31 outubro 2011

Quando a ecologia vira idolatria

E então lhes disse: "O sábado foi feito por causa do homem, e não o homem por causa do sábado. Assim, pois, o Filho do homem é Senhor até mesmo do sábado". (Marcos 2:27-28)

Criou Deus o homem à sua imagem, à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou. Deus os abençoou, e lhes disse: "Sejam férteis e multipliquem-se! Encham e subjuguem a terra! Dominem sobre os peixes do mar, sobre as aves do céu e sobre todos os animais que se movem pela terra". Disse Deus: "Eis que lhes dou todas as plantas que nascem em toda a terra e produzem sementes, e todas as árvores que dão frutos com sementes. Elas servirão de alimento para vocês. E dou todos os vegetais como alimento a tudo o que tem em si fôlego de vida: a todos os grandes animais da terra, a todas as aves do céu e a todas as criaturas que se movem rente ao chão". E assim foi. (Gênesis 1:27-30)
Antigamente, os homens é que tinham medo da criação. A natureza, com suas chuvas, secas e pragas imprevisíveis, era uma espécie de ameaça à existência humana. Muitos avanços tecnológicos foram feitos, da astronomia à genética, na tentativa de diminuir a vulnerabilidade do ser humano em relação aos perigos naturais.

Hoje, porém, a situação parece ter se invertido. A multiplicação do número de seres humanos e o uso errôneo de certas tecnologias parecem ter colocado o planeta Terra debaixo da ameaça humana. A poluição, a caça e a pesca predatórias e até os gases soltados pelos rebanhos domésticos...parece que o simples fato de existirem seres humanos já é um terrível mal para a criação.

Exagero? Pois, veja só, já existe um Movimento da Extinção Humana Voluntária. Não, não é um movimento para o controle populacional, é de extinção mesmo. A proposta é que os seres humanos parem de se reproduzir e, assim, sejam extintos, salvando o mundo.

O mundo é mais importante que a humanidade
Não é preciso pensar muito para entender qual a escala de valores do movimento. Para eles, a criação é mais importante do que os seres humanos. A sobrevivência de plantas e animais é prioritária, ainda que, para isso, a solução seja acabar com a própria espécie.

E engana-se quem pensa que só os extremados pensam assim. Este mesmo espírito surge em ecologistas mais "moderados" todas as vezes em que a preservação do meio ambiente é posta acima de qualquer consideração sobre o bem-estar humano. A salvação da Gaia é um fim em si mesmo. Na prática, a humanidade acaba sendo um estorvo a este objetivo.

Este pensamento norteia uma série de posições políticas assumidas no Brasil, como, por exemplo, a construção da usina de Belo Monte ou a aprovação do novo Código Florestal. Não importa se mais energia elétrica é necessária para integrar comunidades de miseráveis...que a geração hidrelétrica é melhor do que deixar a Amazônia funcionar à base de geradores a diesel...que as outras opções sejam mais danosas ao ambiente ou caras demais para serem viáveis. Não importa se a aplicação do Código atual implique na destruição de uma série de pequenas lavouras já consagradas...o impacto que isso terá no preço dos alimentos e as implicações sociais na vida de milhares de pequenos agricultores.

O padrão bíblico
Mas...não é dever do homem zelar pela criação de Deus? Não prestaremos contas ao Senhor, no dia do Juízo, sobre todo mal feito às plantas e animais? Sim, tanto o dever como o julgamento existem. Contudo, o padrão usado pelo Senhor para avaliar é outro, bem diferente do adotado pelos ecoextremados.

Quando os discípulos de Jesus foram censurados porque colhiam espigas com as mãos no dia de sábado, Jesus disse que "o sábado foi feito por causa do homem". O sábado é o dia em que o Senhor descansou de Suas obras, é o fecho do trabalho criativo de Deus. É um símbolo do descanso que teremos em Cristo, uma época de pleno usufruto daquilo que foi feito pelo Senhor.

Ao dizer que o sábado foi feito por causa do homem, Jesus também ensina que a criação foi feita por este mesmo motivo. Ela é sim reflexo da glória de Deus, mas é também para que o homem faça uso dela e dela desfrute. Assim sendo, a preservação não é um fim em si mesmo, tão elevado que passe por cima de quaisquer outras considerações. Ao contrário, devemos cuidar da criação visando o nosso usufruto. Deus é glorificado quando o homem interfere sabiamente na criação, dominando-a e sujeitando-a para enchê-la de homens!

A poluição, o desmatamento, todos os comportamentos ambientalmente agressivos precisam ser avaliados à luz deste critério. Se, ao cometermos tais atos, destruímos a nossa própria casa e colocamos em risco o desfrute prazeroso da Terra ou a nossa própria existência, somos culpados de grave pecado! Mas, se ao presevarmos, estamos colocando plantas e animais acima de outros seres humanos, o que fazemos é outro pecado: o de desobedecermos à ordem do Senhor dada em Gênesis 1.
Destruir o ser humano é a solução?

Basta lembrar que o objetivo de Deus para a Terra não é transformá-la em um monte de mato. Aliás, deixar a terra abandonada, entregue à natureza, é sim sinal de maldição em todo o Antigo Testamento. O mundo começa em um jardim e termina em uma cidade. Aliás, pelas dimensões, em uma grande megalópole. Arborizada, mas urbana. Como está escrito:
Pois assim diz o Senhor, que criou os céus, ele é Deus; que moldou a terra e a fez, ele a fundou; ele não a criou para estar vazia, mas a formou para ser habitada; ele diz: "Eu sou o Senhor, e não há nenhum outro (Isaías 45:18)
A sombra pagã
Recusar-se a dar ouvidos a este ensino é cair na mesma atitude que os pagãos tinham em relação à natureza. Gregos, cananeus, babilônios e até mesmo as civilizações pré-colombianas da América divinizavam a criação. Os homens não trabalhavam para sujeitar a terra, mas sim para apaziguá-la, fazendo sacrifícios para obter chuva, acalmar o vulcão ou fertilizar o solo.

Todas as vezes que os ecologistas colocam a criação acima do homem, na prática, caem no mesmo erro dos pagãos. O homem é superior aos animais e às plantas por ser a imagem de Deus, a representação do Senhor para as demais criaturas. Quando a imagem do Senhor se rebaixa diante das outras criaturas, também rebaixamos o próprio Deus. Este é o primeiro passo para que caiamos na armadilha dos ídolos:
Dizendo-se sábios, tornaram-se loucos e trocaram a glória do Deus imortal por imagens feitas segundo a semelhança do homem mortal, bem como de pássaros, quadrúpedes e répteis (Romanos 1:22-23)
Receio que, ainda que, involuntariamente, muitos estejam indo pelo mesmo caminho, só que "adorando" os pássaros, os mamíferos, os répteis e outros. Antigamente, algumas vezes por ano os pagãos ofereciam sacrifícios humanos para aplacar a Natureza. Hoje já há quem queira oferecer toda a espécie humana como uma oferta. E há os que, sem saber, estão fazendo o mesmo com comunidades de produtores que, há séculos, contribuem para alimentar o país e o mundo, em um país que já criou mecanismos legais inexistentes em outras nações, com o intuito de preservar a natureza.

Felizmente ainda há cristãos que evitam este paganismo disfarçado e analisam as questões ambientais com uma lógica bíblica e humana. Um bom exemplo é o do católico Reinaldo Azevedo, jornalista de Veja. Que o bom exemplo dele possa inspirar outros a enxergarem o nosso "Jardim do Éden" com os olhos de Cristo, e não de Gaia.

Graça e paz do Senhor,

Helder Nozima
Barro nas mãos do Oleiro

19 outubro 2011

O que uma banda de rock pode acrescentar à sua vida?

O que uma banda de rock pode acrescentar de bom na vida de uma pessoa? (Joel Parreira Neves, no meu Facebook)
Não, meus caros, desta vez a pergunta que abre o post não é minha. Na verdade, o autor do questionamento quis saber por que eu coloquei em meu Facebook um clipe da música "Nothing else matters", do Metallica. Pouco tempo antes, um comentário anônimo (e, por esta razão, não publicado) colocado no blog 5 Calvinistas, questionava como eu podia ouvir músicas da Katy Perry, sendo que ela teria "vendido a alma ao diabo" e que o rock era uma música de origens demoníacas.

Eu realmente fico espantado em ver o quão "estreita" é a mente de muitos evangélicos. Perguntas como essa são motivos de piada entre aqueles que não são evangélicos e criam barreiras para que muitos se disponham a ouvir a Palavra. E, embora eu já tenha respondido, acho que vale a pena dar uma nova resposta, mas por um ângulo diferente.

A origem da música
Já que muitos recriminam o rock por sua origem rebelde e "pecaminosa", gostaria de analisar a origem bíblica da música. Afinal, uma arte tão celestial e inspirativa só poderia ter sido criada por piedosos filhos de Deus, não é mesmo? Especialmente um instrumento tão "espiritual" como a harpa. Nunca pessoas que são condenadas pelo Senhor poderiam ser responsáveis pela criação de algo tão bom e que leva tantas pessoas a adorarem a Deus!

É mesmo? Vamos ler um texto bíblico então:
Então Caim afastou-se da presença do Senhor e foi viver na terra de Node, a leste do Éden. Caim teve relações com sua mulher, e ela engravidou e deu à luz Enoque. Depois Caim fundou uma cidade, à qual deu o nome do seu filho Enoque. A Enoque nasceu-lhe Irade, Irade gerou a Meujael, Meujael a Metusael, e Metusael a Lameque. Lameque tomou duas mulheres: uma chamava-se Ada e a outra, Zilá. Ada deu à luz Jabal, que foi o pai daqueles que moram em tendas e criam rebanhos. O nome do irmão dele era Jubal, que foi o pai de todos os que tocam harpa e flauta. Zilá também deu à luz um filho, Tubalcaim, que fabricava todo tipo de ferramentas de bronze e de ferro. Tubalcaim teve uma irmã chamada Naamá. (Gênesis 4:16-22)
Caim é o primeiro filho de Adão e o primeiro assassino da Bíblia, responsável pela morte de seu irmão Abel. Por causa deste assassinato, Caim é amaldiçoado e a sua descendência é colocada em Gênesis como sendo a linhagem daqueles que se afastaram de Deus. Os descendentes de Caim seriam opostos aos de Sete, o filho que Deus deu em lugar de Abel, o símbolo da linhagem que permaneceu fiel ao Senhor.

No entanto, curiosamente, os grandes avanços tecnológicos e artísticos da Antiguidade são atribuídos à família de Caim! A primeira cidade do mundo foi fundada por ele. Jabal tornou-se o pai da pecuária nômade em um estágio mais avançado. Abel criava ovelhas, Jabal tinha rebanhos. Tubalcaim foi o pai da metalurgia, sendo apontado como o primeiro a usar o bronze e o ferro. E, veja só, o primeiro músico da Bíblia era Jubal, um cainita.

Se os cristãos não podem aproveitar nada do rock porque ele seria fruto de rebeldes pecadores "que venderam a alma ao diabo"...então, todos nós precisamos voltar para a Idade da Pedra. Afinal, a Idade do Bronze foi inventada por homens perversos, descendentes de um assassino, pelo filho do malvado Lameque, o primeiro bígamo da História! Pelo argumento da origem, teríamos que rejeitar não só o rock, mas toda a música, incluindo aquelas tocadas na harpa e que emocionam os mais idosos...sem falar, é claro, da pecuária comercial, das cidades e de todos os avanços tecnólogicos decorrentes da manipulação de metais.

A graça comum
Fica claro que o argumento da "origem" é estúpido. Com certeza, as cidades, a criação de rebanhos ou a invenção de instrumentos musicais não foi feita com o objetivo de glorificar a Deus. Provavelmente são fruto do esforço e da engenhosidade dos caimitas para tornarem sua vida mais confortável, glorificarem o próprio nome ou até mesmo cultuarem a um outro deus. Desta maneira, a motivação dessas realizações seria pecaminosa, porque a ordem bíblica é a de que:
Assim, quer vocês comam, bebam ou façam qualquer outra coisa, façam tudo para a glória de Deus. (1 Coríntios 10:31)
Todavia, a verdadeira fonte da criatividade caimita não era o pecado, mas sim aquilo que a teologia chama de graça comum. É graça porque são bênçãos que nenhum ser humano merecia possuir, e é comum porque é distribuída livremente entre todos os seres humanos, independente da fé ou de outras características. Como está escrito:
Toda boa dádiva e todo dom perfeito vêm do alto, descendo do Pai das luzes, que não muda como sombras inconstantes. (Tiago 1:17)
Creio que, na maioria esmagadora das vezes, o simples uso dessa graça já glorifica a Deus, apesar de nossas intenções pecaminosas. Ao meu ver, a análise exegética de Gênesis deixa claro que os caimitas foram condenados ao inferno, pois permaneceram distantes de Deus, seguindo o exemplo de Caim. Mas isso não muda o fato de que eles abençoaram, e muito, o mundo com seus inventos. Eles ajudaram a diminuir a fome, facilitaram o progresso, prolongaram a vida de muitas pessoas e até ajudaram na divulgação do Evangelho (quantos não se converteram ouvindo músicas que falavam sobre Jesus?).
Como seria a fome no mundo sem os rebanhos?

Desta maneira, não é porque um ritmo ou uma música não falam especificamente sobre Deus que devemos condená-los. Tais coisas são neutras, só se tornam más dependendo do uso que fazemos delas. Um dia alguém pegou a harpa e resolveu tocar uma música sacra, assim como, um dia, alguém fez o mesmo para adorar uma divindade pagã. E, se nós nos valemos livremente de invenções tecnológicas e até mesmo de filosofias e sistemas legais concebidos por corações pecaminosos...por que não podemos fazer o mesmo com a arte?

Mas e a banda de rock?
Sim, mas o que isso tem a ver com o Metallica, alguém deve estar imaginando. Eu diria que tudo a ver. "Ah, mas isso não tem utilidade, não edifica a vida de ninguém". Será?

Justificar a arte é um exercício inútil para mim. Ela é útil porque ela é bela. Ponto, pra mim basta. Mas a arte também toca os corações humanos. Ela influencia as nossas histórias, a forma como vemos o mundo, pode aumentar ou diminuir as emoções, é uma das mais formas mais sublimes de expressão do nosso espírito. A arte não é uma bênção menor do que a ciência ou a filosofia. Se as últimas nos ajudam a pensar e a conhecer, a primeira é uma forma legítima de nos autoconhecermos e expressarmos quem nós somos.

Sim, a ordem bíblica é que algo tão sublime deve ser vivido apenas para a glória de Deus, da mesma forma que deveríamos fazer quando vamos ao banheiro fazer nossas necessidades fisiológicas. Afinal, é tudo para a glória d'Ele, do mais sublime ao mais desonroso. Contudo, isso não significa que só possamos ler livros, ver filmes, cantar músicas ou inventar coisas que façam referências explícitas a Deus.

Como provo isso? A poesia é a mãe das artes, porque ela foi a primeira a surgir. E o primeiro poema, meio simplista, foi de amor, e não sacro. Quando Adão viu a Eva, ele disse:
Disse então o homem: "Esta, sim, é osso dos meus ossos e carne da minha carne! Ela será chamada mulher, porque do homem foi tirada" (Gênesis 2:23)
Uma banda de rock pode me ajudar a cantar o amor pela mulher amada. Pode me ajudar a cantar, a entender e a expressar sentimentos do meu coração. Pode ser uma forma de ver que eu não sou o único a sentir aquelas coisas, de me ligar a outras pessoas, de me sentir parte de um grupo. Pode até ser usada para levar outras pessoas a adorarem a Cristo, assim como eu.

Mas, acima de tudo, eu ouço Metallica e outros porque eu acredito que posso sim glorificar ao Senhor fazendo isso.

E com vocês, "Nothing else matters": 



Graça e paz do Senhor,

Helder Nozima
Barro nas mãos do Oleiro

13 outubro 2011

Jesus: filho da virgem e da prostituta

Registro da genealogia de Jesus Cristo, filho de Davi, filho de Abraão:(...)Salmom gerou Boaz, cuja mãe foi Raabe; Boaz gerou Obede, cuja mãe foi Rute; Obede gerou Jessé;(...)e Jacó gerou José, marido de Maria, da qual nasceu Jesus, que é chamado Cristo. (Mateus 1:1,5,16)
Embora, segundo a Bíblia, todos os seres humanos partilhem uma mesma origem e sejam iguais em valor, não é bem assim que a humanidade se enxerga. Em todas as sociedades existem normas, "réguas" pelas quais nós medimos o valor das pessoas. E uma das mais comuns é a "origem", o sangue.

Assim as castas na Índia são estruturadas de acordo com a família. Na Europa criou-se a nobreza, os de "sangue azul". Japoneses não são muito simpáticos a que seus filhos se casem com os gaijin (não japoneses) e o mesmo pode ser dito de várias outras etnias. Mesmo em sociedades que se orgulham de ser mais democráticas, como os Estados Unidos, surgiram padrões como o wasp (branco, anglo-saxão e protestante) para designar as famílias mais "nobres".

O Brasil não é exceção, inclusive dentro das igrejas evangélicas. A "boa família" é uma característica desejada para um bom partido (seja marido ou esposa), ajuda a arrumar amizades, a conseguir posições eclesiásticas e até a projetar ministérios (como a cantora irmã de Fulana ou o deputado filho do pastor Beltrano). Assim como no resto da sociedade, quem não tem uma "boa origem", aparentemente, sofre um pouco mais para achar o seu lugar debaixo do "Sol" protestante. Que o digam, por exemplo, os que se convertem já na mocidade e tentam se encaixar em uma igreja onde todos são parte de alguma família.

Mas...isso é bom ou ruim? A resposta pode ser surpreendente.

O filho da virgem
Mas, se há alguém que pode vindicar o título de "Família Real" da humanidade, este é o caso da família do rei Davi. Desde a queda do homem no Jardim do Éden (a história está em Gênesis 3), Deus havia prometido que um Salvador viria "esmagar a cabeça da serpente" e ser uma bênção para todas as nações. Este Salvador era um homem, mas ao mesmo tempo, seria o Filho de Deus. O nome dele é Jesus, 100% Deus e 100% homem.

E é de propósito que Deus determina uma espécie de linhagem santa e real que leva até Jesus. Essa distinção é feita logo na abertura do Novo Testamento: Jesus é filho de Davi (rei) e de Abraão (o patriarca da fé). Ele não é um personagem isolado no tempo, mas o ponto culminante de uma história que começou na criação, passou pela fé dos patriarcas (Abraão) e pela dinastia de Davi. Jesus é o cumprimento de uma série de promessas e histórias, de uma caminhada de fé transmitida de geração a geração por pessoas santas.

Isso tudo é corporificado em Maria, a mãe de Jesus. Ela não era uma mulher qualquer: era uma virgem, da família mais importante da humanidade e cheia de qualidades e virtudes. A Bíblia não registra em detalhes a história dela, mas certamente ela foi a mais virtuosa das mulheres, o símbolo da origem santa de Jesus. O Cristo é filho da virgem.

O filho da prostituta
Contudo, a Bíblia não registra apenas o lado belo da Família Real. Afinal, de todas as ofensas que você pode dirigir a outro ser humano, é meio difícil achar uma mais ofensiva do que "filho da prostituta" (eufemismo). E, bem, a Bíblia mostra que, se Jesus era filho da mais santa das mulheres, Ele também era filho (descendente) de uma mulher desprezada e desonrada aos nossos olhos. De modo deliberado, Mateus destaca que Jesus era filho da prostituta Raabe.

A história de Raabe você encontra no livro de Josué. Ela era cananeia, moradora de Jericó, uma cidade inimiga de Israel, a primeira que seria conquistada pelos hebreus na Terra Prometida. Naquele tempo, a prostituição não era um mero comércio de corpos e prazeres sexuais. Na verdade, era uma atividade ligada aos cultos cananeus de fertilidade. O agricultor fertilizava a prostituta (uma espécie de sacerdotisa) assim como o deus Baal deveria fertilizar a terra (com chuva) para abençoar a colheita.

Raabe era, portanto, uma inimiga, uma prostituta e uma idólatra. Três vezes maldita. Três vezes desprezível segundo a Lei de Moisés. É difícil pensar em uma origem pior, uma forma pior de começar a vida.

Mas a pecadora mudou de lado. Ela protegeu espiões israelitas que foram até Jericó e salvou-lhes a vida. Pediu a proteção de Israel e acabou salvando a si mesma e aos seus parentes. Mais do que isso: ela foi acolhida pelos israelitas. Casou-se com Salmom, filho de Naassom, príncipe da tribo de Judá. Foi mãe de um dos homens mais ricos e respeitados em sua época, Boaz, de Belém, antepassado do rei Davi.

E, embora Raabe não fosse parte de uma linhagem santa, tornou-se parte dela. Tornou-se mãe de reis. Mais que isso, tornou-se mãe do Rei dos Reis, antepassada de José e de Maria, uma das três mulheres destacadas na genealogia de Jesus.

A mensagem de Jesus
O que estes fatos nos ensinam? Qual a relevância de Jesus ser, ao mesmo tempo, filho de uma virgem e de uma prostituta?

Em primeiro lugar, ela nos mostra que o Evangelho não é a história de homens e mulheres que se encontram individualmente com Cristo. Hoje a espiritualidade é vista como uma decisão individual, de preferência, descontextualizada da experiência dos pais e até mesmo do povo. É a história do "meu filho vai escolher a religião que vai seguir". Mas o Evangelho é mais do que isso: é a concretização de uma fé e de uma esperança de uma família, de um povo, de toda a humanidade. É um tesouro que deve ser passado de geração em geração.

Portanto, as famílias que servem ao Senhor durante várias gerações podem se orgulhar de sua história e de sua tradição. Não legamos aos nossos filhos apenas uma herança material, mas também uma herança espiritual, como aconteceu com a família do rei Davi.

Em segundo lugar, a genealogia de Jesus nos mostra que, aos olhos de Deus, o que conta mesmo é a decisão de servi-Lo. Uma vez que alguém decide servir ao Senhor e abandona os ídolos, os falsos deuses, os pecados e até mesmo os valores errados de seu povo, esse alguém é acolhido pelo Senhor. O passado não conta mais, de forma tal que até mesmo uma prostituta é destacada no meio de todas as outras que foram mães de Jesus.

E aqui há uma mensagem de esperança e uma advertência. Para aqueles que não se sentem filhos "das pessoas certas", tiveram uma infância problemática e um passado cheio de escolhas ruins, Jesus nos mostra Raabe como o exemplo de que Ele veio mudar tudo isso. Nada pode impedir Jesus de agir em nós e nos tornar iguais aos "príncipes e princesas" de Israel.

Para os demais, que reparam demais na origem das pessoas, fica a advertência de que não é assim que o Senhor nos olha. Jesus não observa a etnia, a conta bancária e nem a certidão de nascimento de seus filhos. Quando Ele vai providenciar as bênçãos para a sua Igreja, Ele ignora até mesmo os pecados cometidos no passado, desde que exista arrependimento. E, se é assim com o Senhor, deveríamos fazer o mesmo e acolher igualmente o bisneto do presbítero e a jovem universitária punk que acabou de se converter. Como está escrito:
Portanto, lembrai-vos de que vós noutro tempo éreis gentios na carne, e chamados incircuncisão pelos que na carne se chamam circuncisão feita pela mão dos homens; que naquele tempo estáveis sem Cristo, separados da comunidade de Israel, e estranhos às alianças da promessa, não tendo esperança, e sem Deus no mundo. Mas agora em Cristo Jesus, vós, que antes estáveis longe, já pelo sangue de Cristo chegastes perto. (Efésios 2:11-13)
Graça e paz do Senhor,

Helder Nozima
Barro nas mãos do Oleiro

01 outubro 2011

Uma trilha sonora para a sua vida

Acredito que as pessoas já sabem que não sou apenas uma garotinha sexy, tenho mais a dizer. Estou tentando dar às pessoas trilha sonora para suas vidas - músicas que expressam um barril de emoções. (Katy Perry)
Eu sou pastor, mas se você vasculhar as minhas playlists no YouTube ou no meu MP3 player, vai ter uma surpresa. Muito sertanejo (especialmente universitário), pop e rock. Aqui e ali você encontra algo de MPB. E sim, algumas músicas evangélicas...todas no estilo "adoração" e que podem ser classificadas como boas para se usar nos cultos. Mas não espere encontrar pop gospel, rock gospel (exceto Oficina G3), sertanejo gospel...

Não, não se trata de nenhuma bronca especial que eu tenha com a música gospel. Ao contrário, várias músicas feitas para o culto cristão efetivamente abençoaram a minha vida e são bem-vindas quando executadas. Eu mesmo faço parte de um ministério de louvor. Mas, quando se trata de "música cristã"...aquela que não cabe bem em um culto e fica melhor no rádio de um carro do que no templo...bom, aí há algumas coisas a se considerar.
Katy Perry

A graça comum
A primeira é que artistas não-cristãos podem sim fazer arte que glorifique a Deus e seja boa para ser apreciada pelos homens. Glorificar a Deus não é algo que apenas pessoas salvas e geradas de novo pelo Espírito Santo podem fazer. Na verdade, até mesmo seres inanimados podem fazê-lo.
Os céus declaram a glória de Deus; o firmamento proclama a obra das suas mãos. (Salmo 19:1)
Na verdade, o tempo todo os cristãos se beneficiam de obras realizadas por não-cristãos e não vemos problema algum nisso. Tomamos remédios, desfrutamos de invenções tecnológicas, lemos livros e vemos filmes que foram feitos por pessoas sem temor de Deus em seus corações. Obviamente, todas essas obras não foram feitas com a intenção explícita de glorificar a Deus.

E por que nós podemos usufruir de tudo isso? Por causa daquilo que os reformados chamam de graça comum, ou seja, das bênçãos que Deus distribui a todos os seres humanos, independente de sua fé. Mesmo quando os homens usam essa graça sem a intenção explícita de engrandecer ao Senhor, Ele é glorificado pelo simples fato dessas bênçãos serem usadas. Afinal, o cantor, o artista, a engenheira ou a médica podem não saber, mas aquele talento todo procede de Deus e deve ser usado. Pode não ser essa a intenção, mas o uso deste talento beneficia os seres humanos. E, por causa de tudo isso, glorifica ao Senhor. Como está escrito:
Toda boa dádiva e todo dom perfeito vêm do alto, descendo do Pai das luzes, que não muda como sombras inconstantes. (Tiago 1:17)
Uma visão limitada da glória de Deus
No entanto, a maioria dos cristãos evangélicos parece não entender ou não aceitar o conceito de graça comum. Eles desconfiam de tudo que é produzido "fora da igreja" e têm dificuldades em apreciar o que é feito por não-cristãos. Por isso o pé atrás em relação à ciência, a recusa de participar de eventos sociais fora da igreja (no máximo, festinha de criança, se não tiver cerveja), o pouco interesse pelos últimos lançamentos nas livrarias e, acima de tudo, o medo da arte. A ideia é que apenas a música que mencione especificamente o nome de Deus e seja ligada à adoração ou ao culto são seguras. De que somente este tipo de música glorifica a Deus.

Quem pensa assim não consegue enxergar a glória de Deus fora das quatro paredes dos templos. Só consegue vê-la nos cultos, nos irmãos, nas atividades eclesiásticas. Não se envolve com o "mundo" (a sociedade exterior) pois só vê nele o que é mau e diabólico. Nada mais natural que fuja da música, ainda mais quando se ouvem notícias como a morte da cantora Amy Winehouse.

Mas Deus é glorificado fora da igreja. Ele é glorificado no amor, na poesia, no trabalho. É glorificado quando perdemos alguém, ficamos doentes e temos que enfrentar situações difíceis. É exaltado nos nossos momentos de indecisão e até quando erramos. No nosso dia-a-dia o Senhor é exaltado.

A Bíblia mostra isso o tempo todo. As Escrituras não tratam apenas dos momentos "religiosos" ou cúlticos de seus personagens. Ao contrário, ela mostra como as histórias de vida de cada personagem honram ou não a Deus. Mesmo em fracassos monumentais, como o adultério de Davi ou quando o apóstolo Pedro nega três vezes a Jesus, a glória do Senhor se manifesta.

Sem falar que o fato do próprio Jesus ter se encarnado e participado da nossa vida comum já mostra o quanto ela é importante pra Deus. Jesus não amou uma mulher específica, mas amou a Igreja e viu várias histórias de amor em sua vida. Seu primeiro milagre foi em um casamento. Ele ia comer com gente de má fama. Quer sinal maior do que esse para entendermos como o Senhor é glorificado fora dos cultos?

Onde está a trilha sonora?
E aí vem a minha crítica aos músicos cristãos. A ampla maioria deles compõe apenas para a igreja. Mesmo os cantores de ritmos como rap, funk e axé buscam se apresentar nos templos e shows com canções explicitamente cúlticas ou que lembram muito um sermão. E as músicas que falam da vida das pessoas?

São poucos os músicos cristãos que compõem, tocam e cantam buscando o teatro, ao invés do templo. Que falam de amor, de lutas, de morte, de desabafos, da alma de seres humanos buscando o Deus vivo em suas vidas. Faltam músicas que a gente ouça e possa dizer "essa faz parte da trilha sonora da minha vida".

E se os artistas cristãos não o fizerem, outros o farão, e muito bem. Engana-se quem pensa que o público que vai a eventos como o Rock in Rio quer apenas uma relação comercial. Conheço muitas pessoas que se identificam fortemente com bandas e têm suas vidas inspiradas pela música. Canções que ilustram momentos de alegria e de tristeza, que ajudaram a começar e a terminar relacionamentos, que deram forças para dar a volta por cima ou as ajudaram a tomar decisões. Os (bons) shows têm um quê de culto, de transcedência, algo que encanta e fascina tanto os fãs como os astros.

E confesso: vários artistas como Roxette, Queen, Paula Fernandes e até Katy Perry e Maria Cecília e Rodolfo fazem parte da trilha sonora da minha vida. E sim, sou grato ao Senhor por isso. E sim, lamento muito quando os evangélicos boicotaram bandas como a Catedral que tentaram fazer isso e foram rechaçados pelos seus irmãos de fé.
Banda Catedral: uma rara tentativa de alcançar "todo o mundo"

Espero que Deus levante músicos cristãos que tenham o propósito de escrever trilhas sonoras para a vida das pessoas. Trilhas que glorifiquem ao Senhor e marquem a vida de seus ouvintes.

Graça e paz do Senhor,

Helder Nozima
Barro nas mãos do Oleiro