03 abril 2009

Misericórdia ou impunidade?

Meus irmãos, não tenhais a fé em nosso Senhor Jesus Cristo, em acepção de pessoas. Se, portanto, entrar na vossa sinagoga algum homem com anéis de ouro nos dedos, em trajos de luxo, e entrar também algum pobre andrajoso, e tratardes com deferência o que tem os trajos de luxo e lhe disserdes: Tu, assenta-te aqui em lugar de honra; e disserdes ao pobre: Tu, fica ali em pé ou assenta-te aqui abaixo do estrado dos meus pés, não fazeis distinção entre vós mesmos e não vos tornastes juízes tomados de perversos pensamentos? Ouvi, meus amados irmãos. Não escolheu Deus os que para o mundo são pobres, para serem ricos em fé e herdeiros do reino que ele prometeu aos que o amam? Entretanto, vós outros menoprezastes o pobre. Não são os ricos que vos oprimem e não são eles que vos arrastam para tribunais? Não são eles os que blasfemam o bom nome que sobre vós foi invocado? Se vós, contudo, observais a lei régia segundo a Escritura: Amarás o teu próximo como a ti mesmo, fazeis bem; se, todavia, fazeis acepção de pessoas, cometeis pecado, sendo argüidos pela lei como transgressores. Pois qualquer que guarda toda a lei, mas tropeça em um só ponto, se torna culpado de todos. Porquanto, aquele que disse: Não adulterarás, também ordenou: Não matarás. Ora, se não adulteras, porém matas, vens a ser transgressor da lei. Falai de tal maneira e de tal maneira procedei como aqueles que hão de ser julgados pela lei da liberdade. Porque o juízo é sem misericórdia para com aquele que não usou de misericórdia. A misericórdia triunfa sobre o juízo.

Meus irmãos, qual é o proveito, se alguém disser que tem fé, mas não tiver obras? Pode, acaso, semelhante fé salvá-lo? Se um irmão ou uma irmã estiverem carecidos de roupa e necessitados de alimento cotidiano, e qualquer dentre vós lhes disser: Ide em paz, aquecei-vos, e fartai-vos, sem, contudo, lhes dar o necessário para o corpo, qual é o proveito disso? Assim, também a fé, se não tiver obras, por si só está morta.

Mas alguém dirá: Tu tens fé, e eu tenho obras; mostra-me essa tua fé sem as obras, e eu, com as obras, te mostrarei a minha fé. Crês tu que Deus é um só? Fazes bem. Até os demônios crêem e tremem. Queres, pois, ficar certo, ó homem insensato, de que a fé sem as obras é inoperante? Não foi por obras que Abraão, o nosso pai, foi justificado, quando ofereceu sobre altar o próprio filho, Isaque? V~es como a fé operava juntamente com as suas obras; com efeito, foi pelas obras que a fé se consumou, e se cumpriu a Escritura, a qual diz: Ora, Abraão creu em Deus, e isso lhe foi imputado para justiça; e: Foi chamado amigo de Deus. Verificais que uma pessoa é justificada por obras e não por fé somente. De igual modo, não foi também justificada por obras a meretriz Raabe, quando acolheu os emissários e os fez partir por outro caminho? Porque, assim como o corpo sem espírito é morto, assim também a fé sem obras é morta. (Tiago 2:1-26)
Perdão pelo texto enorme, mas para entendermos a expressão "A misericórdia triunfa sobre o juízo", no versículo 13 é preciso compreendermos o contexto próximo do versículo...e aí não tem jeito, tem que ser todo o capítulo 2...e mais alguns textos, tanto de Tiago, como de outros livros da Bíblia.

Tg 2:13 e a disciplina eclesiástica
Há uma reação muito forte hoje por parte dos evangélicos contra a disciplina exercida pela igreja. Afinal, se a salvação é pela graça, se a graça é inclusive um lema da Reforma ("Sola gratia"), então a aplicação da justiça seria um erro. E um dos versículos usados é exatamente Tiago 5:13. Se um cristão apela para que a justiça seja feita contra o erro de um outro cristão, é quase certo que algum iluminado pedirá que ele desista, com o argumento de que "a misericórdia triunfa sobre o juízo".

Mas cabem aí uma série de questionamentos. O que Tiago quer dizer quando ele disse esta frase? Isto significa que o juízo não faz mais parte da vida do cristão? E, a minha pergunta pessoal...o versículo ensina que devemos deixar impunes os erros cometidos e abrir mão da disciplina eclesiástica? A misericórdia exclui o juízo? Afinal, quando é misericórdia e quando é, simplesmente, impunidade?

O contexto anterior

É interessante notar que, antes de chegar ao versículo 13, Tiago faz uma longa exposição condenando a prática do pecado. Ele parte de uma situação que, provavelmente, era um problema da igreja em seu tempo: o tratamento diferenciado dado aos ricos, em detrimento dos pobres (qualquer semelhança com os dias de hoje é "mera coincidência"). Tiago não hesita em apontar as pessoas que fazem isso como "tomadas de perversos pensamentos" (Tg 2:4), que não cumprem o mandamento de amar ao próximo (Tg 2:8) e, por isso, cometem pecado e transgridem a Lei (Tg 2:9). Mas Tiago vai além, ao lembrar que quem tropeça em um ponto da Lei se torna culpado de todos (Tg 2:10).

Ora, ao meu ver, fica evidente que a misericórdia não exclui o juízo. E Tiago, ao confrontar o pecado da acepção de pessoas, está sim emitindo um juízo sobre as pessoas que incorrem neste erro. Ok, ele anuncia o juízo de Deus, e não o seu próprio juízo, mas, de fato, um julgamento é feito. Isso pode ficar ainda mais evidente quando ele usa termos como "culpado" ou "transgressor".

Mas o texto segue. E aí, surpreendentemente, Tiago faz duas coisas. Primeiro, ele fala bem da Lei, ao chamá-la de Lei da Liberdade (Tg 2:12). Na verdade, pouco antes, Tiago elogia aqueles que observam, por exemplo, a lei régia, como pessoas que fazem bem em segui-la (Tg 2:8). Para Tiago, a lei, ao invés de escravizar ou oprimir o homem, o liberta. Como diz o Dr. Simon Kistemaker:
A lei é perfeita e completa. Ela se expressa no "amor perfeito" que flui de Deus para os seres humanos e dos seres humanos para Deus e para o seu próximo. Na liberdade da lei do amor, o filho de Deus se desenvolve. Assim, o cristão não vive debaixo do medo da lei, mas na alegria dos preceitos de Deus. Enquanto fica dentro dos limites da lei de Deus, ele goza de completa liberdade, mas, no momento em que ultrapassa um desses limites, torna-se escravo do pecado e perde sua liberdade. (KISTEMAKER, Simon. Tiago e Epístolas de João. São Paulo: Cultura Cristã, 2006, p.117-118)
A segunda afirmação impressionante de Tiago é a de que devemos viver uma vida correta, porque todos seremos julgados: "Falai de tal maneira e de tal maneira procedei...hão de ser julgados pela lei da liberdade" (Tg 2:12). Na verdade, o versículo 13 é uma afirmação legal, um regulamento sobre como a misericórdia será usada no tribunal divino: "Porque o juízo é sem misericórdia para com aquele que não usou de misericórdia". (Tg 2:13a).

Só aqui, ja podemos tirar as seguintes conclusões:

1) A misericórdia não exclui o juízo
2) O juízo é universal e alcançará a todos
3) A misericórdia não impede a condenação do pecado, nem o anúncio do juízo de Deus sobre os pecadores
4) A misericórdia não exclui as ordens bíblicas de levar uma vida santa
5) A Lei não é uma inimiga para o cristão, mas sim uma liberdade
6) Quem não for misericordioso, não receberá misericórdia

Ainda há mais uma informação que podemos obter aqui. No texto, misericórdia é o termo grego eleos. Segundo a Bíblia Online, o significado é:
misericórdia: bondade e boa vontade ao miserável e ao aflito, associada ao desejo de ajudá-los
1a) de pessoa para pessoa: exercitar a virtude da misericórdia, mostrar-se misericordioso
1b) de Deus para os homens: em geral, providência; a misericórdia e clemência de Deus em prover e oferecer aos homens salvação em Cristo
1c) a misericórdia de Cristo, pela qual, em seu retorno para julgamento, Ele
abençoará os verdadeiros cristãos com a vida eterna
Quando a Bíblia fala aqui do juízo sem misericórdia, ela se refere, obviamente, à misericórdia de Deus pela qual Ele perdoará os nossos pecados no último dia (sentidos 1b e 1c). Na verdade, ao meu ver, quando o texto fala aqui da "misericórdia que triunfa sobre o juízo", Tiago está falando é da salvação em Cristo Jesus (sentido 1b). Não é da misericórdia humana que Tiago fala, e sim da misericórdia divina. Afinal, como ele mesmo reconhece mais adiante, todos tropeçaram. E, usando a lógica, por causa disso, todos precisam de misericórdia:
Porque todos tropeçamos em muitas coisas. Se alguém não tropeça no falar, é perfeito varão, capaz de refrear também todo o corpo. (Tiago 3:2)
Agora, é claro que os alvos da misericórdia de Jesus também devem refletir essa misericórdia aos outros. E aí, é mais que perdoar...é também ser bondoso, querer ajudar. A misericórdia que nós devemos refletir é aquela que Cristo demonstrou por nós, como afirma Kistemaker:
Em resposta à pergunta de Pedro sobre perdoar-se um irmão que pecou, Jesus contou a parábola do servo que recebeu misericórdia do rei, mas não teve misericórdia de seu próximo. Quando o rei soube que o homem que havia sido perdoado não mostrou misericórdia para com seu conservo, disse: "Servo malvado, perdoei-te aquela dívida toda porque me suplicaste; não devias tu compadecer-te do teu conservo, como também eu me compadeci de ti?" (Mt 18.32, 33). Quando pedimos a ele, Deus nos concede misericórdia livremente, mas ele espera que o imitemos. (KISTEMAKER, Simon. Tiago e as Epístolas de João. São Paulo: Cultura Cristã, 2006, p.118)
Ou seja, é sim, dever do cristão perdoar. Mas, como um reflexo da graça. E aí cabe observar que o servo suplicou o perdão do rei e o conservo suplicou o perdão do servo. Houve o reconhecimento de uma dívida (eles não a negam) e uma súplica, um pedido de perdão. Na verdade, o ensino de Jesus sempre coloca o arrependimento (o reconhecimento do erro, seguido de mudança de comportamento) como sendo essencial para o recebimento da graça. Na parábola do fariseu e do publicano, ele se coloca diante de Deus como pecador:
O publicano, estando em pé, longe, não ousava nem ainda levantar os olhos ao céu, mas batia no peito, dizendo: Ó Deus, sê propício a mim, pecador! (Lucas 18:13)
A parábola do filho pródigo é uma outra história clássica de misericórdia, mas que só acontece quando o filho se arrepende:
Então, caindo em si, disse: Quantos trabalhadores de meu pai têm pão com fartura, e eu aqui morro de fome! Levantar-me-ei, e irei ter com o meu pai, e lhe direi: Pai, pequei contra o céu e diante de ti; já não sou digno de ser chamado teu filho; trata-me como um dos teus trabalhadores. E, levantando-se, foi para seu pai. (Lucas 15:17-20a)
Tanto o publicano como o filho pródigo só receberam a misericórdia de Deus porque se arrependeram do que fizeram. E este mesmo princípio é aplicado por Jesus nas divergências entre irmãos:
Se teu irmão pecar contra ti, vai argüi-lo entre ti e ele só. Se ele te ouvir ganhaste a teu irmão. Se, porém, não te ouvir, toma ainda contigo uma ou duas pessoas, para que, pelo depoimento de duas ou trÇês testemunhas, toda palavra se estabeleça. E, se ele não os atender, dize-o à igreja; e, se recusar ouvir também a igreja, considera-o como gentio e publicano. (Mateus 18:15-17)
Em outras palavras, se há um pecado, ele deve ser confrontado. Se o pecador não se arrepender e permanecer obstinado, o veredito de Jesus é que a justiça deve ser feita. Sem misericórdia...o pecador deve ser expulso da igreja, que é uma forma de disciplina eclesiástica. E, então, podemos acrescentar um sétimo ensino, derivado da conseqüência da nossa misericórdia refletir a de Cristo:

7) Nâo há misericórdia para pecadores que se recusam a arrepender de seus pecados.

O contexto posterior
Se Tiago estava falando sobre a misericórdia de Cristo (como eu acredito), nada mais apropriado do que falar, a seguir sobre a fé, que é o meio pelo qual nós nos apossamos dessa bênção. E, entre os versículos 14 a 26, é como se Tiago estivesse tentando evitar que seus leitores o interpretassem mal e achassem que poderiam viver uma fé morta, sem se preocupar em viver uma vida justa.

Mesmo fazendo referência à misericórdia de Jesus, Tiago se sente no dever de questionar, logo no versículo 14, se uma fé sem obras, de fato, pode salvar alguém. Mais uma vez ele confronta o pecado de ignorar as necessidades das pessoas (v.16) e compara uma fé sem obras à fé dos demônios (v.19). Tiago diz que esse tipo de fé é inoperante (v.20), que as pessoas que a possuem são insensatas (v.20) e não são justificadas (v.24).

Ora, como pode a mesma pessoa declarar o triunfo da misericórdia e, logo a seguir, confrontar um pecado, acusar cristãos de não serem salvos e de terem uma fé igual a de demônios e ainda apontar um caso para ilustrar o que diz? Isso é ou não uma declaração de juízo e o clamor de um apóstolo para que os seus leitores vivam uma vida de justiça?

Se, por um lado Tiago parece condenar o juízo e não aceitá-lo em hipótese alguma:
Irmãos, não faleis mal uns dos outros. Aquele que fala mal do irmão ou julga a seu irmão fala mal da lei e julga a lei; ora, se julgas a lei, não és observador da lei, mas juiz. Um só é Legislador e Juiz, aquele que pode salvar e fazer perecer; tu, porém, quem és, que julgas o próximo? (Tiago 4:11-12)

Irmãos, não vos queixeis uns dos outros, para não serdes julgados. Eis que o juiz está às portas (Tiago 5:9)
Por outro, Tiago não deixa de confrontar o pecado pesadamente e de anunciar o juízo e a graça de Deus:
Infiéis, não compreendeis que a amizade do mundo é inimiga de Deus? Aquele, pois, que quiser ser amigo do mundo constitui-se inimigo de Deus. (Tiago 4:4)

Chegai-vos a Deus, e ele se chegará a vós outros. Purificai as mãos, pecadores; e vós que sois de ânimo dobre, limpai o coração. Afligi-vos, lamentai e chorai. Converta-se o vosso riso em pranto, e a vossa alegria, em tristeza. Humilhai-vos na presença do Senhor; e ele vos exaltará. (Tiago 4:8-10)

Atendei, agora, ricos, chorai lamentando, por causa das vossas desventuras, que vos sobrevirão. As vossas riquezas estão corruptas, e as vossas roupagens, comidas de traça (Tiago 5:1-2)
Estaria Tiago se esquecendo de seu próprio ensino, e sendo muito juízo e pouca misericórdia? De modo algum, porque a confrontação do pecado e o anúncio do juízo divino também são exemplos de amor e misericórdia:
Meus irmãos, se algum entre vós se desviar da verdade, e alguém o converter, sabei que aquele que converte o pecador do seu caminho errado salvará da morte a alma dele e cobrirá multidão de pecados. (Tiago 5:19-20)
Como diz Kistemaker:
Devemos considerar a misericórdia e a justiça como normas iguais e aplicar ambas. A misericórdia não exclui a justiça, e a justiça não anula a misericórdia. (KISTEMAKER, Simon. Tiago e as Epístolas de João. São Paulo: Cultura Cristã, 2006, p.119)
Afinal, se é verdade que:
Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia. (Mateus 5:7)
Também é verdadeira essa bem-aventurança:
Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão fartos. (Mateus 5:6)
E nem mesmo o ato supremo de misericórdia, que é a salvação pela graça, é um ato em que a justiça não se faz presente. Pelo contrário, a cruz manifesta a justiça e a misericórdia de Deus:
Mas, agora, sem lei, se manifestou a justiça de Deus testemunhada pela lei e pelos profetas; justiça de Deus mediante a fé em Jesus Cristo, para todos e sobre todos os que crêem; porque não há distinção, pois todos pecaram e carecem da glória de Deus, sendo justificados gratuitamente, por sua graça, mediante a renedção que há em Cristo Jesus, a quem Deus propôs, no seu sangue, como propiciação, mediante a fé, para manifestar a sua justiça, por ter Deus, na sua tolerância, deixado impunes os pecados anteriormente cometidos, tendo em vista a manifestação da sua justiça no tempo presente, para ele mesmo ser justo e o justificador daquele que tem fé em Jesus. (Romanos 3:21-26)
Misericórdia, sim...para os que se arrependem de seus pecados, para os que reconhecem o erro e pedem perdão ou para os que pecaram na ignorância. Mas nada de ignorar os que se levantam contra Cristo e permanecem ainda obstinados em seu erro. Afinal, misericórdia não é o mesmo que impunidade.

2 comentários:

0gg disse...

E que a justiça terrena seja feita a semelhança da justiça divina...

Uma leitura pesada, porém cansativa e tals...

Daniel. disse...

Esse post ficou grande. Ficou muito bom, mas parece a repetição daquele antigo artigo sobre 'julgar ou não julgar' que você fez. Mas esse tipo de coisa tem que ser repetida mesmo, várias vezes.