28 dezembro 2010

Um só Deus, um só corpo

Portanto, lembrai-vos de que, outrora, vós, gentios na carne, chamados incircuncisão por aqueles que se intitulam circuncisos, na carne, por mãos humanas, naquele tempo, estáveis sem Cristo, separados da comunidade de Israel e estranhos às alianças da promessa, não tendo esperança e sem Deus no mundo.

Mas, agora, em Cristo Jesus, vós, que antes estáveis longe, fostes aproximados pelo sangue de Cristo. Porque ele é a nossa paz, o qual de ambos {ambos: judeus e gentios} fez um; e, tendo derribado a parede da separação que estava no meio, a inimizade, aboliu, na sua carne, a lei dos mandamentos na forma de ordenanças, para que dos dois criasse, em si mesmo, um novo homem, fazendo a paz, e reconciliasse ambos em um só corpo com Deus, por intermédio da cruz, destruindo por ela a inimizade.

E, vindo, evangelizou paz a vós outros que estáveis longe e paz também aos que estavam perto;
porque, por ele, ambos temos acesso ao Pai em um Espírito. Assim, já não sois estrangeiros e peregrinos, mas concidadãos dos santos, e sois da família de Deus, edificados sobre o fundamento dos apóstolos e profetas, sendo ele mesmo, Cristo Jesus, a pedra angular; no qual todo o edifício, bem ajustado, cresce para santuário dedicado ao Senhor, no qual também vós juntamente estais sendo edificados para habitação de Deus no Espírito. (Efésios 2:11-22)
Aprendemos na escola que o ser humano é um ser social e nascido para viver em coletividade. Faz parte da educação do século XXI aprender a ceder os desejos individuais em nome do bem-estar de outros. Mais do que isso: ganha força a ideia de que não devemos pensar apenas nos interesses de nossa "tribo" ou nação, mas sim que devemos buscar o bem-estar de todos, já que dividimos o mesmo mundo.

Contudo, nada parece mais difícil do que promover a união dos diferentes. Vejamos o mais básico dos relacionamentos: o casamento. Já achamos um milagre quando encontramos duas pessoas que conviveram a vida toda com amor, respeito e fidelidade. Se unir de forma duradoura duas pessoas já é algo extraordinário, imagine o que é fazer com que diferentes grupos, etnias ou nações vivam em paz, em torno de um objetivo comum, em uma paz permanente!

Qual é, então, o caminho da unidade?

As respostas erradas
A resposta pós-moderna a esse dilema é a tolerância e o respeito ao diferente. O pluralismo é o caminho pelo qual todas as diferenças podem ser resolvidas. A teoria é bela, mas não é o que mostra a prática. Nem todos os pontos de vista são aceitos, como mostra as críticas feitas ao pastor Augustus Nicodemus por reproduzir o posicionamento da Igreja Presbiteriana do Brasil, contra a aprovação do PL 122. A tolerância de uma Holanda (quer tolerância maior?) não a tornou livre da ameaça de atentados terroristas, mesmo tendo acolhido 27 mil refugiados somalis. Nem mesmo uma fila de pessoas em busca de comida consegue escapar da violência, como mostra um atentado suicida no Paquistão. O relativismo, o pluralismo e até mesmo a solidariedade não conseguem por fim às divisões.

Uma outra resposta é a separação. Nós aqui, eles ali. Essa é a postura que marca muitos dos conflitos com imigrantes e chega a ser endossada por religiosos. Lamentavelmente, essa também é a marca de vários cristãos e é visível nas igrejas que se concentram apenas em um determinado grupo étnico, classe econômica ou faixa etária. Já que é difícil agradar a todos, vamos nos dividir em grupos homogêneos, onde será mais fácil obter a união. Mas é impossível dividir o mundo em ilhas que não se comunicam. Fatalmente os interesses dos grupos irão colidir...e aí, você já viu o final do filme.

O grande defeito dessas soluções é que elas ignoram a verdadeira raiz da desunião entre os homens. Por esta razão, a "paz" que elas promovem é apenas temporária, frágil e superficial.
Sem Cristo, quanto tempo dura essa paz?

Um novo homem
E qual é essa raiz? A inimizade que existe dentro do coração humano. Ela é a parede que, efetivamente, nos mantém separados uns dos outros.

Veja o que acontecia entre os judeus e os não-judeus (gentios) na época de Jesus. Os judeus se sentiam superiores aos gentios porque eles eram descendentes de Abraão, haviam recebido a Lei de Moisés e eram herdeiros das promessas de Deus. Na cabeça de muitos, Deus era como se fosse uma propriedade de Israel. A arrogância era tão grande que eles nem comiam com os gentios, pelo medo de se tornarem impuros caso se associassem a eles. Amavam a separação.

Já os gentios odiavam os judeus, não só por suas atitudes, mas também porque eles não participavam das festividades pagãs típicas do Império Romano. Eles não entendiam e nem respeitavam a fé judaica. Para eles, era fácil ser tolerante com todos...menos com os judeus.

No fundo, o problema que os dividia é algo que faz parte da natureza humana. O testemunho bíblico é o de que a inimizade e suas irmãs são obras próprias à nossa carne:
Ora, as obras da carne são conhecidas e são: prostituição, impureza, lascívia, idolatria, feitiçarias, inimizades, porfias, ciúmes, iras, discórdias, dissensões, facções, invejas, bebedices, glutonarias e coisas semelhantes a estas, a respeito das quais eu vos declaro, como já, outrora, vos preveni, que não herdarão o reino de Deus os que tais coisas praticam. (Gálatas 5:19-21)
A grande questão é que esses pecados estão presentes tanto no coração de judeus como de gentios. Por esta razão, os judeus não podiam pensar que eram superiores, tanto eles como os demais, todos são condenáveis diante de Deus. Apenas Jesus Cristo pode destruir esse pecado.

E isso Jesus fez na sua carne, quando morreu na cruz, sofrendo no lugar dos pecados de judeus e gentios. Quando os homens se identificam com Cristo, unem-se a Ele na sua morte (morrem para uma velha vida) e na sua ressurreição (ressuscitando para uma nova). Por isso, um pouco antes, a Bíblia diz:
Mas Deus, sendo rico em misericórdia, por causa do grande amor com que nos amou, e estando nós mortos em nossos delitos, nos deu vida juntamente com Cristo, -pela graça sois salvos, e, juntamente com ele, nos ressuscitou, e nos fez assentar nos lugares celestiais em Cristo Jesus; para mostrar, nos séculos vindouros, a suprema riqueza da sua graça, em bondade para conosco, em Cristo Jesus. (Efésios 2:4-7)
Em Cristo, judeus e gentios podem viver em paz...porque eles podem morrer para a inimizade e ressuscitar para a unidade. Ambos ressuscitam e se tornam novos homens, já libertos do domínio da inimizade.

Um só corpo
E aí, quando isso acontece, algo extraordinário acontece. Uma vez que antigos inimigos se voltam para Jesus e ressuscitam, o passado fica para trás. Não importa mais se estamos falando de judeus ou gentios, de ricos ou pobres, de Montecchios ou Capuletos ou de gremistas e colorados, em Cristo, essas distinções acabam:
Dessarte, não pode haver judeu nem grego; nem escravo nem liberto; nem homem nem mulher; porque todos vós sois um em Cristo Jesus. (Gálatas 3:28)
Deus não criou duas igrejas separadas: uma para judeus e outra para não-judeus. Ele não veio ao mundo para que cada um viva em paz no seu gueto. Não: Jesus quer que todos vivam em um único corpo. Se antes estávamos distantes de Deus e ignorávamos as bênçãos de sermos seus filhos...isso não importa mais! Se já conhecíamos isso tudo...também não importa...porque somos tão pecadores quanto os demais e eles hoje têm os mesmos privilégios!
Jesus aboliu a Lei na forma de mandamentos e ordenanças, acabou com o parâmetro pelo qual os judeus se mediam para se sentirem superiores aos demais. Nele, em Cristo, o jovem não pode rir do velho nem o velho do jovem: ambos são herdeiros das mesmas promessas. O rico não pode humilhar o pobre, e nem o pobre deve se sentir melhor que o rico: em Jesus, ambos possuem o mesmo acesso a Deus.

Por esta razão, não devemos buscar uma igreja para os judeus e outra para os gentios, uma para jovens e outra para as "famílias", uma para os ricos e outra para os pobres. Todos somos iguais, não somos melhores ou piores do que os nossos irmãos. Jesus veio para nos reconciliar e nos conduzir à paz.

O fundamento da unidade
No entanto, há um questionamento no ar. As diferenças continuam existindo, não? De modo prático, como Jesus pode garantir a realidade dessa união de judeus e não-judeus?

Em primeiro lugar, a pedra angular em cima da qual se assenta o projeto da igreja é o próprio Jesus. Ele é a base em torno da qual diferentes grupos se unem para formar o povo de Deus. Isso significa que, em última análise, o sucesso do processo de reconciliação é garantido, porque depende de Cristo. Ele mesmo chama pessoas diferentes e trabalha em seus corações, fazendo com que elas se unam em torno d'Ele.

E o instrumento principal que será usado por Jesus neste processo é o "fundamento dos apóstolos e dos profetas". Há quem entenda que essa expressão se refere aos apóstolos e profetas em si. Embora o trabalho desses homens de Deus tenha servido para consolidar a Igreja, a grande marca que fica de seus ministérios é exatamente a Bíblia. Por isso, eu prefiro identificar a Palavra de Deus como sendo o fundamento, já que ela foi escrita pelo Espírito Santo usando os apóstolos e os profetas. 

É por meio das Escrituras que o Cristo dá a todos os mesmos valores e a mesma fé, é por meio delas que Deus une pessoas de culturas diferentes em um mesmo povo. Mais do que isso, a Palavra também é o meio pelo qual as distorções são corrigidas. Jesus usa a Bíblia para repreender os que estão errados, levar os seus irmãos a ser perdoarem mutuamente e a se arrependerem de suas más ações. Até mesmo ações sociais, que diminuem a pobreza, podem ser feitas tendo como inspiração o fundamento apostólico e profético.

A unidade, portanto, nunca deve ser feita em cima de heresias ou de concessões em relação à verdade. Ao contrário, a Bíblia e Cristo Jesus são as únicas bases que podem garantir uma Igreja unida e pacificada. Unir-se negociando a correta interpretação da Palavra é apenas construir uma unidade falsa fora do fundamento escolhido por Deus.

E o resto da sociedade?
Todavia, sabemos que nem todos aceitarão unir-se em torno de Jesus e de Sua Palavra. Mesmo assim, os cristãos devem ter fé de que por meio das orações, da pregação e da vivência dos ensinos cristãos, várias guerras e conflitos (pessoais inclusive) podem ser encerrados. Em nossa "diplomacia", quer estatal, quer pessoal, temos duas bússolas apontando na direção dos valores e estratégias que podem promover a paz, ainda que ela não seja duradoura.

As oposições a este projeto sempre existirão, inclusive dentro da Igreja. Nesses casos, o dever dos cristãos é o de permanecerem alicerçados na pedra angular e no fundamento apostólico-profético, lembrando sempre que um dia Jesus voltará e porá fim às rupturas e desuniões que tanto afligem a humanidade.

Graça e paz do Senhor,

Helder Nozima
Barro nas mãos do Oleiro

19 dezembro 2010

Última resposta a Leandro Quadros - Parte XIV - Final

A parte anterior da resposta está aqui.

Essa é a décima quarta e última parte de minha última resposta ao artigo 48 textos bíblicos contra 12 descontextualizados..., publicado no blog Na Mira da Verdade em 8 de novembro de 2009.

Predestinação e julgamento
Vou começar tratando do item 25 da defesa de Quadros:
25) Preocupante o senhor considerar João 3:18 e não explicar o verso juntamente com os que citei. O fato de uma pessoa que não crer em Jesus ser declarada perdida em nada muda o fato de que um dia ela possa aceitar e ser declarada salva. Esse é o evangelho da graça.

O tipo de juízo do qual os eleitos não fazem parte (se perseverarem – Lucas 21:19) é o juízo condenatório. Esse é o significado de João 3:18 e 5:24. A palavra grega para juízo em João 5:24 é krisis e se refere ao juízo de condenação. Isso não contradiz uma das doutrinas fundamentais do cristianismo , que é o juízo de todas as pessoas: dos justos e eleitos, para o universo comprovar quem realmente é de Deus e quem não é (1 Pedro 4:17; 2 Coríntios 5:10) e dos injustos, para dar a punição que escolheram (João 5:28, 29).

Recomendo que leia Romanos 14:12 e veja que, mesmo os salvos, passarão por uma avaliação no tribunal celeste. Afinal, os anjos não são Oniscientes (1 Pedro 1:12) e precisam saber o desenrolar da história do conflito entre o bem e o mal e o que vai no coração de cada um:

“Assim, pois, cada um de nós dará contas de si mesmo a Deus.” Romanos 14:12.

Cada um de nós se refere aos crentes eleitos de Roma. Como o senhor me explica esse verso com base na teologia de Calvino?

Resumindo: o juízo para os justos é de vindicação, livramento (Daniel 7:9, 10, 25-27). Não precisamos temê-lo. Para os ímpios, de condenação (João 3:18). (Leandro Quadros)
Como digo sempre, é bom ver um versículo em um contexto maior. João 3:16-21 fala de modo específico do Juízo Final. Jesus não está aqui abrindo possibilidade de uma pessoa ser condenada e depois se arrepender: Ele está dizendo o que vai acontecer no último dia.
Porque Deus amou ao mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna. Porquanto Deus enviou o seu Filho ao mundo, não para que julgasse o mundo, mas para que o mundo fosse salvo por ele. Quem nele crê não é julgado; o que não crê já está julgado, porquanto não crê no nome do unigênito Filho de Deus. O julgamento é este: que a luz veio ao mundo, e os homens amaram mais as trevas do que a luz; porque as suas obras eram más. Pois todo aquele que pratica o mal aborrece a luz e não se chega para a luz, a fim de não serem argüidas as suas obras. Quem pratica a verdade aproxima-se da luz, a fim de que as suas obras sejam manifestas, porque feitas em Deus. (João 3:16-21)
Negritei o trecho referente a João 3:18-19. Repare que Jesus fala de pessoas que já mostraram a sua condenação amando mais as trevas do que a luz, ou seja, amaram mais uma vida de pecado do que o Evangelho de Cristo Jesus. Nesse contexto, a sentença proferida por Jesus é definitiva.

Isso nos ajuda a entender o significado da palavra "mundo" em João 3:16. Jesus não veio salvar todas as pessoas individualmente, vem salvar aqueles que crerem. Esses já são declarados como livres do julgamento (que, em João 3, pode ser interpretado como condenação). Os demais já estão condenados.

De fato, justos e injustos serão julgados...mas o resultado já é conhecido de antemão. Os eleitos de Deus são os que creem, as pessoas por quem Jesus morreu. Pra essas, o Juízo é formalidade, é a declaração de que em Cristo elas são inocentes. Para os outros, também é formalidade, apenas a confirmação do que já foi decretado por Deus e anunciado por Jesus. Não haverá surpresas de última hora.

Só um adendo: essa discussão em cima de João 3:18 é porque o professor considera que a doutrina da predestinação torna o julgamento inútil, uma vez que o resultado já é conhecido. O que eu mostro é que o Juízo Final vai acontecer sim...com as cartas já todas marcadas. É só declaração solene do resultado. Não há conflito entre predestinação e julgamento.

Todos têm o livre arbítrio?
O item 26 da defesa do professor é uma resposta a questionamentos meus feitos no texto Resposta ao Professor Leandro Quadros - "Na mira da verdade":
26) Sobre 1 Coríntios 15:22, o todos ali se refere a todos os salvos. Se você acha que são todos os homens, então me prove que todos serem vivificados em Cristo é igual a todos terem livre arbítrio. E me explique como alguém pode ser vivificado em Cristo e ir para o inferno. (Helder Nozima)
Ao que ele responde:
26) Olhei o texto que havia postado para o irmão Clóvis e não vi nada no meu parágrafo que negasse ser a vivificação para os salvos:
“Paulo escreveu que, do mesmo modo que todos morrem por causa de Adão (não por causa de Deus), todos serão vivificados em Cristo – se quiserem. Lembre-se de Apocalipse 22:17 e João 3:16”. Atente para as palavras se quiserem.

A Bíblia prova que o crente vivificado TEVE – e TEM – o livre-arbítrio:

“A vida eterna aos que, perseverando em fazer o bem, procuram glória, honra e incorruptibilidade” Romanos 2:7.

Se o eleito tem que perseverar e procurar a incorruptibilidade, é claro que isso é uma escolha do indivíduo que recebeu de Deus a capacidade de fazer as próprias escolhas. (Leandro Quadros)
Vamos ler os textos citados por Quadros. Em primeiro lugar, 1 Coríntios 15:20-24.
Mas, de fato, Cristo ressuscitou dentre os mortos, sendo ele as primícias dos que dormem. Visto que a morte veio por um homem, também por um homem veio a ressurreição dos mortos.
Porque, assim como, em Adão, todos morrem, assim também todos serão vivificados em Cristo.
Cada um, porém, por sua própria ordem: Cristo, as primícias; depois, os que são de Cristo, na sua vinda. E, então, virá o fim, quando ele entregar o reino ao Deus e Pai, quando houver destruído todo principado, bem como toda potestade e poder. (1 Coríntios 15:20-24)
Repare que o verso 23 ajuda a entender o 22. Todos serão vivificados em Cristo: primeiro o próprio Jesus e depois os que são dele. Depois vem o fim. Os que não são de Jesus estão excluídos do processo de vivificação, que aqui, se refere à ressurreição que dá a vida, e não ao livre-arbítrio. Querer enxergar em um texto que fala da ressurreição de corpos no último dia uma referência ao livre-arbítrio é coisa de gente muito imaginativa...que talvez por imaginar tanto tenha conseguido ser chamado de professor. Além do mais, Apocalipse 22:17 e João 3:16 também não ensinam a universalidade do livre-arbítrio. De João 3:16 já falei acima, repito aqui Apocalipse 22:17: O Espírito e a noiva dizem: Vem! Aquele que ouve, diga: Vem! Aquele que tem sede venha, e quem quiser receba de graça a água da vida. (Apocalipse 22:17) Quem vai é quem foi predestinado por Deus a ir. Esse texto só convida quem quiser a ir...não diz que todos têm, em si mesmos, sem a interferência de Deus, a capacidade ou o desejo de atenderem ao convite. Como de hábito, Quadros enxerga nos textos mais do que eles dizem de fato.

O eleito pode perder a salvação?
Quadros continua o item 26 tratando da possibilidade de um crente perder a salvação:
Em relação ao seu segundo desafio: “E me explique como alguém pode ser vivificado em Cristo e ir para o inferno.”, deixo que a Bíblia novamente lhe responda (citarei outro texto ignorado pelo senhor):

“Porque, se vivermos [Os Eleitos!] deliberadamente em pecado, depois de termos recebido o pleno conhecimento da verdade, já não resta sacrifício pelos pecados; pelo contrário, certa expectação horrível de juízo e fogo vingador prestes a consumir os adversários. Sem misericórdia morre pelo depoimento de duas ou três testemunhas quem tiver rejeitado a lei de Moisés. De quanto mais severo castigo julgais vós será considerado digno aquele que calcou aos pés o Filho de Deus, e profanou o sangue da aliança com o QUAL FOI SANTIFICADO [O QUE UM DIA ACEITOU A CRISTO PODE REJEITÁ-LO!], e ultrajou o Espírito da graça? Ora, nós conhecemos aquele que disse: A mim pertence a vingança; eu retribuirei. E outra vez: O Senhor julgará o seu povo. Horrível coisa é cair nas mãos do Deus vivo.” Hebreus 10:26-31.

Deixar que a Bíblia se explique é a melhor forma de não cairmos no perigo de darmos a ela nossas próprias interpretações.

Peço que me explique tais versos com base na teologia de João Calvino. (Leandro Quadros)
O professor ignora a distinção entre igreja visível e invisível. A igreja visível é a instituição humana que se auto-nomeia como "igreja" formada por pessoas salvas e não-salvas. A igreja invisível é aquela que só Deus sabe quem faz parte ou não e é formada exclusivamente pelos salvos. O autor da carta aos Hebreus fala a uma igreja VISÍVEL, logo, a uma instituição onde há pessoas que foram eleitas por Deus para a salvação e outras que não são salvas, porque nunca creram de verdade em Deus. Logo, o vivermos do verso 26 se aplica a igreja visível, e não aos eleitos. Quem acha que é cristão e vive deliberadamente no pecado, depois de ter ouvido o Evangelho...só pode esperar mesmo é o fogo do inferno. Não é e nunca foi eleito.

Sobre o sangue de Jesus, trago Judas como exemplo para esclarecer as coisas. Judas nunca foi, de fato, salvo, como ensina o Evangelho de João:
Isto disse ele (Judas), não porque tivesse cuidado dos pobres; mas porque era ladrão e, tendo a bolsa, tirava o que nela se lançava. (João 12:6)
Contudo, ele recebeu todos os benefícios dos demais apóstolos, inclusive o poder de expulsar demônios e fazer curas. Ele foi abençoado, agraciado (recebeu favores que não merecia) simplesmente por estar no meio do grupo...até o momento em que se revelou quem ele era. De certa forma, foi sim santificado por estar andando com Cristo, contudo, ele não recebeu a graça salvadora. Ele tinha que se perder, como disse o próprio Jesus:
Quando eu estava com eles, guardava-os no teu nome, que me deste, e protegi-os, e nenhum deles se perdeu, exceto o filho da perdição, para que se cumprisse a Escritura. (João 17:12)
Da mesma forma, hoje há muitos não-salvos dentro das igrejas que estão sim recebendo bênçãos por isso...mas não herdam a salvação, porque, na verdade, a rejeitam e não foram escolhidos por Deus.

Em Hebreus 10, há ainda uma coisa a destacar. Mais à frente, o autor da carta se exclui do grupo dos falsos cristãos, ao dizer:
Porque, ainda dentro de pouco tempo, aquele que vem virá e não tardará; todavia, o meu justo viverá pela fé; e: Se retroceder, nele não se compraz a minha alma. Nós, porém, não somos dos que retrocedem para a perdição; somos, entretanto, da fé, para a conservação da alma. (Hebreus 10:37-39)
No verso 39 sim, o nós se refere a eleitos.

A ira de Deus e a predestinação
Mas uma coisa o senhor Quadros acerta! De fato, o calvinismo anula a ideia de que Deus está irado com todos os homens. Deus continua irado com o pecado, mas os eleitos não precisam mais temer a ira de Deus, porque Jesus pagou o pecado deles. A ira só será derramada sobre aqueles que não são escolhidos pelo Senhor. Diz Quadros:
27) O calvinismo mostra na prática que anula a ideia de que a ira de Deus é sobre todos os homens, pois, se na Onisciência do Eterno Ele já predestinou alguns para se perderem, isso deixa evidente que a ira dEle só recaiu sobre os não eleitos. Para que a ira Divina seja tirada de todas as pessoas por meio de Jesus, todas elas têm de ter sido chamadas para a salvação. (Leandro Quadros)
Jesus não retira a ira de Deus sobre todas as pessoas, só remove a ira sobre os eleitos. Com essa ressalva, milagre, concordei em alguma coisa com Quadros! De fato, a ira de Deus só será derramada, no Juízo, sobre os não-eleitos.

João 15:6
Mas o item 27 ainda fala de João 15:6. Quadros afirma:
Sobre sua frase: “Graça amigo, é graça. Se for obrigação, já não é graça…por isso Cristo deu a quem quis.”, no item 5 transcrevi João 1:12 provando que Cristo não escolheu alguns, mas quem quis permanecer nEle! “Se alguém não permanecer em mim, será lançado fora, à semelhança do ramo, e secará; e o apanham, lançam no fogo e o queimam.” João 15:6. Outro texto sobre o qual o pastor deve orar e pedir a Deus esclarecimentos. (Leandro Quadros)
Já disse antes...só permanece em Cristo quem Ele escolheu. Como Ele mesmo diz em João 15:16.
Não fostes vós que me escolhestes a mim; pelo contrário, eu vos escolhi a vós outros e vos designei para que vades e deis fruto, e o vosso fruto permaneça; a fim de que tudo quanto pedirdes ao Pai em meu nome, ele vo-lo conceda. (João 15:16)
Ao mesmo tempo que Jesus fala que vai ficar com quem permanecer n'Ele, Ele diz, com todas as letras, que os onze apóstolos (Judas já tinha se retirado) não escolheram a Jesus, mas foram escolhidos. Simples assim.

Conclusão
Quadros termina assim o artigo:
28) Sendo que já comentei isso na introdução, o que espero é que o pastor dessa vez considere todos os 48 textos que citei, as perguntas retóricas de ambos os artigos e me forneça explicações bíblicas e contextualizadas para os versos que lhe apresentei. Estarei postando a presente tréplica no meu blog (juntamente com sua réplica), no de Clóvis.

Meu desejo é que o pastor não faça de Calvino os seus olhos para ler a Bíblia, mas sim o Espírito Santo.

Finalizo com o depoimento de um membro de sua igreja que leu meu artigo e viu nele a Bíblia falar (e não eu):

“Vocês não perceberam uma coisa!

“Que o rapaz refutou exemplarmente os argumentos deste site, usando o contexto bíblico.

“E vocês não tiveram a humildade e respeito em ler a explicação do rapaz lá do NA MIRA DA VERDADE. Pois ele foi muito respeitoso, educado e cristão ao falar dos pontos discordantes com nossa doutrina.

“Gostei muito do que vi. E vou procurar assistir ao programa dele. Informei-me que é toda quarta no canal 141 da SKY, às 21h.

“Gostei, porque ele usou a Bíblia o tempo todo e sempre usando o contexto! O que não acontece regularmente na nossa igreja e fico triste por isso. Que Deus nos a ajude a ter humildade ao estudar a Bíblia e reter o que é bom!

“Amados, amemo-nos uns aos outros, porque o amor é de Deus, e qualquer que ama é nascido de Deus e conhece a Deus.” (1 João 4:7)

“Se alguém diz: Eu amo a Deus, e aborrece o seu irmão, é mentiroso. Pois, quem não ama o seu irmão, ao qual viu, como pode amar a Deus, a quem não viu?” (1 João 4:20)

“O que é nascido de Deus não vive pecando.” ( 1 João 5:18)

Assis – Recife
(Grifos acrescentados).

Parabéns, irmão Assis, por fazer da Bíblia a sua única regra de fé e prática!

Um abraço,

Leandro Quadros.
Minha falta de paciência me impede de reproduzir os grifos colocados por Quadros. Mas eu espero que tenha mostrado:

1) Não apelei pra Calvino em momento algum nessa defesa. Apelei pra Bíblia. Sou calvinista porque os calvinistas apenas interpretaram o que está escrito na Bíblia.

2) O professor é que distorceu o sentido original dos textos, descontextualizando-os. Podem ser 48, 96, 1024...se analisados corretamente, não há um único versículo bíblico que ensine a heresia de Quadros (que é ainda pior que o arminianismo).

3) Não sei se o tal Assis é real ou não. Fato é que muitos pastores presbiterianos negligentes, irresponsáveis e até mesmo despreparados, não se dão ao trabalho de explicar a predestinação às igrejas pelo medo de serem impopulares ou porque receam perder o debate...ou mesmo porque não acreditam e não tem vergonha na cara de deixar a Igreja Presbiteriana do Brasil. Mas, se mesmo assim o tal Assis não acredita, lamento. Esse debate confirma uma teoria minha: na maioria das vezes as pessoas rejeitam a predestinação por questões emocionais, e não intelectuais. Como é intolerável a certos espíritos a doutrina de que Deus escolhe uns e rejeita a outros, eles rejeitarão o ensino claro da Palavra e acreditarão em qualquer coisa que apoie o que eles querem aceitar. Paciência.

Espero nunca mais ler um ai de Leandro Quadros em minha vida. Mas o Clóvis, do Cinco Solas, continua a refutá-lo. O último texto está aqui.

Graça e paz do Senhor,

Helder Nozima
Barro nas mãos do Oleiro