04 novembro 2009

Neemias: tipo de Cristo (VIII) - O perseguido

Tendo ouvido Sambalate, Tobias, Gesém, o arábio, e o resto dos nossos inimigos que eu tinha edificado o muro e que nele já não havia brecha nenhuma, ainda que até este tempo não tinha posto as portas nos portais, Sambalate e Gesém mandaram dizer-me: Vem, encontremo-nos, nas aldeias, no vale de Ono. Porém intentavam fazer-me mal.

Enviei-lhes mensageiros a dizer: Estou fazendo grande obra, de modo que não poderei descer; por que cessaria a obra, enquanto eu a deixasse e fosse ter convosco? Quatro vezes me enviaram o mesmo pedido; eu, porém, lhes dei sempre a mesma resposta.

Então, Sambalate me enviou pela quinta vez o seu moço, o qual trazia na mão uma carta aberta, do teor seguinte: Entre as gentes se ouviu, e Gesém diz que tu e os judeus intentais revoltar-vos; por isso, reedificas o muro, e, segundo se diz, queres ser o rei deles, e puseste profetas para falarem a teu respeito em Jerusalém, dizendo: Este é rei em Judá. Ora, o rei ouvirá isso, segundo essas palavras. Vem, pois, agora, e consultemos juntamente. Mandei dizer-lhe: De tudo o que dizes coisa nenhuma sucedeu; tu, do teu coração, é que o inventas. Porque todos eles procuravam atemorizar-nos, dizendo: As suas mãos largarão a obra, e não se efetuará. Agora, pois, ó Deus, fortalece as minhas mãos.

Tendo eu ido à casa de Semaías, filho de Delaías, filho de Meetabel (que estava encerrado), disse ele: Vamos juntamente à Casa de Deus, ao meio do templo, e fechemos as portas do templo; porque virão matar-te, aliás, de noite virão matar-te. Porém eu disse: homem como eu fugiria? E quem há, como eu, que entre no templo, para que viva? De maneira nenhuma entrarei. Então, percebi que não era Deus quem o enviara; tal profecia falou ele contra mim, porque Tobias e Sambalate o subornaram. Para isto o subornaram, para me atemorizar, e para que eu, assim, viesse a proceder e a pecar, para que tivessem motivo de me infamar e me vituperassem. Lembra-te, meu Deus, de Tobias e de Sambalate, no tocante a estas suas obras, e também da profetisa Noadia e dos mais profetas que procuraram atemorizar-me. (Neemias 6:1-14)
Raramente grandes projetos ou profundas mudanças sociais positivas são executadas sem uma boa liderança. Sem líderes, os esforços das pessoas se dividem em várias direções, muitas vezes contraditórias, e os avanços são mínimos. No entanto, o líder canaliza as forças e as vontades em uma dada direção, diz o que deve ser feito, serve de modelo e leva um grupo a seguir um novo caminho. Isso é tão verdadeiro que a maior parte do esforço ministerial de Jesus antes da crucificação foi o de forjar em seus doze apóstolos os futuros líderes da Igreja.

Orientar, dizer o que deve ser feito, canalizar esforços, servir como um modelo. Era exatamente isso o que Neemias estava fazendo com os habitantes da antes miserável e desprezível Jerusalém. O resultado era que, apesar de todas as ameaças e dificuldades internas, o muro já estava edificado e sem brechas. Faltavam apenas as portas.

E aí, Tobias, Sambalate e Gesém, os inimigos de Judá, perceberam que não adiantaria atacar o povo enquanto eles tivessem um líder corajoso, que motivasse os judeus a perseverarem. Era preciso anular aquele que fortalecia Judá. Neemias tinha que ser, de alguma forma, neutralizado.

Ainda hoje, o objetivo dos inimigos de Deus é neutralizar os bons líderes da Igreja. As estratégias são variadas: mentiras, fofocas, calúnias, tentações e até ameaças e violência.

O que fazer nestes casos? Creio que o perseguido Neemias têm algumas lições a nos ensinar.

1) Prudência. Em certas horas, a ingenuidade não é virtude, mas sim um defeito. O crente bonzinho, que nunca imagina o mal em outras pessoas e sempre acredita no que elas dizem pode estar colocando a si mesmo ou a outros em perigo. Por outro lado, desconfiar de certas propostas e se manter distante é uma ótima forma de evitar encrencas.

Hoje, com certeza, muitos criticariam Neemias por recusar-se a dialogar com seus inimigos. Afinal, se o inimigo te envia uma carta pedindo um encontro pessoal, por que não ir e conversar? Mas, quando o inimigo já zombou de você, acusando-o de rebelião (Ne 2:19), incitou um exército contra o seu povo (Ne 4:2), desejou que sua obra caia por terra (Ne 4:3) e chegou a se reunir para atacar sua cidade (Ne 4:7-8), cautela é mais do que bem-vinda.

De fato, Neemias não acreditou nas boas intenções de Sambalate, Tobias e Gesém. O histórico não lhe permitia isso. Por que deixar Jerusalém e seus afazeres de governador para se arriscar em um encontro íntimo numa aldeia pequena, fora do alcance de tropas que pudessem protegê-lo? A atitude se revelou sábia, porque a intenção era fazer o "mal". Um eufemismo, quem sabe, para uma surra, uma intimidação humilhante e talvez até mesmo um homicídio.

Até na hora de responder Neemias foi sábio. Usou mensageiros que levaram uma desculpa razoável e verdadeira. Neste caso específico, a verdade dita com sabedoria foi suficiente para evitar o mal.

Jesus também recomendou a prudência aos seus apóstolos quando os enviou para pregarem o Evangelho:
Eis que eu vos envio como ovelhas para o meio de lobos; sede, portanto, prudentes como as serpentes e símplices como as pombas. (Mateus 10:16)
Hoje a mesma prudência é necessária, até em coisas muito mais simples. Se aquela mulher, que sorri para nós de modo mais afetuoso e é sabidamente carente, nos convida para uma conversa particular, em horário não convencional e ambiente reservado...devemos mesmo ir? O irmão que brigou conosco e é de temperamento explosivo, que se irrita de modo especial quando é contrariado...será que é melhor ir tirar satisfações sozinho, sem um intermediário?

Quantas brigas e pecados não acontecem, simplesmente, por falta de prudência? Inocência em relação ao mal sim...mas sem perder a prudência (e a astúcia) da serpente.

2)  Integridade. Já que a calúnia não deu certo, a intimidação vinha agora com um tom "profético". O "profeta" Semaías tinha uma mensagem muito importante para Neemias: tentariam matá-lo, naquela noite. Diante da revelação, vinha um conselho aparentemente piedoso e protetor: "esconda-se no templo e lá você estará protegido".

O problema é que havia áreas no templo onde o acesso era restrito. Os locais mais interiores (e seguros) do templo eram o Santo Lugar e o Santíssimo Lugar, onde apenas sacerdotes podiam entrar:
Com efeito, foi preparado o tabernáculo, cuja parte anterior, onde estavam o candeeiro, e a mesa, e a exposição dos pães, se chama o Santo Lugar; por trás do segundo véu, se encontrava o tabernáculo que se chama o Santo dos Santos, ao qual pertencia um altar de ouro para o incenso e a arca da aliança totalmente coberta de ouro, na qual estava uma urna de ouro contendo o maná, o bordão de Arão, que floresceu, e as tábuas da aliança...Ora, depois de tudo iso assim preparado, continuamente entram no primeiro tabernáculo (Santo Lugar) os sacerdotes, para realizar os serviços sagrados; mas, no segundo (Santo dos Santos), o sumo sacerdote, ele sozinho, uma vez por ano, não sem sangue, que oferece por si e pelos pecados de ignorância do povo... (Hebreus 9:2-7)
Desta maneira, o conselho de Semaías era o de que Neemias pecasse para escapar de um atentado, se refugiando nas áreas seguras do templo. E aí, será que para preservar a vida vale pecar? Não para Neemias. A proposta era fruto de uma falsa profecia, uma tentativa de criar um escândalo religioso que desmoralizasse o governador:
Para isto o subornaram, para me atemorizar, e para que eu, assim, viesse a proceder e a pecar, para que tivessem motivo de me infamar e me vituperassem. (Neemias 6:13)
Pessoalmente, creio na contemporaneidade do dom de profecia, e sei de muitos cristãos com dificuldades em reconhecer quando é mesmo Deus quem fala. Bom, uma coisa eu sei: quando um profeta, pastor, bispo, "apóstolo" ou "semideus" te aconselha a pecar...com certeza não é Deus quem fala. Mas sei também que é preciso coragem para discordar de um "profeta" e ficar com a Palavra.

Jesus tinha essa coragem. Ele não tinha receio, por exemplo, de questionar publicamente a orientação teológica de um chefe de sinagoga:
O chefe da sinagoga, indignado de ver que Jesus curava no sábado, disse à multidão: Seis dias há em que se deve trabalhar; vinde, pois, nesses dias para serdes curados e não no sábado. Disse-lhe, porém, o Senhor: Hipócritas, cada um de vós não desprende da manjedoura, no sábado, o seu boi ou o seu jumento, para levá-lo a beber? Por que motivo não se devia livrar deste cativeiro, em dia de sábado, esta filha de Abraão, a quem Satanás trazia presa há dezoito anos? (Lucas 13:14-16)
Hoje, quem quiser ser instrumento de Deus para reformar uma igreja, uma família ou a sociedade, deve ter um compromisso com a integridade e esperar perseguições por conta disso. É preciso se manter comprometido com o ensino biblico claro, mesmo que "profecias" indiquem o contrário. Infelizmente, é preciso até mesmo suportar pressões eclesiásticas e institucionais, se não quisermos ser neutralizados pela ação dos inimigos da fé.

3) Coragem. O líder perseguido deve ser prudente e íntegro. Mas, em nossas igrejas, há quem confunda prudência ou santidade com covardia. Ser prudente não significa abandonar as lutas e projetos de Deus e sair correndo para salvar a própria vida. Ser santo não significa calar a boca ou parar de agir em nome da paz e unidade. Muitas vezes, o que o Senhor quer é o contrário: filhos dispostos a perder a vida e a continuarem a promover o reino dos céus na terra, mesmo que isso desagrade alguém.

Quando Sambalate enviou uma carta aberta acusando Neemias de rebelião, ele foi corajoso o suficiente para responder à calúnia com a verdade: "tu, do teu coração, é que o inventas" (Ne 6:8). Se Neemias tivesse fugido ou se calado, provavelmente a versão da revolta prevaleceria. A coragem pôs fim ao boato.

Aliás, a coragem era parte do caráter de Neemias. Quando Semaías o aconselhou a fugir, Neemias questionou se "homem como eu fugiria" (Ne 6:11). Muitas vezes, fugir da oposição, das discussões e até mesmo das ameaças é covardia e é pecado.

Jesus também foi um homem corajoso. Jesus nunca se recusou a fazer a vontade do Pai e não fugiu de sua missão, nem mesmo na hora de enfrentar os seus algozes:
Tendo, pois, Judas recebido a escolta e, dos principais sacerdotes e dos fariseus, alguns guardas, chegou a este lugar com lanternas, tochas e armas. Sabendo, pois, Jesus todas as coisas que sobre ele haviam de vir, adiantou-se e perguntou-lhes: A quem buscais? Responderam-lhe: A Jesus, o Nazareno. Então, Jesus lhes disse: Sou eu. Ora, Judas, o traidor, estava também com eles. (João 18:3-5)
Hoje, faltam líderes que se recusem a fugir. Vivemos em uma geração onde, por qualquer razão, deixamos de lado a obra do Senhor. Fugimos de igrejas frias e pouco amigáveis, de palavras críticas, de discussões necessárias, das dificuldades em se implantar projetos do céu. Imagine então o que poderíamos dizer se os obstáculos fossem ameaças de morte, calúnias e tentativas de intimidação?

Que Cristo nos ensine a sermos corajosos e a sermos cristãos que enfrentam com prudência e integridade as perseguições neste mundo.

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