30 junho 2009

A Bìblia e A Cabana

Aqui em Brasília o livro "A Cabana" virou uma febre entre os cristãos...presbiterianos!!! Já ouvi o livro ser defendido em púlpito e até relato de terceiros, dizendo que até sermão baseado na obra (sem abrir a Bíblia) já foi feito em igrejas daqui.

E descobri um artigo excelente no blog Optica Reformata sobre "A Cabana". Aliás, pelos poucos posts que li, o blog é excelente e merece ser indicado.

O link para ler o artigo é: http://bit.ly/gEIGT

25 junho 2009

A maior miséria do homem

"Digo, em suma, para não demorar tempo demais neste propósito, que a maior miséria que um homem pode ter é ignorar a providência de Deus; e, por outro lado, que é uma singular bem-aventurança conhecê-la." (João Calvino, As Institutas, 3, VII, 56)

23 junho 2009

Deus decreta pecados?

I. Pela sua muito sábia providência, segundo a sua infalível presciência e o livre e imutável conselho da sua própria vontade, Deus, o grande Criador de todas as coisas, para o louvor da glória da sua sabedoria, poder, justiça, bondade e misericórdia, sustenta, dirige, dispõe e governa todas as suas criaturas, todas as ações e todas as coisas, desde a maior até a menor.
Ref. Nee, 9:6; Sal. 145:14-16; Dan. 4:34-35; Sal. 135:6; Mat. 10:29-31; Prov. 15:3; II Cron. 16:9; At.15:18; Ef. 1:11; Sal. 33:10-11; Ef. 3:10; Rom. 9:17; Gen. 45:5. (CFW, cap. V. art. 1)

I. Deus dotou a vontade do homem de tal liberdade, que ele nem é forçado para o bem ou para o mal, nem a isso é determinado por qualquer necessidade absoluta da sua natureza.
Ref. Tiago 1:14; Deut. 30:19; João 5:40; Mat. 17:12; At.7:51; Tiago 4:7. (CFW, cap. IX, art.1)
Afinal, as coisas acontecem por que nós queremos e determinamos que elas seriam assim ou por que Deus assim ordena? A compreensão da teologia reformada é a de que os dois lados são igualmente verdadeiros. Deus "dirige, dispõe e governa todas as suas criaturas, todas as ações e todas as coisas, desde a maior até a menor". Por outro lado, o homem é livre, de tal forma "que ele nem é forçado para o bem ou para o mal, nem a isso é determinado por qualquer necessidade absoluta da sua natureza".

Em outras palavras...tudo o que nós fazemos, nas mínimas coisas, desde um bocejo até a decisão de seguirmos ou não a Cristo...é governada e dirigida por Deus. Por outro lado, se decido vestir uma camisa vermelha e não a azul, ou se me recuso a seguir a Cristo, o faço porque escolhi livremente aquela decisão.

Acreditar no que disse acima já é uma barreira enorme para muitos, mas é o ponto de vista oficial da Igreja Presbiteriana do Brasil e de todas as igrejas reformadas que adotam a Confissão de Fé de Westminster (CFW). Essas idéias também foram defendidas por não presbiterianos, como os batistas Charles Spurgeon e Arthur Walkington Pink. Hoje, expoentes batistas como John Piper e Wayne Grudem defendem a mesma visão. Quem quiser conferir, basta checar as referências bíblicas na citação acima...ou ler, por exemplo, a explicação de providência divina dada na Teologia Sistemática de Wayne Grudem.

Mas, se já é duro ler esses artigos da CFW, é mais difícil ainda pensar nas conseqüências. Se Deus dirige as mínimas coisas...então os nossos pecados também foram decretados por Deus. Sim, pecamos não apenas porque nós decidimos assim, mas também porque Deus decretou que pecaríamos. Isso pode ser visto em várias passagens:

1) Na crucificação de Jesus

No sermão do dia de Pentecostes, Pedro atribuí a crucificação de Cristo tanto à vontade humana como ao decreto divino:
Varões israelitas, atendei a estas palavras: Jesus, o Nazareno, varão aprovado por Deus diante de vós com milagres, prodígios e sinais, os quais o próprio Deus realizou por intermédio dele entre vós, como vós mesmos sabeis; sendo este entregue pelo determinado desígnio e presciência de Deus, vós o matastes, crucificando-o por mãos de iníquos... (Atos 2:22-23)
A mesma idéia é repetida pela igreja, quando ora agradecendo ao Senhor pela libertação dos apóstolos:
porque verdadeiramente se ajuntaram nesta cidade contra o teu santo Servo Jesus, ao qual ungiste, Pôncio Pilatos, com gentios e gente de Israel, para fazerem tudo o que a tua mão e o teu propósito predeterminaram..." (Atos 4:27-28)
A crucificação de Jesus foi, sem dúvida alguma, um dos maiores pecados já cometidos na face da Terra, só sendo superado (talvez) pela blasfêmia contra o Espírito Santo. No entanto, se vê que foi um pecado decretado por Deus e executado, livremente, pelos homens predeterminados para isso. Pelo menos essa é a interpretação dada por Pedro e pela igreja de Atos.

2) Quem castigou a Jó: Deus ou Satanás?

Um outro caso interessante é o de Jó. Lendo o livro, vemos que é Deus quem põe a Jó na alça de mira do diabo:
Perguntou ainda o SENHOR a Satanás: Observaste o meu servo Jó? Porque ninguém há na terra semelhante a ele, homem íntegro e reto, temente a Deus e que se desvia do mal. (Jó 1:8)
Após essa pergunta, Satanás se interessa em afetar a Jó e recebe permissão divina para agir contra ele:
Disse o SENHOR a Satanás: Eis que tudo quanto ele tem está em teu poder; somente contra ele não estendas a mão. E Satanás saiu da presença do SENHOR. (Jó 1:12)
Daí se vê que várias desgraças foram causadas pelo diabo contra Jó: o roubo do gado e o assassinato dos servos de Jó feitos pelos sabeus (Jó 1:14-15); o fogo que consumiu ovelhas e servos (Jó 1:16); o roubo dos camelos e o assassinato dos servos, agora feito pelos caldeus (Jó 1:17) e a morte dos primogênitos (Jó 1:18-19).

Quem foi o responsável? Com certeza, sabeus e caldeus são responsáveis: roubaram porque quiseram. O diabo também, essas coisas só aconteceram depois que ele se decidiu a atacar a Jó. Mas Jó atribuiu tudo a Deus:
e disse: Nu saí do ventre de minha mãe e nu voltarei; o SENHOR o deu e o SENHOR o tomou; bendito seja o nome do SENHOR! (Jó 1:21)
Teria Jó pecado em atribuir tal fato ao Senhor? De modo algum:
Em tudo isto Jó não pecou, nem atribuiu a Deus falta alguma. (Jó 1:22)
Deus decretou, o diabo, os caldeus e sabeus o executaram, usando a liberdade que possuem.

3) Quem tentou a Davi: Deus ou Satanás?
Tornou a ira do SENHOR a acender-se contra os israelitas, e ele incitou a Davi contra eles, dizendo: Vai, levanta o censo de Israel e de Judá. (2 Samuel 24:1)

Então Satanás se levantou contra Israel e incitou Davi a levantar o censo de Israel. (1 Crônicas 21:1)
Uma das dificuldades de interpretação bíblica é conciliar o levantamento do censo de Israel conforme contado por 2 Samuel e 1 Crônicas. Em um, Deus é quem fez Davi levantar o censo. No outro, foi o diabo. Há erro?

Não. Tanto Deus como Satanás incitaram a Davi. Deus decretou e o diabo executou a ordem. Mas, mesmo assim, Davi também foi responsável. E o próprio Davi o admite:
Disse Davi a Deus: Não sou eu o que disse que se contasse o povo? Eu é que pequei, eu é que fiz muito mal; porém estas ovelhas que fizeram? Ah! SENHOR, meu deus, seja, pois a tua mão contra mim e contra a casa de meu pai e não para castigo do teu povo. (1 Crônicas 21:17)
Uma lição muito preciosa para crentes que ficam querendo jogar a culpa de seus pecados em cima do diabo, dos homens e de Deus. E um detalhe...aqui a Bíblia diz que Deus incitou Davi a pecar. Como explicar isso sem recorrer a doutrina dos decretos?

4) As vitórias militares de Senaqueribe

Quando o rei assírio Senaqueribe atacou o reino de Judá, ele afrontou a Deus e recebeu uma resposta divina, por meio do profeta Isaías. Senaqueribe achava que ele é quem havia conquistado povos e reinos...e Deus responde, mostrando que isso só aconteceu porque Deus havia determinado que assim seria:
Por meio dos teus servos, afrontaste o Senhor e disseste: Com a multidão dos meus carros, subi ao cimo dos montes, ao mais interior do Líbano; deitarei abaixo os seus altos cedros e os ciprestes escolhidos, chegarei ao seu mais alto cimo, ao seu denso e fértil pomar. Cavei e bebi as águas e com a planta de meus pés sequei todos os rios do Egito. Acaso, não ouviste que já há muito dispus eu estas coisas, já desde os dias remotos o tinha planejado? Agora, porém, as faço executar e eu quis que tu reduzisses a montões de ruínas as cidades fortificadas. (Isaías 37:24-26).
Vale lembrar que, embora Deus tivesse planejado as conquistas assírias, elas eram um pecado para Ele:
Não há remédio para a tua ferida; a tua chaga é incurável; todos os que ouvirem a tua fama baterão palmas sobre ti; porque sobre quem não passou continuamente a tua maldade? (Naum 3:19)
5) A profecia de Micaías

Deus decreta e dirige todas as coisas, e usa até mesmo os pecados para atingir os Seus propósitos divinos. Poucas histórias ilustram isso como a morte de Acabe, que foi considerado o pior rei da história de Israel (1 Reis 21:25). Por causa da morte de Nabote, Deus determinou a morte de todos os descendentes masculinos de Acabe (1 Rs 21:21-24).

Um dia, Acabe decidiu guerrear contra os siros. E vários profetas foram chamados para serem consultados pelo rei. Acabe venceria ou não os siros? Todos profetizaram vitórias. Mas o profeta Micaías mostrou o que, de fato, estava acontecendo:
Micaías prosseguiu: Ouve, pois, a palavra do SENHOR: Vi o SENHOR assentado no seu trono, e todo o exército do céu estava junto à ele, à sua direita e à sua esquerda; Perguntou o SENHOR: Quem enganará a Acabe, para que suba e caia em Ramote-Gileade? Um dizia desta maneira, e outro, de outra. Então, saiu um espírito, e se apresentou diante do SENHOR, e disse: Eu o enganarei. Perguntou-lhe o SENHOR: Com quê? Respondeu ele: Sairei e serei espírito mentiroso na boca de todos os seus profetas. Disse o SENHOR: tu o enganarás e ainda prevalecerás; sai e faze-o assim. Eis que o SENHOR pôs um espírito mentiroso na boca de todos estes teus profetas e o SENHOR falou o que é mau contra ti. (1 Reis 22:19-23)
Deus se valeu de um pecado (a mentira) e de um espírito mentiroso (provavelmente um demônio) para cumprir o seu decreto, de que Acabe morreria.

Mas, há uma dificuldade aqui que precisamos resolver.

Deus tenta os homens?


De modo algum. Como está escrito:
Ninguém, ao ser tentado, diga: Sou tentado por Deus; porque Deus não pode ser tentado pelo mal e ele mesmo a ninguém tenta. (Tiago 1:13)
Como também ensina a CFW:
IV. A onipotência, a sabedoria inescrutável e a infinita bondade de Deus, de tal maneira se manifestam na sua providência, que esta se estende até a primeira queda e a todos os outros pecados dos anjos e dos homens, e isto não por uma mera permissão, mas por uma permissão tal que, para os seus próprios e santos desígnios, sábia e poderosamente os limita, e regula e governa em uma múltipla dispensarão mas essa permissão é tal, que a pecaminosidade dessas transgressões procede tão somente da criatura e não de Deus, que, sendo santíssimo e justíssimo, não pode ser o autor do pecado nem pode aprová-lo.
Ref. Isa. 45:7; Rom. 11:32-34; At. 4:27-28; Sal. 76:10; II Reis 19:28; At.14:16; Gen. 50:20; Isa. 10:12; I João 2:16; Sal. 50:21; Tiago 1:17. (CFW, cap. V, art. IV).
Deus decreta o mal? Sim. Usa o mal para o cumprimento de Seus propósitos? Sim. Mas Ele mesmo vai lá, tentar o pecador? Não. Embora Deus decrete o pecado, Ele mesmo não é o Seu autor ou executor.

Mas como conciliar os decretos de Deus com a liberdade humana? A Bíblia não se preocupa em fazer essa conciliação: ela simplesmente afirma os dois lados como sendo verdadeiros e não vê razões para explicar. O bom intérprete não vai tentar criar uma harmonização artificial deste paradoxo: ele vai seguir a Bíblia e afirmar as duas metades.

Ainda poderia falar sobre como Deus usou o pecado dos irmãos de José para abençoar muitas pessoas...e como até mesmo do pecado surgem razões para louvarmos a Deus. Mas isso você pode fazer lendo o post anterior, que está logo abaixo.

21 junho 2009

A soberania de Deus e a gratidão

Em tudo, dai graças, porque esta é a vontade de Deus em Cristo Jesus para convosco. (1 Tessalonicenses 5:18)
É mais ou menos um consenso entre as religiões que devemos ser gratos, seja a Deus, a deuses ou a espíritos-guias, amigos, mestres e similares pelas coisas boas que recebemos. O cristianismo e outras religiões, como o espiritismo, vai além e diz que devemos ser gratos inclusive pelas coisas ruins que acontecem em nossa vida (os espíritas, porque elas são o pagamento do carma, os cristãos, porque é Deus tratando o nosso caráter).

No entanto, a Bíblia vai além de um agradecer pelas coisas boas e ruins que nos acontecem ou que recebemos. Nós devemos ser gratos por tudo...em todas as circunstâncias...mesmo quando pecamos e erramos.

Mas, como louvar a Deus quando cometemos erros e pecados que podem ter destruído um sonho do nosso futuro? Como agradecer ao Senhor quando somos injustiçados, maltratados, derrotados em nossos propósitos? Ou em meio a dores e sofrimentos que são legitimos, por que são fruto de nossas escolhas ruins?

A resposta está na soberania de Deus. Devemos ser gratos a Deus, mesmo quando tudo vai mal, mesmo nos momentos em que pagamos por nossos erros, porque cremos em um Deus que controla e dirige todas as coisas. Mais do que isso: é graças à soberania de Deus que podemos entender que tudo em nossa vida, até mesmo os erros e desgraças, no final das contas, trará algum bem para nós. Como está escrito:
Sabemos que todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito. (Romanos 8:28)
Todas as coisas...mesmo as ruins...cooperam para o bem dos escolhidos de Deus. Essa realidade pode ser vista de modo bem marcante na vida de José do Egito e seus irmãos. José foi vendido como um escravo pelos seus próprios irmãos, movidos pela inveja. Depois, José não quis se deitar com a esposa de seu senhor e terminou preso. Mas foi na prisão que José começou a interpretar sonhos, e por causa disso, ele acabou interpretando um sonho de Faraó e se tornou o segundo homem do Egito. Pelo sonho, viriam sete anos de fartura e sete de fome...e era preciso guardar a comida dos anos gordos para os anos magros que viriam.

Acaba que, no final das contas...se José não tivesse sido vendido pelos irmãos, ele nunca seria tão importante...e milhares de egípcios teriam morrido de fome. Mais que isso, os próprios irmãos de Jacó não estariam vivos...porque a fome chegou até Canaã, e só havia comida no Egito, graças a José. Acabou que, por meio de um pecado, Deus fez o bem...até mesmo, pasmem, para os próprios pecadores. Como disse José:
Agora, pois, não vos entristeçais, nem vos irriteis contra vós mesmos por me haverdes vendido para aqui; porque, para conservação da vida, Deus me enviou adiante de vós. Porque já houve dois anos de fome na terra, e ainda restam cinco anos em que não haverá lavoura nem colheita. Deus me enviou adiante de vós, para conservar vossa sucessão na terra e para vos preservar a vida por um grande livramento. (Gênesis 45:5-7)

Vós, na verdade, intentastes o mal contra mim; porém Deus o tornou em bem, para fazer, como vedes agora, que se conserve muita gente em vida. (Gênesis 50:20)
Quem levou José ao Egito: os irmãos ou Deus? Os dois. Os irmãos, movidos pelo pecado da inveja. Deus usou o pecado dos irmãos de José para fazer um bem maior...inclusive aos próprios pecadores.

José deveria ser grato...porque Deus tirou da injustiça uma grande bênção para ele. Os irmãos também...não exatamente por terem pecado...mas porque Deus, foi tão bom, tão misericordioso, que usou o pecado deles para abençoar a vida dos pecadores.

Só um porém aqui...não é que pecar seja bom. Pecar não é nada bom...e é só ler a história de José, nos capítulos 37 a 50 de Gênesis para ver as dores que os irmãos de José sofreram por causa do pecado. Também não devemos dizer "Senhor, obrigado por pecar". A lição é que, mesmo quando pecamos, quando pisamos feio na jaca, ainda podemos ser gratos ao Senhor.

Como Deus faz isso, tirar o bem do mal? Simples...Ele é Soberano. Ele conhece todas as coisas...e dirige tudo, nos mínimos detalhes, que acontece no mundo:
Eu sei, ó SENHOR, que não cabe ao homem determinar o seu caminho, nem ao que caminha o dirigir os seus passos. (Jeremias 10:23)

O coração do homem traça o seu caminho, mas o SENHOR lhe dirige os passos. (Provérbios 16:9)

Os teus olhos me viram a substância ainda informe, e no teu livro foram escritos todos os meus dias, cada um deles escrito e determinado, quando nem um deles havia ainda. (Salmo 139:16)
Por que podemos dar graças a Deus em tudo, mesmo quando pecamos ou sofremos o mal? Porque, mesmo quando tudo dá errado, podemos descansar, sabendo que tudo foi determinado por Deus. E, ainda que não entendamos, mas até mesmo o mal é por Ele controlado...e pode sim ser usado pelo SENHOR para o cumprimento de Seus propósitos santos.

12 junho 2009

Predestinação por presciência? O que Calvino tem a dizer sobre isso?

O termo "predestinação" é fácil de encontrar na Bíblia. principalmente nas cartas de Paulo. Os calvinistas ou reformados entendem que Deus pré-determinou o destino das pessoas, elegendo uns para o céu e outros para o inferno. Já os arminianos entendem a predestinação como sendo uma pré-ciência. Ou seja, não é que Deus determina...Ele escolhe os salvos baseado no pré-conhecimento que Deus tem da resposta que eles vão dar quando receberem o convite do Evangelho.

Calvino refuta esse pensamento dos arminianos baseando-se em Efésios 1:3-4, que diz:
Bendito o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, que nos tem abençoado com toda sorte de bênção espiritual nas regiões celestiais em Cristo, assim como nos escolheu, nele, antes da fundação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis perante ele; e em amor (o versículo termina aqui, de forma abrupta mesmo)
Como Calvino faz isso? Só ler a citação abaixo:
Podemos então afirmar com segurança: visto que ele nos escolheu a fim de que fôssemos santos, logo não foi porque previu que haveríamos de ser santos. Porque as duas coisas são contraditórias entre si: que os crentes obtenham a sua santidade graças a sua eleição; e que por essa santidade eles tenham sido eleitos. As astúcias sofísticas a que os tais mestres sempre recorrem não têm nenhum valor aqui. No presente caso, eles dizem que, embora Deus não recompense os méritos anteriores à graça da eleição, ele os recompensa pelos méritos futuros. Mas logo se vê que quando se diz que os crentes foram escolhidos para serem santos, significa que toda sa santidade que eles haveriam de ter têm sua origem e seu início na escolha. E com que tipo de coerência se poderá dizerque o que é produto da eleição seja causa desta? Além disso o apóstolo confirma com ainda maior firmeza o que tinha dito, acrescentando que Deus nos escolheu conforme o decreto da sua vontade, que ele determinou em si mesmo. Isso equivale a dizer que ele não considerou coisa alguma fora de si mesmo à qual desse atenção, quando procedeu a essa deliberação. Por isso Paulo acrescenta, logo a seguir, que tudo aquilo em que se resume a nossa eleição tem que ver com este objetivo: 'para louvor da glória de sua graça'. Certamente a graça de Deus só merece ser exaltada em nossa eleição se for gratuita. Ora, não seria fratuita se Deus, ao escolher os seus, atribuísse algum valor às obras de cada pessoa eleita. Daí se vê que o que Cristo disse a seus discípulos é verdade aplicável a todos os crentes. Disse ele: 'Não fostes vós que me escolhestes a mim; pelo contrário, eu vos escolhi a vós outros'. Com isso ele não somente exclui todos os méritos anteriores, mas também quer dizer que eles não tinham nada em si mesmos que desse motivo para serem escolhidos, pois ele se antecedeu a eles com a sua misericórdia. Nesse sentido devemos também tomar esses dizeres do apóstolo Paulo: 'Quem primeiro deu a ele para que lhe venha a ser restituído?' Porque ele quer mostrar que a bondade de Deus de tal maneira se antecipa aos homens que ela não encontra nada neles, nem quanto ao seu passado nem quanto ao futuro, que lhes possibilite cooperar com ela. (João Calvino, As Institutas da Religião Cristã, 3, VIII, 8, p.43-44, Edição Especial Com Notas Para Estudo e Pesquisa)

Vontade permissiva de Deus não existe!!! E João Calvino concorda com isso!

"Agora, o que vou dizer não deve causar estranheza: que Deus não somente previu a queda do primeiro homem e com ela a desgraça de toda a sua posteridade, mas também ele quis que assim fosse. Porque, assim como pertence à sua sabedoria ter pré-conhecimento de todas as coisas futuras, assim também pertence ao seu poder reger e governar todas as coisas com a sua mão.

Alguns recorrem aqui á diferença entre vontade e permissão e dizem que os ímpios perecem porque Deus o permite, não porque o quer. Mas, por que diremos que ele o permite, se não é porque o quer? Ainda mais quando se considera que não parece provável, em si mesmo, que seja por pura permissão, e não pela ordenação de Deus, que o homem recebe a condenação, como se Deus não tivesse ordenado qual seria a condição do ser que ele queria que fosse a principal e a mais nobre das suas criaturas! Não hesito, pois, em confessar com Agostinho que a vontade de Deus é a necessidade de todas as coisas, e que, necessariamente, o que ele ordenou e quis que sucedesse, assim como tudo quanto ele previu, certamente sucederá." (João Calvino, As Institutas, 3.8.22, p.52)