19 novembro 2009

Última resposta a Leandro Quadros - Parte VI

A parte anterior da resposta está aqui.


Os versículos de escolha
Muitos não-calvinistas, como o professor Leandro Quadros, enxergam nos "versículos de escolha" uma defesa sólida do livre-arbítrio. No presente debate, o professor se valeu de Jeremias 21:8:
A este povo dirás: Assim diz o SENHOR: Eis que ponho diante de vós o caminho da vida e o caminho da morte.
Sobre ele, diz o professor em seu artigo 48 textos bíblicos contra 12 descontextualizados...
7) Portanto, com base no estudo correto dos textos acima (levando em conta Mateus 13:15), Jeremias 21:8 prova MUITA coisa. Especialmente que Deus colocou diante do povo de Israel (e coloca diante de nós) o caminho da vida e o caminho da morte. Se apenas alguns fossem predestinados para o caminho da vida, Deus não começaria o texto pedindo: “Digam a este povo…”.
No meu artigo Resposta ao Professor Leandro Quadros - "Na mira da verdade", disse que os versículos de escolha nada provam contra a predestinação:
6) Sobre os versículos de escolha, como Jeremias 21:8, lembro que às vezes Deus manda sim que a Palavra seja pregada a pessoas que não ouvirão. Ou melhor, Deus manda pregar para endurecer corações. Já leste Isaías 6:8-10? “Depois disto, ouvi a voz do Senhor, que dizia: A quem enviarei, e quem há de ir por nós? Disse eu: eis-me aqui, envia-me a mim. Então, disse ele: Vai e dize a este povo: Ouvi, ouvi e não entendais; vede, vede, mas não percebais. Torna insensível o coração deste povo, endurece-lhe os ouvidos e fecha-lhe os olhos, para que não venha ele a ver com os olhos, a ouvir com os ouvidos e a entender com o coração, e se converta, e seja salvo.” O versículo é citado em Marcos 4:11-12 com a clara idéia de que Jesus pregava por parábolas para que algumas pessoas não fossem salvas: “Ele lhes respondeu: A vós outros é dado conhecer o mistério do reino, mas, aos de fora, tudo se ensina por meio de parábolas, para que, vendo, vejam e não percebam, ouçam e não entendam, para que não venham a converter-se, e haja perdão para eles”.

7) Logo, simplesmente apelar para versículos do tipo Jeremias 21:8, de escolher o caminho, não prova nada, pois os versículos acima mostram que o profeta Isaías e Jesus Cristo tiveram que pregar de modo que as pessoas não se convertessem. O sentido dessas pregações é o de aumentar a culpa dos ouvintes e aumentar a glória de Deus, por ter alertado até os que se perdem. Essa afirmação pode ser deduzida de Romanos 9:22, quando Paulo dá razões pelas quais Deus predestina algumas pessoas para a perdição: “Que diremos, pois, se Deus, querendo mostrar a sua ira e dar a conhecer o seu poder, suportou com muita longanimidade os vasos de ira, preparados para a perdição, a fim de que também desse a conhecer as riquezas de sua glória em vasos de misericórdia, que para glória preparou de antemão, os quais somos nós, a quem também chamou, não só dentre os judeus, mas também dentre os gentios?” (Romanos 9:22-24)
Já discuti Isaías 6:8-10 e Marcos 4:11-12 nas partes anteriores da resposta. Abaixo, quero desenvolver melhor o raciocínio de porque os versículos de escolha não anulam a predestinação.

O problema do destinatário: justos e ímpios estão misturados
Uma das regras básicas de interpretação bíblica é identificar o destinatário da passagem. Ela é dirigida a uma pessoa em particular ou a todos os homens, de modo geral? Refere-se apenas a salvos ou a todas as pessoas?

No caso de Jeremias 21:8 e de, praticamente, todos os versículos de escolha da Bíblia, o destinatário do apelo é um grupo de pessoas que reúne tanto pessoas salvas como não-salvas, eleitos e réprobos. Em Jeremias 21:8, a ordem de Deus é que o profeta fale ao povo de Israel. E, como bem sabe qualquer um que tenha lido o livro, naquele tempo muitos judeus viviam em deslavada idolatria, pecando contra Deus.

Talvez o professor queira retrucar dizendo que se a palavra era para o povo de Israel, obviamente, era para salvos. Mas aí ele estaria ignorando uma verdade da Bíblia: que nem todo o que se diz israelita é, de fato, de Israel aos olhos do Senhor:
E não pensemos que a palavra de Deus haja falhado, porque nem todos os de Israel, são, de fato, israelitas; nem por serem descendentes de Abraão são todos seus filhos; mas: Em Isaque será chamada a tua descendência. Isto é, estes filhos de Deus não são propriamente os da carne, mas devem ser considerados como descendência os filhos da promessa. (Romanos 9:6-8)
No meio do Israel étnico, "segundo a carne", existiam os filhos da promessa, aqueles que foram escolhidos por Deus e outros, que não eram, aos olhos de Deus, verdadeiro Israel. Isso fica ainda mais claro quando se vê que, na parábola do trigo e do joio, os dois cereais estão juntos, de modo que não é possível separá-los de cara:
Ele, porém, lhes respondeu: Um inimigo fez isso. Mas os servos lhe perguntaram: Querem que arranquemos também o joio? Não! Replicou ele, para que, ao separar o joio, não arranqueis também com ele o trigo. Deixai-os crescer juntos até à colheita, e, no tempo da colheita, direi aos ceifeiros: ajuntai primeiro o joio, atai-o em feixes para ser queimado; mas o trigo, recolhei-o no meu celeiro. (Mateus 13:28-30)
Isso vale não só para Israel, mas também para as cartas às igrejas do Novo Testamento. Não é porque uma pessoa levantou a mão e aceitou a Jesus, ou mesmo foi batizada, que ela é salva. Dentro da igreja, há trigo e joio, e até que eles amadureçam, não é possível distinguir um de outro com clareza. Gente que hoje parece joio, pode amadurecer e se revelar trigo. Gente que hoje parece trigo, mais na frente se revelará um pé de joio. Por isso, não podemos nos esquecer que quando as cartas são escritas, os dois grupos estão na mente do autor. Isso vale também para outros textos usados por não calvinistas, como Hebreus 6.

Ah, com um detalhe. O joio não vira trigo, nem o trigo vira joio. O trigo já nasce trigo, o joio já nasce joio, o tempo apenas revela os frutos, mas não muda a árvore. Em outras palavras, as pessoas já nascem predestinadas. Ou ao céu (trigo) ou ao inferno (joio).

Mas o professor talvez diga que ainda não provei nada. Afinal, como dizem muitos que desconhecem o calvinismo, se a pessoa é predestinada, seja ao céu ou seja ao inferno, não faz sentido dar qualquer alerta, porque o destino está traçado. Neste caso, é preciso lembrar outra doutrina bíblica e reformada:

Deus predetermina os meios para atingir os fins
Na caricatura popular feita do calvinismo, os não-calvinistas imaginam que Deus define o fim da História das pessoas (céu ou inferno) e que, não importa o meio do caminho, o fim será atingido. Na verdade, há um erro aí. O que a Bíblia ensina e os calvinistas também, é que Deus não define só o fim. Ele define também o caminho todo, incluindo todos os meios pelos quais uma pessoa será salva ou condenada.

Sim, professor. Os calvinistas não acreditam apenas que o destino eterno das pessoas é predestinado. Cremos que Deus escolheu e determinou, antes da eternidade, tudo o que acontece. Cada letra escrita por mim e pelo senhor já foi escrita por Deus antes mesmo que fosse dito: "Haja luz"! E a conseqüência disso é que Deus determinou que os eleitos fossem salvos por meio da pregação da Palavra. Por isso Jeremias tinha que dizer "Escolham entre o caminho da vida e o da morte". Afinal, por meio da pregação dele, os eleitos seriam salvos, porque isso foi predeterminado por Deus.

Como provo que o Senhor decretou todas as coisas? Bom, escrevi detalhadamente sobre isso em um outro post no blog 5 Calvinistas. O artigo pode ser lido clicando aqui. Mas, cito abaixo alguns versículos que provam essa doutrina:
Os teus olhos me viram a substância ainda informe, e no teu livro foram escritos todos os meus dias, cada um deles escrito e determinado, quando nem um deles havia ainda. (Salmo 139:16)

Eu sei, ó SENHOR, que não cabe ao homem determinar o seu caminho, nem ao que caminha o dirigir os seus passos. (Jeremias 10:23)

nele, digo, no qual fomos também feitos herança, predestinados segundo o propósito daquele que faz todas as coisas conforme o conselho da sua vontade... (Efésios 1:11)
 
Não se vendem dois pardais por um asse? E nenhum deles cairá sem o consentimento de vosso Pai. E, quanto a vós outros, até os cabelos todos da cabeça estão contados. (Mateus 10:29-30)
Por que pregar a Palavra se todos foram predestinados? Simples. Porque Deus determinou que é por meio da pregação que a fé viria, e assim, as pessoas seriam salvas:
Como porém, invocarão aquele em quem não creram? E como crerão naquele de quem nada ouviram? E como ouvirão, se não houver quem pregue? E como pregarão, se não forem enviados? Como está escrito: Quão formosos são os pés dos que anunciam coisas boas! Mas nem todos obedeceram ao evangelho; pois Isaías diz: Senhor, quem acreditou na nossa pregação? E, assim, a fé vem pela pregação, e a pregação, pela palavra de Cristo. (Romanos 10:14-17)
A boa interpretação não pode anular versículos, deve harmonizá-los. Como harmonizar Romanos 10 com Romanos 9? Muito simples. A predestinação para a salvação e para a perdição existe, como ensina Romanos 9. A fé vem pela pregação, como ensina Romanos 10. Logo, é por meio da fé que Deus vai salvar os seus eleitos.

Por isso, caro professor, é necessário sim pregar, mesmo com o final já determinado por Deus. Daí a razão dos versículos de escolha. É quando Deus fala por meio deles que os predestinados ao céu são salvos e se revelam os filhos do diabo. Quando Jesus fala (e Ele fala hoje, pela Bíblia), as ovelhas dele o seguem:
Aquele, porém, que entra pela porta, esse é o pastor das ovelhas. Para este o porteiro abre, as ovelhas ouvem a sua voz, ele chama pelo nome as suas próprias ovelhas e as conduz para fora. Depois de fazer sair todas as que lhe pertencem, vai adiante delas, e elas o seguem, porque lhe reconhecem a voz; mas, de modo nenhum seguirão o estranho; antes, fugirão dele, porque não conhecem a voz dos estranhos. (João 10:2-6)
Quando a Palavra é pregada, ou quando lemos os versículos do tipo "escolha o caminho da vida ou da morte", na verdade, Jesus está falando, chamando as suas ovelhas. As que se sensibilizam e seguem a Cristo estão mostrando que são Suas ovelhas, enquanto quem não segue mostra que não é ovelha de Jesus, mas sim de outro pastor, o diabo. Se o pastor não chamá-las para conduzi-las para fora, elas continuarão misturadas.

Assim, Jeremias 21:8 não anula a predestinação. Lá, Jesus falou por intermédio do profeta Jeremias, segundo o meio predeterminado pelo Pai, para que fossem salvos os eleitos de Deus daquele tempo.

Mais posts no forno, professor. Aguarde!

O próximo post é este.

Um comentário:

Neto disse...

Parabens, de novo, Helder, pela CLAREZA e SOLIDEZ argumentativa!

Tenho que aprender com o irmão! rs

Acho que o professor desistiu de nos responder...

Mas não pare, porque muitas pessoas podem ser edificadas, se Deus quiser!