19 julho 2009

Como vencer os falsos mestres?

E eu mesmo, Paulo, vos rogo, pela mansidão e benignidade de Cristo, eu que, na verdade, quando presente entre vós, sou humilde; mas, quando ausente, ousado para convosco, sim, eu vos rogo que não tenha de ser ousado, quando presente, servindo-me daquela firmeza com que penso devo tratar alguns que nos julgam como se andássemos em disposições de mundano proceder. Porque, embora andando na carne, não militamos segundo a carne. Porque as armas da nossa milícia não são carnais, e sim poderosas em Deus, para destruir fortalezas, anulando nós sofismas e toda altivez que se levante contra o conhecimento de Deus, e levando cativo todo pensamento à obediência de Cristo, e estando prontos para punir toda desobediência, uma vez completa a vossa submissão.

Observai o que está evidente. Se alguém confia em si que é de Cristo, pense outra vez consigo mesmo que, assim como ele é de Cristo, também nós o somos. Porque, se eu me gloriar um pouco mais a respeito da nossa autoridade, a qual o Senhor nos conferiu para edificação e não para destruição vossa, não me envergonharei, para que não pareça ser meu intuito intimidar-vos por meio de cartas. As cartas, com efeito, dizem, são graves e fortes; mas a presença pessoal dele é fraca, e a palavra, desprezível. Considere o tal isto: que o que somos na palavra por cartas, estando ausentes, tal seremos em atos, quando presentes. (2 Coríntios 10:1-11)
Quando olhamos para as igrejas evangélicas brasileiras nesse início de século XXI, o cenário é, de fato, desolador. Falsos ensinos e heresias conquistaram a maior parte dos corações e das mentes, e isso em todas as denominações. Se, por um lado, o materialismo e a Teologia da Prosperidade imperam, em outro o relativismo ético, moral e doutrinário são a regra. Se os mais pobres parecem andar à procura de dinheiro, curas e milagres, os mais abastados procuram uma igreja que fale menos de pecado, seja tolerante com a libertinagem e adote ideologias que agradam o mundo, mas ferem o ensino da Palavra de Deus.

E quando pregadores ou leigos se levantam para questionar estes ensinos e chamar à igreja para uma volta à Palavra de Deus, a resposta da maioria vem sobre a forma das acusações. "O seu Deus não resolve o problema de ninguém", gritam os teólogos da prosperidade. "Onde está o poder do seu Deus, que não cura minha doença. Pelo menos lá, naquela igreja ali, o pastor está cheio da unção, embora ele não pregue a Palavra", acusam outros. "Seu Deus não ama as pessoas", acusam os libertinos, que querem salvar a todos, mesmo aqueles que não se arrependem e descem ao túmulo blasfemando o nome de Deus. "Ignorante" é a qualificação dada pelos liberais aos que ainda dizem acreditar na suficiência e na inerrância das Escrituras e insistem em ver o mundo de acordo com a ótica bíblica.

Mas, nada no mundo da heresia é realmente inédito...tudo já aconteceu antes. E esse mesmo cenário era o que o apóstolo Paulo encontrava na igreja de Corinto. Uma igreja com um histórico de divisões (1 Coríntios 3:4), imoralidade sexual e libertinagem (1 Co 5:1-2), disputas na Justiça Comum entre irmãos (1 Co 6:1), embriaguez em plena Ceia do Senhor (1 Co 11:21) e abusos no uso dos dons espirituais, especialmente o de línguas (1 Co 14:1-40). Na primeira carta aos coríntios, o apóstolo Paulo já escrevera para atacar esses problemas e alcançara algum sucesso. Mas, quando ele escreveu 2 Coríntios, um novo problema surgiu: o questionamento de sua autoridade apostólica.

"Afinal, quem é Paulo para ficar nos dizendo o que devemos ou não fazer?" Era isso o que um grupo dentro da igreja dizia do apóstolo. Assim como hoje os pregadores fiéis da Palavra de Deus são atacados e desrespeitados, com piadas ou ataques diretos, Paulo também era atacado. Diziam que ele era "grave e forte" nas cartas, mas, provavelmente em tom de galhofa, diziam que ele tinha uma presença pessoal fraca e que sua oratória era desprezível (2 Co 10:10). Pior, levantavam suspeitas sobre o seu caráter, dizendo que ele andava como um mundano (2 Co 10:2). O objetivo era claro: esse grupo de falsos mestres queria desacreditar o apóstolo para poderem espalhar à vontade suas heresias e doutrinas malignas.

Hoje, os pastores, os leigos e as igrejas que ainda se mantèm fiéis à Palavra precisam saber como enfrentar esses falsos mestres, que querem desacreditar a Bíblia e todos os que andam segundo a Palavra. E, para fazer isso, precisamos aprender algumas lições com o apóstolo Paulo:

1) Usar armas espirituais, e não carnais. A primeira coisa que precisamos aprender é que não devemos usar as mesmas armas usadas pelos nossos inimigos. Como cristãos, devemos usar as armas espirituais que Deus nos dá para vencermos a batalha contra os falsos mestres.

Vejam o versículo 3. Lá, Paulo diz que, embora ele vivesse na carne, ou seja, neste mundo, ele não militava, não lutava com as armas usadas no mundo. E que armas seriam essas? As mesmas usadas pelos inimigos do apóstolo: as piadas, o deboche, as calúnias dirigidas contra Paulo. A oratória paulina não era elaborada como a dos mestres pagãos do século I, cheia de recursos de estilo e entonações para impressionar os ouvintes. Paulo não se exaltava diante dos outros e nem humilhava os que o ouviam, como faziam os falsos mestres (2 Co 11:19-20).

Se Paulo não agia assim, como ele se comportava? Que armas ele usava para enfrentar a fofoca, as piadas, os sermões vistosos e a auto-exaltaçao de seus adversários? Parte da resposta podemos encontrar em Efésios 6:13-18:
Portanto, tomai toda a armadura de Deus, para que possais resistir no dia mau e, depois de ter vencido tudo, permanecer inabaláveis. estai, pois, firmes, cingindo-vos com a verdade e vestindo-vos da couraça da justiça. Calçai os pés com a preparação do evangelho da paz; embraçando sempre o escudo da , com o qual podereis apagar todos os dardos inflamados do Maligno. Tomai também o capacete da salvação e a espada do Espírito, que é a Palavra de Deus; com toda oração e súplica, orando em todo o tempo no Espírito e para isto vigiando com toda perseverança e súplica por todos os santos...
Enquanto mentiam sobre Paulo, caluniando-o, o apóstolo se defendia com a verdade. Paulo buscava a justiça, preparou-se no evangelho da paz e conservou a fé em Deus, mesmo sendo atacado duramente por seus adversários. Firmado em sua salvação, ele usou a Palavra de Deus e a oração para atacar seus oponentes e defender a pureza do evangelho de Cristo.

Mais do que isso, voltando a 1 Coríntios 2:4-5, vemos que Paulo não tentava impressionar pela oratória rebuscada, mas pregava com simplicidade para que a fé da igreja estivesse firmada em Deus:
A minha palavra e a minha pregação não consistiram em linguagem persuasiva de sabedoria, mas em demonstração do Espírito e de poder, para que a vossa fé não se apoiasse em sabedoria humana, e sim no poder de Deus.
Enquanto os falsos mestres exaltavam-se a si mesmos e até humilhavam os outros, Paulo usava a sua autoridade apostólica para edificar a igreja (2 Co 10:8) e, ao invés de se exaltar, exaltou a sua fraqueza, para que Cristo fosse glorificado: Então, ele me disse: A minha graça te basta, porque o poder se aperfeiçoa na fraqueza. De boa vontade, pois, mais me gloriarei nas fraquezas, para que sobre mim repouse o poder de Cristo. Pelo que sinto prazer nas fraquezas, nas injúrias, nas necessidades, nas perseguições, nas angústias, por amor de Cristo. Porque, quando sou fraco, então é que sou forte. (2 Coríntios 12:9-10)

Hoje, não é difícil encontrar pastores tão cheios de si mesmos, que se chamam de apóstolos. Cultos que parecem programas de auditório, para impressionar os ouvintes. Pastores abusados, que humilham os fiéis, expondo o que não devem diante de toda a igreja. E crentes igualmente arrogantes, que não aceitam correção e ficam falando mal dos pastores e dos irmãos que tentam corrigi-los.

Que possamos respondê-los com orações no lugar das calúnias, com a Palavra de Deus no lugar dos shows, com a verdade no lugar das mentiras, com a simplicidade e humildade de Cristo, no lugar da arrogância e auto-exaltação dos falsos cristãos.

2)Levar o pensamento à obediência de Cristo. Para vencermos os falsos mestres, não precisamos apenas das armas certas, precisamos também do objetivo correto, que é o de levar cativo todo pensamento à obediência de Cristo (2 Co 10:5).

E aqui precisamos entender uma coisa. Não basta apenas falar de Jesus ou ter uma simpatia pela pessoa de Cristo. O verdadeiro cristão não é aquele que conhece a Jesus, como nós dizemos, mas sim aquele que O conhece e O obedece. Aqueles que falam de Cristo, mas não O obedecem, devem ser punidos, como Paulo fala no versículo 6. A nossa submissão a Cristo deve ser completa, e isso inclui a nossa mente, os nossos pensamentos, os nossos valores.

Muitas vezes os evangélicos ficam incomodados, quando falamos, por exemplo, sobre doutrina. Dizem que doutrina é chato e que isso não tem reflexo algum sobre a nossa vida prática.

O problema é que não é assim que pensamos em relação a outras áreas da nossa vida. na escola, aprendemos que um pensamento pode mudar a História de nações. A idéia, por exemplo, de que todos os homens são iguais, ajudou a derrubar monarquias e é a mãe das democracias. Ligamos a tevê e ouvimos que a educação é a melhor forma de desenvolver um país. Foram os estudos que fizeram o Japão e a Coreia do Sul deixarem de ser nações em desenvolvimento para serem países desenvolvidos. Mas não acreditamos que isso se aplica à igreja. E aí, como diz o Pr. Gildásio, de uma igreja batista reformada de Brasília, "doutrina errada, vida errada". E doutrina errada leva sim as pessoas para o inferno.

Quase toda religião no Brasil fala de Jesus. Mas, de que adianta chamar Jesus de Deus, e rezar a uma multidão de santos, que é algo que Jesus condena? De que adianta chamar Jesus de espírito de luz, e consultar os mortos, que é algo que Jesus abomina? De que adianta chamar Jesus de Senhor e negar a verdade e a autoridade desse próprio Jesus, vivendo do mesmo jeito que as pessoas que não chamam Jesus de Senhor?

Esse é o pecado dos falsos mestres: falar de Jesus, usar o nome de Jesus, mas não seguir o que Jesus manda. Não se arrepender dos pecados. Não acreditar no sacrifício que Ele fez na cruz e tentar ser salvo pelos seus próprios méritos. Isso tudo é pecado, é desobediência. E, se for preciso punir a desobediência para levar as pessoas a Cristo, é isso o que precisamos fazer.

Ao contrário da imagem que alguns têm de Paulo, ele não tinha prazer em punir ou destruir as pessoas. Muito pelo contrário, o objetivo dele era edificar a igreja (2 Co 10:8). Mas, exatamente por isso, ele precisava combater com firmeza todo pensamento e toda altivez contrárias a Cristo (2 Co 4:5). E, se para isso, ele precisasse, de fato, tomar atitudes graves e fortes, como suas cartas (2 Co 10:11), ele estava preparado. Como ele mesmo dizia, Paulo estava pronto para punir toda desobediência, inclusive as da mente (2 Co 10:6).

Meus amados, falamos muito sobre o sacrifício de Jesus na cruz e que precisamos receber a Cristo pela fé, e paramos aí. Mas essa mensagem está incompleta. Precisamos ter fé em Jesus para recebê-lo como nosso Senhor. Vejam o que diz Romanos 10:13:
Porque: Todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo.
Não é uma invocação qualquer, é invocar a Cristo como Senhor. É salvo quem invoca a Cristo, disposto a mudar de vida, a abandonar o pecado e a desobediência e a viver uma vida de completa submissão a Jesus. E, para isso, é preciso que os nossos pensamentos sejam levados cativos a Cristo.

Sabe por que é tão fácil pecar? Porque é com facilidade que entregamos os nossos pensamentos ao pecado, a filosofias, mensagens e até mesmo pregações que não são bíblicas. Mas aquele que, quando tem um pensamento pornográfico, não o alimenta, mas ora e pede a Deus o livramento, e tenta ocupar a mente com outra coisa, esse vai cair menos que o libertino que vê a pornografia e passa o dia inteiro imaginando como será realizar aquilo que ele vê no computador, na televisão ou na revista.

Conclusão
Amados, o prejuízo causado pelos falsos mestres é real. Graças a eles, a igreja de Corinto viu fiéis deixarem o verdadeiro Evangelho e sofreu muito com pecados e divisões. Hoje, por causa dos falsos mestres, os evangélicos não têm credibilidade na sociedade. Somos chamados de ladrões, ignorantes e arrogantes. Os hospitais psiquiátricos estão repletos de evangélicos que sofreram abuso de falsos pastores e falsos apóstolos. O pecado encontra espaço cada vez maior nas mocidades, em jovens relativistas, que não dão tanto valor ao que ensina a Palavra e às advertências do próprio Jesus.

Que, ao invés de entregar os pontos, possamos, juntos, orar e nos revestir das armas espirituais do Senhor para combatermos todo falso ensino. E que possamos também ter em mente o nosso objetivo, que é o de levar cativo o pensamento de todos á obediência de Cristo, mesmo que para isso tenhamos que lançar mão da disciplina eclesiástica. Afinal, se os pensamentos de alguém estiverem em Cristo, podemos ter a certeza de que toda a sua vida também estará aos pés do Senhor Jesus.

Sermão proferido no culto noturno da 1ª Igreja Presbiteriana de Águas Claras, no dia 19 de julho de 2009

2 comentários:

Daniel. disse...

Amém! Belo sermão. Que Deus continue misericordiosamente usando você pra falar, vaso!

Cleber disse...

Já pode até publicar na PES.