15 outubro 2009

Neemias: tipo de Cristo (II) - O intercessor

As palavras de Neemias, filho de Hacalias. No mês de quisleu, no ano vigésimo, estando eu na cidadela de Susã, veio Hanani, um de meus irmãos, com alguns de Judá; então, lhes perguntei pelos judeus que escaparam e que não foram levados para o exílio e acerca de Jerusalém. Disseram-me: Os restantes, que não foram levados para o exílio e se acham lá na província, estão em grande miséria e desprezo; os muros de Jerusalém estão derrubados, e as suas portas, queimadas.

Tendo eu ouvido estas palavras, assentei-me, e chorei, e lamentei por alguns dias; e estive jejuando e orando perante o Deus dos céus. E disse: Ah! SENHOR, Deus dos céus, Deus grande e temível, que guardas a aliança e a misericórdia para com aqueles que te amam e guardam os teus mandamentos! Estejam, pois, atentos os teus ouvidos, e os teus olhos, abertos, para acudires à oração do teu servo, que hoje faço à tua presença, dia e noite, pelos filhos de Israel, teus servos; e faço confissão pelos pecados dos filhos de Israel, os quais temos cometidos contra ti; pois eu e a casa de meu pai temos pecado. Temos procedido de todo corruptamente contra ti, não temos guardado os mandamentos, nem os estatutos, nem os juízos que ordenaste a Moisés, teu servo. Lembra-te da palavra que ordenaste a Moisés, teu servo, dizendo: Se transgredirdes, eu vos espalharei por entre os povos; mas, se vos converterdes a mim, e guardardes os meus mandamentos, e os cumprirdes, então, ainda que os vossos rejeitados estejam pelas extremidades do céu, de lá os ajuntarei e os trarei para o lugar que tenho escolhido para ali fazer habitar o meu nome. Estes ainda são teus servos e o teu povo que resgataste com teu grande poder e com tua mão poderosa. Ah! Senhor, estejam, pois, atentos os teus ouvidos à oração do teu servo e à dos teus servos que se agradam de temer o teu nome; concede que seja bem sucedido hoje o teu servo e dá-lhe mercê perante este homem. Nesse tempo eu era copeiro do rei. (Neemias 1:1-11)
Emocionar-se com as tragédias dos outros é algo cada vez mais difícil nos dias de hoje. O egoísmo é a grande tendência comportamental do Brasil no início do século XXI. A política deixa de ser o campo de atuação dos que querem defender os mais fracos para ser a esfera dos interesses particulares, onde se arranja emprego até para o namorado da neta. Muitos querem ser juízes, não exatamente por vocação ou para fazer Justiça, mas para ter acesso aos gordos subsídios pagos aos magistrados, os maiores salários do serviço público. Mesmo nas igrejas, a grande busca não é exatamente por Deus, mas sim pelo dinheiro, emprego e até noiva(o) que Ele pode dar. Em denominações, como a Universal do Reino de Deus verifica-se uma ênfase muito maior no que você deve dar em dízimos e ofertas do que em oportunidades reais de servir ao próximo.

E se tinha algum judeu que podia se dar ao luxo de ser egoísta, esse alguém era Neemias. Judá era na época (445 a.C.) uma província do Império Persa, logo, os judeus eram escravos. Mas Neemias morava na capital do Império, Susã e tinha um bom emprego, de copeiro do rei. Naquela época, copeiro era um cargo bem mais importante do que hoje e de confiança. Afinal, o vinho poderia estar envenenado, o copeiro precisava ser alguém confiável. Além disso, nessa posição Neemias tinha acesso direto ao rei.

Mas Neemias não se preocupava apenas com o seu bem-estar. Ele se importava com a situação do povo de Israel. Por isso, quando Hanani voltou de viagem, Neemias quis saber as últimas notícias. E o relato foi desanimador: grande miséria, desprezo, muros derrubados e portas queimadas. Hoje também temos um quadro parecido. Mais de um bilhão de pessoas passam fome no mundo hoje. Enquanto isso, o governo brasileiro dá dinheiro a uma organização criminosa que invade propriedades, intimida agricultores, ocupa prédios públicos, além de defender um modelo que não garante a sobrevivência econômica dos supostos beneficiados. Favelas são queimadas e milhares de pessoas ficam sem suas casas, policiais militares cometem crimes e é só dar uma rápida olhada em sites de notícias para ver muito mais miséria e desprezo.

Diante disso, o que fazer?

1) Se importar. Essa, talvez, seja a atitude mais difícil de todas. Conseguir olhar para a dor do próximo, sair de nosso conforto, abrir mão do nosso egoísmo e se entristecer por causa da miséria de outros.

Mas foi a atitude de Neemias. Ele não recebeu as últimas notícias com indiferença e apatia. Ao contrário, ele se sentou, chorou e lamentou...por alguns dias! Em outras palavras, o relato provocou em Neemias uma reflexão prolongada sobre o estado de seus irmãos. Por isso ele ficou emocionado e lamentou.

Da mesma forma, as necessidades das pessoas provocavam a compaixão de Jesus:
Ao desembarcar, viu Jesus uma grande multidão e compadeceu-se deles, porqe eram como ovelhas que não têm pastor. E passou a ensinar-lhes muitas coisas. (Mateus 6:34)
Quando os judeus de uma sinagoga criticavam a Jesus no íntimo de seus corações por causa da cura de um homem com a mão ressequida, o pecado deles provocou indignação e despertou a compaixão de Jesus:
Olhando-os ao redor, indignado e condoído com a dureza do seu coração, disse ao homem: Estende a mão. Estendeu-a, e a mão lhe foi restaurada. (Marcos 3:5)
Ajudar os outros sem ter o sentimento de tristeza e compaixão é dar um auxílio frio, incompleto e indigno de Cristo. O sentimento sozinho não muda nem restaura coisa alguma, mas é fundamental para provocar reações que, de fato, façam diferença.

2) Orar e jejuar. Se beleza não põe mesa, tristeza também não adianta nada. Mas, antes de agir e fazer alguma coisa, é preciso levar o problema ao Rei dos Reis por meio da oração e do jejum.

Para muitos, orar é uma perda de tempo, uma atividade inútil, uma conversa com um amigo imaginário. Mesmo entre os evangélicos, são muitos os que sentem sono e tédio e não oram, nem por si e muito menos pelos outros.

Neemias enxergava as coisas de forma diferente. Para ele, orar era conversar com quem, de fato, pode resolver tudo: Deus. A esperança de Neemias era a de que Deus, de alguma forma, mudasse a sorte de Israel. A oração era a forma como Neemias depositava sua fé no Senhor. Jesus nos ensinou a ter a mesma atitude:
Eu sou a videira, vós os ramos. Quem permanece em mim, e eu, nele, esse dá muito fruto; porque sem mim nada podeis fazer. (João 15:5)
A igreja precisa entender que depende de Jesus para tudo. Planos de ação, sermões, distribuição de sopa...sem Cristo, não é nada. Neemias entendia isso. Será que entendemos?

3) Confessar o pecado. Se você procurar pela raiz de todos os males do mundo...desde os tsunamis que devastam a Samoa até a tristeza do aposentado enganado, passando pela existência de armas nucleares e doenças psicossomáticas, o pecado vai estar lá. Por causa do pecado, Deus amaldiçoou a terra e a morte, em todas as suas cores e tons, passou a fazer parte da existência humana.

E, muitas vezes, o grande inimigo do homem é o próprio homem. A ganância, os roubos, a violência e o desejo de levar vantagem podem explicar muitas mazelas da humanidade. Mazelas que são também culpa nossa.

Peraí, ops...como assim, nossa? Eu não sou responsável pela fome na Somália, por exemplo. Bom, minha resposta é a seguinte: você pecou. Quando pecamos, contribuímos para um mundo pior, em todos os sentidos. Além do mais, quando deixamos de fazer o bem, quando nos omitimos, quando não fazemos nada para melhorar o mundo, pecamos e damos a nossa parcela para a ruínda da humanidade.

Neemias não era nem vivo quando os judeus idolatraram no século VI a.C. e atraíram a ira de Deus e o exílio babilônico. Mas, em sua oração, ele se incluiu como pecador. "Temos procedido de todo corruptamente" e "não guardamos". Ele não se excluiu, antes, reconheceu que ele também era parte de Israel, que os pecados de outros o afetavam...e que seus próprios pecados afetavam a outros também. A miséria e o desprezo não poderiam ser vencidos sem que o pecado do povo fosse confessado a Deus.

Cristo foi muito além de Neemias. Sim, Jesus orou por pecadores, mas Ele também morreu por eles, tomando sobre Ele os nossos pecados:
Pois também Cristo morreu, uma única vez, pelos pecados, o justo pelos injustos, para conduzir-vos a Deus; morto, sim, na carne, mas vivificado no espírito... (1 Pedro 3:18)
Hoje não precisamos morrer pelo pecado de ninguém. Mas precisamos confessar os nossos pecados, os da igreja e de nossa sociedade. Precisamos nos arrepender, inclusive de nossa frieza, e suplicar em oração que Deus nos perdoe, nos conduza ao arrependimento e mude nossos corações e formas de agir. Ao invés de cultos de vitória, precisamos de cultos de confissão de pecados. Talvez aí comece, de fato, a libertação de nosso país.

2 comentários:

Daniel. disse...

Excelente! Eu não estudei mesmo quase nada a respeito de Neemias, e estou gostando muito. Continue a série a respeito. Muito bom mesmo.

E obrigado pela publicidade.

Anayran Pínheiro de disse...

Mais um post que me faz pensar em meus atos...
Agradeço a Deus por estar te usando para esses posts cara, e te agradeço por estar deixando ser usado para nos trazer esses estudos... =)