27 outubro 2009

Neemias: tipo de Cristo (VII) - O bom governador

Foi grande, porém, o clamor do povo e de suas mulheres contra os judeus, seus irmãos. Porque havia os que diziam: Somos muitos, nós, nossos filhos e nossas filhas; que se nos dê trigo, para que comamos e vivamos. Também houve os que diziam: As nossas terras, as nossas vinhas e as nossas casas hipotecamos para tomarmos trigo nesta fome. Houve ainda os que diziam: Tomamos dinheiro emprestado até para o tributo do rei, sobre as nossas terras e sobre as nossas vinhas. No entanto, nós somos da mesma carne que eles, e nossos filhos são tão bons como os deles; e eis que sujeitamos nossos filhos e nossas filhas para serem escravos, algumas de nossas filhas já estão reduzidas à escravidão. Não está em nosso poder evitá-lo; pois os nossos campos e as nossas vinhas já são de outros.

Ouvindo eu, pois, o seu clamor e estas palavras, muito me aborreci. Depois de ter considerado comigo mesmo, repreendi os nobres e magistrados e lhes disse: Sois usurários, cada um para com seu irmão; e convoquei contra eles um grande ajuntamento. Disse-lhes: nós resgatamos os judeus, nossos irmãos, que foram vendidos às gentes, segundo nossas posses; e vós outra vez negociaríeis vossos irmãos, para que sejam vendidos a nós? Então, se calaram e não acharam o que responder. Disse mais: não é bom o que fazeis; porventura não devíeis andar no temor do nosso Deus, por causa do opróbrio dos gentios, os nossos inimigos? Também eu, meus irmãos e meus moços lhes demos dinheiro emprestado e trigo. Demos de mão a esse empréstimo. Restituí-lhes hoje, vos peço, as suas terras, as suas vinhas, os seus olivais e as suas casas, como tambem o centésimo do dinheiro, do trigo, do vinho e do azeite, que exigistes deles. Então, responderam: Restituir-lhes-emos e nada lhes pediremos; faremos assim com dizes. Então, chamei os sacerdotes e os fiz jurar que fariam segundo prometeram.

Também sacudi o meu regaço e disse: Assim o faça Deus, sacuda de sua casa e de seu trabalho a todo homem que não cumprir esta promessa; seja sacudido e despojado. E toda a congregação respondeu: Amém! E louvaram o SENHOR; e o povo fez segundo a sua promessa. Também desde o dia em que fui nomeado seu governador na terra de Judá, desde o vigésimo ano até ao trigésimo segundo ano do rei Artaxerxes, doze anos, nem eu nem meus irmãos comemos o pão devido ao governador. Mas os primeiros governadores, que foram antes de mim, oprimiram o povo e lhe tomaram pão e vinho, além de quarenta siclos de prata; até os seus moços dominavam sobre o povo, porém eu assim não diz, por causa do temor de Deus. Antes, também na obra deste muro fiz reparação, e terra nenhuma compramos; e todos os meus moços se ajuntaram ali para a obra. Também cento e cinqüenta homens dos judeis e dos magistrados e os que vinham a nós, dentre as gentes que estavam ao nosso redor, eram meus hóspedes. O que se preparava para cada dia era um boi e seis ovelhas escolhidas; também à minha custa eram preparadas aves e, de dez em dez dias, muito vinho de todas as espécies; nem por isso exigi o pão devido ao governador, porquanto a servidão deste povo era grande. Lembra-te de mim para meu bem, ó meu Deus, e de tudo quanto fiz a este povo. (Neemias 5:1-19)
Em certos momentos da vida, os problemas não chegam sozinhos. Perde-se o emprego e, logo depois, surge uma doença na família. A namorada resolve nos deixar justo quando acabamos de fracassar na prova mais importante do semestre na faculdade. Os filhos adoecem quando o casamento também começa a ir mal.

Algo ainda mais sério acontece com países. Raramente é preciso enfrentar um grande problema, mas sim uma combinação de obstáculos. Pegue o exemplo do Brasil. O que devemos enfrentar primeiro? A violência das grandes cidades ou a do campo, com invasões de propriedade? Será que não deveríamos, primeiro, centrar esforços na melhoria da educação básica? Ih, mas estamos nos esquecendo dos hospitais...da corrupção, da infra-estrutura das rodovias e ferrovias, das enchentes, da ocupação desordenada e criminosa do espaço público...ah, quem dera o único problema fosse a violência!

E é exatamente isso o que Neemias descobre no capítulo 5. Inicialmente, vemos um Neemias que acreditava que a reconstrução dos muros de Jerusalém seria suficiente para ajudar os judeus a saírem de uma situação de miséria e desprezo (Ne 1:3). Toda a ação do livro estava girando em torno da obra. Parecia até o Brasil, onde em muitos lugares as pessoas acham que grandes obras é que resolvem o problema.

Mas aqui, no capítulo 5, Neemias descobre que a miséria e o desprezo não estão nos muros caídos, e sim no coração do próprio povo de Judá. Afinal, quando os judeus mais ricos começam a explorar e até a escraviza seus irmãos mais pobres...é sinal de que o pecado e a cobiça já roubaram o lugar de Deus e do próximo nos corações da elite.

E, o mais importante de tudo: Neemias não finge que o problema não existe. Aqui ele deixa de ser um mero reconstrutor de muros...para se tornar o reedificador da moral de uma nação. Para isso, o governador Neemias implementou o seguinte programa de governo:

1) As pessoas valem mais que os bens. Ao contrário dos ensinos de certas correntes de esquerda, a Bíblia reconhece sim o direito à propriedade. Nem é preciso de versículo para isso: o simples fato de existir um mandamento que proíbe o roubo só tem cabimento se houver o reconhecimento do direito à propriedade.

A Bíblia também reconhece a necessidade de se pagarem dívidas. Também aqui não vou citar versículos, apenas vou lembrar que uma das figuras usadas para explicar a salvação é exatamente a de Alguém (Cristo) que paga a dívida dos homens (morte) com um Credor (Deus).

Mas quando as pessoas hipotecam suas terras, suas plantas e suas casas...quando elas chegam ao ponto de pegar empréstimo "no banco" para pagar impostos...e os "irmãos" mais ricos vão à casa dos irmãos mais pobres para transformar seus filhos e filhas em escravos, é preciso dar um basta! Não há dívida material que valha uma vida humana. O devedor não deve perder os meios de sobreviver e nem a sua liberdade por causa de um bem material.

A Bíblia permitia a escravidão de estrangeiros, de pessoas fora de Israel. E é verdade que, em caso de dívida impagável, um hebreu podia se vender a outro, mas não podia ser tratado como escravo:
Também se teu irmão empobrecer, estando ele contigo, e vender-se a ti, não o farás servir como escravo. Como jornaleiro e peregrino estará contigo; até ao Ano do Jubileu te servirá; então, sairá de tua casa, ele e seus filhos com ele, e tornará à sua família e à possessão de seus pais. Porque são meus servos, que tirei da terra do Egito; não serão vendidos como escravos. Não te assenhorearás dele com tirania; teme, porém, ao teu Deus. (Levítico 25:39-43)
Quando Neemias chegou à Jerusalém, uma de suas primeiras atitudes foi a de comprar e libertar todos os judeus que eram escravos dos estrangeiros. Agora, ele estava obviamente aborrecido: pessoas ricas, que não precisavam de dinheiro, estavam oprimindo pobres que não tinham como pagar. E, ao invés de perdoarem a dívida, eles queriam sugar seus devedores até o último centavo, nem que para isso eles tivessem que passar por cima da Lei!

A mesma atitude é encontrada no ensino de Jesus sobre o perdão. Isso pode ser visto claramente na "Parábola do Credor Incompassivo", que pode ser lida em Mateus 18:23-35. Aqui, por questões de espaço, reproduzo apenas o final da parábola:
Então, o seu senhor, chamando-o, lhe disse: Servo malvado, perdoei-te aquela dívida toda porque me suplicaste; não devias tu, igualmente, compadecer-te do teu conservo, como também eu me compadeci de ti? E, indignando-se, o seu senhor o entregou aos verdugos, até que lhe pagasse toda a dívida. Assim também meu Pai celeste vos fará, e do íntimo não perdoares cada um a seu irmão. (Mateus 18:32-35)
Normalmente aplicamos a parábola somente a "dívidas morais", mas acho que também se aplica às financeiras, pelo menos em alguns casos. Quando a dívida é, de fato, impagável...o devedor não é mal-intencionado e o credor não necessita do pagamento, creio que Jesus e Neemias nos aconselhariam (ou ordenariam?) o perdão do débito. Não foi o que Cristo fez por nós, pecadores miseráveis sem condições de pagar a nossa dívida celeste?

Que possamos entender que pessoas valem mais que casas, fazendas, carros e outros bens.

2) Coragem e confrontação. Ultimamente, chamar de púlpito os pecadores de...pecadores é algo fora de moda, e que gera profundas convulsões e pesadas críticas ao coitado do pastor! Agora imagine reunir um monte de ladrões e dizer, na cara deles: "Seus ladrões!" Era caso de expulsão pastoral na hora, se não de processo na Justiça Comum. É o politicamente correto invadindo as igrejas.

Mas, louvado seja Deus, porque Neemias não tinha medo de dar nome aos bois, na frente deles, encarando o chifre das feras. E o Senhor seja louvado de novo, porque Neemias não escolheu se aliar aos pecadores, como o presidente Lula acha que deve ser feito aqui no Brasil.

Assim que Neemias soube do pecado, foi lá repreender os nobres e os juízes de Judá, dizendo-lhes na cara: "Sois usurários!" (Ne 5:7). Não contente, Neemias ainda convocou uma assembleia e descascou as elites em público, deixando-os sem resposta (Ne 5:8-9).

O problema é que a usura, a cobrança de juros em empréstimos, era proibida quando o devedor fosse um hebreu, um irmão:
Se emprestares dinheiro ao meu povo, ao pobre que está contigo, não te haverás com ele como credor que impõe juros. (Êxodo 22:25)
Não vou entrar aqui na discussão (interessante) sobre se os juros devem ou não ser cobrados atualmente. Calvino concordava que sim, em certas condições, mas cabe aos interessados ir atrás da argumentação do reformador (uma análise pode ser lida aqui).

O que interessa aqui é que, naquela época, sem a menor sombra de dúvidas, a cobrança era pecaminosa. E que a confrontação foi justa, pública e com uma exortação ao arrependimento, incluída aí uma sugestão de como consertar o erro. E graças à firmeza do governador no combate ao erro, houve constrangimento e as terras foram devolvidas, além do centésimo do dinheiro, do trigo, do vinho e do azeite exigidos.

Jesus também fez essa confrontação dura e pública várias vezes em Seu ministério. Um dos meus capítulos favoritos é justamente Mateus 23, exatamente por causa dessa denúncia de Cristo. Lá lemos, por exemplo:
Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas, porque dais o dízimo da hortelã, do endro e do cominho e tendes negligenciado os preceitos mais importantes da Lei: a justiça, a misericórdia e a fé; devíeis, porém, fazer estas coisas, sem omitir aquelas! (Mateus 23:23)
Mas hoje o que não falta é pastor fariseu, exigindo o dízimo, explorando os mais pobres exigindo que eles deem até o que não têm e negligenciando a justiça, a fé e, sobretudo, a misericórdia!

Esse e outros pecados devem ser, severamente, combatidos e denunciados hoje em dia, com termos que definam, exatamente, o quanto é hediondo o procedimento de igrejas como a Universal do Reino de Deus e da Renascer em Cristo! Assim como nos dias de Neemias, a exploração começa dentro daqueles que se dizem povo de Deus! Isso precisa ser denunciado e atacado, em alto e bom som!

3) O bom exemplo. Mas, de pouco adiantaria o protesto de Neemias, se ele mesmo não desse o exemplo. Mas Neemias era um governador daqueles que parecem não existir nos dias de hoje, um honesto, que vive o que prega nos palanques.

Além de ter coordenado a campanha de libertação dos judeus escravos de estrangeiros, Neemias (e seus irmãos e moços) ainda emprestou dinheiro aos mais pobres...e abriu mão do empréstimo (Ne 5:10)! Ele abriu mão de receber um direito que ele tinha.

Mais do que isso. Enquanto no Brasil a onda é sempre aumentar os gastos públicos e os impostos pagos pela população, Neemias renunciava a prerrogativas da lei persa para os governadores. Assim, ele abriu mão do pão devido ao governador (Ne 5:14), mesmo tendo o dever de dar comida a cento e cinquenta hóspedes (Ne 5:17-18).

Já no Brasil, deputados e senadores só querem aumentar os salários, as verbas de gabinete...o Poder Executivo pede aumento dos gastos públicos...e ninguém considera grande a servidão do povo brasileiro (Ne 5:18).

Mas Neemias, além de se compadecer da situação dos judeus, também tinha temor de Deus (Ne 5:15). Por isso, enquanto os governadores anteriores (e seus moços) oprimiam o povo, tomando pão, vinho e prata, Neemias preferiu um governo mais austero e menos gastador.

De Jesus Cristo...que exemplo maior haveria do que o próprio Filho de Deus abrir mão de Sua glória por alguns anos, para viver como servo no nosso meio e morrer na cruz por todos os eleitos?
Tende em vós o mesmo sentimento que houve em Cristo Jesus, pois ele, subsistindo em forma de Deus, não julgou como usurpação o ser igual a Deus; antes, a si mesmo se esvaziou, assumindo a forma de servo, tornando-se em semelhança de homens; e, reconhecido em figura humana, a si mesmo se humilhou, tornando-se obediente até à morte e morte de cruz. (Filipenses 2:5-8)
Faltam-nos hoje líderes políticos e eclesiásticos como Neemias e Jesus. Pessoas que vivam o que pregam, que evitem ao máximo aumentar a opressão e a exploração econômica de seus liderados, que busquem otimizar a administração e cortar gastos. Chega de impostos abusivos...e chega de pastores falsos, exigindo dízimos, ofertas abusivas e os bens de quem, muitas vezes, não tem nada!

Que o Senhor nos transforme em líderes exemplares, para a honra e glória d'Ele.

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