15 abril 2009

Por que coisas ruins acontecem a pessoas boas?

Respondeu-lhe Jesus: Por que me perguntas acerca do que é bom? Bom só existe um. Se queres, porém, entrar na vidam guarda os mandamentos. (Mateus 19:16)

pois todos pecaram e carecem da glória de Deus. (Romanos 3:23)

porque o salário do pecado é a morte, mas o dom gratuito de Deus é a vida eterna em Cristo Jesus, nosso Senhor. (Romanos 6:23)
Uma das acusações mais frequentes feitas pelos homens contra Deus é a de que Ele é injusto. Afinal, os maus prosperam...ganham supersalários, vivem às custas do dinheiro público, são violentos...ao passo que, muitas vezes, os "bons", os justos, os que fazem o que é direito continuam sendo demitidos, ficando doentes, sozinhos e enfrentando aquilo que, aos nossos olhos, é uma grande injustiça. De fato, a pergunta é tão relevante que até virou um livro do rabino Harold Kushner, que ainda não li, mas confesso que é um dos objetivos de leitura da minha vida.

Mas a questão também é extremamente relevante do ponto de vista pastoral. Quando cristãos piedosos, que realmente se esforçaram para viver de acordo com os mandamentos de Jesus, sofrem perdas severas ou enfrentam períodos de intensa tribulação, a fé costuma vacilar. Foi o que aconteceu, por exemplo, com Asafe, quando ele escreveu o Salmo 73. Foi o tipo de dilema que levou Jó a entrar em crise no seu relacionamento com Deus. E, embora a Bíblia não traga detalhes a respeito, deve também ter atormentado a José do Egito, cuja história encontramos no livro de Gênesis.

Desta maneira, achar uma resposta a esta pergunta pode ser crucial. Não encontrá-la ou respondê-la de modo inadequado pode significar, de modo bem real, uma porta aberta para a apostasia, ou seja, para o abandono da fé.

Então, sem mais delongas...por que coisas ruins acontecem a pessoas boas?

1) Porque ninguém é bom. É exatamente o que disse Jesus ao jovem rico, quando este o procurou perguntando o que ele poderia fazer de bom. Na verdade, na minha opinião, Jesus já estava querendo mostrar que o jovem rico não era bom, como ele pensava. Afinal, como diz a parábola do servo inútil, em Lucas 17:10, se fizermos toda a Lei de Deus, somos servos inúteis, que só fizeram o que lhes foi ordenado. Não temos crédito algum com Deus.

Mas o status de "inútil", na verdade, está muito além do que o melhor de nós poderia sonhar. A grande realidade é que somos todos pecadores, transgressores, servos que desobedeceram às ordens do Senhor. Como diz Isaías, o nosso melhor ainda é imundo para Deus:
Mas todos nós somos como o imundo, e todas as nossas justiças, como trapo de imundícia; todos nós murchamos como a folha, e as nossas iniquidades, como um vento, nos arrebatam. (Isaías 64:6)
E qual a pena para esse crime? Como vimos acima é a morte. Ou, dito de modo mais claro, é o inferno, a condenação eterna, que a Bíblia chama de segunda morte:
Quanto, porém, aos covardes, aos incrédulos, aos abomináveis, aos assassinos, aos impuros, aos feiticeiros, aos idólatras e a todos os mentirosos, a parte que lhes cabe será no lago que arde com fogo e enxofre, a saber, a segunda morte. (Apocalipse 21:8)
Ainda que você pense não estar em nenhuma das categorias do versículo, já adianto que, se você cometeu um pecado, qualquer que seja, você já é abominável aos olhos de Deus e precisa da salvação em Cristo. Logo, a conclusão lógica é a de que o que nós realmente merecemos é o inferno.

Portanto, por mais duro que seja, mas qualquer coisa que recebamos além do inferno já é graça de Deus, isto é, um favor além do nosso merecimento, uma bênção. Estamos doentes? A enfermidade é uma graça...porque ela é melhor que o inferno. Está sendo preso, perseguido...caiu na miséria...foi rejeitado pela mulher? Isso tudo ainda é melhor que ir para o inferno. Ainda que aconteça conosco o mesmo que sucedeu a Jó...que perdeu filhos, bens, saúde, além do respeito dos amigos, da comunidade e da própria esposa, ainda assim...isso é melhor que ir para o inferno e é uma expressão da graça de Deus a nosso favor.

2) O julgamento começa pela casa de Deus.
A primeira carta de Pedro procura animar uma igreja sendo perseguida no Império Romano. E, enquanto Pedro fala acerca dos sofrimentos da igreja no capítulo 4, ele diz um versículo que revela muito, mas também é pouco lembrado:
Porque a ocasião de começar o juízo pela casa de Deus é chegada; ora, se primeiro vem por nós, qual será o fim daqueles que não obedecem ao evangelho de Deus? (1 Pedro 4:17)
O julgamento de Deus sobre a humanidade já começou...e os primeiros a comparecerem ao tribunal são, exatamente, os salvos! Isso não significa que estejamos sofrendo uma condenação ou pagando uma pena pelos nossos pecados, como se o sacrifício de Cristo não fosse suficiente para nos purificar por completo. Mas sim que somos disciplinados pelo Senhor, corrigidos por Ele. Como diz o autor de Hebreus (uma outra carta para encorajar uma igreja em sofrimento):
Ora, na vossa luta contra o pecado, ainda não tendes resistido até o sangue e estais esquecidos da exortação que, como a filhos, discorre convosco: Filho meu, não menosprezes a correção que vem do Senhor, nem desmaies quando por ele és reprovado; porque o Senhor corrige a quem ama e açoita a todo filho a quem recebe. É para disciplina que perseverais (Deus vos trata como filhos); pois que filho há que o pai não corrige? Mas, se estais sem correção, de que todos se têm tornado participantes, logo, sois bastardos e não filhos. (Hebreus 12:4-8)
Os sofrimentos são disciplinas que Deus coloca em nosso caminho. São formas usadas por Deus para corrigir nossos defeitos. Mais do que isso, são prova de que somos filhos de Deus, e não bastardos esquecidos. E quais os benefícios desse julgamento, dessa correção?
...Deus, porém, nos disciplina para aproveitamento, a fim de sermos participantes de sua santidade. Toda disciplina, com efeito, no momento não parece ser motivo de alegria, mas de tristeza; ao depois, entretanto, produz fruto pacífico aos que têm sido por ela exercitados, fruto de justiça. Por isso, restabelecei as mãos descaídas e os joelhos trôpegos; e fazei caminhos retos para os pés, para que não se extravie o que é manco; antes, seja curado. (Hebreus 12:10b-13)
Por meio do sofrimento, nos tornamos participantes da santidade divina. Os que suportam essa pedagogia divina produzem um fruto de justiça. Mas, há riscos...por isso a ordem bíblica é que ajudemos os que estão cansados por causa do sofrimento e os ajudemos a permanecerem no caminho de Deus e a receberem a cura divina.

3) O sofrimento será compensado no último dia. Se alguém podia perguntar por que coisas ruins acontecem a pessoas boas...esse alguém era Paulo. Apóstolo dedicado, pregador incansável...a recompensa de Paulo foram perseguições, espancamentos, rejeição, abandono...é de se perguntar se é assim que Deus trata os seus servos fiéis! Mas, estranhamente, Paulo não apresentava a revolta que achamos em muitos cristãos que sofrem (eu incluído). Vejam como ele encarava as coisas ruins que lhe aconteciam:
Porque para mim tenho por certo que os sofrimentos do tempo presente não podem ser comparados com a glória a ser revelada em nós. (Romanos 8:18)
Certamente, os sofrimentos do apóstolo jamais seriam compensados nesse mundo em que vivemos. Mas Paulo olhava além do horizonte da vida física, ele via a existência de uma nova vida, onde a glória e o prazer dos salvos compensaria toda a dor deste mundo. Talvez ele se lembrasse da parábola do rico e do mendigo contada por Jesus:
Disse, porém, Abraão: Filho, lembra-te de que recebeste os teus bens em tua vida, e Lázaro igualmente, os males; agora, porém, aqui, ele está consolado; tu, em tormentos. (Lucas 16:25)
E, por esta razão, mesmo preso, ele podia dizer aos filipenses:
Alegrai-vos sempre no Senhor; outra vez digo: alegrai-vos. (Filipenses 4:4)
E, por se lembrar da recompensa do céu, que os sofrimentos nos aperfeiçoam e que, mesmo assim, eles são uma graça divina, ele pudesse ordenar:
Em tudo, dai graças, porque esta é a vontade de Deus em Cristo Jesus para convosco. (1 Tessalonicenses 5:18)

Conclusão
Gostaria de encerrar este estudo lembrando porém que é normal o cristão sofrer e se angustiar em fases de intensa tribulação. Que grandes homens de Deus, como Davi e Asafe, expressaram essa angústia em orações, registradas nos Salmos. E que Jó e José do Egito, verdadeiros campeões do sofrimento, terminaram recompensados.

Mas também é preciso lembrar que a vida, neste mundo, não é conto de fadas. Talvez aquela enfermidade dolorosa nos acompanhe até o túmulo, e com certeza, alguns carregarão este fardo. Nem todos poderão ter um emprego público ou enriquecer. Alguns sonharão até a morte com o casamento, e não receberão esta dádiva do Senhor (eu mesmo não sei se a receberei). Paulo morreu tido como um criminoso pelo Império Romano, assim como os demais apóstolos, sem ser reconhecido em vida pela sociedade.

No entanto, se olharmos para a eternidade, tenha a certeza de que, os que permanecerem fiéis ao Senhor, terão sim a sua recompensa. Seremos todos como Jó...ainda que, para muitos, o "dobro" só venha quando o nosso Senhor Jesus voltar em glória.
Eles serão para mim particular tesouro, naquele dia que prepararei, diz o SENHOR dos Exércitos; poupá-los-ei como um homem poupa a seu filho que o serve. Então, vereis outra vez a diferença entre o justo e o perverso, entre o que serve a Deus o que não o serve. (Malaquias 3:17-18)

3 comentários:

Anayran Pínheiro de disse...

Me conforta saber que Deus está do nosso lado, mesmo que em silêncio (como muitas vezes, em meu caso. Mas graças a Ele estou conseguindo O escutar mais), mesmo que em palvras, mesmo que em atos...

A vida de um cristão é dificil, mas é verdade o que Paulo escrevia em suas cartas, devemos nos preocupar com a obra aqui, para vermos o que foi construído lá...

Ótimo post Nozima.

Clóvis disse...

Nozima,

A propósito do assunto, publiquei um sermão intitulado E Asafe quase caiu.

Numa época em que o hedonismo impera, é difícil justificar o sofrimento de quem não "merece".

Em Cristo,

Clóvis

Daniel. disse...

Muito bonito e instrutivo o post. Não conhecia/lembrava daquele versículo em 1 Pedro.
Deus te abençoe.
Continue proclamando a palavra dele.

(cadê o próximo post?)