10 maio 2011

O Estado e o direito de pecar

Este texto baseia o anterior: "O direito de Salomão e a união homoafetiva" e é uma resposta a todos os comentários atacando o meu ponto de vista.

"Você se acha o dono da verdade". Essa é uma das acusações mais comuns dirigidas aos cristãos. Afinal, aqueles que possuem conhecimento bíblico têm opiniões fortes sobre uma série enorme de assuntos: aborto, sexualidade, casamento, ética, vida após a morte, entre outros. Mais do que opiniões, são convicções. Os cristãos estão certos de que estão defendendo a verdade.

Só que o desejo não é apenas o de verbalizar isso. Sendo sincero, o meu desejo e o de todos os cristãos sinceros é o de ver todo o mundo vivendo por essas verdades. Nós realmente achamos que seria melhor se todos aceitassem a Bíblia como uma regra suprema e confiável de fé e prática. Não temos dúvida quanto a isso.

No entanto, há dois "pequenos" problemas. O primeiro é que a maioria das pessoas não concorda conosco e não aceita os nossos pontos de vista. E muitos estariam dispostos a pegar em armas para impedir-nos de "cristianizarmos" o mundo. O segundo é descobrir de que forma Jesus Cristo quer que influenciemos o mundo nesta fase atual da História.

E estes dois problemas esbarram em uma relação complicada, entre Igreja e Estado. Para alguns cristãos, a teocracia é necessária e o Estado deve se sujeitar às leis de Deus, independente de qualquer coisa. O Estado deve ser um agente para submeter o mundo à vontade do Senhor, coibindo o pecado. Para alguns outros, Igreja e Estado são separados e o Estado não tem papel algum na tarefa de transformar a sociedade. A maioria fica entre essas posições.

E eu também. É o que pretendo explicar abaixo.

O reino de Deus não é deste mundo
A primeira coisa que precisamos entender é que os cristãos jamais verão "o reino de Deus" implantado na Terra até a vinda de Jesus. Na atual fase da História, não será comum vermos uma sociedade proclamando o Cristo como seu verdadeiro Rei e vivendo de acordo com a vontade de Deus revelada na Bíblia.

Quando Jesus ensinava sobre o "reino de Deus", Ele não se referia a um governo terreno. Ele não imaginava o Império Romano se curvando diante da Igreja e deixando que suas leis sejam julgadas pelos fiéis. Ele não vislumbrava um Estado punindo todo tipo de pecado e empregando seus exércitos e funcionários em defesa da fé bíblica.

Ao contrário, Jesus rechaçou esse tipo de reino quando ele estava diante de Pôncio Pilatos:
Respondeu Jesus: O meu reino não é deste mundo. Se o meu reino fosse deste mundo, os meus ministros se empenhariam por mim, para que não fosse eu entregue aos judeus; mas agora o meu reino não é daqui. (João 18:36)
O reino de Deus é espiritual e não temporal. A visão católica das duas espadas e as aspirações de um Estado confessional puritano não batem com essa fala de Jesus a Pilatos. O Senhor é Rei e possui sim ministros, embaixadores e soldados...espirituais. Eles são formados pela Igreja, por todos aqueles que creem em Jesus:
Mas vós sereis chamados sacerdotes do SENHOR, e vos chamarão ministros de nosso Deus; comereis as riquezas das nações e na sua glória vos gloriareis. (Isaías 61:6)

De sorte que somos embaixadores em nome de Cristo, como se Deus exortasse por nosso intermédio. Em nome de Cristo, pois, rogamos que vos reconcilieis com Deus. (2 Coríntios 5:20)

Participa dos meus sofrimentos como bom soldado de Cristo Jesus. Nenhum soldado em serviço se envolve em negócios desta vida, porque o seu objetivo é satisfazer àquele que o arregimentou. (2 Timóteo 2:3-4)
Creio que isso deveria nos levar a uma reflexão. A transformação que Deus deseja fazer no mundo não será levada a cabo por meio do Estado, mas sim da Igreja. Os ministros que se empenham por Cristo são os seus fiéis.

E como eles fazem isso? A resposta é dada pelo próprio Jesus: Jesus, aproximando-se, falou-lhes, dizendo:
Toda a autoridade me foi dada no céu e na terra. Ide, portanto, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo; ensinando-os a guardar todas as coisas que vos tenho ordenado. E eis que estou convosco todos os dias até à consumação do século. (Mateus 28:18-20)
Basicamente o papel da Igreja neste mundo é pregar e viver o Evangelho. Devemos ir a todas as nações e fazer discípulos que sigam a Jesus voluntariamente. Esses seguidores devem ser recebidos na Igreja pelo batismo e devem ser ensinados a obedecer (guardar) o que Jesus ensinou. Ensinados, não forçados. E este é um papel da Igreja e não do Estado.

Qual o papel do Estado?
E isso nos leva a uma outra pergunta: qual é o papel do Estado? Dois passos precisam ser dados para descobrir isso. O primeiro é ver o que a Bíblia diz e a segunda é considerar o que ela não atribui ao Estado. Comecemos com Romanos 13:8.
Todo homem esteja sujeito às autoridades superiores; porque não há autoridade que não proceda de Deus; e as autoridades que existem foram por ele instituídas. De modo que aquele que se opõe à autoridade resiste à ordenação de Deus; e os que resistem trarão sobre si mesmos condenação. Porque os magistrados não são para temor, quando se faz o bem, e sim quando se faz o mal. Queres tu não temer a autoridade? Faze o bem e terás louvor dela, visto que a autoridade é ministro de Deus para teu bem. Entretanto, se fizeres o mal, teme; porque não é sem motivo que ela traz a espada; pois é ministro de Deus, vingador, para castigar o que pratica o mal.

É necessário que lhe estejais sujeitos, não somente por causa do temor da punição, mas também por dever de consciência. Por esse motivo, também pagais tributos, porque são ministros de Deus, atendendo, constantemente, a este serviço. Pagai a todos o que lhes é devido: a quem tributo, tributo; a quem imposto, imposto; a quem respeito, respeito; a quem honra, honra. (Romanos 13:1-8)
Inicialmente, não podemos nos esquecer de que a carta de Paulo é dirigida a cristãos em Roma. Paulo não ensina aqui a submissão a um Estado ideal e cristianizado, mas sim a um império que determinava a adoração ao imperador e apoiava o paganismo. E o ensino apostólico é que este império era ministro de Deus para louvor dos que fazem o bem e para castigar os que praticam o mal. Logo, há um dever do Estado diante de Deus.

O que é "bem" aqui? Certamente não é o apoio ao cristianismo e nem a valores cristãos. O Império Romano deveria premiar os bons cidadãos que andam de acordo com a lei romana, naquilo em que ela não fere as leis de Deus. Bom aqui, pelo contexto, é quem paga os tributos e impostos e respeita e honra as autoridades. Bom são os que se sujeitam as autoridades superiores, naquilo em que elas não se opõem a Deus. Quando a Bíblia fala que o Estado deve premiar quem faz o "bem", ela não está falando de premiar os castos ou os devotos, mas sim os bons pagadores de impostos, os que respeitam as leis estatais e honram as autoridades.

O que seria então o "mal"? Por analogia, seria o oposto. Maus seriam os rebeldes às autoridades. Aqueles que querem derrubar o governo (como os zelotes), que desonram e desrespeitam os agentes estatais e não pagam impostos nem cumprem com seus deveres cívicos.

Mas há algo a mais. O Estado também deve ser um vingador dos que praticam o mal. Ao meu ver, a expressão faz sentido se pensarmos em atos cometidos contra o próximo. Quando um cidadão prejudica a outro por meio do falso testemunho, do roubo, do homicídio (o que inclui o aborto), do engano, do adultério ou de outras formas, aí sim o Estado deve coibir o pecado.

Todavia o texto não é específico. Ele não diz que tipo de males devem ser vingados, a lista que fiz acima tem base nos Dez Mandamentos e é exemplificativa. A Bíblia também não determina a pena, embora dê ao Estado o direito de usar a espada, ou seja, o poder de matar.

Os outros textos do Novo Testamento não nos ajudam muito. Apenas reforçam o nosso dever de obedecer e interceder pelas autoridades, como o caminho para uma vida mansa e tranquila, onde podem florescer a piedade e o respeito:
Antes de tudo, pois, exorto que se use a prática de súplicas, orações, intercessões, ações de graças, em favor de todos os homens, em favor dos reis e de todos os que se acham investidos de autoridade, para que vivamos vida tranqüila e mansa, com toda piedade e respeito. (1 Timóteo 2:1-2)

Sujeitai-vos a toda instituição humana por causa do Senhor, quer seja ao rei, como soberano, quer às autoridades, como enviadas por ele, tanto para castigo dos malfeitores como para louvor dos que praticam o bem. Porque assim é a vontade de Deus, que, pela prática do bem, façais emudecer a ignorância dos insensatos; como livres que sois, não usando, todavia, a liberdade por pretexto da malícia, mas vivendo como servos de Deus. Tratai todos com honra, amai os irmãos, temei a Deus, honrai o rei. (1 Pedro 2:13-17)
Agora é preciso reparar no que a Bíblia não atribui ao Estado. Os apóstolos recomendam a submissão a um Estado pagão e não exigem que ele se torne "confessionalmente cristão". Não exigem que o Estado defina o que é família ou casamento, nem que ele resguarde a visão cristã sobre tais assuntos. Não atribuem às autoridades o dever de celebrar casamentos. Não pedem que o Estado regule a forma como as crianças são educadas pelos pais, o que as pessoas pensam ou escrevem.

O que a igreja cristã queria do Estado? Um caso é emblemático: a prisão e julgamento do apóstolo Paulo.  Lendo os últimos capítulos de Atos, fica claro que ele queria apenas três coisas:

- Liberdade para pregar o Evangelho (liberdade de opinião);
- Proteção contra a perseguição dos judeus (liberdade religiosa);
- Julgamento justo.

Resumindo: o Estado deve premiar quem faz bem e castigar os malfeitores (criminosos) e garantir as liberdades fundamentais. Ir além disso é querer que o Estado faça mais do que deve.
Quadro representando o apóstolo Paulo preso

O direito de pecar
E aí entra um "pequeno detalhe" que parece ser ignorado por muitos cristãos. O mesmo direito que vale para nós deve valer para os outros. Assim como somos livres para fazer o que é certo, também somos livres para pecar.

Há limites? Sim, aqueles traçados pelo Novo Testamento, os quais são sabiamente vagos e deixados em aberto. Na prática, muitas dessas restrições ao pecado são combinadas entre os cidadãos de cada país. A Bíblia não dá uma fórmula exata.

Nem mesmo a gravidade do pecado determina a restrição. Ao contrário do que a maioria das pessoas pensa, os pecados mais graves não são fatos como o estupro ou o homicídio. Biblicamente falando, não há pecados mais graves e de consequências mais devastadoras do que a blasfêmia ou a idolatria. Tanto que as ordens referentes ao respeito a Deus são as que abrem os Dez Mandamentos. Todavia, é dever do Estado proteger o direito dos cidadãos à blasfêmia (liberdade de opinião) e à idolatria (liberdade religiosa). Mas, se os blasfemos e idólatras queimarem um templo cristão (um pecado menor), então eles devem ser punidos por trazerem prejuízo ao próximo e ferirem a liberdade de culto dos cristãos.

E importa que seja assim. Vejam bem, nos dias dos apóstolos, o cristianismo era uma minoria religiosa. A vontade da maioria, seja na Palestina (judeus) seja no Império Romano (pagãos) era a de por fim aos cristãos. O que os apóstolos queriam era garantir o direito desta minoria se expressar livremente.

E quando os cristãos são maioria, deveriam agir como judeus ou pagãos? O direito e as liberdades valem apenas para nós e não para os outros?

Só há uma conclusão sensata disso tudo: as pessoas devem ser livres para pecar, assim como nós somos livres para sermos santos. Cabe ao Estado garantir esta liberdade, mesmo que, para isso, ele precise se posicionar contra a Igreja.

Sim, foi isso mesmo o que eu quis dizer. Se os cristãos querem ser livres para, por exemplo, pregar que o homossexualismo é um pecado que não deveria existir na sociedade, então os homossexuais devem ser livres para dizer que o cristianismo é uma fé que faz mal a todos. Agora, no dia em que cristãos quiserem matar homossexuais e vice-versa...no momento em que pessoas deixam de ser contratadas por causa de sua fé, raça, opção sexual ou gênero...nessas horas o Estado precisa sim intervir e impedir que as liberdades fundamentais sejam quebradas.

Por isso, se um dia 99,9% dos brasileiros forem cristãos professos e sinceros, o 0,1% restante ainda deve ter o direito de blasfemar, idolatrar e cometer os pecados que eles quiserem, desde que não façam o mal ao próximo.

Fica, porém, uma advertência. Se usamos a nossa liberdade como pretexto para fazer o mal, o Estado pode até não fazer nada.  Mas Deus nos julgará e responderemos diante d'Ele pelo que fizemos nesta vida.

A união estável homoafetiva
Creio que a discussão acima é básica na hora de discutirmos várias questões. Uma delas é a união estável hetero ou homoafetiva. O meu texto anterior gerou muitas reações negativas e, ao meu ver, uma grande incompreensão dos verdadeiros fundamentos da questão.

Eu não discuto que o homossexualismo é um pecado, assim como o concubinato, o divórcio e a fornicação também o são. Todos estes atos serão julgados por Deus e, se não houver arrependimento, trarão condenação. Como cristão, não apoio nenhum destes pecados, incluindo-se aí a união estável de qualquer tipo.

No entanto, defenderei sim o direito de qualquer pessoa unir-se livremente a quem quer que seja. Faço isso por dois motivos básicos. O primeiro é o de que isso se trata do direito de qualquer um, independente de ser santo ou pecador. Se eu posso, se o Estado não deve me dizer se fico solteiro ou não, se caso ou não, com quem me relaciono...então todos podem. Todos. O segundo motivo é o que explorei no post anterior. Todos os dias milhões de pessoas pecam, independente da pregação evangélica ou mesmo da coerção estatal. Estes pecados geram efeitos jurídicos e sociais que não podem ser ignorados pelo Estado. E, baseado no exemplo de Salomão, entendo que o Estado pode sim acolher demandas "não-cristãs" e atendê-las.

E Salomão não é o único exemplo. Considerando 2 mil anos de história, desde Abraão até os apóstolos, em apenas cerca de 900 anos (de Josué ao fim do reinado de Judá, somando o período dos macabeus) os israelitas viveram como soberanos em um Estado. No resto do tempo o povo de Deus viveu em exílio, como uma minoria, em meio a outras nações pagãs. Escravos no Egito, conquistados na Babilônia, na Pérsia, debaixo dos ptolomeus e dos selêucidas ou do Império Romano. Antes de Jesus foram cerca de 500 anos em que Israel viveu em meio a impérios plurais, numa espécie de preparação para que o Evangelho se tornasse universal. E a Igreja sempre viveu "em exílio", espalhada no meio de outras nações...pelo menos até o Edito de Milão.

Neste cenário, a Bíblia mostra homens como José do Egito, Daniel e Mordecai trabalhando para impérios pagãos e tendo que governar para judeus, babilônios, persas, egípcios e outros povos. Guardadas as devidas proporções, eles zelaram por essas liberdades. Nenhum deles impediu o culto a Isis, Bel ou Marduk ou outras práticas abomináveis ao Senhor, mas trabalharam para garantir a paz e a liberdade de culto para os judeus. E eles acolheram (e atenderam) a demandas de pecadores notórios. José, por exemplo, preservou o direito de posse e sustentou os sacerdotes egípcios (Gênesis 47:22). E tenha certeza: não era para o Deus de Israel que esses sacerdotes oravam.

A união estável encaixa-se neste tipo de demanda atendido por Salomão e por José. Seja homo ou heteroafetiva, ela é pecaminosa para a Bíblia e para o Senhor. Trata-se, na verdade, de uma inovação jurídica para regular famílias que não se estruturam em torno do casamento cristão monogâmico heterossexual. Se não pode para um, não pode para ninguém: a desculpa de que são 2 pecados ao invés de 1 não cola. Posso até discutir se a iniciativa deveria ser do Supremo Tribunal Federal ou do Congresso Nacional, mas não discuto a existência do Direito e a necessidade de alguma regulação.

Se há quem não concorde, então que procure os congressistas e os convença a dar uma outra solução. Eu gostaria de ver o que seria proposto.

Quanto à Igreja, meu conselho é que nos concentremos em nossa verdadeira missão. Se nós formos, fazermos discípulos, batizá-los e ensiná-los a obedecer os ensinos de Jesus, aí sim o reino de Deus chegará ao nosso país.

E isso não significa um silêncio quanto ao Estado. Mas é preciso antes definirmos claramente o que devemos esperar do Estado e como podemos influenciá-lo seguindo os ensinos de Jesus e da Palavra. A sociedade será purificada pela pregação da Bíblia e não pela Constituição ou pelos julgados do STF. Que tenhamos este entendimento.

Graça e paz do Senhor,

Helder Nozima
Barro nas mãos do Oleiro

12 comentários:

Daniel. disse...

Texto simples e fácil de entender.

Ainda estou pensando nas implicações dele, mas se fomos peregrinos no deserto, temos que acolher os peregrinos, torcendo (vivendo, dando exemplo, pregando, orando) pra que um dia façamos parte do mesmo povo.

Agora vou ler o texto anterior.

Kamylla disse...

Olá,

o texto, como falado anteriormente pelo Daniel, é fácil de ler e entender. Este post é ainda mais claro que o anterior no que tange à divisão entre Estado e Igreja e seus respectivos deveres.

Meu desejo é que sejamos cristãos tão comprometidos em obedecer o ide de Jesus que a nossa sociedade seja modificada, verdadeiramente, pela influência do cristianismo em seu meio.

Que o Senhor lhe abençoe e que você seja sempre instrumento em Suas mãos poderosas.

(-V-) disse...

Helder,

Li seu texto. Como disse preciso estudar mais o assunto.

Mas, não sei se concordo com sua definição de "bem" e "mal" e o motivo é que você a mudou repentinamente. Primeiro, você define "mal" como "rebelião política". Se, assim, fosse, somente insurreições poderiam de fato serem penalizadas (O que leva a pergunta se cristãos podem participar de qualquer tipo de insurreições, mesmo contra tiranos). Depois, sem nenhuma base você amplia para a relação com o próximo, mas você não aplia igualmente o "bem".

Daí fica a pergunta: qual mal ao próximo deve ser punido ou coibido? Indo ao caso recente: apologia ao homossexualismo é um mal ao próximo. Isso deve ser punido ou coibido?

Abraço,
Vini

(-V-) disse...

Helder,

Li seu texto. Como disse preciso estudar mais o assunto.

Mas, não sei se concordo com sua definição de "bem" e "mal" e o motivo é que você a mudou repentinamente. Primeiro, você define "mal" como "rebelião política". Se, assim, fosse, somente insurreições poderiam de fato serem penalizadas (O que leva a pergunta se cristãos podem participar de qualquer tipo de insurreições, mesmo contra tiranos). Depois, sem nenhuma base você amplia para a relação com o próximo, mas você não amplia igualmente o "bem".

Daí fica a pergunta: qual mal ao próximo deve ser punido ou coibido? Indo ao caso recente: apologia ao homossexualismo é um mal ao próximo. Isso deve ser punido ou coibido?

Abraço,
Vini

Helder Nozima disse...

Vinicius,

Não houve uma mudança repetina. O Estado é vingador do que pratica o mal. Se você ler especialmente 1 Pedro quando fala de "malfeitores" fica claro que se trata de criminosos, de pessoas que prejudicam o próximo. Não ampliei o "bem" porque Paulo exemplifica bem em Romanos 13. O "mal" é que não é bem esmiuçado, exceto pelo "vingador", eu exemplifiquei por analogia.

Quanto a apologia ao homossexualismo entra na questão da liberdade de opinião. Se, neste mundo, nós só somos livres para falar do Evangelho e não somos livres para fazer apologia do mal, então, meu caro, é teocracia.

Ou libera pra todo mundo ou então nós estamos trocando a ditadura do mundo pela ditadura cristã. Só que o reino de Jesus não é deste mundo...não ainda. Percebe?

Graça e paz do Senhor,

Helder Nozima
Barro nas mãos do Oleiro

Silvinha disse...

Gosto bastante quando você fala em duas coisas. A primeira é que se deve dar a liberdade ao ser humano de pecar. Para mim, o que para uma religião é pecado, pode não o ser para outra. E sempre prezei muito pelo respeito às diferentes religiões. Não acredito que o Estado deva favorecer uma ou outra.

A outra é que os efeitos jurídicos resultantes dos pecados devem ser amparados. Como você falou no seu texto anterior, não seria justo que um filho nascido fora de um casamento não tivesse direito à herança.

Fico feliz ao ver pessoas religiosas sensatas. Pena que nem todos sejam capazes de compreender o seu ponto de vista, tão claramente exposto nesses textos. O extremismo me assusta, em qualquer dos lados (religioso ou laico).

Robson disse...

(2)
Depois você passou a discorrer sobre o papel do Estado e deu sua interpretação sobre a passagem de Romanos 13. Estou com o Vinícius, em relação à confusão feita por você entre o que é o "mal" e o "bem", que as autoridades devem punir e louvar, respectivamente.

(Note que eu só estou escrevendo autoridades, não Estado, como você faz, porque a noção de Estado moderno, que arroga para si a função de proteger o "social", não tem nada a ver com as autoridades a que Paulo se referia, extrapolando em muito seus limites. Falo sobre isso depois.)

Pois bem, em parte alguma do texto Paulo especifica sobre o que é o "bem", como você sugeriu. Ele simplesmente diz, no verso 6:

Por esse motivo (qual motivo?), também pagais ("pagais", ainda está no presente do indicativo, não é imperativo. O imperativo aparecerá no versículo 7) tributos, porque são ministros de Deus, atendendo, constantemente, a este serviço (qual serviço?).

Qual motivo ele se refere? A resposta não está no verso anterior (v. 5), pois não faria sentido. A resposta está nos versos 3 e 4. Pagamos tributos, para que as autoridades possam ter condições de punir o mal e louvar o bem. Quero dizer com isso é que "pagar tributos" não é apresentada como um exemplo do que seria "fazer o bem", mas sim o meio para que os magistrados possam fazer seu serviço. Qual serviço? Punir o mal e louvar o bem, cumprindo assim sua tarefa de ser ministro de Deus.

No verso 8, ele completa o raciocíno: então, pague os impostos para que eles possam fazer isso.

Então, fazer o bem e o mal aqui não está necessariamente ligado com a relação entre obedecer ou não obedecer a autoridade. Podemos considerar o bem e o mal no sentido genérico da palavra. O "mal" pode ser crime de verdade, com vítimas, ou podem ser pecados, sem vítimas. Nesta passagem, não está se subentendendo que a autoridade pune o mal porque ela está julgando o mal através de seu sistema jurídico/penal. Por exemplo, o imperador babilônico foi ministro de Deus quando destruiu Jerusalém, pois foi ele que Deus usou para punir o pecado de Israel. Mas não foi o imperador ou seu sistema penal que discriminou, através de códigos civis, os pecados ou crimes cometidos pelos israelitas. Ele não estava nem aí se os israelitas estavam fazendo o bem ou o mal. Mas Deus estava, e por isso os puniu através dele, pela sua soberania (Pv 21:1)

Posso resumir essa idéia assim: quem define o mal e o bem que será punido ou louvado pela autoridade civil é o próprio Deus. Deus usa as autoridades como ministros para realizar essa tarefa.

Então, Deus usa as autoridades para punir o mal, seja crime OU pecado sem vítima. Mas, como a definição de pecado é assunto religioso, a autoridade civil não deve legislar sobre ela. Assunto religioso está a cargo de autoridades religiosas. Essa autoridade é a Bíblia ou um juíz que a igreja levantar (1Co 6:1-8). Eventualmente Deus pode usar a autoridade civil para punir alguém pelo pecado de, digamos, cobiça e inveja (sem vítima), mas pela acusação de algum homicídio que ela não cometeu. O juiz civil cometeria um engano, mas mesmo assim Deus puniu o mal, e usou o juiz como ministro de Deus. Essa é a idéia de Pv 16:10.
Concluo assim, que a autoridade dada por Deus aos magistrados deve se limitar a isso: Punir os crimes com vítima. Como você mesmo disse, crimes contra o próximo. Esses crimes são roubo, fraude, assassinato, violência física, estupro, sequestro. "Crimes" sem vítima não são crimes, são pecados comuns. Portanto, você está certo em dizer que o Estado deve garantir o direito de pecar.

Robson disse...

Hélder,

Quero fazer algumas observações, e acho que a melhor maneira é numerá-las. Vou dividir em 3 partes.

(1)
A primeira coisa que precisamos entender é que os cristãos jamais verão "o reino de Deus" implantado na Terra até a vinda de Jesus".[...]

Ao contrário, Jesus rechaçou esse tipo de reino quando ele estava diante de Pôncio Pilatos:

Respondeu Jesus: O meu reino não é deste mundo.[...]


Bem, primeiramente, você simplesmente está forçando a sua interpretação amilenista. Entre os reformados também existe o pós-milenismo, que diz que o reino está neste mundo sim. Como? Primeiro, deve-se observar o contexto. Jesus estava tentando dissuadir Pilatos de que ele era um agitador político que falava que era rei dos judeus. Quando Pilatos pergunta "Porventura sou eu judeu?" (v. 35) ele está implicitamente dizendo que ele, sendo representante de César, pela autoridade de Roma sobre Israel, teria autoridade completa sobre Jesus, por ser ele judeu, e eventualmente também sobre seu eventual reino, se é que ele era mesmo rei dos judeus.

Jesus simplesmente respondeu: Não. Você não tem autoridade sobre meu reino, pois meu reino não está sob jurisdição deste mundo, quanto mais sob jurisdição de Roma. Meu reino não é deste mundo, não no sentido de que meu reino não está neste mundo, mas sim no sentido de que ele não se origina neste mundo. A autoridade do meu reino não emana deste mundo, como é a sua. Ela emana dos céus.

E Jesus continua: "Mas agora, meu reino não é daqui." Ora, quando acabou a validade deste "agora"? A resposta está em Mt 28:18, depois de sua ressurreição: "Todo poder me foi dado nos céus terra."

Confira mais sobre isso aqui: http://www.monergismo.com/textos/pos_milenismo/reino-Cristo-mundo-63_gary-north.pdf

Com isso, não estou querendo (por enquanto) defender a teocracia/teonomia. Mas ainda acho que a Igreja, através dos séculos, pela influência dos valores do reino presente de Cristo, pode sim influenciar as autoridades seculares para que suas leis reflitam esses valores. Afinal, foi isso que aconteceu: o fim da escravidão, a valorização da mulher, a limitação do poder tirânico do Estado, todos foram, ao contrário do que diz a historiografia secular, influência ativa dos cristãos.

Robson disse...

(3)

Isso me leva à minha conclusão. Deus instituiu 4 esferas diferentes de autoridade: auto-governo, governo familiar, governo da Igreja e governo civil. A cada um ele estabeleceu funções dentro da sua esfera de atuação. A autoridade de uma esfera não deve interferir na outra. Governo civil não deve intrometer na esfera familiar. Ao governo cabe proteger a população, defendendo os direitos de propriedade e a vida. A nenhum governo civil cabe, pela autoridade que Deus lhe deu, de interferir na economia, de promover direitos de minorias, benefícios previdenciários, "justiça social" (uma expressão anti-bíblica que subentende que há uma injustiça intrínseca no simples fato de haver desigualdade de riquezas), ou de punir crimes de opinião.

Por exemplo, racismo sem violência física é apenas um pecado sem vítima. Seria um mero "crime de opinião". Punir o racismo e a homofobia seria ir contra os direitos de propriedade, pois uma pessoa seria impedida de discriminar quem quisesse, pelo motivo que quisesse, de entrar em sua propriedade, ou punida por expressar sua opinião, mesmo que torta. Ao governo não cabe punir alguém por ter opiniões sobre um indivíduo ou classe de indivíduos, ou por discriminar indivíduos ou classes de indivíduos. A ele cabe punir apenas quando alguém viola a vida e a propriedade alheia.

A questão sobre a união gay (e quando você insiste em usar "homoafetiva", apenas corrobora o politicamente correto que nada contribui para a compreensão do problema), é a mesma questão da união hétero: o atual Estado não deveria legislar sobre essas coisas. O Estado nunca poderia se intrometer em casamentos, divórcios, pensões, etc. Essas questões deveriam estar sob jusrisdição individual e familiar, ou, se a pessoa voluntariamente se associar a uma igreja, permitir que esta estabeleça, a partir da Bìblia, as regras concernentes ao casamento.

Você pode perguntar: quem vai garantir o direito de pensão ou de herança, seja em uniões hétero ou homo? A sociedade fala em direito a isso, direito àquilo, mas todos ignoram que Deus estabeleceu apenas que a autoridade civil proteja apenas o direito à vida e à propriedade. Todos os outros direitos (direito à saúde, à educação, à pensão, à aposentadoria, ao salário mínimo, etc) são excrescências inventadas pelo homem que contrariam a jurisdição que Deus deu às autoridades civis. Não são direitos, mas sim violações à liberdade individual e ao auto-governo (primeira esfera de autoridade que mencionei).

A questão da pensão, ou da herança, deveria ser completamente resolvida através de contratos firmados entre as partes (seja a união hétero, gay, ou mesmo de poligamia). Se um casal homossexual tem uma união estável, mas não assinou nenhum contrato de disposição de bens caso algum deles morra, significa simplesmente que um deles não está de acordo em dividir nada. Portanto, qualquer decisão governamental em forçar uma disposição dos bens dele é com certeza uma violação à sua liberdade de decidir fazer o que quizer com sua propriedade. Hoje, por exemplo, se um casal gay fizer um contrato que especifique os termos e condições em caso de separação ou morte, esse contrato é obedecido por qualquer juiz. Não foi necessário nenhuma interferência governamental para decidir isso. Ironicamente, essa decisão do Supremo significa menos liberdade aos gays, e não mais.

Esse texto que eu fiz serve para mostrar que o buraco é muito mais embaixo. O problema é muito anterior à união gay, pois já a interferência na união hétero é problemática. Escrevi isso para que paremos de olhar na superfície, e tentemos ir mais profundamente nos verdadeiros problemas. Sei que muitos não vão concordar com algumas coisas que falei aqui. Espero que pelo menos as objeções apareçam para o debate.

Abraço, e desculpe pelo texto grande!

Helder Nozima disse...

Robson,

Não gosto nada da ideia de usar um post meu para discutir outros assuntos, não-relacionados, como o pós-milenismo ou a teonomia.

1) Não preciso provar cada ponto teológico necessário para a discussão em cada post. Eu parto de pressupostos de interpretação bíblica, sou reformado, amilenista...agora, o reino de Deus ainda é sim futuro. Por que então pedimos no Pai Nosso "venha o teu reino" (Mt 6:10)? Ou você vai querer me dizer que o Pai Nosso só tem validade até a ressurreição? De qualquer forma, não discutirei escatologia neste post. Minha casa, minha lei. E a lei é "discuto o que está escrito no post".

2) Não nego a possibilidade da Igreja influenciar o Estado. Influenciar, não exigir, como se o Estado fosse submisso à Igreja. Todavia, mesmo que fôssemos 100% ainda defenderia liberdades fundamentais.

3) Mantenho a minha interpretação de Romanos 13. Ser sujeito à autoridade é fazer o bem e pagar tributos não é apenas um meio, é uma ordem divina. Considero consistente o que escrevi e não vejo porque mudar a minha interpretação.

Contudo, destaco um perigo da sua forma de ver o texto. Do jeito que você fala, é como se tudo o que o Estado fizesse fosse aprovado por Deus. Não é bem assim. Deus usa a Babilônia e a condena por ter destruído Israel. Há maus reis, maus governantes, pessoas que pecam no uso de seu poder.

Tudo bem, Deus é Soberano e usa tudo. Mas isso não remove o pecado de autoridades que, livremente, falharam. No meu calvinismo, Deus é Soberano e os homens são livres. E não, não vou discutir isso aqui, neste post.


4) Nem tudo é tão simples como vc acha. Por exemplo, sempre há incapazes. Há pessoas que não leem ou escrevem e não vão ter como celebrar contratos. Há pessoas assim e que não tem ninguém que as ajude. E eu acho sim que o Estado deve interferir.

O mesmo dos crimes sem vítima. Violência é um conceito bem relativo. Quando uma pessoa não é contratada porque é negra, e isso por várias pessoas, é ou não violência? Quando um pai espanca o filho e ameaça a integridade física dele, o Estado fica de fora? Quando o marido não bate na mulher, mas a tortura psicologicamente, isso é governo familiar e só?

Eu não concordo com você e nem vou concordar. Eu defendo um Estado mínimo, mas necessário. Nunca comunguei com os princípios da economia austríaca por causa disso: são ótimos nos manuais, mas não contemplam os casos da vida real. As áreas não são estanques.

Resumindo: mantenho o que disse.

Graça e paz do Senhor,

Helder Nozima
Barro nas mãos do Oleiro

Helder Nozima disse...

Silvinha,

Obrigado por me ler e escrever também. Quero dizer que também admiro muito pessoas não-religiosas que conseguem entender o que eu escrevo, respeitam minha opinião e são sensatas. Muito obrigado!

Graça e paz do Senhor,

Helder Nozima
Barro nas mãos do Oleiro

Helder Nozima disse...

Daniel e Kamylla,

Pode parecer bobo, mas obrigado por me entenderem. Isso hoje é tão difícil e é reconfortante ver que não falo iídiche ou algo assim.

Graça e paz do Senhor,

Helder Nozima
Barro nas mãos do Oleiro