05 julho 2009

A intolerância religiosa dos evangélicos: virtude ou pecado?

Digo-vos, porém, a vós outros que me ouvis: amai os vossos inimigos, fazei o bem aos que vos odeiam; bendizei aos que vos maldizem, orai pelos que vos caluniam. Ao que te bate numa face, oferece-lhe também a outra; e, ao que tirar a tua capa, deixa-o levar também a túnica; dá a todo o que te pede; e, se alguem levar o que é teu, não entres em demanda. Como quereis que os homens vos façam, assim fazei-o vós também a eles. (Lucas 6:27-31)
Sou jornalista e fui encarregado de editar matérias sobre a Segunda Conferência Nacional de Promoção da Igualdade Racial, promovida pelo Governo Federal em junho de 2009. E uma das coisas que me chamaram a atenção foram as constantes queixas dos pais-de-santo entrevistados sobre as atitudes dos evangélicos em relação às religiões afro-brasileiras.

As queixas iam muito além da condenação verbal a essas religiões. Relatos de pessoas andando nas ruas e ouvindo "xô, satanás!" e sendo ofendidas mesmo, com xingamentos e até mesmo maldições. Casos de reuniões sendo interrompidas e até quebra-quebra em terreiro, promovido por pessoas que se dizem cristãs e dizendo estarem agindo em nome de Deus. Um exemplo desses aconteceu no Rio de Janeiro, onde um pastor e um jovem evangélico foram presos pela depredação de um centro espírita.

Pela relativa freqüência com que esse tipo de incidente costuma acontecer aqui no Brasil (quem não se lembra do chute da santa?), entendo ser preciso dizer com todas as letras que esse tipo de intolerância é sim pecaminosa. Mais do que isso...ela prejudica a vida de vários missionários e cristãos que estão sofrendo esse e outros tipos de perseguição religiosa ao redor do mundo.

Mas e o Antigo Testamento?
Uma das desculpas usadas por alguns evangélicos para invadir à força templos de outras religiões ou destruírem, sem permissão, objetos religiosos nas casas de pessoas não evangélicas é a prática do Antigo Testamento. Não foi isso, porventura, o que Deus ordenou a Moisés?
Fala aos filhos de Israel e dize-lhes: Quando houverdes passado o Jordão para a terra de Canaã, desapossareis de diante de vós todos os moradores da terra, destruireis todas as pedras com figura e também todas as suas imagens fundidas e deitareis abaixo todos os seus ídolos; tomareis a terra em possessão e nela habitareis, porque esta terra, eu vo-la dei para a possuirdes (...) (Números 33:51-52)
No entanto, é preciso que se entendam duas coisas. A conquista de Canaã aconteceu em um contexto histórico diferente do atual. Os deuses eram identificados com os povos...adorar a um deus diferente do seu povo era, de certa forma, traí-lo. Além disso, a conquista de Canaã era, ao meu ver, um símbolo do Juízo Final. Em Hebreus 4, a Bíblia traça um paralelo entre o descanso eterno de Deus (o céu) e a Terra Prometida, especialmente no versículo 8, quando fala de Josué. Canaã era uma figura do céu: onde não haverá nenhum traço de pecado ou idolatria. Os hebreus são o símbolo do povo escolhido para herdar o céu, os cananeus, o símbolo da humanidade que será condenada e destruída pelo Senhor no último dia. Esse contexto teológico não pode ser esquecido em momento algum: Canaã era uma realidade espiritual ímpar, que não se aplica mais nos dias de hoje, quando não há mais uma terra ou um povo superiores nos planos de Deus. (os dispensacionalistas que discordarem dessa doutrina, favor lerem o livro "O Cristo dos Pactos", de O. Palmer Robertson, da Cultura Cristã).

É claro que, como cristãos bíblicos, acreditamos sim que, quando Jesus voltar, Ele julgará a todos os homens...e que apenas os verdadeiros adoradores de Deus permanecerão e o resto da humanidade será condenado. Crenças parecidas são sustentadas por outras religiões que falam do julgamento da humanidade. Mas é pecado querer fazer agora o que Deus fará no último dia. Isso Jesus ensina claramente na parábola do trigo e do joio:
Mas os servos lhe perguntaram: Queres que vamos e arranquemos o joio? Não! Replicou ele, para que, ao separar o joio, não arranqueis também com ele o trigo. Deixai-os crescer juntos até à colheita, e, no tempo da colheita, direi aos ceifeiros: ajuntai primeiro o joio, atai-o em feixes para ser queimado, mas o trigo, recolhei-o no meu celeiro. (Mateus 13:29b-30)
Mas, para alguns evangélicos, esses argumentos não são suficientes; Um outro argumento usado por eles é que a idolatria é, de fato, um pecado:
Não terás outros deuses diante de mim. Não farás para ti imagem de escultura, nem semelhança alguma do que há em cima nos céus, nem embaixo na terra, nem nas águas debaixo da terra. Não as adorarás, nem lhes darás culto; porque eu sou o SENHOR, teu Deus, Deus zeloso, que visito a iniqüidade dos pais nos filhos até à terceira e quarta geração daqueles que me aborrecem e faço misericórdia até mil gerações daqueles que me amam e guardam os meus mandamentos. (Êxodo 20:3-6)
E, de fato, a Bíblia considera a adoração a outros deuses um pecado, condenado aliás, nos dois primeiros mandamentos. Mas a forma certa de cristãos condenarem o pecado não é usando a violência, a chacota, os xingamentos. A forma certa de confrontar a idolatria é por meio da pregação da Palavra:
E, assim, a fé vem pela pregação, e a pregação, pela palavra de Cristo. (Romanos 10:17)
Embora o contexto da profecia seja outro (mostrar a Zorobabel que não seria com modos violentos que o segundo templo seria reedificado), mas a palavra cabe quando se trata da pregação do Reino de Deus:
Não por força, nem por poder, mas pelo meu Espírito, diz o SENHOR dos Exércitos. (Zacarias 4:6b)
Não é pela violência que as pessoas serão convencidas a seguirem a Jesus. E nem essa foi a política adotada por Ele e pelos apóstolos.

O exemplo de Jesus e dos apóstolos
Os que leem os Evangelhos não devem se esquecer que, nos dias de Jesus, Jerusalém era uma cidade debaixo do Império Romano. Com certeza, os romanos mantinham seus templos na cidade (ainda que apenas em suas casas) e exercitavam lá a sua devoção a deuses pagãos. No entanto, Jesus, em momento algum, aparece invadindo a casa ou um templo romanos para destruir ídolos. Ao contrário, quando Jesus se vale da violência, foi para purificar o Templo do seu Pai...

Na verdade, a profecia de Isaías sobre o ministério de Jesus não mostra um pregador agressivo, virulento, que saía atacando as pessoas:
Não clamará, nem gritará, nem fará ouvir a sua voz na preça. Não esmagará a cana quebrada, nem apagará a torcida que fumega; em verdade, promulgará o direito. Não desaminará, nem se quebrará até que ponha na terra o direito; e as terras do mar aguardarão a sua doutrina. (Isaías 42:2-4)
Jesus não era um "banana". Basta ler os Evangelhos para vermos palavras duras sendo ditas aos fariseus (Mateus 23) e mesmo discursos em que Ele terminou abandonado por todos por dizer a verdade sobre os pecados de seus próprios seguidores (João 6). Jesus veio com uma missão: estabelecer o direito na Terra, proclamar e tornar reais as leis do Senhor neste mundo em que vivemos. E, até o presente momento, Ele trabalha para que isso aconteça. Mas Jesus não faz isso gritando, de modo escandaloso. Ele não esmaga e oprime as pessoas para fazer isso.

Ora, se Jesus não age assim, quem somos nós para, por meio de berros, fazermos isso? Quem somos nós para esmagarmos canas quebradas? Quanto mais para pecarmos, xingando e ofendendo e até depredando o patrimônio alheio? Jesus não fez isso.

E nem os apóstolos. Muito pelo contrário...na Bíblia os cristãos nunca são os perseguidores violentos...eles é que são os perseguidos e oprimidos por outras religiões.

Um exemplo disso é o ministério de Paulo na cidade de Éfeso, que podemos ler em Atos 19. Segundo o próprio texto bíblico, havia uma grande indústria de ídolos na cidade, que tinha um grande templo dedicado à deusa Diana (ou Ártemis, se usarmos o nome grego ao invés do latino). Lá, Paulo alcançou um grande sucesso, a tal ponto que:
Também muitos dos que haviam praticado artes mágicas, reunindo os seus livros, os queimaram diante de todos. Calculados os seus preços, achou-se que montavam a cinquenta mil denários. (Atos 19:19)
O sucesso do apóstolo foi tão grande que um ourives da cidade, chamado Demétrio, temeu pela continuidade de seu sustento:
Não somente há o perigo de a nossa profissão cair em descrédito, como também o de o próprio templo da grande deusa, Diana, ser estimado em nada, e ser mesmo destruída a majestade daquela que toda a Ásia e o mundo adoram. (Atos 19:27)
A narrativa segue até o versículo 41...e a violência fica a cargo dos pagãos, e não de Paulo e seus seguidores, que foram vítimas de um tumulto e arrastados à força para uma assembléia.

Também em Atenas, quando Paulo fala aos pagãos, em Atos 17, o apóstolo, embora tenha se revoltado com a idolatria da cidade (Atos 17:16), não saiu por aí xingando os atenienses. Quando ele teve a oportunidade de fazer um discurso público, o tom foi respeitoso.

Vale notar que Jesus e Paulo foram homens firmes, que condenaram veemente o pecado e nem sempre foram politicamente corretos, nem para os padrões do século XXI ou para os padrões do século I. Mas as palavras mais duras deles foram dirigidas à "igreja da época", os judeus, e não aos que não eram da igreja. Por que hoje agir diferente agora?

O prejuízo aos missionários
Um princípio bíblico é o de que devemos amar os nossos inimigos. E, como lemos no versículo que abre este post, devemos tratar os outros como queremos ser tratados.

Na verdade, nenhum cristão genuíno gosta de ser xingado, ofendido ou perseguido por causa da fé. Não queremos que entrem em nossos templos e depredem o nosso patrimônio. Até mesmo quando os vizinhos da igreja ligam aquele funk no último volume na hora do culto, já nos sentimos incomodados...quando não agredidos. Por que, então, não tratarmos as outras religiões com o mesmo respeito?

Mas o problema é mais sério. Hoje vários cristãos estão presos por causa da verdadeira perseguição ao Evangelho. E uma de nossas lutas é (ou deveria ser) a de que a liberdade religiosa seja, de fato, um direito humano real em todo o mundo. Mas, como reivindicar essa liberdade, se nós mesmos não fomos capazes de respeitá-la?

E os evangélicos que não se iludam...afinal, somos uma minoria no Brasil e no mundo. Se hoje milhões de brasileiros se declaram evangélicos, a liberdade de crença contou muito. Na Igreja Presbiteriana, há histórias de tocaias armadas para pastores e ameaças de depredação de templos no século XIX. Pastores jubilados falam de apedrejamentos a igrejas evangélicas nas cidades goianas, em pleno século XX. Quando tudo isso foi vencido e superado, quando o respeito à religião evangélica permitiu uma pregação mais pacífica, as igrejas cresceram.

Mas, quando os cristãos decidiram ganhar almas por meio da espada, o resultado nunca foi positivo. Até hoje, as Cruzadas são evocadas pelos muçulmanos para barrar ou limitar a presença de missionários em países islâmicos. As missões católicas no Brasil, convertendo negros e índios à força, produziram um catolicismo sincrético, onde orixás e santos se misturam. Mais do que isso...esse passado histórico cria barreiras que dificultam a evangelização até hoje.

Se é assim com o passado, imaginem quando a intolerância acontece no presente! Os evangélicos intolerantes estão prestando um desserviço ao Senhor da Igreja, pecando e trazendo prejuízos a verdadeira pregação evangélica.

Um porém
Mas, cabe aqui registrar um porém. É dever do cristão pregar a verdade bíblica, e isso significa sim denunciar a idolatria como pecado, uma estrada que leva direto para o inferno, a não ser que haja arrependimento. Precisamos ter a liberdade de pregarmos a Bíblia abertamente e o dever de anunciar aos homens a Lei de Deus e suas penas.

Mas é preciso que entendamos que as outras religiões e correntes têm o mesmo direito. Seria ótimo se toda a humanidade fosse cristã...(os muçulmanos, budistas, hindus e até ateus devem pensar o mesmo sobre suas religiões)...mas não foi assim que Deus decretou. A liberdade religiosa é uma exigência e uma bênção para o mundo em que vivemos hoje. Ela permite os meios para que a pregação do Evangelho seja livre e abundante, e isso é sim ótimo. A liberdade abre a porta para as heresias? Sim. Mas também abre as portas para o Evangelho. E é isso o que verdadeiramente deveria importar.

5 comentários:

Marcio Carneiro disse...

Muito bom o texto Helder.

E sabe o que me lembrou? Me lembrou as pregações do Paul Washer.

As igrejas estão deixando de pregar o evangelho. Os fieis estão deixando de ouvir a Palavra.
Ninguém mais está se humilhando diante do evangelho.

Anayran Pínheiro de disse...

O pior é ver que isso tudo acontece porque pessoas estão lendo cada vez menos o novo testamento...
Às vezes eu acho que uma pessoa só pode ser cristã de verdade se consegue compreender com o coração o novo testamento, mesmo ele sendo ignóbil, burro e tals...

Daniel. disse...

Excelente post, Nozima. Por favor, continue.

Daniel. disse...

ah, O prejuízo aos missionários
Um princípio bíblico é o de que devemos amar os nossos inimigos. E, como lemos no versículo que abre este post, devemos tratar os outros como (AQUI)devemos(NAO SERIA QUEREMOS?) ser tratados.

Zé Costa disse...

Excelente texto!Parabéns!