12 março 2011

Novo Calvinismo: uma onda que (ainda) não pegou

Ser calvinista (ou reformado) no Brasil é uma "cruz" das mais pesadas. Os evangélicos são minoria em um país católico. Os tradicionais são minoria em meio a evangélicos pentecostais. E os reformados são minoria no grupo dos tradicionais. Se há uma espécie em extinção religiosa no Brasil, com certeza é a dos seguidores de João Calvino.

Isto explica a imensa alegria com que foi recebida uma reportagem da revista Time, que apontou o novo calvinismo como um dos dez movimentos que podem mudar o mundo agora. A euforia foi tamanha que a reportagem foi citada em blogs conceituados, como o da editora Fiel e o O Tempora, O Mores. Se no Brasil os calvinistas são vistos como seres exóticos, nos Estados Unidos a teologia reformada mostrava a sua força e era reconhecida, inclusive pela sociedade secular.

No entanto, até aqui, o novo calvinismo ainda não disse a que veio. Pelo menos no Brasil.

Made in USA
O problema começa com a falta de divulgadores do novo calvinismo. Os maiores são a editora Tempo de Colheita e blogs como o Voltemos ao Evangelho e o iPródigo, que traduzem posts e vídeos de expoentes do movimento, como Paul Washer, Mark Driscoll e John Piper.
Mark Driscoll

É verdade que algumas editoras tradicionais (Cultura Cristã, Fiel, Shedd Publicações e Vida Nova) também têm publicado livros de destacados representantes do novo calvinismo, principalmente John Piper e Wayne Grudem. Mas é igualmente verdadeiro que o interesse é mais doutrinário do que eclesiológico. Ou, dito de outra forma, os novos calvinistas são publicados pelo que falam de "calvinista" e não pelo que tem de "novo".

Ou alguém imagina a Editora Fiel se juntando a Grudem, Driscoll e Piper na recusa deles ao cessacionismo? O mesmo pode ser dito da liturgia de Driscoll sendo endossada pelo Supremo Concílio da Igreja Presbiteriana do Brasil. No Brasil, grosso modo, os novos calvinistas são enquadrados simplesmente como calvinistas.

O resultado é fácil de se prever: no Brasil, o novo calvinismo é muito mais uma curiosidade do que um movimento. Não há nenhuma igreja de grande porte ou pastor de projeção nacional que se assuma como novo calvinista. Não temos escritores nacionais que produzam literatura dentro dessa linha e a ampla maioria dos blogs dedica-se mais a traduzir os autores norte-americanos. O mesmo pode ser dito das editoras.

Em suma: no Brasil, se queremos saber o que é novo calvinismo, temos que olhar para os Estados Unidos.
Novo calvinismo não..."New calvinism"

Novo o quê?
Uma outra consequência é a de que o membro comum das igrejas e os pastores que não navegam com frequência na Internet nem sabem de que se trata o novo calvinismo. Na prática, a maioria das igrejas reformadas ainda não se enxerga como "missional" e prende-se às mesmas condutas litúrgicas e evangelísticas de sempre.

Na verdade, o que acontece é bem o contrário: há o ressurgimento de um "neopuritanismo", com a defesa de uma liturgia tão engessada que nem os hinos encontram lugar. Não é incomum ver blogs calvinistas rompendo o diálogo com outros ramos do protestantismo, alguns chamando pentecostais de apóstatas e outros tachando os arminianos de hereges. Evangelismo que é bom...

Só há uma conclusão óbvia quando se analisa o cenário brasileiro: a contextualização cultural do Evangelho só é possível nas igrejas emergentes. A coisa chega a tal ponto que a Mocidade Para Cristo recomendou a leitura do herético Brian McLaren no Treinamento de Líderes de Jovens e Adolescentes deste ano, deixando Driscoll de lado. Parece que o único caminho para se ter uma igreja cristã própria para o século XXI é cair na heresia. E líderes brasileiros que apontam neste sentido não faltam, como Ed René Kivitz, Ricardo Gondim, Caio Fábio...

Essa ignorância tem o seu preço. Embora o novo calvinismo não seja um movimento homogêneo, Driscoll aponta marcas que provam que há alternativas à igreja emergente:

- Teologia reformada;
- Relacionamentos complementares (homens e mulheres);
- Ministério cheio do Espírito Santo (continuísmo, rejeição ao cessacionismo);
- Prática missional.

Dito de outra forma, o novo calvinismo preserva o que é imutável (teologia reformada) e muda o que deve mudar. Pena que só você, que lê blogs na Internet, sabe disso. Agora, pergunte aos seus diáconos, presbíteros, às senhoras se elas sabem algo a respeito.

À procura de líderes
Penso que isso só vai mudar quando o novo calvinismo encontrar referenciais no Brasil, que pensem na igreja reformada brasileira do século XXI e estejam dispostos a levar esse pensamento para o dia-a-dia das igrejas locais. Particularmente, não creio que os expoentes do calvinismo tradicional se dediquem a esta tarefa por uma razão muito simples: eles não endossam o que há de "novo". É preciso que outros se disponham a isso.

Até lá, entendo que é preciso se libertar um pouco das traduções e começar a dar lugar a uma produção teológica nacional. Blogs como o Novo Calvinismo, o Filipe Niel, o Pensar... , o Cinco Solas ou o Guilherme de Carvalho precisam ser mais valorizados e conhecidos. Seria interessante ler mais textos de Josaías Cardoso no iPródigo ou autores nacionais no Voltemos ao Evangelho. 

E, claro, seria ótimo se pastores como Jeremias Pereira e Hernandes Dias Lopes se identificassem abertamente com as ideias do novo calvinismo. Seria ótimo se eles se juntassem a outros pastores, como Juan de Paula e Helder Nozima na defesa do que há de "novo" no calvinismo. Poderia ser o que falta para o novo calvinismo "pegar" no Brasil.

Graça e paz do Senhor,

Helder Nozima
Barro nas mãos do Oleiro

6 comentários:

Paulo disse...

Sou calvinista porque o calvinismo é o puro cristianismo. Creio também numa doutrina reformada cheia do Espírito Santo (Deus é o mesmo ontem, hoje e sempre). Se isso é o novo calvinismo, eis-me aqui, Senhor. Contem comigo e minha orações.

Lindemberg disse...

Helder, como soi você sempre toca na questão de uma forma precisa e clara. Excelente artigo, endosso.

Oremos para a igreja brasileira e sociedade sejam enfim impactada pelo puro e bom evnagelho.

new calvinism

Lindemberg

Ashbel Simonton V Soares disse...

Novo modismo? Estou fora. Creio na pregação pura, simples, urgente, reverente e solene do evangelho de Cristo convocando pecadores a se arrependerem diante do Pai. Creio em um Deus que faz milagres hoje, conforme sua própria agenda, e não creio em pessoas detentora de dons miraculosos hoje, pois esse tempo já passou (creia-me, mesmo no plano eterno de Deus tem coisas que ficam no passado como testemunho para as pessoas do presente e do futuro - Hb 1.1-2). Não creio, portanto, em pessoas que tem o dom de curar, ou de falar línguas estrangeiras miraculosamente, ou qq coisa parecida. Creio em um Deus que responde orações como, quando, e na proporção que Ele deseja. Não creio nos que mudam a linguagem solene, urgente e reverente do evangelho (que fala de vida ou morte eternas) por formas banalizadas ou dirigidas a certos grupos a guisa de "falar relevante" (ver Mc 4.10-12, 1Co1.21-23 "aprove a Deus salvar os que crêem pela loucura da salvação"). Um funkeiro pode odiar a forma solene e reverente da pregação do arrependimento e da fé em Jesus, mas ele irá ouvir quando (e se) Deus assim o desejar.
Creio nas escrituras conf explanado pelos nossos símbolos de fé. O que vai além das Escrituras, seja anátema.

De um calvinista,
A. Simonton.

Helder Nozima disse...

Paulo e Lindemberg,

Obrigado pelos comentários. Montei um grupo no Facebook para discutir o novo calvinismo, são os "Novos Reformados". Se quiserem entrar, falem comigo no reforma.carisma@gmail.com.

Graça e paz do Senhor,

Helder Nozima
Barro nas mãos do Oleiro

Helder Nozima disse...

Ashbel,

A proposta do meu blog é "Reforma e Carisma", ou seja, teologia reformada com a contemporaneidade dos dons chamados extraordinários. Hebreus 1:1-2 não é uma base suficiente para o cessacionismo, como pretendo demonstrar nos próximos posts.

Tanto "Reforma e Carisma" como o novo calvinismo não são modismos. Ao contrário, é simplesmente a volta ao puro evangelho de nosso Senhor Jesus Cristo.

Graça e paz do Senhor,

Helder Nozima
Barro nas mãos do Oleiro

katy sales disse...

Otima postageem, realmente muito interessante... parabéns e Deus abençõe!