03 maio 2009

A letra mata

o qual nos habilitou para sermos ministros de uma nova aliança, não da letra, mas do espírito; porque a letra mata, mas o espírito vivifica. (2 Coríntios 3:6)
Confesso que eu preferia que alguns versículos da Bíblia fossem escritos usando termos diferentes, para evitar algumas interpretações confusas, que distorcem o sentido da Bíblia. E um deles é 2 Coríntios 3:6. Já vi o versículo ser usado de diferentes formas:

1) Para dizer que o estudo da teologia mata a fé (particularmente o estudo do calvinismo);
2) Para dizer que a preocupação com doutrinas mata a fé (o que, pra mim, dá na mesma do ponto 1);
3) Para desconsiderar o estudo sistemático da Bíblia...o certo seria lê-la de modo devocional, sem se preocupar em descobrir doutrinas ou usar textos para confrontar pecados ou experiências individuais;
4) Para desprezar o estudo do Antigo Testamento...bom mesmo é estudar e pregar o Novo, principalmente os Evangelhos. O AT não vale mais, apenas mata a fé.

Na verdade, desmontar todos os raciocínios acima seria uma tarefa para um livro! Por enquanto, quero apenas mostrar o que Paulo quis dizer quando falou que "a letra mata".

E, para adiantar o serviço, já dou a minha interpretação agora e os argumentos vem a seguir:
Quando Paulo diz que a letra mata, ele diz que a Lei de Moisés, a antiga aliança, sozinha, apenas condena as pessoas. Sozinha, a letra da Lei é incapaz de salvar, ela apenas condena, ou seja, mata. Mas a nova aliança, por meio do Espírito Santo, traz vida, porque é só por meio do Espírito que somos convencidos de nossos pecados e trilhamos o caminho da salvação.
Pronto. Essa é a minha teoria. Agora, para provar isso, não tem jeito, leitor(a)...temos que ler 2 Coríntios 3:1-18:
Começamos, porventura, outra vez a recomendar-nos a nós mesmos? Ou, temos necessidade, como alguns, de cartas de recomendação para vós outros ou de vós? Vós sois a nossa carta, escrita em nosso coração, conhecida e lida por todos os homens, estando já manifestos como carta de Cristo, produzida pelo nosso ministério, escrita com não tinta, mas pelo Espírito do Deus vivente, não em tábuas de pedra, mas em tábuas de carne, isto é, nos corações. E é por intermédio de Cristo que temos tal confiança em Deus; não que, por nós mesmos, sejamos capazes de pensar alguma coisa, como se partisse de nós; pelo contrário, a nossa suficiência vem de Deus, o qual nos habilitou para sermos ministros de uma nova aliança, não da letra, mas do espírito; porque a letra mata, mas o espírito vivifica.

E. se o ministério da morte, gravado com letras em pedras, se revestiu de glória, a ponto de os filhos de Israel não poderem fitar a face de Moisés, por causa da glória do seu rosto, ainda que desvanecente, como não será de maior glória o ministério do Espírito! Porque, se o ministério da condenação foi glória, em muito maior proporção será glorioso o ministério da justiça. Porquanto, na verdade, o que, outrora, foi glorificado, neste respeito já não resplandece, diante da atual sobreexcelente glória. Porque, se o que se desvanecia teve sua glória, muito mais glória tem o que é permanente.

Tendo, pois, tal esperança, servimo-nos de muita ousadia no falar. E não somos como Moisés, que punha véu sobre a face, para que os filhos de Israel não atentassem na terminação do que se desvanecia. Mas os sentidos deles se embotaram. Pois até hoje, quando fazem e leitura da antiga aliança, o mesmo véu permanece, não lhes sendo revelado que, em Cristo, é removido. Mas até hoje, quando é lido Moisés, o véu está posto sobre o coração deles. Quando, porém, algum deles se converte ao Senhor, o véu lhe é retirado. Ora, o Senhor é o Espírito; e, onde está o Espírito do Senhor, aí há liberdade. E todos nós, com o rosto desvendado, contemplando, como por espelho, a glória do Senhor, somos transformados, de glória em glória, na sua própria imagem, como pelo Senhor, o Espírito. (2 Coríntios 3:1-18)
A letra é a Lei de Moisés
A primeira confusão a ser esclarecida é o que significa "a letra". Pelo contexto, fica claro que "a letra" a que Paulo se refere é a Lei de Moisés, e não a Bíblia como um todo ou teologia, doutrinas e coisas afins. Basta ler o versículo 7, quando se diz sobre "o ministério da morte, gravado com letras em pedras". Ora, basta abrirmos a Bíblia em Êxodo 31:18 e sabemos que os Dez Mandamentos, o coração da lei de Moisés, foram escritos por Deus em tábuas de pedras. Além disso, nos versículos 7, 13 e 15 de 2 Coríntios 3, Paulo faz referências claras a Moisés e o identifica com a antiga aliança. A Lei é o ministério da morte (v.7) e o ministério da condenação (v.9).

Portanto, fica claro que a Bíblia não condena aqui o estudo da Bíblia, da teologia, do calvinismo ou de doutrinas como sendo algo que assassina a fé. A Lei é que mata. Mas é preciso saber também o que isso significa.

Como a Lei mata as pessoas?
No texto de 2 Coríntios 3, Paulo dá três argumentos para provar que a Lei mata as pessoas. A Lei mata porque ela é exterior, temporária e é insuficiente para revelar a Deus.

1) A Lei de Moisés é exterior, ou seja, ela não é gravada nas consciências e nos corações dos fiéis (pelo menos, não sem o Espírito Santo). Paulo começa o texto dizendo aos coríntios que não precisava de cartas das igrejas que atestassem se ele era ou não um apóstolo confiável. A carta de recomendação de Paulo (e do Evangelho que ele pregava) era a própria igreja. A vida dos cristãos era a carta que mostrava a verdade da pregação paulina e podia ser lida por todos os homens, inclusive pelos analfabetos. E por que era assim? Porque o Espírito Santo, na nova aliança, escreve o Evangelho nos corações dos salvos.

Mas a Lei foi escrita em tábuas de pedra (v.3). Ainda que tenha sido o próprio Deus o escritor da Lei (Ex 31:18), Ele não fez isso no coração dos israelitas, e sim, em pedras. A Lei pode ser lida e consultada, mas, se Deus não a escrever no coração dos salvos, ela jamais será interiorizada pelo ser humano. Sem Deus, podemos decorar a Lei, mas não podemos colocá-la em nossos corações.

Na nova aliança isso muda. Agora, Deus escreve as suas leis no coração dos salvos (2 Co 3:3). Na verdade, isso é o cumprimento da profecia de Jeremias 31:31-34:
Eis aí vêm dias, diz o SENHOR, em que firmarei nova aliança com a casa de Israel e com a casa de Judá. Não conforme a aliança que fiz com seus pais, no dia em que os tomei pela mão, para os tirar do Egito; porquanto eles anularam a minha aliança, não obstante eu os haver desposado, diz o SENHOR. Porque esta é a aliança que firmarei com a casa de Israel, depois daqueles dias, diz o SENHOR: Na mente, lhes imprimirei as minhas leis. também no coração lhas inscreverei; eu serei o seu Deus, e eles serão o meu povo. Não ensinará jamais cada um ao seu próximo, nem cada um ao seu irmão, dizendo: Conhece ao SENHOR, porque todos me conhecerão, desde o menor até ao maior deles, diz o SENHOR. Pois perdoarei as suas iniquidades e dos seus pecados jamais me lembrarei.
A Lei é exterior...mas com a nova aliança, o Espírito Santo escreve as leis de Deus na mente e no coração, tornando-a interior. A nova aliança não é a rejeição da Lei, mas sim o ter a Lei gravada na mente e no coração pelo Espírito Santo.

2) A Lei mata porque é temporária, não permanente. Isso fica claro quando Paulo diz que a glória da Lei é desvanecente (2 Co 3:7). Em Êxodo 34:29-34, sabemos que, quando Moisés via o Senhor, o seu rosto brilhava. Só que este brilho não era permanente...quando o tempo passava, o rosto de Moisés voltava ao normal. Paulo explica que, assim como o brilho de Moisés era passageiro, assim também é com a Lei. Isso fica mais claro em 2 Coríntios 3:11, quando ele diz, claramente, que a nova aliança é permanente.

Em outros textos isso fica mais claro. Em Gálatas 3:23-25, Paulo explica que a Lei é uma espécie de aio, um tutor, que cuidou do povo de Deus até à chegada de Cristo:
Mas, antes que viesse a fé, estávamos sob a tutela da lei e nela encerrados, para essa fé que, de futuro, haveria de revelar-se. De maneira que a lei nos serviu de aio para nos conduzir a Cristo, a fim de que fôssemos justificados por fé. Mas, tendo vindo a fé, já não permanecemos subordinados ao aio.
Em Hebreus 10:1, a Bíblia nos diz que a Lei é uma sombra, e não a realidade das coisas:
ora, visto que a lei tem sombra dos bens vindouros, não a imagem real das coisas, nunca jamais pode tornar perfeitos os ofertantes, com os mesmos sacrifícios que, ano após ano, perpetuamente, eles oferecem.
Mais uma vez o aspecto temporário da Lei é ressaltado. A Lei não é eterna porque ela é uma sombra de uma realidade maior: o Evangelho. Ela não é a imagem real das coisas. Por isso, ela "mata"...aquele que se fixa apenas na Lei, sem o Espírito, vai tentar comer a sombra do pão ou beber a sombra da água...mas nunca vai, de fato, comer do pão vivo que desceu do céu (João 6:51) ou beber da água viva que Jesus nos dá (João 7:38-39).

3) A Lei é insuficiente para revelar a Deus.
Ao meu ver, este é o motivo mais forte pelo qual a letra da Lei mata. E aqui há um risco que, no meu entendimento, pode ser extrapolado para toda a Bíblia. As letras, sozinhas...sem a ação sobrenatural do Espírito Santo, sem que este abra o entendimento para atendermos ao que foi escrito (Atos 16:14), não há conversão, por mais que se leia 200 vezes a Bíblia ou se escreva sete doutorados de Teologia.

É isso o que Paulo aprofunda em 2 Co 3:12-18. Os judeis liam a antiga aliança, mas estavam com os sentidos embotados (v.14), como se um véu estivesse sobre o coração, impedindo-os de crer (v.15). Mas, em Cristo, o véu é removido (v.14). E aí o Espírito nos conduz à liberdade (v.17), para que possamos ver, sem véus, a glória do Senhor (v.18). E aí, como um reflexo do fato das leis de Deus serem impressas em nossos corações (2 Co 3:3), somos transformados, de glória em glória, na imagem de Cristo (2 Co 3:18).

A lei é má?
Creio que já provei o meu ponto de vista sobre "a letra mata, mas o espírito vivifica". No entanto, fica uma pergunta que precisa ser respondida: A Lei é má?

E a resposta é: NÃO. A Lei não é má, ela é apenas insuficiente para salvar as pessoas. Como diz Paulo:
Por conseguinte, a lei é santa; e o mandamento, santo, e justo, e bom. (Romanos 7:12)
Isso, de certa forma, fica claro inclusive no texto de 2 Coríntios 3. Apesar de todas as insuficiências, a Lei foi gravada em tábuas de pedra pelo próprio Deus:
E, tendo acabado de falar com ele no monte Sinai, deu a Moisés as duas tábuas do Testemunho, tábuas de pedra, escritas pelo dedo de Deus. (Êxodo 31:18)
A glória da Lei podia ser desvanecente, mas ainda era glória de Deus:
Porque, se o ministério da condenação foi glória, em muito maior proporção serã glorioso o ministério da justiça. (2 Coríntios 3:9)

Porque, se o que se desvanecia teve sua glória, muito mais glória tem o que é permamente. (2 Coríntios 3:11)
Vale lembrar também que a nossa salvação, por meio do sacrifício de Jesus na cruz, é o cumprimento da Lei, e não a sua revogação. O Evangelho não é a anti-Lei, é, na verdade, a sua continuação, o seu aperfeiçoamento, a sua consumação. Nas palavras de Jesus:
Não penseis que vim revogar a Lei ou os Profetas; não vim para revogar, vim para cumprir. Porque em verdade vos digo: até que o céu e a terra passem, nem um i ou til jamais passará da Lei, até que tudo se cumpra. Aquele, pois, que violar um destes mandamentos, posto que dos menores, e assim ensinar aos homens, será considerado mínimo no reino dos céus; aquele, porém, que os observar e ensinar, esse será considerado grande no reino dos céus. (Mateus 5:17-19)
E até hoje a Lei tem a sua utilidade: mostrar aos pecadores que eles estão errados e precisam de salvação:
Sabemos, porém, que a lei é boa, se alguém dela se utiliza de modo legítimo, tendo em vista que não se promulga lei para quem é justo, mas para transgressores e rebeldes, irreverentes e pecadores, ímpios e profanos, parricidas e matricidas, homicidas, impuros, sodomitas, raptores de homens, mentirosos, perjuros e para tudo quanto se opõe à sã doutrina, segundo o evangelho da glória do Deus bendito, do qual fui encarregado. (1 Timóteo 1:8-11)
Logo, segundo o próprio Evangelho, há um uso legítimo da Lei: confrontar os pecadores.

Na verdade, não há oposição entre a Lei (Moisés) e o Evangelho (Cristo). E, no último dia, os que se mantiverem rebeldes a Deus serão julgados pela Lei. Fecho com as palavras de Jesus Cristo:
Não penseis que eu vos acusarei perante o Pai; quem vos acusa é Moisés, em quem tendes firmado a vossa confiança. Porque, se de fato, crêsseis em Moisés, também creríeis em mim; porquanto ele escreveu a meu respeito. Se, porém, não credes nos seus escritos, como crereis nas minhas palavras? (João 5:45-47)

3 comentários:

Daniel. disse...

Texto grande mas muito bom! Uma pena ser TÃO DESESPERADORAMENTE NECESSÁRIO informar o povo o que esse versículo quer dizer... =]

0gg disse...

Sentindo falta de suas postagens nozima...
É muito bom poder ler elas, você está tendo um domínio e tanto do assunto!
Graças a Deus esses posts estão sendo bem construtivos para a minha vida! =]
Abraços!

Ivonete Silva disse...

Depois diz que eu não atualizo meu blog né?
Atualiza, eu amo o que você escreve!