23 março 2011

O mito da submissão mútua

De Wayne Grudem. Traduzido por Kamylla Araújo. Original aqui.

Como os que buscam a igualdade entre homens e mulheres revogam a força de Efésios 5:22, “Esposas, sejam submissas aos seus maridos, assim como ao Senhor”? Simples: Eles olham apenas para o verso 21, que diz, “Estejam sujeitos um ao outro no temor de Cristo.” Então eles dizem, “É claro que as esposas devem ser submissas aos seus maridos, mas os maridos também devem submeter-se às esposas.”

O resultado disso é o que eles chamam de “submissão mútua”, “e em seu ponto de vista isto quer dizer que não há liderança ou autoridade única do marido no casamento. Eles redefinem “submissão” como "consideração, cuidado, uma atitude de amor um para com o outro, colocando o interesse da outra pessoa acima do seu próprio.”

Certamente ninguém faz objeção às idéias de consideração mútua, ou cuidado, ou amor! Elas são claramente ensinadas no Novo Testamento. Mas estas idéias são, de fato, o que o verso, Efésios 5:21, quer dizer?

Eu acredito que não. Na verdade, eu creio que a idéia de “submissão mútua” como uma interpretação de “estejam sujeitos um ao outro” em Efésios 5:21 é uma idéia terrivelmente errada. Ela só pode ser defendida se deixarmos de apreciar o significado preciso das palavras gregas para “estar sujeito” e “um ao outro”. Uma vez que esses termos sejam compreendidos corretamente, eu creio que a ideia de “mútua submissão” no casamento será vista como um mito sem qualquer tipo de fundamentação nas Escrituras.

1. O significado de “Ser submisso”

A primeira razão pela qual penso que “uns aos outros” é a melhor interpretação de Efésios 5:21 é o significado para a palavra grega hypotasso (estar sujeito a, submeter-se a). Embora alguns afirmem que a palavra pode significar “ser cuidadoso e considerar o outro; um ato de amor” (para com o outro), não há nenhuma evidência séria que mostre que no século primeiro os gregos entendiam dessa forma, pois o termo sempre implica em um relacionamento de submissão a uma autoridade.

Veja como esta palavra é utilizada em outros lugares no Novo Testamento:

* Jesus está sujeito à autoridade de seus pais (Lucas 2:51)
* Os demônios estão sujeitos aos discípulos (Lucas 10:17: é claro que o significado “ato de amor, consideração” não se encaixa aqui!)
* Os cidadãos devem estar sujeitos à autoridade dos governantes (Rm 13:1,5; Tt 3:1, IPe2:13)
* O universo está sujeito a Cristo (ICo. 15:27; Ef. 1:22)
* Poderes espirituais invisíveis estão sujeitos a Cristo (IPe. 3:22)
* Cristo está sujeito a Deus o Pai (ICo. 15:28)
* Os membros da igreja devem estar submissos aos líderes (ICo. 16:15-16; 1Pe 5:5)
* As esposas devem ser submissas aos seus maridos (Cl. 3:18, Tt. 2:5, IPe. 3:5; compare com Efésios 5:22,24)
* A igreja está sujeita a Cristo (Efésios 5:24)
* Servos devem estar submissos aos seus mestres (Tt. 2:9, IPe. 2:18)
* Os cristãos estão submissos a Deus (Hb. 12:9, Tg. 4:7).

A questão é a seguinte: Nenhum desses relacionamentos jamais foi revertido. Nunca foi dito aos maridos serem submissos (hypotasso) às suas esposas, nem o governo aos cidadãos, os mestres aos servos, ou os discípulos aos demônios. É claro que nunca foi dito aos pais que sejam submissos aos filhos! Na verdade, o termo hypotasso é utilizado fora do Novo Testamento para descrever a submissão e obediência dos soldados no exército ao escalão superior (veja, por exemplo, Josefo, Guerra de 2.566, 578, 5.309; compare o advérbio de Clemente 37:2) O léxico Liddell – Scott – Jones define hypotasso [passivo] significando “ser obediente” (pg. 1897).

É claro, a forma exata que a submissão toma, como ela funciona na prática, sofrerá uma variação enorme em relação a como ela é aplicada aos soldados, às crianças, aos servos, à igreja e às esposas. Em um casamento cristão saudável, haverá fortes elementos de mútua consulta e busca de sabedoria, e a maioria das decisões virá de um consenso entre marido e esposa.

Ser submissa envolve muitas vezes, não só obedecer a comandos ou a ordens diretas (embora às vezes inclua isto), pois um marido prefere fazer uma solicitação à esposa e buscar auxílio, discutindo com ela sobre o curso de uma ação a ser tomada (compare com Filemom 8-9). Este é, provavelmente, o motivo pelo qual Paulo usou o sentido mais amplo de “estar submisso a” quando fala às esposas, em lugar da palavra específica “obedecer” (hypakouo), que é utilizada para crianças (6:1) e para servos (6:5).

Não obstante, a atitude de submissão da esposa à autoridade de seu marido será refletida nas inúmeras palavras e ações a cada dia que refletem deferência à sua liderança e reconhecimento à sua responsabilidade pós- discussão, sempre que possível, para tomar decisões que afetam toda a família.

A despeito de todas essas diferentes formas de submissão, uma coisa permanece constante em cada uso da palavra: nunca é “mútuo” no que diz respeito ao poder; é sempre unidirecional referindo-se à submissão a uma autoridade.

Então a minha pergunta é: Porque deveríamos dar a hypotasso um significado em Efésios 5:21 que em nenhuma outra parte é mostrado como tal? Mas se hypotasso sempre significa “estar submisso a uma autoridade”, então, certamente há um mal-entendido de Efésios 5:21 em dizer que implica em “mútua submissão.”

2. O restante do Contexto

O mito da “submissão mútua” também falha na adequação ao contexto. Em Efésios 5:22-24, às mulheres não é dito que sejam submissas a todos, ou a todos os maridos, ou a outras esposas, ou a seus vizinhos e filhos. O idioma grego  especifica claramente a restrição, “Esposas, sejam submissas a seus maridos (idiois andrasin).” Portanto, o que Paulo tinha em mente não era uma vaga ideia de “mútua submissão” onde todos são “considerados e respeitados” uns pelos outros, mas um tipo específico de submissão a uma autoridade: a mulher é submissa à autoridade do “seu próprio marido”.

Similarmente, não é dito a pais e filhos que sejam submissos mutuamente uns aos outros, mas os filhos devem estar sujeitos (“obedecer”) seus pais (Efésios 6:1-3), os servos devem estar sujeitos aos seus mestres (Efésios 6:5-8). Em cada caso, a pessoa que exerce a autoridade não deve estar submissa àquele sobre quem a autoridade é exercida, mas Paulo sabiamente dá orientações para regular o uso da autoridade pelos maridos (que devem amar as suas esposas Efésios 5:25-33), pelos pais (que não devem provocar em seus filhos a ira, Efésios 6:4), pelos mestres (que devem deixar de ameaçar seus servos lembrando que eles, de igual modo servem a Cristo, Efésios 6:9). Em nenhum dos casos há “mútua submissão”; em cada caso existe submissão à autoridade e uso regulado desta autoridade.

Esta clara evidência no contexto é o motivo pelo qual as pessoas não enxergaram a “submissão mútua” em Efésios 5:21 até que as pressões feministas em nossa cultura levaram as pessoas a procurar uma maneira de evitar a força de Efésios 5:22, “Esposas, sejam submissas aos seus maridos, assim como ao Senhor.” Por séculos ninguém pensou em “mútua submissão” em Efésios 5:21, pois reconhecia-se que o verso ensina que devemos todos estar sujeitos aos homens que Deus colocou em autoridade sobre nós, como maridos, pais ou empregados. Desta maneira, Efésios 5:21 era perfeitamente entendido como estar sujeito um ao outro (isto é, uns para os outros) no temor de Cristo

3. A ausência de qualquer comando dos maridos para as mulheres

Há mais um fato que aqueles que buscam a igualdade entre homens e mulheres não conseguem explicar bem quando da proposição da “mútua submissão” como compreensão deste verso. Eles não conseguem explicar o fato que, enquanto várias vezes às mulheres é dito que sejam submissas aos seus maridos (Efésios 5:22-24; Colossenses 3:18; Tito 2:5, IPedro 3:1-6)a situação nunca é revertida; nunca é falado aos maridos que sejam submissos às suas esposas. Porque isso então, se Paulo queria nos ensinar sobre a “submissão mútua”?

A ordem de que um homem deveria ser submisso à sua mulher teria sido surpreendente em uma antiga sociedade machista. Portanto, se os escritores do Novo Testamento pensavam que no casamento cristão, os maridos deveriam estar submissos às suas esposas, eles teriam que dizê-lo muito claramente, caso contrário, os cristãos mais jovens nunca teriam sabido que era isso que deveriam fazer! Mas em nenhum lugar encontramos tal ordem. É surpreendente que feministas evangélicas possam afirmar que o Novo Testamento ensina isto quando, em nenhum momento isto é ensinado.

4. O significado de “Um ao outro”

Então qual a razão que as pessoas podem dar argumentando em favor da “mútua submissão” na interpretação de Efésios 5:21? Seu argumento é baseado na expressão “um ao outro” (o pronome grego allelous). Vários intérpretes afirmam que o pronome quer dizer “todos a todos” (isto é, que deve ser exaustivamente recíproco, o que significa que se refere a algo que cada pessoa faz uma a outra). Para apoiar este ponto de vista citam-se numerosos versos onde allelous tem esse sentido: “devemos todos amar uns aos outros” (João 13:34) e “sejam servos uns dos outros” (Gálatas (5:13).

Mas aqui está um erro crucial: intérpretes admitem que por allelous significar “todos a todos” em alguns versos, deve significar em todos os versos. Quando eles admitem isso, eles simplesmente não fizeram seu dever de casa - eles não checaram as possibilidades que a palavra pode ser utilizada em distintos contextos, quando não significa “todos a todos”, mas “uns aos outros.”

Por exemplo, em Apocalipse 6:4, “e que os homens se matassem uns aos outros” significa que alguns matariam outros (e não “que todas as pessoas matariam umas às outras”, ou “então que toda a pessoa que foi morta mataria mutuamente aquela que a matou”, o que não teria o menor sentido!). Em Gálatas 6:2, Levai as cargas uns dos outros, não significa que cada um deve trocar a sua carga com o outro, mas “aqueles que são mais capacitados devem ajudar a carregar o fardo daqueles que são menos capacitados.” Em 1 Coríntios 11:33, “Portanto, meus irmãos, quando vos ajuntais para comer, esperai uns pelos outros.” Significa “aqueles que ficaram prontos mais cedo devem esperar por aqueles que estão atrasados.”

Há muitos outros exemplos onde a palavra não pode simplesmente dizer que "todo mundo faz alguma coisa para todo mundo", porque o sentido do contexto simplesmente não permitirá este significado (veja Mateus 24:10; Lucas 2:15; 12:1; 24:32; etc.). Nestes versos allelous significa, uns aos outros. (A versão King James frequentemente traduz estas passagens, “um ao outro” ou “um para o outro”, como em I Coríntios 11:33, Portanto, meus irmãos, quando vos ajuntais para comer, esperai uns pelos outros.” Seguindo este padrão, a KJV traduziu Efésios 5:21, “submetendo-se um ao outro.”)

5. Conclusão

O que então “um ao outro” significa em Efésios 5:21? Significa “uns aos outros” e não “todos a todos”. O significado de hypotasso, que sempre indica submissão unidirecional a uma autoridade, previne o senso de “todos a todos” neste verso. E o seguinte contexto (esposas a maridos, filhos aos pais, servos aos mestres) mostra que este entendimento é verdadeiro. Portanto, não é a “submissão mútua”, mas a submissão às autoridades competentes que é ordenada por Paulo em Efésios 5:21. A ideia de “mútua submissão” nesta passagem é só um mito crido largamente pelo mundo.

Isso é importante? Basta perguntar-se quão importante a idéia de submissão à autoridade é no Novo Testamento. Se hypotassō pode ser esvaziada de qualquer idéia de submissão à autoridade, a capacidade do Novo Testamento para falar com a nossa vida vai ser entravada de forma significativa. Este equívoco igualitário de Efésios 5:21 carrega com ele um preço muito grande.

22 março 2011

Novos reformados: servos da nossa geração

Porque, na verdade, tendo Davi servido à sua própria geração, conforme o desígnio de Deus, adormeceu, foi para junto de seus pais e viu corrupção. (Atos 13:36)
Lidar com a Tradição é um dos grandes problemas enfrentados pelo cristianismo. O catolicismo romano a valoriza tanto que chega a colocar o Magistério da Igreja acima da Bíblia. A liturgia ainda é antiga e só abandonou o latim no Concílio Vaticano II (embora hoje ainda se permita a missa em latim). Por outro lado, certos ramos do protestantismo parecem desprezar a história do cristianismo e ignoram até mesmo o ensino daqueles que fizeram a Reforma Protestante. O equilíbrio raramente é conseguido.

E isso é particularmente verdadeiro quando se olha para as igrejas evangélicas brasileiras do século XXI. Mesmo nas igrejas históricas, há seminários que formam pastores sem exigir a leitura de uma página escrita por Martinho Lutero ou João Calvino (foi o que aconteceu comigo, e eu passei por 3 seminários). A ampla maioria não conhece a história de suas igrejas ou no que elas realmente acreditam. Entretanto, também há grupos que são tão apegados à tradição que parecem ler mais os teólogos reformados que a Bíblia e sonham com uma liturgia do século XVI.

Para piorar, vivemos em um mundo dinâmico, onde as transformações tecnológicas, políticas, econômicas e sociais acontecem de forma muito rápida. Há pouco mais de 50 anos, os moradores da região de Brasília andavam de carro de boi e quase ninguém tinha visto um automóvel. A maioria das famílias possuía muitos filhos e nem mesmo os adultérios eram vistos como motivo para separação de casais.

Tudo isso torna muito complexa a sobrevivência das igrejas em nossa sociedade. Sim, Deus é Soberano e Jesus Cristo salvará eleitos geração após geração. Mas isso não significa que os evangélicos estão livres de desafios enormes. Como ser uma igreja relevante para o Brasil do século XXI?
O resgate da Escritura e da Tradição
Creio que a primeira parte da resposta é olhar para trás. O povo de Deus precisa recuperar o seu passado e a sua História. Esse resgate vai até Adão e Eva, até os eventos redentivos descritos na Bíblia e que estão registrados nas Escrituras Sagradas. Mas eles também incluem o longo período que se inicia com o encerramento da Bíblia e vai até os dias atuais.

Inicialmente é preciso recuperar a leitura e a pregação expositiva das Escrituras. Nada de sermões em cima de versículos isolados ou de estudos que não expliquem o que é ensinado nas páginas da Bíblia. Os pastores e professores devem ensinar o fiel a ler e a interpretar corretamente a Bíblia, aplicando-a em sua vida e em sua sociedade. É preciso que apontemos a Palavra de Deus como sendo a nossa regra suprema de fé e prática, que vai orientar toda a nossa vida.

Secundariamente é preciso recuperarmos as reflexões e ensinos que grandes homens de Deus tiveram a partir da Bíblia. Com humildade, os cristãos do século XXI devem reconhecer como irmãos os que viveram nos séculos II a XX e voltar a lê-los. Ao compreendermos a forma como eles enfrentaram os desafios de suas próprias épocas, acharemos exemplos e inspiração para os nossos próprios dilemas.

Ao pregar em Antioquia da Pisídia, Paulo fez isso. É o que nos mostra Atos 13. O apóstolo recordou-se de como Deus havia lidado com os patriarcas, o povo de Israel no deserto, os juízes, os reis...até chegar a Jesus. Expôs o significado da Lei e dos Profetas. Embora fosse apóstolo, Paulo não renegou o rico passado do Antigo Testamento.

Hoje, os novos calvinistas (não confundir com o neocalvinismo) devem continuar a fazer essa identificação. Nos identificamos com calvinistas porque honramos e respeitamos a tradição teológica exposta por Calvino. Mas entendemos que Calvino foi apenas um dos inúmeros santos que fazem parte da história do povo de Deus, e, por isso, reformados é um termo melhor. Vamos além: entendemos que a tradição reformada é nobre, mas é válida somente na medida em que está submissa às Escrituras Sagradas, que são muito mais antigas que Calvino. Queremos sim o resgate da Tradição, mas somente na medida em que ela é serva da Palavra de Deus.

Afinal, somos reformados, mas antes de tudo, somos cristãos.

Por que novos?
Todavia, os novos reformados não são meros reprodutores dessa rica tradição. A Bíblia é a mesma, a interpretação correta é imutável, mas a sua aplicação varia conforme o tempo, o país, a cultura e as características daqueles que a ouvem. E, por causa disso, sabemos que Deus nos chamou para responder aos desafios da nossa geração, de uma sociedade do século XXI. Sabemos que, embora antigo, o Evangelho sempre será vinho novo (Mateus 9:17).

Ser um novo reformado é reconhecer que a cultura e a sociedade do século XXI trazem os seus próprios desafios e acreditar que a Biblia tem uma resposta para o nosso tempo. É saber diferenciar o que é imutável (a doutrina) e o que pode ser mudado para tornar a Bíblia um livro compreensível aos que vivem nos dias de hoje. É buscar fazer a mesma coisa que o apóstolo Paulo fazia: achar pontes de contato entre a Bíblia e as pessoas, para fazer com que alguns se voltem para Deus (1 Coríntios 9:22).

De modo resumido, o pastor Mark Driscoll apontou quatro marcas que caracterizam esta nova postura:

- Teologia reformada;
- Relacionamentos complementares (e não igualitários) entre homens e mulheres;
- Ministério cheio do Espírito Santo;
- Prática missional.

O novo calvinismo não é uma ruptura com um "velho" calvinismo, mas sim a aplicação dos princípios da Reforma Protestante ao século XXI. Claro que há novidades. A prática missional, ou seja, a formatação de nossa vida e de nossas igrejas com o objetivo de levar Cristo a ser adorado por muitos, nos leva a rompermos com certos tradicionalismos. O propósito maior do Evangelho e a consciência do que realmente é santidade é que nos levam a aplaudir quem canta a soberania de Deus em um rap.
Shai Linne, usando o rap para glorificar a Deus

Ser um novo reformado é, na verdade, ser coerente com o ensino bíblico. É imitar a Jesus quando Ele questionava tradições sem sentido dos fariseus, como a exigência de lavar as mãos antes de comer. (Mateus 15:20). É confrontar os que se dizem reformados mas não são como Jesus, que comia com os publicanos e pecadores (Marcos 2:16). É deixar de lado a liturgia elaborada do culto no Templo e entender que a verdadeira adoração é em espírito e em verdade (João 4:22-24).

É novo porque ainda há um calvinismo "velho" que sonha com uma liturgia do século XVI, onde se criticam aqueles que louvam ao Senhor com "ritmos mundanos". Ainda há um calvinismo "velho" e sectário, que chama os pentecostais de apóstatas e os arminianos de hereges, embora eles professem crer em Jesus Cristo como Senhor e que Ele ressuscitou dos mortos (Rm 10:9).

O desafio
Contudo, o desafio dos novos reformados não é o de guerrear contra este velho calvinismo, mas sim o de servirmos à nossa geração. Por esta razão, dialogamos com outros cristãos, buscando juntar o que há de melhor na teologia reformada e nos movimentos de renovação espiritual, como faz John Piper, tentando unir Reforma e Carisma. Reconhecemos as heresias de movimentos como as igrejas emergentes, mas também aprendemos com eles formas de alcançar a nossa cultura. Temos a consciência de que o corpo de Cristo não se restringe aos seguidores da Confissão de Fé de Westminster.

Na verdade, não há nada de novo com os novos reformados. Eles estão apenas tentando fazer como Davi, que serviu ao Senhor e à sua própria geração. Somos como Paulo, que buscava formas de tornar o reino de Deus conhecido dos gregos e dos judeus, além de enfrentar as heresias e buscar a unidade de igrejas divididas em partidos. A única diferença é que buscamos fazer isso dentro do século XXI.

Que o Senhor nos ajude a alcançarmos este objetivo.

Graça e paz do Senhor,

Helder Nozima
Barro nas mãos do Oleiro

12 março 2011

Novo Calvinismo: uma onda que (ainda) não pegou

Ser calvinista (ou reformado) no Brasil é uma "cruz" das mais pesadas. Os evangélicos são minoria em um país católico. Os tradicionais são minoria em meio a evangélicos pentecostais. E os reformados são minoria no grupo dos tradicionais. Se há uma espécie em extinção religiosa no Brasil, com certeza é a dos seguidores de João Calvino.

Isto explica a imensa alegria com que foi recebida uma reportagem da revista Time, que apontou o novo calvinismo como um dos dez movimentos que podem mudar o mundo agora. A euforia foi tamanha que a reportagem foi citada em blogs conceituados, como o da editora Fiel e o O Tempora, O Mores. Se no Brasil os calvinistas são vistos como seres exóticos, nos Estados Unidos a teologia reformada mostrava a sua força e era reconhecida, inclusive pela sociedade secular.

No entanto, até aqui, o novo calvinismo ainda não disse a que veio. Pelo menos no Brasil.

Made in USA
O problema começa com a falta de divulgadores do novo calvinismo. Os maiores são a editora Tempo de Colheita e blogs como o Voltemos ao Evangelho e o iPródigo, que traduzem posts e vídeos de expoentes do movimento, como Paul Washer, Mark Driscoll e John Piper.
Mark Driscoll

É verdade que algumas editoras tradicionais (Cultura Cristã, Fiel, Shedd Publicações e Vida Nova) também têm publicado livros de destacados representantes do novo calvinismo, principalmente John Piper e Wayne Grudem. Mas é igualmente verdadeiro que o interesse é mais doutrinário do que eclesiológico. Ou, dito de outra forma, os novos calvinistas são publicados pelo que falam de "calvinista" e não pelo que tem de "novo".

Ou alguém imagina a Editora Fiel se juntando a Grudem, Driscoll e Piper na recusa deles ao cessacionismo? O mesmo pode ser dito da liturgia de Driscoll sendo endossada pelo Supremo Concílio da Igreja Presbiteriana do Brasil. No Brasil, grosso modo, os novos calvinistas são enquadrados simplesmente como calvinistas.

O resultado é fácil de se prever: no Brasil, o novo calvinismo é muito mais uma curiosidade do que um movimento. Não há nenhuma igreja de grande porte ou pastor de projeção nacional que se assuma como novo calvinista. Não temos escritores nacionais que produzam literatura dentro dessa linha e a ampla maioria dos blogs dedica-se mais a traduzir os autores norte-americanos. O mesmo pode ser dito das editoras.

Em suma: no Brasil, se queremos saber o que é novo calvinismo, temos que olhar para os Estados Unidos.
Novo calvinismo não..."New calvinism"

Novo o quê?
Uma outra consequência é a de que o membro comum das igrejas e os pastores que não navegam com frequência na Internet nem sabem de que se trata o novo calvinismo. Na prática, a maioria das igrejas reformadas ainda não se enxerga como "missional" e prende-se às mesmas condutas litúrgicas e evangelísticas de sempre.

Na verdade, o que acontece é bem o contrário: há o ressurgimento de um "neopuritanismo", com a defesa de uma liturgia tão engessada que nem os hinos encontram lugar. Não é incomum ver blogs calvinistas rompendo o diálogo com outros ramos do protestantismo, alguns chamando pentecostais de apóstatas e outros tachando os arminianos de hereges. Evangelismo que é bom...

Só há uma conclusão óbvia quando se analisa o cenário brasileiro: a contextualização cultural do Evangelho só é possível nas igrejas emergentes. A coisa chega a tal ponto que a Mocidade Para Cristo recomendou a leitura do herético Brian McLaren no Treinamento de Líderes de Jovens e Adolescentes deste ano, deixando Driscoll de lado. Parece que o único caminho para se ter uma igreja cristã própria para o século XXI é cair na heresia. E líderes brasileiros que apontam neste sentido não faltam, como Ed René Kivitz, Ricardo Gondim, Caio Fábio...

Essa ignorância tem o seu preço. Embora o novo calvinismo não seja um movimento homogêneo, Driscoll aponta marcas que provam que há alternativas à igreja emergente:

- Teologia reformada;
- Relacionamentos complementares (homens e mulheres);
- Ministério cheio do Espírito Santo (continuísmo, rejeição ao cessacionismo);
- Prática missional.

Dito de outra forma, o novo calvinismo preserva o que é imutável (teologia reformada) e muda o que deve mudar. Pena que só você, que lê blogs na Internet, sabe disso. Agora, pergunte aos seus diáconos, presbíteros, às senhoras se elas sabem algo a respeito.

À procura de líderes
Penso que isso só vai mudar quando o novo calvinismo encontrar referenciais no Brasil, que pensem na igreja reformada brasileira do século XXI e estejam dispostos a levar esse pensamento para o dia-a-dia das igrejas locais. Particularmente, não creio que os expoentes do calvinismo tradicional se dediquem a esta tarefa por uma razão muito simples: eles não endossam o que há de "novo". É preciso que outros se disponham a isso.

Até lá, entendo que é preciso se libertar um pouco das traduções e começar a dar lugar a uma produção teológica nacional. Blogs como o Novo Calvinismo, o Filipe Niel, o Pensar... , o Cinco Solas ou o Guilherme de Carvalho precisam ser mais valorizados e conhecidos. Seria interessante ler mais textos de Josaías Cardoso no iPródigo ou autores nacionais no Voltemos ao Evangelho. 

E, claro, seria ótimo se pastores como Jeremias Pereira e Hernandes Dias Lopes se identificassem abertamente com as ideias do novo calvinismo. Seria ótimo se eles se juntassem a outros pastores, como Juan de Paula e Helder Nozima na defesa do que há de "novo" no calvinismo. Poderia ser o que falta para o novo calvinismo "pegar" no Brasil.

Graça e paz do Senhor,

Helder Nozima
Barro nas mãos do Oleiro

11 março 2011

Israel, árabes e a família de Deus

A partir de hoje, vou começar a publicar algumas traduções no Reforma e Carisma. Para isso, conto com uma nova colaboradora, a Kamylla Araújo. A primeira é de John Piper. O original está aqui.

No último sábado eu conheci um cristão árabe que estava visitando a nossa igreja. De uma maneira bastante respeitável, ele derramou seu coração no que diz respeito à situação das pessoas no Oriente Médio e a sua tristeza com pastores cristãos americanos que nunca se referem, de maneira positiva, aos cristãos árabes.

A sua percepeção é que cristãos na América (EUA) dão carta branca no apoio a Israel. Nenhuma injustiça  contra palestinos ou cristãos árabes espalhados pelo mundo parece surtir efeito nos púlpitos americanos.
Então eu pensei que seria bom afirmar publicamente algumas posições que acredito que a Bíblia ordena:
John Piper

1. Verdadeiros cristãos são, primeiramente, cidadãos do Reino de Jesus Cristo, e em segundo lugar, cidadãos de qualquer país ou nação do mundo.

2. Verdadeiros cristãos são mais chegados entre si como irmãos em Cristo que nós em qualquer outro laço de família ou pátria terrena.

3. Cristãos americanos são mais unidos a cristãos palestinos, cristãos árabes, e cristãos judeus em toda parte do mundo do que ao estado não cristão de Israel.

4. Israel foi escolhido por Deus, entre todos os povos do mundo para ser o foco de uma bênção especial na história da redenção, que teve seu clímax em Jesus, o Messias. “Porque povo santo és ao SENHOR teu Deus; o SENHOR teu Deus te escolheu, para que lhe fosses o seu povo especial, de todos os povos que há sobre a terra.”

5. Deus prometeu a Israel a presente terra de conflitos desde o tempo de Abraão. Deus disse a Moisés, “E disse-lhe o SENHOR: Esta é a terra que jurei a Abraão, Isaque, e Jacó, dizendo: Å tua descendência a darei; eu te faço vê-la com os teus olhos, porém lá não passarás.” (Deuteronômio 34:4).

6. Israel, como todas as nações da Terra, inclusive os estados árabes, não reconhecem Jesus como o Messias. Deus e Salvador, e é, portanto, um povo fora da aliança de Deus. Rejeitar o Filho de Deus é rebelar-se contra o Deus da aliança
.
7. Um povo fora da aliança – Judeu ou Árabe – não possui direito divino de dominar a terra prometida enquanto estiver em rebelião contra Deus que a prometeu para um povo obediente. “Agora, pois, se diligentemente ouvirdes a minha voz e guardardes a minha aliança, então sereis a minha propriedade peculiar dentre todos os povos, porque toda a terra é minha.” (Êxodo 19:5).

8. Isso não significa que outras nações têm o direito de molestar Israel, nem Israel de molestar seus vizinhos. Israel e as nações vizinhas dispõem os direitos humanos entre as nações, embora eles não têm o direito divino de reivindicar a terra, rejeitando o Messias.

9. Deus tem planos de salvação para a etnia de Israel (Romanos 11:25-26), e os tem também para as nações árabes (Isaías 19:19-25; Salmos 22:27; Mateus 28:19-20; Romanos 3:29-30).

10. A súplica cristã no Oriente Médio para os palestinos e judeus é: "Crê no Senhor Jesus e serás salvo"(Atos 16:31). Este é o caminho para a paz. "Porque ele é a nossa paz, o qual de ambos os povos fez um; e, derrubando a parede de separação que estava no meio.”(Efésios 2:14).

11. Até o grande dia, quando ambos, judeus e gentios seguidores do Rei Jesus, herdarão a Terra (incluindo a terra prometida), sem levantar espada ou arma, os direitos das nações devem ser decididos por princípios de justiça compassiva e pública, e não apelando por direitos ou status divino.

12. Portanto, todos os cristãos, especialmente os pastores cristãos, devem falar abertamente e com alegria da nossa união com os cristãos árabes e judeus, e não devem classificar o apoio político para Israel ou para qualquer país árabe acima do nosso apoio aos irmãos crentes.

09 março 2011

Justiça com as próprias mãos

Carnaval, feriado, época para aproveitar e fazer algo divertido. Como, por exemplo, reunir alguns amigos e ir passear de bicicleta em uma área verde. Nada como um exercício físico e o contato com a natureza para renovar o corpo e a saúde.

Carnaval, feriado, época ótima para não se fazer nada e deixar a mente vazia. Tempo bom para adolescentes terem ideias estúpidas, como roubar bicicletas. E, se o dono da bicicleta tentar reagir, não há Carnaval que impeça um menor de 14 anos de idade de atirar e matar quem já foi roubado.

A história acontecida ontem, dia 8 de março, em Brasília, por si só já seria trágica. Mas no Carnaval tudo pode acontecer...e piorar. Um grupo de populares viu o crime e resolveu fazer justiça com as próprias mãos. O menor assassino foi linchado e agora está internado no Hospital de Base, entre a vida e a morte.
Devemos ser como o Justiceiro, personagem de HQ da Marvel Comics?

Questões não respondidas
Fatos como este clamam por atenção em uma sociedade indiferente. Saber qual é a escola de samba campeã ou as últimas notícias dos blocos da Quarta de Cinzas chamam mais a atenção do que a violência de uma sociedade voltada para o prazer. Mesmo nas igrejas, a volta dos acampamentos, os "pós-retiros" e o clima de euforia espiritual abafam perguntas que o mundo faz e não encontra resposta.

Afinal, o que fazer diante de crimes bárbaros como esse, praticados por menores? A maioridade penal deve ser reduzida? Já que o Estado não faz nada, podemos fazer justiça com as próprias mãos? Onde devemos procurar as respostas?

A resposta dos cristãos é: na Bíblia. Lá encontraremos princípios que deveriam orientar a conduta ética e a formulação de políticas para atacar a criminalidade. Mas, infelizmente, a maioria dos cristãos já não sabe mais dizer qual o ensino bíblico sobre o assunto. É hora de rever alguns textos.

Com as próprias mãos, não!
E o primeiro princípio que devemos resgatar é o de que a Justiça Civil e Criminal é uma atribuição do Estado. Não cabe a nós fazermos justiça com as próprias mãos, prendendo, espancando e linchando criminosos, por piores que eles sejam. É o que ensina a Bíblia em Romanos 13:
Todo homem esteja sujeito às autoridades superiores; porque não há autoridade que não proceda de Deus; e as autoridades que existem foram por ele instituídas. De modo que aquele que se opõe à autoridade resiste à ordenação de Deus; e os que resistem trarão sobre si mesmos condenação. Porque os magistrados não são para temor, quando se faz o bem, e sim quando se faz o mal. Queres tu não temer a autoridade? Faze o bem e terás louvor dela, visto que a autoridade é ministro de Deus para teu bem. Entretanto, se fizeres o mal, teme; porque não é sem motivo que ela traz a espada; pois é ministro de Deus, vingador, para castigar o que pratica o mal. (Romanos 13:1-4)
Segundo as Escrituras, a principal função de todos os governos é "louvar" os que fazem o bem e castigar os que praticam o mal. Mais do que redistribuir renda, dar educação e saúde de graça ou mesmo garantir aposentadoria, o que o Estado deve fazer é executar a Justiça. Os governantes são ministros vingadores de Deus para punir os malfeitores e criminosos.

O problema é que o Estado brasileiro fracassa nesta missão. Na verdade, o que vemos são autoridades flagradas na prática de crimes ou em situações, no mínimo, embaraçosas, como aconteceu com a deputada federal Jaqueline Roriz. Enquanto isso, juízes vivem com escolta armada, pois podem ser mortos a qualquer momento. Na verdade, parece que as autoridades brasileiras invertem o mandamento bíblico.

Só há uma forma de mudar isso: cobrando do Estado que faça a sua parte. As igrejas precisam conscientizar a sociedade que a Justiça e a Segurança Pública são as principais esferas de atuação estatal. Precisamos cobrar resultados e políticas eficazes dos candidatos e dos juízes, mais do que cobramos por educação ou saúde. Esse ensino precisa ser pregado nos púlpitos e ensinado nas escolas dominicais. Os alunos das escolas evangélicas devem aprender isso e levar essa temática aos pais. Assim, poderemos cobrar de quem tem a responsabilidade do julgamento.

Penas mais duras
Mas apenas julgar e prender não é suficiente. Se o crime é grave, como um homicídio, a pena deve ser pesada. E, ao contrário do que pensa a maioria dos evangélicos, a pena de morte é sim bíblica e deveria ser aplicada no século XXI.

Em Romanos 13:4, a Bíblia afirma que "não é sem motivo que ela traz a espada". As autoridades recebem de Deus o poder de matar pessoas, simbolizado na espada. Por meio desta arma letal, o ensino bíblico é o de que os governos podem manter exércitos, polícias e poderes capazes de matar os que fazem o mal. Se há julgamento justo, a pena de morte é sim válida.

Chocante não? Mas não para os apóstolos. O próprio Paulo disse que não se recusava a morrer, se houvesse cometido crime digno de morte:
Caso, pois, tenha eu praticado algum mal ou crime digno de morte, estou pronto para morrer; se, pelo contrário, não são verdadeiras as coisas de que me acusam, ninguém, para lhes ser agradável, pode entregar-me a eles. Apelo para César. (Atos 25:11)
A pena de morte também foi instituída por Deus antes da Lei de Moisés, nos dias de Noé. A antigüidade do mandamento é uma forte sugestão de que ele não deve ser observado apenas por crentes, mas por toda a humanidade:
Se alguém derramar o sangue do homem, pelo homem se derramará o seu; porque Deus fez o homem segundo a sua imagem. (Gênesis 9:6)
Logo, engana-se quem pensa que a pena de morte é uma exigência apenas da Lei de Moisés. Ela é instituída por Senhor antes da Lei e é revalidada pelos apóstolos. Mais do que isso: é um instrumento pelo qual o Senhor ensina que os homens são a imagem de Deus. Por fim a esta imagem por meio do assassinato, como fez o adolescente de Brasília, é um crime passível de morte.

Hoje a Constituição impede que a pena de morte seja sequer discutida no Congresso Nacional. Contudo, os cristãos devem se levantar e questionar este ponto. Mais: devemos sim nos colocar do lado de penas mais severas para crimes contra a vida. Quem mata, tortura, estupra, quem atenta contra a imagem de Deus de modo violento, não deve ser beneficiado com liberdade condicional, progressão de pena e poucos anos de cadeia. E essa deve ser uma bandeira cristã.

Claro, se o homicídio foi acidental ou culposo, a pena de morte não deve ser aplicada. É o que a própria Bíblia ensina na Lei, quando fala das cidades de refúgio (Números 35:10-28). Os julgamentos, claro, devem ser justos e com amplo direito à defesa. Mas a pena de morte deve ser aplicada.

E a maioridade penal? Isso já é um assunto para um próximo post.

Graça e paz do Senhor,

Helder Nozima
Barro nas mãos do Oleiro

03 março 2011

Ô, língua!!!!

Nós vivemos com a ilusão de que "pequenos pecados" não fazem mal a ninguém. Qual o problema em se contar uma mentirinha "branca" ou uma fofoquinha? Quando cristãos emitem julgamentos severos sobre o pecado, aí sim é que ninguém dá bola mesmo.

Afinal, qual o problema em dizer uns xingamentos, né? Bom, faça esta pergunta ao estilista John Galliano. Por causa de uma discussão em um bar, ele perdeu o emprego e vai até ser julgado pela Justiça francesa. Quem diria, hein? Bom, a Bíblia diria:
Meus irmãos, não vos torneis, muitos de vós, mestres, sabendo que havemos de receber maior juízo. Porque todos tropeçamos em muitas coisas. Se alguém não tropeça no falar, é perfeito varão, capaz de refrear também todo o corpo.

Ora, se pomos freio na boca dos cavalos, para nos obedecerem, também lhes dirigimos o corpo inteiro. Observai, igualmente, os navios que, sendo tão grandes e batidos de rijos ventos, por um pequeníssimo leme são dirigidos para onde queira o impulso do timoneiro. Assim, também a língua, pequeno órgão, se gaba de grandes coisas. Vede como uma fagulha põe em brasas tão grande selva!

Ora, a língua é fogo; é mundo de iniqüidade; a língua está situada entre os membros de nosso corpo, e contamina o corpo inteiro, e não só põe em chamas toda a carreira da existência humana, como também é posta ela mesma em chamas pelo inferno. Pois toda espécie de feras, de aves, de répteis e de seres marinhos se doma e tem sido domada pelo gênero humano; a língua, porém, nenhum dos homens é capaz de domar; é mal incontido, carregado de veneno mortífero.

Com ela, bendizemos ao Senhor e Pai; também, com ela, amaldiçoamos os homens, feitos à semelhança de Deus. De uma só boca procede bênção e maldição. Meus irmãos, não é conveniente que estas coisas sejam assim.

Acaso, pode a fonte jorrar do mesmo lugar o que é doce e o que é amargoso? Acaso, meus irmãos, pode a figueira produzir azeitonas ou a videira, figos? Tampouco fonte de água salgada pode dar água doce. (Tiago 3:1-12)
Todos somos Galliano
A Bíblia sempre recomenda uma certa moderação quanto ao conceito que temos de nós mesmos. Ninguém, nem mesmo estilistas famosos, deve pensar que é um grande mestre. Ao contrário, todos precisam se lembrar de que tropeçam...em muitas coisas.

E um ótimo exemplo disso é o falar. Todos já sentiram remorsos por alguma declaração ou fofoca infeliz. Todos já sofreram com a língua maldosa de outra pessoa. E, por causa disso, ofensas e preconceitos se perpetuam, pessoas se sentem inferiores, relacionamentos acabam (inclusive dentro de famílias), feridas se abrem e não são esquecidas...e até mesmo mortes acontecem.

O que John Galliano fez é horrível. O racismo nunca pode ser tolerado e ele deve sim responder por sua declaração. Na verdade, ele irá responder por ela não apenas diante das cortes francesas, ele também será julgado por Deus.

Mas, sendo honesto, todos nós já cometemos erros iguais ou piores aos dele. Se não fomos filmados pelos homens, fomos vistos pelo Senhor. Se Galliano perdeu o emprego, nós corremos o risco de perder a vida. O juízo de Deus, mesmo para os pecadinhos, é a morte:
porque o salário do pecado é a morte, mas o dom gratuito de Deus é a vida eterna em Cristo Jesus, nosso Senhor. (Romanos 6:23)
O pecado mata
Sim, é isso mesmo o que você leu. Não importa o tamanho do pecado: o pagamento que Deus nos dá por ele é a morte. É por esta razão que Deus permite que pessoas morram, adoeçam, sofram acidentes, nasçam com deficiências...tudo isso é Deus pagando o justo salário que nossos pecados merecem. E, caso elas não se voltem para o Senhor, a morte continua após a morte...no inferno.

Pode até parecer absurdo um castigo tão grande para erros tão "pequenos". Mas é só ver as consequências que certos pecadinhos podem ter que começamos a ver de modo diferente. No caso da língua, Tiago diz que ela põe em chamas "toda a carreira humana" e é carregada de veneno mortífero. E é só ver uma novela qualquer para saber como uma intriga pode, de fato, causar morte e destruição.

Galliano perdeu a credibilidade por causa do que disse. Perdeu o emprego. Vai ter que responder na Justiça. Mas ele não é o único a pagar pela língua. O prefeito de Manaus, Amazonino Mendes, pode responder a um processo de impeachment por ter mandado uma moradora morrer. Declarações infelizes podem ter impedido que o professor Emir Sader assumisse a presidência da Casa de Rui Barbosa. Pecados, ainda que pequenos, sempre trazem a morte consigo.

Não pode ser assim
A conclusão de Tiago é simples, mas imensamente difícil: não é conveniente que seja assim. A língua não deve ser uma fonte de onde brotam louvores ao Senhor e maldições, fonte de água doce e amarga. Ela não pode ser um órgão que provoca incêndios e destruição. O problema é que, se alguém consegue domar a língua, esse alguém é perfeito e pode refrear a tudo. Dito de outra forma, é alguém que não peca.

E só houve uma pessoa que conseguiu isso: Jesus Cristo. Dele se diz:
Eis aqui o meu servo, que escolhi, o meu amado, em quem a minha alma se compraz. Farei repousar sobre ele o meu Espírito, e ele anunciará juízo aos gentios. Não contenderá, nem gritará, nem alguém ouvirá nas praças a sua voz. Não esmagará a cana quebrada, nem apagará a torcida que fumega, até que faça vencedor o juízo. E, no seu nome, esperarão os gentios.(Mateus 12:18-21)

Porque não temos sumo sacerdote que não possa compadecer-se das nossas fraquezas; antes, foi ele tentado em todas as coisas, à nossa semelhança, mas sem pecado. (Hebreus 4:15)
Jesus foi o único que conseguiu refrear a língua. Quando Ele foi duro, era porque tinha que ser. Ele não dizia palavras impensadas, não ofendia as pessoas, não ficava discutindo em alta voz nas praças. Ele venceu os perigos da língua.

Assim como Jesus venceu os pecados em seus dias aqui na terra, Ele também vence hoje os pecados que cometemos. É verdade que não podemos voltar atrás naquilo que já dissemos. Não podemos anular todas as consequências de nossas palavras pecaminosas. Mas em Cristo podemos alcançar perdão e a graça necessária para vencermos o pecado.
Porque, se fomos unidos com ele na semelhança da sua morte, certamente, o seremos também na semelhança da sua ressurreição, sabendo isto: que foi crucificado com ele o nosso velho homem, para que o corpo do pecado seja destruído, e não sirvamos o pecado como escravos; porquanto quem morreu está justificado do pecado. Ora, se já morremos com Cristo, cremos que também com ele viveremos, sabedores de que, havendo Cristo ressuscitado dentre os mortos, já não morre; a morte já não tem domínio sobre ele. Pois, quanto a ter morrido, de uma vez para sempre morreu para o pecado; mas, quanto a viver, vive para Deus. Assim também vós considerai-vos mortos para o pecado, mas vivos para Deus, em Cristo Jesus. (Romanos 6:5-11)
Volte-se para Jesus. Nele você pode encontrar não só o perdão para todos os seus pecados, mas também a graça para vencê-los. Ele veio para destruir o nosso corpo de pecado, incluindo a nossa língua grande.

Graça e paz do Senhor,

Helder Nozima
Barro nas mãos do Oleiro

01 março 2011

A glorificação do pecado

E, por haverem desprezado o conhecimento de Deus, o próprio Deus os entregou a uma disposição mental reprovável, para praticarem coisas inconvenientes, cheios de toda injustiça, malícia, avareza e maldade; possuídos de inveja, homicídio, contenda, dolo e malignidade; sendo difamadores, caluniadores, aborrecidos de Deus, insolentes, soberbos, presunçosos, inventores de males, desobedientes aos pais, insensatos, pérfidos, sem afeição natural e sem misericórdia. Ora, conhecendo eles a sentença de Deus, de que são passíveis de morte os que tais coisas praticam, não somente as fazem, mas também aprovam os que assim procedem. (Romanos 1:28-32)
A nova febre cinematográfica do Brasil é o filme "Bruna Surfistinha". Logo no fim de semana de estreia, quase 400 mil pessoas assistiram ao filme, mais do que os espectadores do filme de outro fenômeno de mídia, o cantor Justin Bieber. A história se baseia no livro "O Doce Veneno do Escorpião", escrito por Raquel Pacheco, uma ex-garota de programa  que usava o apelido de "Bruna Surfistinha" e que ficou famosa após publicar suas histórias na Internet.

O que provoca tanto sucesso? Alguns diriam que se trata de uma boa história. Afinal, quem não se interessaria em conhecer "a vida real de uma prostituta" que tinha tudo na vida e resolveu "cair na vida"? Por que? Será que é bom? O brasileiro já sente uma curiosidade enorme em relação à sexualidade. Com esses ingredientes então...a história é irresistível.
Doce veneno?

Por outro lado...essa é uma história em que não há verdadeiro arrependimento. Um passado que, em outros tempos, seria escondido e tratado como algo vergonhoso, hoje é exibido na Internet e vira filme! O pecado que deveria trazer vergonha acaba trazendo fama e dinheiro.

A rejeição a Deus
Para muitos, isso pode ser um bom sinal: de que o Brasil estaria deixando de ser uma sociedade conservadora e hipócrita para se revelar um país mais aberto e tolerante. Seria um avanço. De fato, o filme mostra um país que avança sim, mas em uma direção cada vez mais distante do Senhor.

E aqui é útil voltarmos para o primeiro capítulo da carta aos Romanos, o livro onde Paulo expõe e defende a justificação pela fé. O apóstolo começa a sua argumentação expondo a culpa universal dos seres humanos. Ao contrário do que pensamos, Deus tem dado testemunho de Sua existência e bondade por meio da criação. Contudo, os homens escolheram ignorar isso e fizeram deuses segundo à sua imagem e semelhança. Em outras palavras, rejeitaram ao Senhor.

Hoje não é diferente. Intuitivamente sabemos que a prostituição é algo moralmente reprovável. É quase o auge da mercantilização, abaixo apenas da escravidão humana, pois se trata do comércio da sexualidade e da intimidade. Por mais que seja algo consentido, a prostituta (ou o garoto de programa) se coloca como um objeto, e não como um sujeito. Independente da cultura é algo que degrada a imagem de Deus.

Mas este conhecimento é rejeitado. O mundo não quer saber o que Deus acha da prostituição...e de outros pecados também. A ignorância não é uma catástrofe, é uma escolha. A história de uma garota que tinha tudo e resolveu se prostituir desperta mais interesse do que a de um Deus que enviou seu Filho para morrer em uma cruz e nos chama para vivermos um amor cristão, fiel e monogâmico.

Uma disposição mental reprovável
A consequência deste abandono é uma mente caída. Quando desprezamos o conhecimento de Deus, desprezamos Aquele que é a fonte de tudo o que é bom, como está escrito:
Toda boa dádiva e todo dom perfeito são lá do alto, descendo do Pai das luzes, em quem não pode existir variação ou sombra de mudança. (Tiago 1:17)
E o resultado não pode ser bom. Desprezar ao Senhor é pior que ignorar o conselho da mãe ou a receita do médico. É mais louco do que beber até cair e pegar o carro para dirigir. Entorpece mais do que as pedras do crack. Cega mais do que olhar o eclipse do Sol sem óculos de proteção.

É impressionante como o Brasil não consegue enxergar os efeitos nocivos de se deixar os caminhos de Deus. Se famílias estruturadas são aquelas onde pai e mãe se amam e representam bem seus papeis de homem e mulher...por que estimular a desagregação dessa família em nome do prazer? Se o egoísmo é condenável, porque incentivar um egoísmo onde alguns pagam para usar os outros, muitas vezes machucando os sentimentos de cônjuges e filhos só por orgasmos? Será que ninguém vê que nada de útil ou de proveitoso pode brotar disso?

Contudo não faltará quem defenda o pecado e o considere algo bom. Qual o problema em procurar uma prostituta ou ter uma vida sexual promíscua? A ideia de fidelidade é careta e ultrapassada, um reclaque idiota criado por cristãos. É mesmo? Deve ser por isso então que metade dos homens de São Paulo têm HPV. E este vírus não causa só câncer de colo de útero, causa também câncer de pênis! Isso sem falar nas outras doenças sexualmente transmissíveis, nos casamentos desfeitos, nas traições e seus efeitos psicológicos, na insegurança de crianças que não veem seus pais juntos e nos adolescentes e jovens que não conseguem ficar juntos porque não tiveram modelos para ensinar o que era um relacionamento saudável!

Sinceramente, defender o pecado não é uma questão de escolha: é a evidência de uma mente reprovável.

A glorificação do pecado
E, quando o certo é deixado de lado e a mente valoriza o erro, o resultado é um só: a glorificação do pecado. Aquilo que é condenável passa a ser praticado, mesmo com a ameaça da punição divina (ou humana). E como ninguém quer errar sozinho, há todo um incentivo para que outras pessoas cometam os mesmos erros que nós.

Esta é a explicação para a famosa "pressão de grupo" dos adolescentes. Eles sabem, por exemplo, que usar drogas ou se arriscar em uma fornicação é algo errado, que pode causar prejuízos à saúde, gravidez indesejada e/ou uma surra dos pais. Sabem que o certo é esperar, mas não se importam: acham que é melhor fumar um baseado ou dar uma rapidinha do que fazer aquilo que é mais sábio. E, para se protegerem, incentivam os amigos a fazerem o mesmo.

Só que este comportamento não é exclusividade de adolescentes, é uma marca que transcende as culturas. Hoje o Brasil está cheio de adúlteros e fornicadores, entre outros pecados. São pessoas que não querem enxergar a maldade de seus atos e buscam argumentos e justificativas para iludirem suas mentes. Sabem que estão errados, mas estimulam os outros a caírem no mesmo erro. E chegam a ganhar dinheiro com isso.

É o que acontece com o sucesso do filme "Bruna Surfistinha", mas também com as novelas, a promiscuidade e a glorificação do homossexualismo em reality shows e as reportagens sobre o Carnaval. Tudo isso são tentativas de mostrar aprovação a pecados que são condenáveis, de inverter a forma certa de se enxergar as coisas, de convencer o mundo de que o mau é bom e o bom é mau.


Soli Deo Gloria
Só há uma forma de reverter isso: voltando-se para Deus. Nós precisamos reconhecer, todos nós, que somos incapazes de saber o que é certo e errado. Precisamos confessar que rejeitamos o conhecimento de Deus e devemos ir atrás d'Ele, buscando conhecê-Lo e aprendendo o que Ele quer nos ensinar. Precisamos entender que a nossa vida depende do conhecimento de Deus. Como disse o próprio Jesus:
E a vida eterna é esta: que te conheçam a ti, o único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, a quem enviaste. (João 17:3)
Mas, pra que isso aconteça, precisamos perder a vergonha do Evangelho. Precisamos parar de ter medo de dizer que acreditamos que a Bíblia é a Palavra de Deus e que a vida está apenas em Jesus, e não nos prazeres passageiros do mundo. Precisamos parar de nos preocupar se os outros nos consideram puritanos imbecis e até mesmo de ser rejeitados pelos outros. Devemos dizer, em alto e bom som, que Jesus Cristo veio ao mundo para condenar e destruir o pecado. Mais: que o Evangelho é o poder de Deus para nos salvar:
Pois não me envergonho do evangelho, porque é o poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê, primeiro do judeu e também do grego; visto que a justiça de Deus se revela no evangelho, de fé em fé, como está escrito: O justo viverá por fé. (Romanos 1:16-17)
O pecado só deixará de ser glorificado quando nos decidirmos a glorificar somente ao Senhor. No dia em que Deus e Jesus forem mais interessantes para o Brasil do que Bruna Surfistinha, aí sim haverá esperança para o nosso país.

Graça e paz do Senhor,

Helder Nozima
Barro nas mãos do Oleiro