14 abril 2009

Porque o homem não se volta voluntariamente para Deus

O livre-arbítrio dos homens nos dias de hoje é uma unanimidade do cristianismo, certo? Bom, talvez a maioria das pessoas pense desta maneira, mas não é bem assim. Já começa com um problema básico: a definição do termo. De acordo com o dicionário Houaiss:
possibilidade de decidir, escolher em função da própria vontade, isenta de qualquer condicionamento, motivo ou causa determinante
Aplicando isso à doutrina bíblica da salvação, isso significa que o homem seria capaz de decidir seguir a Deus, por vontade própria, sem que fosse condicionado de qualquer forma a fazer isso.

E, aparentemente, é isso o que acontece. Uma vez confrontados com as verdades do Evangelho, os cristãos, espontaneamente, escolhem seguir a Deus e nascem de novo. Certo?

Errado...se pararmos para analisar alguns textos bíblicos:
Não há justo, nem um sequer, não há quem entenda, não há quem busque a Deus; todos se extraviaram, à uma se fizeram inúteis; não há quem faça o bem, não há nem um sequer. (Romanos 3:10-12)
A força destes versículos é sempre ignorada pelas pessoas que defendem o livre-arbítrio. De acordo com a Bíblia, o pecado afetou de tal forma o ser humano que ele se recusa a buscar a Deus. Paulo aqui cita Salmo 14:1-3, onde Davi retrata um Deus que busca entre os homens alguém que o busque, mas não encontra ninguém. A mesma idéia é repetida no Salmo 53.

Por que isso acontece? Simples...porque o homem sem Cristo é controlado pela sua carne, ou seja, pela sua natureza pecaminosa. E é impossível que essa natureza se volte para Deus:
Porque os que se inclinam para a carne cogitam das coisas da carne; mas o que se inclinam para o Espírito, das coisas do Espírito. Porque o pendor da carne dá para a morte, mas o do Espírito, para a vida e paz. Por isso, o pendor da carne é inimizade contra Deus, pois não está sujeito à lei de Deus, nem mesmo pode estar. Portanto, os que estão na carne não podem agradar a Deus. (Romanos 8:5-8)
O texto é claríssimo, mas não percebemos isso. Há duas classes de pessoas: as que se inclinam para a carne (não salvas) e as que se inclinam para o Espírito (salvos). Mesmo os que são salvos hoje, em algum momento do passado, elas estavam sujeitas à carne até o momento da conversão. Mas, vejam só...os que estão na carne não podem agradar a Deus. Não podem, isto está além da capacidade delas. Elas não podem, por exemplo, ter uma fé salvadora, agradável a Cristo. Mais do que isso: a carne não se sujeita a lei de Deus, e nem mesmo pode estar sujeita. Traduzindo: é impossível para a carne obedecer às leis de Deus, por exemplo, crendo em Jesus.

A conclusão é óbvia: pelo assim chamado "livre-arbítrio", o homem nunca se converterá a Cristo, porque isso é impossível para ele.

Qual a saída? Por que então pessoas se convertem? A resposta é a predestinação. As pessoas não escolhem a Deus porque querem...elas escolhem a Deus porque antes foram escolhidas por Ele...porque Deus faz nascer em seus eleitos uma nova natureza que, ao ouvir o Evangelho, crê em Cristo e tem fé n'Ele. Como diz Jesus:
A isto, respondeu Jesus: Em verdade, em verdade te digo que, se alguém não nascer de novo, não pode ver o reino de Deus. (João 3:3)
E, assim como nós não escolhemos nascer fisicamente, também não temos poder algum sobre o nosso nascimento espiritual:
Mas a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder se serem feitos filhos de Deus, a saber, aos que crêem no seu nome; os quais não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus. (João 1:12-13)
Logo, o novo nascimento é uma obra exclusivamente divina, onde a vontade humana não participa, de modo algum. Como diz Paulo:
Assim, não depende de quem quer ou de quem corre, mas de usar Deus a sua misericórdia. (Romanos 9:16)
E, antes que digam que tal predestinação é injusta, quero apenas fazer aqui uma observação. Se Deus não predestinasse ninguém, se Ele não escolhesse ninguém, se Ele não agisse sobre a vontade humana por meio do novo nascimento...ninguém se converteria. Se não existisse predestinação, e tudo fosse deixado ao bel-prazer da vontade humana, ninguém seria salvo. A predestinação não é o capricho cruel de um Deus injusto, mas sim a misericórdia benevolente de um Deus Salvador.

E não poderia ser de outro jeito. Se todos os homens fossem condenados, o diabo iria para o inferno com o troféu de ter estragado completamente a coroa da criação divina, os seres que são "a imagem e a semelhança de Deus" (Gênesis 1:27). Deus não poderia, jamais...deixar que a sua criação mais excelente (junto, talvez, com a criação dos anjos) se perdesse por completo. Daí a necessidade da predestinação...para preservar a glória, a perfeição e a majestade do caráter divino.

8 comentários:

Daniel. disse...

Excelente post. Pena que tanta gente prefira ficar com seus próprios 'achismos' e se recuse a aceitar que a Palavra de Deus é a Palavra de um Deus SOBERANO.

Clóvis disse...

Helder,

Causa espanto a popularidade do livre-arbítrio, se suas dificuldades fossem consideradas. Como você destacou, começa com a definição. Poucos defensores do livre-arbítrio conseguem dizer o ele significa.

As respostas, quando se consegue algumas, variam desde escolha, liberdade até poder de auto-determinação. O mais comum é confundir liberdade com capacidade.

O seu texto trata muito bem da questão, principalmente ao demonstrar que naturalmente o homem é incapaz de voltar-se para Deus.

Em tempo: obrigado por seu comentário ao artigo Sobre livre-arbítrio e responsabilidade.

Em Cristo,

Clóvis

Anayran Pínheiro de disse...

brilhante argumentação e post nozima!
De fato, acho que as pessoas usam esse papo de livre-arbítrio somente para atrair mais pessoas para o reino, sendo que não é essa a interpretação correta que a bíblia nos traz...
Devemos estar cientes que somos responsáveis pelos atos do agora, apesar de Deus ter escrito tudo já, mas acima de tudo, acho que é nossa cabeça, se estamos imbuídos do santo Espírito de Deus, fazemos a correta vontade dele... =]

cincosolas disse...

Anayran,

Paz seja contigo. Permita-me comentar uma observação sua. Não acho que as pessoas que defendem o livre-arbítrio o façam como estratégia para atrair pessoas para o Reino. Acho que elas acreditam mesmo que existe livre-arbítrio.

Há um livro bem interessante chamado de "A ilusão do livre-arbítrio". Nele é desenvolvida a tese de que as pessoas realmente pensam que tem livre-arbítrio, pois essa é a percepção humana. Porém, a despeito do que nos pareça, temos que ficar com o que a Bíblia diz. E o que ela diz é o que o Helder escreveu no post acima.

Em Cristo,

Clóvis

Marcio Carneiro disse...

Caro Rev Helder,
você está errado.

=)

Helder Nozima disse...

Caro irmão Márcio,

Seria muito interessante se você me dissesse onde...e, melhor ainda...por quê.

;-)

Roberto Vargas Jr. disse...

Caríssimo Helder,
Muito boa postagem. O estudo do Solano (que você coloca em link) é também muito bom e deve ajudar aqueles que têm dificuldade com o tema.

Veja que curioso: tive uma discussão com meu cunhado sobre este tema. Eu defendia a posição reformada e ele, sem ter ainda o pensamento muito em ordem, defendia uma posição arminiana. Claro que não se chega a qualquer lugar em discussões assim, mas ele parou para pensar. Logo a seguir recebi um link com o estudo do Solano. Enviei para ele. Ainda não conversamos de novo, mas espero que ele compreenda o assunto.
Entretanto, concordo com o que o Clóvis menciona no seu comentário. A ilusão do livre-arbítrio é tão forte na experiência humana, que é difícil de as pessoas entenderem que não existe tal coisa.

Bem, meu caro, eu também fiz duas postagens que mencionam o tema (mais em forma de reflexão do que teologicamente). Se quiser conferir, dê uma passadinha por lá:
Liberdade: uma breve reflexão
Oh, graça sublime!

Continue firme neste trabalho!
No amor do Redentor,
Roberto

Helder Nozima disse...

Obrigado pelo encorajamento, Roberto. Vou ler os seus posts e comentá-los no seu blog.

Abs!