16 outubro 2009

Neemias: tipo de Cristo (III) - O missionário

No mês de nisã, no ano vigésimo do rei Artaxerxes, uma vez posto o vinho diante dele, eu o tomei para oferecer e lho dei; ora, eu nunca antes estivera triste diante dele. O rei me disse: Por que está triste o teu rosto, se não estás doente? Tem de ser tristeza do coração. Então, temi sobremaneira e lhe respondi: viva o rei para sempre! Como não me estaria triste o rosto se a cidade, onde estão os sepulcros de meus pais, está assolada e tem as portas consumidas pelo fogo? Disse-me o rei: Que me pedes agora? Então, orei ao Deus dos céus e disse ao rei: Se é do agrado do rei, e se o teu servo acha mercê em tua presença, peço-te que me envies a Judá, à cidade dos sepulcros dos meus pais, para que eu a reedifique. Então, o rei, estando a rainha assentada junto dele, me disse: Quanto durará a tua ausência? Quando voltarás? Aprouve ao rei enviar-me, e marquei certo prazo. E disse ainda ao rei: Se ao rei parece bem, dêem-se-me cartas para os governadores dalém do Eufrates, para que me permitam passar e entrar em Judá, como também carta para Asafe, guarda das matas do rei, para que me dê madeira para as vigas das portas da cidadela do templo, para os muros da cidade e para a casa em que deverei alojar-me. E o rei mas deu, porque a boa mão do meu Deus era comigo.

Então, fui aos governadores dalém do Eufrates e lhes entreguei as cartas do rei; ora, o rei tinha enviado comigo oficiais do exército e cavaleiros. Disto ficaram sabendo Sambalate, o horonita, e Tobias, o servo amonita; e muito lhes desagradou que alguém viesse a procurar o bem dos filhos de Israel. (Neemias 2:1-10)
Para o cristão que não quer compromisso, orar pode ser algo extremamente perigoso. Afinal, Deus pode transformar o intercessor na resposta de sua própria oração, e enviá-lo a um campo missionário, o ministério pastoral, a ação social ou alguma outra tarefa. Mas, muitas vezes, quando recebemos o "convite" de Deus, preferimos sair à francesa e continuar no nosso confortável papel de intercessores. Orar é bem mais fácil que agir.

Ainda bem que esse não era o pensamento de Neemias. Já em Neemias 1:11, no fecho de sua oração, ele pediu a Deus que achasse mercê (favor, misericórdia, graça) diante do rei. Sinal que ele pretendia, no mínimo, fazer uma petição ao rei Artaxerxes sobre o estado de Jerusalém.

Fato é que Neemias só pensava em seu povo e isso se refletiu em seu estado de espírito. Tanto que o rei percebeu a tristeza de Neemias e fez uma pergunta. E foi aí que Neemias começou a ser resposta de sua própria oração.

1) Sendo corajoso. Neemias era o copeiro do rei, e provava toda a comida e bebida que o rei comeria. Se ele mudasse o seu semblante, o rei poderia ficar desconfiado de que a comida estava envenenada ou mesmo de que o copeiro estava tramando o seu assassinato. Por isso, quando Artaxerxes indagou-o sobre sua tristeza, Neemias teve medo.

Mas, apesar da situação, Neemias foi corajoso e disse ao rei o que sentia. Ele não escondeu o seu desapontamento com a situação de Jerusalém. Só que o rei fez outra pergunta. "Neemias...pare de enrolar e me diga agora o que você quer". E aí Neemias, mais uma vez mostrou sua coragem:

1) Pedindo para ser enviado à Judá, deixando assim a capital do Império para ir a uma região castigada pela miséria.
2) Se colocando como aquele que reedificaria Jerusalém.
3) Pedindo cartas para conseguir madeira para a construção.

Foi, de fato, uma grande ousadia, fruto de um homem cheio de coragem e disposição para executar seus propósitos. Uma audácia que só poderia vir da oração.

2) Orando e planejando. Repare bem. Um gancho para falar no assunto dado pelo próprio rei. Some a isso um plano bem elaborado e um rei extremamente solícito, que atende sem muitos questionamentos aos pedidos de seu copeiro. Claro que nada disso era coincidência.

O livro de Neemias começa com dias de oração, jejum, choro e lamento. Mas, não imagino que em todo este período, Neemias ficou apenas repetindo, feito um papagaio: "pecamos, Senhor, por favor perdoe a Israel e faça com que Jerusálém seja reconstruída". O mais provável é que, à medida em que ele orava e pensava na situação, Neemias tivesse montado um plano. Tanto que o capítulo primeiro termina com um pedido para que o copeiro fosse "bem sucedido" e achasse a mercê do rei.

Na hora em que o rei perguntou o porquê da tristeza de Neemias, ainda deu tempo de fazer uma rápida oração. O resultado: "E o rei mas deu, porque a boa mão do meu Deus era comigo."

Como tipo de Cristo, Neemias repetiu os padrões do Senhor. Oração e coragem são uma dupla constante no ministério de Jesus. Embora fosse Filho de Deus, é muito comum vermos Jesus orando, principalmente em momentos-chave, como antes da escolha dos doze apóstolos (Lucas 6:12) ou da crucificação (Mateus 26:36-46). Antes de ser tentado por Satanás, no início de seu ministério, Jesus jejuou quarenta dias para buscar comunhão com o Pai e enfrentar seu maior inimigo (Mateus 4:1-2). A comunhão com Deus deu a Jesus a coragem necessária para enfrentar inimigos humanos e demoníacos.

3) Indo. Orar, falar a respeito com outras pessoas, pensar orçamentos e escrever um planejamento é até fácil. Várias vezes isso é feito em igrejas, empresas e até em famílias. Agora, ir lá e fazer é que são elas. Deixar o conforto do palácio de Susã para ir a uma Jerusalém queimada é quase a mesma coisa que deixar apartamentos confortáveis de classe média alta em uma capital brasileira para ir morar, por um longo período de tempo, em uma favela.

Moro numa cidade cheia de autoridades e palácios: Brasília. Quando era repórter, pude cobrir alguns eventos políticos. E, mesmo sendo alguém marginal nessas horas, sei como é agradável provar um salgado de uma recepção internacional, ouvindo boa música e vendo pessoas importantes e bonitas, embora estivesse lá apenas para pegar declarações e fazer uma reportagem. Deixar a proximidade do glamour para envolver-se fisicamente com os problemas do povo não é a coisa mais fácil do mundo.

Ainda bem que Neemias foi como Moisés, que deixou os palácios do Faraó para envolver-se com seus irmãos hebreus, que eram escravos. Mais ainda: ainda bem que eles foram como Jesus, que não se apegou ao céu e mesmo à sua forma de Deus e aceitou ser servo para nos salvar:
Tende em vós o mesmo sentimento que houve em Cristo Jesus, pois ele, subsistindo em forma de Deus, não julgou como usurpação o ser igual a Deus; antes, a si mesmo se esvaziou, assumindo a forma de servo, tornando-se em semelhança de homens; e, reconhecido em figura humana, a si mesmo se humilhou, tornando-se obediente até à morte e morte de cruz. (Filipenses 2:5-8)
Hoje é preciso que a igreja siga a ordem bíblica e imite o exemplo de Jesus, como Neemias fez. Temos que deixar o conforto de nossos templos com ar condicionado e equipes de louvor bem montadas e nos dispormos a atuar junto dos menos favorecidos. Deixarmos o glamour dos palácios e irmos servir nos lugares miseráveis. E que a coragem, a oração e o planejamento precedam nossas ações, assim como foi na vida de Neemias.

Um comentário:

Daniel. disse...

Pô, Neemias mandou bem. Não vejo muito de "chamado" (no sentido daqueles chamados extraordinários com visões e anjos) em Neemias, ele simplesmente foi lá, né?

Difícil.