23 junho 2009

Deus decreta pecados?

I. Pela sua muito sábia providência, segundo a sua infalível presciência e o livre e imutável conselho da sua própria vontade, Deus, o grande Criador de todas as coisas, para o louvor da glória da sua sabedoria, poder, justiça, bondade e misericórdia, sustenta, dirige, dispõe e governa todas as suas criaturas, todas as ações e todas as coisas, desde a maior até a menor.
Ref. Nee, 9:6; Sal. 145:14-16; Dan. 4:34-35; Sal. 135:6; Mat. 10:29-31; Prov. 15:3; II Cron. 16:9; At.15:18; Ef. 1:11; Sal. 33:10-11; Ef. 3:10; Rom. 9:17; Gen. 45:5. (CFW, cap. V. art. 1)

I. Deus dotou a vontade do homem de tal liberdade, que ele nem é forçado para o bem ou para o mal, nem a isso é determinado por qualquer necessidade absoluta da sua natureza.
Ref. Tiago 1:14; Deut. 30:19; João 5:40; Mat. 17:12; At.7:51; Tiago 4:7. (CFW, cap. IX, art.1)
Afinal, as coisas acontecem por que nós queremos e determinamos que elas seriam assim ou por que Deus assim ordena? A compreensão da teologia reformada é a de que os dois lados são igualmente verdadeiros. Deus "dirige, dispõe e governa todas as suas criaturas, todas as ações e todas as coisas, desde a maior até a menor". Por outro lado, o homem é livre, de tal forma "que ele nem é forçado para o bem ou para o mal, nem a isso é determinado por qualquer necessidade absoluta da sua natureza".

Em outras palavras...tudo o que nós fazemos, nas mínimas coisas, desde um bocejo até a decisão de seguirmos ou não a Cristo...é governada e dirigida por Deus. Por outro lado, se decido vestir uma camisa vermelha e não a azul, ou se me recuso a seguir a Cristo, o faço porque escolhi livremente aquela decisão.

Acreditar no que disse acima já é uma barreira enorme para muitos, mas é o ponto de vista oficial da Igreja Presbiteriana do Brasil e de todas as igrejas reformadas que adotam a Confissão de Fé de Westminster (CFW). Essas idéias também foram defendidas por não presbiterianos, como os batistas Charles Spurgeon e Arthur Walkington Pink. Hoje, expoentes batistas como John Piper e Wayne Grudem defendem a mesma visão. Quem quiser conferir, basta checar as referências bíblicas na citação acima...ou ler, por exemplo, a explicação de providência divina dada na Teologia Sistemática de Wayne Grudem.

Mas, se já é duro ler esses artigos da CFW, é mais difícil ainda pensar nas conseqüências. Se Deus dirige as mínimas coisas...então os nossos pecados também foram decretados por Deus. Sim, pecamos não apenas porque nós decidimos assim, mas também porque Deus decretou que pecaríamos. Isso pode ser visto em várias passagens:

1) Na crucificação de Jesus

No sermão do dia de Pentecostes, Pedro atribuí a crucificação de Cristo tanto à vontade humana como ao decreto divino:
Varões israelitas, atendei a estas palavras: Jesus, o Nazareno, varão aprovado por Deus diante de vós com milagres, prodígios e sinais, os quais o próprio Deus realizou por intermédio dele entre vós, como vós mesmos sabeis; sendo este entregue pelo determinado desígnio e presciência de Deus, vós o matastes, crucificando-o por mãos de iníquos... (Atos 2:22-23)
A mesma idéia é repetida pela igreja, quando ora agradecendo ao Senhor pela libertação dos apóstolos:
porque verdadeiramente se ajuntaram nesta cidade contra o teu santo Servo Jesus, ao qual ungiste, Pôncio Pilatos, com gentios e gente de Israel, para fazerem tudo o que a tua mão e o teu propósito predeterminaram..." (Atos 4:27-28)
A crucificação de Jesus foi, sem dúvida alguma, um dos maiores pecados já cometidos na face da Terra, só sendo superado (talvez) pela blasfêmia contra o Espírito Santo. No entanto, se vê que foi um pecado decretado por Deus e executado, livremente, pelos homens predeterminados para isso. Pelo menos essa é a interpretação dada por Pedro e pela igreja de Atos.

2) Quem castigou a Jó: Deus ou Satanás?

Um outro caso interessante é o de Jó. Lendo o livro, vemos que é Deus quem põe a Jó na alça de mira do diabo:
Perguntou ainda o SENHOR a Satanás: Observaste o meu servo Jó? Porque ninguém há na terra semelhante a ele, homem íntegro e reto, temente a Deus e que se desvia do mal. (Jó 1:8)
Após essa pergunta, Satanás se interessa em afetar a Jó e recebe permissão divina para agir contra ele:
Disse o SENHOR a Satanás: Eis que tudo quanto ele tem está em teu poder; somente contra ele não estendas a mão. E Satanás saiu da presença do SENHOR. (Jó 1:12)
Daí se vê que várias desgraças foram causadas pelo diabo contra Jó: o roubo do gado e o assassinato dos servos de Jó feitos pelos sabeus (Jó 1:14-15); o fogo que consumiu ovelhas e servos (Jó 1:16); o roubo dos camelos e o assassinato dos servos, agora feito pelos caldeus (Jó 1:17) e a morte dos primogênitos (Jó 1:18-19).

Quem foi o responsável? Com certeza, sabeus e caldeus são responsáveis: roubaram porque quiseram. O diabo também, essas coisas só aconteceram depois que ele se decidiu a atacar a Jó. Mas Jó atribuiu tudo a Deus:
e disse: Nu saí do ventre de minha mãe e nu voltarei; o SENHOR o deu e o SENHOR o tomou; bendito seja o nome do SENHOR! (Jó 1:21)
Teria Jó pecado em atribuir tal fato ao Senhor? De modo algum:
Em tudo isto Jó não pecou, nem atribuiu a Deus falta alguma. (Jó 1:22)
Deus decretou, o diabo, os caldeus e sabeus o executaram, usando a liberdade que possuem.

3) Quem tentou a Davi: Deus ou Satanás?
Tornou a ira do SENHOR a acender-se contra os israelitas, e ele incitou a Davi contra eles, dizendo: Vai, levanta o censo de Israel e de Judá. (2 Samuel 24:1)

Então Satanás se levantou contra Israel e incitou Davi a levantar o censo de Israel. (1 Crônicas 21:1)
Uma das dificuldades de interpretação bíblica é conciliar o levantamento do censo de Israel conforme contado por 2 Samuel e 1 Crônicas. Em um, Deus é quem fez Davi levantar o censo. No outro, foi o diabo. Há erro?

Não. Tanto Deus como Satanás incitaram a Davi. Deus decretou e o diabo executou a ordem. Mas, mesmo assim, Davi também foi responsável. E o próprio Davi o admite:
Disse Davi a Deus: Não sou eu o que disse que se contasse o povo? Eu é que pequei, eu é que fiz muito mal; porém estas ovelhas que fizeram? Ah! SENHOR, meu deus, seja, pois a tua mão contra mim e contra a casa de meu pai e não para castigo do teu povo. (1 Crônicas 21:17)
Uma lição muito preciosa para crentes que ficam querendo jogar a culpa de seus pecados em cima do diabo, dos homens e de Deus. E um detalhe...aqui a Bíblia diz que Deus incitou Davi a pecar. Como explicar isso sem recorrer a doutrina dos decretos?

4) As vitórias militares de Senaqueribe

Quando o rei assírio Senaqueribe atacou o reino de Judá, ele afrontou a Deus e recebeu uma resposta divina, por meio do profeta Isaías. Senaqueribe achava que ele é quem havia conquistado povos e reinos...e Deus responde, mostrando que isso só aconteceu porque Deus havia determinado que assim seria:
Por meio dos teus servos, afrontaste o Senhor e disseste: Com a multidão dos meus carros, subi ao cimo dos montes, ao mais interior do Líbano; deitarei abaixo os seus altos cedros e os ciprestes escolhidos, chegarei ao seu mais alto cimo, ao seu denso e fértil pomar. Cavei e bebi as águas e com a planta de meus pés sequei todos os rios do Egito. Acaso, não ouviste que já há muito dispus eu estas coisas, já desde os dias remotos o tinha planejado? Agora, porém, as faço executar e eu quis que tu reduzisses a montões de ruínas as cidades fortificadas. (Isaías 37:24-26).
Vale lembrar que, embora Deus tivesse planejado as conquistas assírias, elas eram um pecado para Ele:
Não há remédio para a tua ferida; a tua chaga é incurável; todos os que ouvirem a tua fama baterão palmas sobre ti; porque sobre quem não passou continuamente a tua maldade? (Naum 3:19)
5) A profecia de Micaías

Deus decreta e dirige todas as coisas, e usa até mesmo os pecados para atingir os Seus propósitos divinos. Poucas histórias ilustram isso como a morte de Acabe, que foi considerado o pior rei da história de Israel (1 Reis 21:25). Por causa da morte de Nabote, Deus determinou a morte de todos os descendentes masculinos de Acabe (1 Rs 21:21-24).

Um dia, Acabe decidiu guerrear contra os siros. E vários profetas foram chamados para serem consultados pelo rei. Acabe venceria ou não os siros? Todos profetizaram vitórias. Mas o profeta Micaías mostrou o que, de fato, estava acontecendo:
Micaías prosseguiu: Ouve, pois, a palavra do SENHOR: Vi o SENHOR assentado no seu trono, e todo o exército do céu estava junto à ele, à sua direita e à sua esquerda; Perguntou o SENHOR: Quem enganará a Acabe, para que suba e caia em Ramote-Gileade? Um dizia desta maneira, e outro, de outra. Então, saiu um espírito, e se apresentou diante do SENHOR, e disse: Eu o enganarei. Perguntou-lhe o SENHOR: Com quê? Respondeu ele: Sairei e serei espírito mentiroso na boca de todos os seus profetas. Disse o SENHOR: tu o enganarás e ainda prevalecerás; sai e faze-o assim. Eis que o SENHOR pôs um espírito mentiroso na boca de todos estes teus profetas e o SENHOR falou o que é mau contra ti. (1 Reis 22:19-23)
Deus se valeu de um pecado (a mentira) e de um espírito mentiroso (provavelmente um demônio) para cumprir o seu decreto, de que Acabe morreria.

Mas, há uma dificuldade aqui que precisamos resolver.

Deus tenta os homens?


De modo algum. Como está escrito:
Ninguém, ao ser tentado, diga: Sou tentado por Deus; porque Deus não pode ser tentado pelo mal e ele mesmo a ninguém tenta. (Tiago 1:13)
Como também ensina a CFW:
IV. A onipotência, a sabedoria inescrutável e a infinita bondade de Deus, de tal maneira se manifestam na sua providência, que esta se estende até a primeira queda e a todos os outros pecados dos anjos e dos homens, e isto não por uma mera permissão, mas por uma permissão tal que, para os seus próprios e santos desígnios, sábia e poderosamente os limita, e regula e governa em uma múltipla dispensarão mas essa permissão é tal, que a pecaminosidade dessas transgressões procede tão somente da criatura e não de Deus, que, sendo santíssimo e justíssimo, não pode ser o autor do pecado nem pode aprová-lo.
Ref. Isa. 45:7; Rom. 11:32-34; At. 4:27-28; Sal. 76:10; II Reis 19:28; At.14:16; Gen. 50:20; Isa. 10:12; I João 2:16; Sal. 50:21; Tiago 1:17. (CFW, cap. V, art. IV).
Deus decreta o mal? Sim. Usa o mal para o cumprimento de Seus propósitos? Sim. Mas Ele mesmo vai lá, tentar o pecador? Não. Embora Deus decrete o pecado, Ele mesmo não é o Seu autor ou executor.

Mas como conciliar os decretos de Deus com a liberdade humana? A Bíblia não se preocupa em fazer essa conciliação: ela simplesmente afirma os dois lados como sendo verdadeiros e não vê razões para explicar. O bom intérprete não vai tentar criar uma harmonização artificial deste paradoxo: ele vai seguir a Bíblia e afirmar as duas metades.

Ainda poderia falar sobre como Deus usou o pecado dos irmãos de José para abençoar muitas pessoas...e como até mesmo do pecado surgem razões para louvarmos a Deus. Mas isso você pode fazer lendo o post anterior, que está logo abaixo.

2 comentários:

Vitor Hugo da Silva - Joinville, SC disse...

Olá Helder!

Dentro do antigo testameto é extremamente comum encontrarmos passagens onde até mesmo o mal é atribuído a Deus. Werner Schmidt, um teólogo do AT, em seu livro sobre a teologia do antigo testamento afirma:

“Já que a exclusividade da fé não permite imputar a adversidade a outros poderes, o AT busca relacionar a existência com seus altos e baixos com Deus. Por isso, os lados sombrios da experiência humana não são excluídos da fé nem reprimidos por ela. A fé consegue entender, a partir de Deus, vida em sua globalidade – com a alternância entre tempo de chorar e tempo de rir (Ec 3) –, inclusive em seu caráter contraditório, sem esconder ou omitir, embelezar ou adoçar o que a realidade tem de imperfeito ou negativo.”

De fato tudo o que ocorre é permissão de Deus. Não creio na teologia relativista, creio sim que tudo está diante de Deus (Hb. 4:13), e que nada que possa ocorrer em minha vida futuramente irá pregar um susto em Deus. A Ele pertence a onisciência. Mas veja um exemplo: Se por um acaso, um irmão de sua igreja está passando fome, e você sabe muito bem disto. Qual seria a vontade de Deus? Ajudá-lo ou desprezá-lo? Obviamente que ajudá-lo. Porém, existem vários casos de desprezo e negligência por parte de alguns irmãos. Vejo neste caso uma negligência por parte do homem em cima da vontade de Deus, que é: Ajudar o próximo, e amá-lo. Existem várias pessoas no mundo que passam fome, e Deus está ciente disto, porém ele criou o mundo de tal forma que fosse possível produzir alimento suficiente a todos. Porém, o homem por ganância não distribui corretamente. Esta é vontade de Deus? Obviamente que não. Por ito creio que o homem pode negligenciar a vontade soberana, se Deus assim permitir obviamente. Pois creio que estar no controle de tudo não significa que tudo já está determinado e pronto. Estar no controle é possuir as rédeas em suas mãos e interferir no momento que quiser na história, fazendo o que deseja e da forma que deseja. Assim vejo a soberania de Deus.

Helder, esta a princípio, é a minha teologia sore a soberania de Deus. Porém, nada do que afirmo aqui está crivado, gravada, e guardado. Minha visões teológicas estão em constantes construções e descontruções. E este tipo de diálogo me enriquece, e muito!

Um grande abraço!

Helder Nozima disse...

Não gosto muito do Schmidt como referência teológica no AT. Prefiro uma galera mais ao estilo do Gleason Archer Jr, que tem uma consideração maior pelos conceitos de inspiração e inerrância do AT.

E até discordo do Schmidt. A historinha de quando a arca vai parar na mão dos filisteus ilustra que os hebreus podiam sim reconhecer outras fontes de autoridade, que podiam causar adversidades. Daí toda a importância de mostrar a estátua caída diante da Arca. O diabo, apesar de tudo, foi a fonte da adversidade de Jó.

Sobre o seu último parágrafo, o Calvino fala disso nas Institutas. Mas dou a minha resposta aqui. Existe a vontade decretativa de Deus. Só acontece, de fato, o que Ele decreta. E existe a vontade preceptiva de Deus, ou seja, os preceitos que Ele ordena.

Por que Deus não decreta apenas o que O agrada? Resposta: capítulo 1 do antigo "Teologia da Alegria" ou "Em Busca de Deus" (novo nome). Deus escolhe decretar o que mais trará glória ao Seu nome. Por exemplo, se Adão não tivesse pecado, também Jesus não teria morrido na cruz, e aí não glorificaríamos a Deus como Salvador nem conheceríamos a Sua graça.

Claro que a soberania não exclui a liberdade e a responsabilidade humanas. E mostrei isso no meu post. Espero que você tenha percebido isso na minha argumentação.

No mais, sempre podemos concordar em discordar...faço isso muitas vezes, heheh. Mas, já que vi um link do Sinergismo no seu blog, recomendo que você visite o www.monergismo.com.

Graça e paz do Senhor,

Helder Nozima
Barro nas mãos do Oleiro