretassem mal e achassem que poderiam viver uma fé morta, sem se preocupar em viver uma vida justa.

Mesmo fazendo referência à misericórdia de Jesus, Tiago se sente no dever de questionar, logo no versículo 14, se uma fé sem obras, de fato, pode salvar alguém. Mais uma vez ele confronta o pecado de ignorar as necessidades das pessoas (v.16) e compara uma fé sem obras à fé dos demônios (v.19). Tiago diz que esse tipo de fé é inoperante (v.20), que as pessoas que a possuem são insensatas (v.20) e não são justificadas (v.24).

Ora, como pode a mesma pessoa declarar o triunfo da misericórdia e, logo a seguir, confrontar um pecado, acusar cristãos de não serem salvos e de terem uma fé igual a de demônios e ainda apontar um caso para ilustrar o que diz? Isso é ou não uma declaração de juízo e o clamor de um apóstolo para que os seus leitores vivam uma vida de justiça?

Se, por um lado Tiago parece condenar o juízo e não aceitá-lo em hipótese alguma:
Irmãos, não faleis mal uns dos outros. Aquele que fala mal do irmão ou julga a seu irmão fala mal da lei e julga a lei; ora, se julgas a lei, não és observador da lei, mas juiz. Um só é Legislador e Juiz, aquele que pode salvar e fazer perecer; tu, porém, quem és, que julgas o próximo? (Tiago 4:11-12)

Irmãos, não vos queixeis uns dos outros, para não serdes julgados. Eis que o juiz está às portas (Tiago 5:9)
Por outro, Tiago não deixa de confrontar o pecado pesadamente e de anunciar o juízo e a graça de Deus:
Infiéis, não compreendeis que a amizade do mundo é inimiga de Deus? Aquele, pois, que quiser ser amigo do mundo constitui-se inimigo de Deus. (Tiago 4:4)

Chegai-vos a Deus, e ele se chegará a vós outros. Purificai as mãos, pecadores; e vós que sois de ânimo dobre, limpai o coração. Afligi-vos, lamentai e chorai. Converta-se o vosso riso em pranto, e a vossa alegria, em tristeza. Humilhai-vos na presença do Senhor; e ele vos exaltará. (Tiago 4:8-10)

Atendei, agora, ricos, chorai lamentando, por causa das vossas desventuras, que vos sobrevirão. As vossas riquezas estão corruptas, e as vossas roupagens, comidas de traça (Tiago 5:1-2)
Estaria Tiago se esquecendo de seu próprio ensino, e sendo muito juízo e pouca misericórdia? De modo algum, porque a confrontação do pecado e o anúncio do juízo divino também são exemplos de amor e misericórdia:
Meus irmãos, se algum entre vós se desviar da verdade, e alguém o converter, sabei que aquele que converte o pecador do seu caminho errado salvará da morte a alma dele e cobrirá multidão de pecados. (Tiago 5:19-20)
Como diz Kistemaker:
Devemos considerar a misericórdia e a justiça como normas iguais e aplicar ambas. A misericórdia não exclui a justiça, e a justiça não anula a misericórdia. (KISTEMAKER, Simon. Tiago e as Epístolas de João. São Paulo: Cultura Cristã, 2006, p.119)
Afinal, se é verdade que:
Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia. (Mateus 5:7)
Também é verdadeira essa bem-aventurança:
Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão fartos. (Mateus 5:6)
E nem mesmo o ato supremo de misericórdia, que é a salvação pela graça, é um ato em que a justiça não se faz presente. Pelo contrário, a cruz manifesta a justiça e a misericórdia de Deus:
Mas, agora, sem lei, se manifestou a justiça de Deus testemunhada pela lei e pelos profetas; justiça de Deus mediante a fé em Jesus Cristo, para todos e sobre todos os que crêem; porque não há distinção, pois todos pecaram e carecem da glória de Deus, sendo justificados gratuitamente, por sua graça, mediante a renedção que há em Cristo Jesus, a quem Deus propôs, no seu sangue, como propiciação, mediante a fé, para manifestar a sua justiça, por ter Deus, na sua tolerância, deixado impunes os pecados anteriormente cometidos, tendo em vista a manifestação da sua justiça no tempo presente, para ele mesmo ser justo e o justificador daquele que tem fé em Jesus. (Romanos 3:21-26)
Misericórdia, sim...para os que se arrependem de seus pecados, para os que reconhecem o erro e pedem perdão ou para os que pecaram na ignorância. Mas nada de ignorar os que se levantam contra Cristo e permanecem ainda obstinados em seu erro. Afinal, misericórdia não é o mesmo que impunidade.

Hillsong Church: Polêmicas e escândalos na maior igreja da Austrália

Olá,

Aqui em Brasília tem existido alguns boatos de que a igreja australiana Hillsong, que eu não sabia que era da Assembléia de Deus da Austrália, vai abrir uma igreja na Capital Federal. Aliás, o Hillsong é bem conceituado por aqui...mas, me deparei com um artigo que traz uma idéia bem diferente da igreja. Como sou jornalista, acho importante mostrar "o outro lado", principalmente quando ele envolve doutrina (Teologia da Prosperidade), política e sexo (pedofilia e homossexualismo) ao mesmo tempo.

Não vou colocar o artigo aqui, mas ele está disponível no blog "Amenidades do Cristianismo" e você pode acessá-lo clicando aqui. Assim, damos acessos a quem merece.

As fontes usadas no artigo (e eu chequei algumas), seguem abaixo:

http://en.wikipedia.org/wiki/Frank_Houston
http://en.wikipedia.org/wiki/Hillsong_Church
http://www.redwatch.org.au/media/080312cena?searchterm=hillsong+keneally
http://www.southsydneyherald.com.au/pdf/SSH_AUG08.pdf
http://www.smh.com.au/news/National/Hillsongs-true-believers/2004/11/06/1099547435083.html
http://www.crikey.com.au/Media-Arts-and-Sports/20071010-Australian-Idol-what-about-the-Buddhists.html
http://www.abc.net.au/tv/enoughrope/transcripts/s1992756.htm
http://www.smh.com.au/articles/2007/08/03/1185648145760.html
http://www.smh.com.au/articles/2005/07/04/1120329387287.html

01 abril 2009

O primeiro selo a gente nunca esquece...


A Rocelma Reis, do Ao Redor da Jabuticabeira, por alguma razão profundamente misteriosa, achou que valia a pena acompanhar o Reforma e Carisma e me deu um selo! O primeiro que eu ganho, aliás!

Gostaria de agradecer a Rocelma, e recomendar que você também vá lá aprender um pouco sobre a Bíblia ao redor da jabuticabeira.

E também de dizer que fiz umas modificações pequenas no layout do blog. Se você não reparou, é só dar uma olhadinha na barra aí do lado direito da página.

Obrigado pelas visitas...e que venham outros selos, rs.