29 novembro 2011

Elogio à beleza

A beleza é enganosa, e a formosura é passageira; mas a mulher que teme ao Senhor será elogiada. (Provérbios 31:30)

O teu trono, ó Deus, subsiste para todo o sempre;
Cetro de justiça é o cetro do teu reino.
Amas a justiça e odeias a iniqüidade;
Por isso Deus, o teu Deus, escolheu-te dentre os teus companheiros
Ungindo-te com óleo de alegria.
Todas as tuas vestes exalam aroma de mirra, aloés e cássia;
Nos palácios adornados de marfim ressoam os instrumentos de corda que te alegram.
Filhas de reis estão entre as mulheres da tua corte
À tua direita está a noiva real enfeitada de ouro puro de Ofir.

Ouça, ó filha, considere e incline os seus ouvidos:
Esqueça o seu povo e a casa paterna.
O rei foi cativado pela sua beleza;
Honre-o, pois ele é o seu senhor.
A cidade de Tiro trará seus presentes;
Seus moradores mais ricos buscarão o seu favor.
Cheia de esplendor está a princesa em seus aposentos;
Com vestes enfeitadas de ouro.
Em roupas bordadas é conduzida ao rei,
Acompanhada de um cortejo de virgens;
São levadas à tua presença. (Salmos 45:6-14)
Felizmente, para mim, não sou a única pessoa do mundo que demorou a encontrar uma esposa. Lembro-me em especial de um amigo, ex-colega de seminário, que também chegou aos 30 anos solteiro. E, como as pessoas não aguentam ver um seminarista solteiro, muitos tentavam arranjar uma pretendente para ele. "Vou te apresentar uma menina de Deus: crente, trabalhadora, que adora igreja!"

No entanto, na maioria das vezes, as pretensões amorosas terminavam no primeiro encontro. O motivo? Bom...qual o adjetivo que você não viu na descrição da pretendente? Pois é, ele não achava as meninas bonitas. E isso, claro, irritava os amigos que queriam "desencalhá-lo". Ora, por que se importar com algo que é vão e passageiro, como ensina Provérbios?

O que ele respondia? Nada, mas ele dizia depois algo que considero ótimo. "Deus não coloca na Bíblia informações inúteis, se está lá, tem a sua razão de ser. Ele fala que Sara era formosa. Diz que Rebeca era formosa. Diz que Raquel era formosa. Fala da beleza de Ester. Ora, se beleza não tivesse nenhuma importância, por que ia ter tantas referências positivas a ela na Bíblia?"

Inimigos da beleza
Eu confesso que acho irretocável a resposta do meu amigo. A beleza é mencionada positivamente várias vezes na Bíblia e não apenas sobre mulheres. Davi e José, por exemplo, são apontados como homens bonitos. Mas, atualmente, parece que a beleza não é tão bem vista assim.

Quer ver um exemplo? Imagine uma garota "santa" ou um rapaz "santo". Em algum momento você considerou a beleza como uma característica? Vou além: você considera "santa" uma pessoa que considera a beleza física um requisito importante para se casar? Aposto que noventa por cento dos leitores disseram não. Afinal, a santidade é algo tão elevado que é capaz de ignorar a beleza física e transitória e concentrar-se apenas no caráter da pessoa amada. No fundo, julgamos como superficial quem declaradamente se preocupa com isso.

E isso não se reflete apenas na beleza física. Você já viu como são os templos protestantes? "Ah, os edifícios de nada valem, o que importa é a caridade, o amor ao próximo". Tudo bem, a misericórdia sempre será mais bela que um edifício. Mas esse tipo de visão desconsidera o valor da arquitetura como adoração. E hoje, muitos artistas e mesmo cidadãos comuns são levados a adorar ao Senhor quando olham para catedrais protestantes (sim, protestantes!) construídas de forma bela como uma oferta a Deus.
Bela, a Feia

Uma igreja sem estética
Mas essa postura tem um preço: a feiúra. Quando o mundo se pergunta pelo belo, vai buscar a resposta no cinema, nos meios de comunicação, na universidade, nos museus, na arte...as igrejas e Deus deixaram de ser um referencial estético para a sociedade. E isso é péssimo.

Considere o culto dominical. No passado, as igrejas contratavam músicos como Handel ou Bach. Compare a música produzida por eles com a que é executada todos os domingos nas igrejas evangélicas de hoje. Se tiver um teatrinho então...na maioria das vezes é de chorar. E quanto à liturgia propriamente dita, a ordem de culto? Na maioria das vezes, parece algo improvisado, feito sem cuidado, com avisos entrecortando a cerimônia e sem uma relação clara entre as partes. Se bobear, na hora da Ceia, os diáconos vão perceber que esqueceram de trazer alguma coisa. O português dos sermões é cada vez mais sofrível. Parece que a feiúra é algo agradável a Deus.

E o mesmo acontece com as pessoas! Vou contar uns casos e veja se não é verdade. Quantos bons homens você conhece que não estão sozinhos? Gente que estuda, trabalha, mas bem...não cuidam do corpo, não se preocupam com o que vestem, nem sabem o que significa perfume. O mesmo pode ser dito de ótimas mulheres...que se vestem como homens, não sabem usar maquiagem e se orgulham de não ligar para a aparência. E os dois lados sem se interessarem em parecer atraentes para o sexo oposto. Não querem saber como seduzir (no bom sentido), como ser femininas ou cavalheiros. E, claro, com mil dificuldades para achar alguém. A má teologia leva ao mau culto e traz problemas pessoais.

Trazendo de volta a beleza
A solução? Precisamos recuperar o ensino bíblico sobre a beleza. Precisamos parar de confundir "santo" com "feio" e "adoração" com "sofrimento". Sim, o sofrimento faz parte da vida cristã e a beleza exterior é sim enganosa. Mas a adoração é, antes de tudo, um prazer. E a santidade é algo belíssimo.

Não é fútil ou carnal buscar aquilo que é verdadeiramente belo. E o silêncio da Igreja sobre o assunto é uma das causas que explicam o fato do mundo hoje não entender mais o que é beleza. Sim, como se a Bíblia não tivesse uma palavra para dizer sobre o assunto! Mas a nossa mudez leva a valorização do andrógino, do artificial (viva a plástica, viva o Photoshop) e do doentio (anorexia) como ideais de beleza. Ela explica porque a sociedade dissocia beleza de caráter e a arte passou a buscar o choque e o grotesco ao invés daquilo que é harmônico.
Anorexia: a Igreja também é culpada

Logo, não proponho aqui que nos curvemos aos padrões comerciais ou pecaminosos de beleza. Mas há uma diferença enorme, gigantesca, entre procurar conhecer e viver um padrão bíblico de estética e não ter a menor preocupação com isso. Se os "feios" de hoje o fossem por uma opção, por entenderem que esse é o modelo bíblico, eu entenderia. Mas a verdade é que a maioria deles não quer é se preocupar com isso. Caem no mesmo erro de suas igrejas e excluem o belo de suas vidas.

A beleza e o Evangelho
Mas, por que então Deus fala tanto de formosura na Bíblia, se ela, de fato, passa? Dê uma nova olhada no Salmo 45, que citei na abertura deste artigo (o ideal é lê-lo todo). Inicialmente o salmo seria cantado para o casamento de um rei de Israel com alguma princesa estrangeira. Seria uma música de amor, onde tanto a beleza do rei como da rainha são exaltados. Lendo o salmo todo, vemos que o rei é um herói, cheio de glória e majestade, cingido de espada, cavalgando, com vestes perfumadas, exalando mirra, aloés e cássia. A rainha cativou o rei com a sua beleza, com vestes bordadas e de ouro. O belo explode no salmo.

Mas ele não é apenas um salmo real. Em seu sentido último, o salmo é um cântico de adoração a Deus. O rei é Jesus, tanto que o autor da carta aos Hebreus aplica o salmo diretamente a Jesus:
Mas a respeito do Filho, diz: "O teu trono, ó Deus, subsiste para todo o sempre; cetro de eqüidade é o cetro do teu Reino. Amas a justiça e odeias a iniqüidade; por isso, Deus, o teu Deus, escolheu-te dentre os teus companheiros, ungindo-te com óleo de alegria". (Hebreus 1:8-9)
E quem é a noiva? A igreja.
Regozijemo-nos! Vamos nos alegrar e dar-lhe glória! Pois chegou a hora do casamento do Cordeiro, e a sua noiva já se aprontou. Foi-lhe dado para vestir-se linho fino, brilhante e puro". O linho fino são os atos justos dos santos. (Apocalipse 19:7-8)

"Por essa razão, o homem deixará pai e mãe e se unirá à sua mulher, e os dois se tornarão uma só carne". Este é um mistério profundo; refiro-me, porém, a Cristo e à igreja. (Efésios 5:31-32)
Repare, porém, que o salmo 45 não separa a beleza exterior da interior, como nós fazemos. O noivo cavalga prosperamente, mas pela causa da verdade e da justiça (Salmo 45:4), ama a justiça e odeia a iniqüidade (Salmo 45:7) e seu cetro é de justiça (Salmo 45:6). A rainha é submissa ao marido (Salmo 45:11), a ponto de esquecer-se de seu povo anterior para tornar-se do povo do rei (Salmo 45:10) e é implícito que ela é virgem (Salmo 45:14). A beleza física, separada da espiritual, não é bela. A formosura desta vida é um símbolo daquilo que é, de fato, belo, que será manifestado por Jesus no dia do seu retorno.
Bela, a bela!

Quando, em amor, o homem se cuida para a sua mulher, e vice-versa, eles estão apenas espelhando o relacionamento entre Jesus e nós. Afinal, naquele Dia, Ele estará belíssimo e a Noiva também. Que seja com este espírito que nós possamos nos preocupar em refletir a verdadeira beleza retratada nas Escrituras:
Maridos, amem suas mulheres, assim como Cristo amou a igreja e entregou-se a si mesmo por ela para santificá-la, tendo-a purificado pelo lavar da água mediante a palavra, e apresentá-la a si mesmo como igreja gloriosa, sem mancha nem ruga ou coisa semelhante, mas santa e inculpável. (Efésios 5:25-27)

Gostaria de vê-los livres de preocupações. O homem que não é casado preocupa-se com as coisas do Senhor, em como agradar ao Senhor. Mas o homem casado preocupa-se com as coisas deste mundo, em como agradar sua mulher, e está dividido. Tanto a mulher não casada como a virgem preocupam-se com as coisas do Senhor, para serem santas no corpo e no espírito. Mas a casada preocupa-se com as coisas deste mundo, em como agradar seu marido. (1 Coríntios 7:32-34)
Louvado seja o Senhor, o único que é verdadeiramente Belo em si mesmo!

Graça e paz do Senhor,

Helder Nozima
Barro nas mãos do Oleiro

23 novembro 2011

Tolerância e confrontação: resposta a uma ateia

Tudo indica que a parábola do taxista se tornará cada vez mais frequente nas ruas do Brasil – em novas e ferozes versões. Afinal, não há nada mais ameaçador para o mercado do que quem está fora do mercado por convicção. E quem está fora do mercado da fé? Os ateus. É possível convencer um católico, um espírita ou um umbandista a mudar de religião. Mas é bem mais difícil – quando não impossível – converter um ateu. Para quem não acredita na existência de Deus, qualquer produto religioso, seja ele material, como um travesseiro que cura doenças, ou subjetivo, como o conforto da vida eterna, não tem qualquer apelo. Seria como vender gelo para um esquimó.(...)

Me arriscaria a dizer que a liberdade de credo – e, portanto, também de não credo – determinada pela Constituição está sendo solapada na prática do dia a dia. Não deixa de ser curioso que, no século XXI, ser ateu volte a ter um conteúdo revolucionário. Mas, depois que Sarah Sheeva, uma das filhas de Pepeu Gomes e Baby do Brasil, passou a pastorear mulheres virgens – ou com vontade de voltar a ser – em busca de príncipes encantados, na “Igreja Celular Internacional”, nada mais me surpreende.

Se Deus existe, que nos livre de sermos obrigados a acreditar nele. (Eliane Brum em "A vida dos ateus em um Brasil cada vez mais evangélico". Meus negritos.)
No meio das igrejas evangélicas, corre o mito de que muitas pessoas se convertem porque ser evangélico "está na moda". Como, hoje em dia, é "bacana" ter uma religião e ser católico é algo meio "antiquado", muitos estariam aderindo ao evangelicalismo.

Contudo, trata-se de um mito. A verdade é que, para as camadas mais "intelectualizadas" do país, ser evangélico é sinônimo de ser intolerante, uma ameaça à liberdade de credo no Brasil(!) e até uma prova de inferioridade intelectual em relação a católicos e ateus. Ver que a identidade do "brasileiro" está sendo mudada pelos evangélicos é acender uma luz amarela. Ser cool, legal e inteligente mesmo é nunca confrontar os posicionamentos de quem declara não ter fé e confiar apenas na sua razão e na ciência. Ao  menos é essa a leitura que faço do artigo "A vida dos ateus em um Brasil cada vez mais evangélico", de Eliane Brum.

Embora eu não seja um neopentecostal e até relute em me identificar como evangélico (sou protestante histórico, pastor presbiteriano), não posso negar a minha raiz e protestar contra algumas distorções presentes no texto...e principalmente em quem tem republicado o artigo em redes sociais. No caso, o meu propósito não é exatamente o de defender os evangélicos...mas sim os seguidores de Cristo.

Intolerância é diferente de confrontação
E a primeira coisa que precisa ser esclarecida é que há uma diferença entre "tolerância" e "confrontação". Tolerar não é sinônimo de concordar ou se calar, é permitir que o outro professe e viva de acordo com as suas crenças e valores. Confrontar é conflitar com a outra parte. A confrontação pode ser violenta ou pacífica. A tolerância não exclui a confrontação pacífica entre as diferentes correntes de pensamento, de fé ou de valores, mas não aceita a confrontação violenta.

Isso é fácil de ver quando transportamos os conceitos para a política. Em uma democracia, correntes tão diferentes como o comunismo e o conservadorismo de direita são tolerados. Mas os pressupostos e propostas de cada partido são questionados publicamente por seus adversários. Há debates em universidades, associações de moradores e até na TV. E há um período de enfrentamento, que são as eleições. No meio disso tudo, há declarações fortes e vários atritos. Um lado chega a acusar o outro de ser a desgraça do país, do estado...mas há tolerância. As diferenças e conflitos são vistos como parte do processo, a confrontação é pacífica.

E aí, relendo o texto de Brum, fica a pergunta: o taxista foi intolerante ou a confrontou? Ele questionou-a, expôs o que ele pensava dentro de suas limitações e manifestou a sua opinião sobre a crença dela. Vale lembrar que quem perguntou de religião não foi o pobre motorista, mas sim a jornalista.

A "superioridade" ateia?
Não nego, porém, que exageros aconteçam. De fato, há evangélicos que podem querer exorcizar o demônio da incredulidade na vida de um ateu. Há os que se excedem nas palavras e chegam ao ponto da injúria. Contudo, sendo sincero, eles são minoria. No Brasil, a maioria dos verdadeiros discípulos de Cristo nem chega a ponto de confrontar, pelo medo de não estarem bem preparados para discutir.

Mas engana-se quem acha que os ateus são um exemplo de cordialidade com os cristãos. Se não dizem que iremos para o inferno, há outras formas nada sutis de confrontação. Questionam como podemos guiar a nossa vida baseados em um livro escrito há uns dois mil anos. Fazem piadas dizendo que acreditamos em um Amigo Imaginário, mesmo tendo 30 anos de idade. Chamam-nos de supersticiosos, dizem que a religião é a culpa de todos os males da humanidade. E eu estou falando apenas da minha experiência pessoal.

Também há perfis na Internet como o da Associação Brasileira de Ateus e Agnósticos, que fazem uma confrontação mais pesada. Exemplos? Olha a tirinha que está no álbum do perfil da ATEA no Facebook:

Segundo eles, as religiões seriam a causa do atraso da humanidade:

E o que eu vou dizer? Intolerância? Não, não é...é confrontação. Agora, será que não temos o direito de confrontar de volta?

A intolerância ateia
Na verdade, o ensino bíblico é o de que as liberdades fundamentais devem ser respeitadas. Jesus nunca pregou que os cristãos deveriam derrubar o Império Romano e proibir qualquer fé que não fosse a cristã. Na verdade, os cristãos deveriam confiar em Deus, e não no poder militar, crendo que sua fé prevaleceria. Foi o que aconteceu. Os cristãos foram mortos, presos e torturados, mas venceram. Preservado o ensino bíblico, é isso o que os cristãos devem fazer.

É verdade porém que, em nome de Cristo, mas não com a Sua aprovação, muita perseguição foi feita. Mas, quando se consideram os países realmente influenciados pela Reforma Protestante, o sangue derramado por causa de fé ou de ateísmo não se compara ao que ainda se vê em países ateus em pleno século XXI. Apesar das bruxas de Salém, a tolerância prosperou em terras protestantes, como mostram o exemplo de países como os Estados Unidos, a Suíça, a Suécia, a Holanda e até o Reino Unido.

Ao contrário do que insinua Brum, no mundo todo, as pessoas que mais são ameaçadas pelos intolerantes não são os ateus, mas sim os cristãos. E engana-se quem imagina que apenas países islâmicos extremistas façam essa perseguição. As ditaduras marxistas, valendo-se do conceito de que "a religião é o ópio do povo", buscaram cooptar (regulando com a mão de ferro do Estado) ou extinguir todas as igrejas. A união do marxismo com o ateísmo provocou a morte de milhares de cristãos na antiga União Soviética e até hoje mata e prende cristãos na Coreia do Norte, na China e em Cuba. Aliás, o país campeão em perseguição aos cristãos é precisamente a Coreia do Norte:
O Estado não hesita em torturar e matar qualquer um que possua uma Bíblia, quer esteja envolvido no ministério cristão, organize reuniões ilegais, quer tenha contato com outros cristãos (na China, por exemplo). Os cristãos que sobrevivem às torturas são enviados aos campos de concentração. Lá, as pessoas recebem diariamente alguns gramas de comida de má qualidade para sustentar o corpo, que deve trabalhar 18 horas por dia. A menos que aconteça um milagre, ninguém sai desses gigantes campos com vida. (Portas Abertas)
"Ah, mas nem todos os ateus concordam com isso!" Ótimo: eu também não concordo com o sangue derramado injustamente em nome de Cristo. Mas o fato é que hoje há regimes ancorados no ateísmo matando cristãos, e isso sim é intolerância! Antes de dizer que os cristãos evangélicos são intolerantes, gostaria muito que a jornalista e outros ateus olhassem para a pilha de cadáveres cristãos sendo aumentada dia após dia por causa da intolerância no mundo todo. Que país protestante está exterminando ateus por que o ateísmo é um crime?

Olhando para o Brasil
Mesmo no Brasil os protestantes têm os seus mártires. E isso já vem do século XVI, quando os franceses mataram protestantes reformados no episódio que gerou a Confissão de Fé da Guanabara. Em 1898, um fanático matou o presbiteriano Manoel Villela, em Canhotinho (PE), outro mártir da Igreja Presbiteriana do Brasil. Em outras denominações há outras histórias. Nós sim sabemos o que é não sermos tolerados.

Mesmo hoje, projetos de lei como o PL 122 querem impedir que os cristãos preguem abertamente o que a Bíblia ensina sobre o homossexualismo. Quem está tendo a sua liberdade de crença e expressão ameaçada são os cristãos. Agora, além de querer nos calar por meio de leis...querem proibir que nós questionemos os ateus sobre a sua fé?

O taxista errou é pelo despreparo em lidar com a questão. Errou sim na escolha das palavras, no tom e por focar na igreja e não em Jesus. Mas não errou por ter questionado as convicções de alguém que começou o debate perguntando sobre a fé dele.

Fora do mercado?
Por fim, engana-se Brum se ela pensa que os ateus estão "fora do mercado". Primeiro porque nem todos enxergam as religiões como um mercado. Com certeza não é isso o que pensa um muçulmano, um judeu ou um cristão sério. Para eles, a fé é parte da identidade, até mesmo dos valores de suas nações. O Ocidente, quer queira quer não, ainda hoje segue uma ética judaico-cristã em muitos aspectos.

Os ateus também têm o seu deus: o próprio homem. Ao negarem servir a qualquer deus, o que eles fazem é colocar-se no lugar dele e adoram-no. O homem é a medida de todas as coisas, é nele que devemos depositar a nossa esperança, é ele quem define o certo e o errado. Não devemos contas a nenhum ser superior.

Segundo a Bíblia, a avaliação de quem pensa assim é esta:
Diz o tolo em seu coração: "Deus não existe! " Corromperam-se e cometeram injustiças detestáveis; não há ninguém que faça o bem. Deus olha lá dos céus para os filhos dos homens, para ver se há alguém que tenha entendimento, alguém que busque a Deus. Todos se desviaram, igualmente se corromperam; não há ninguém que faça o bem, não há nem um sequer. (Salmos 53:1-3)

Pois desde a criação do mundo os atributos invisíveis de Deus, seu eterno poder e sua natureza divina, têm sido vistos claramente, sendo compreendidos por meio das coisas criadas, de forma que tais homens são indesculpáveis; porque, tendo conhecido a Deus, não o glorificaram como Deus, nem lhe renderam graças, mas os seus pensamentos tornaram-se fúteis e os seus corações insensatos se obscureceram. Dizendo-se sábios, tornaram-se loucos e trocaram a glória do Deus imortal por imagens feitas segundo a semelhança do homem mortal, bem como de pássaros, quadrúpedes e répteis. (Romanos 1:20-23)
O mérito do ateu do século XXI é o de acabar com a hipocrisia. Hoje não adoram mais imagens, colocaram no altar quem a humanidade sempre quis adorar: ela mesma.

Sou tolerante. Não proíbo ninguém de pensar assim. Não vou pedir na Justiça que impeçam os ateus de proclamarem livremente as suas crenças e até as críticas quanto à minha fé. Mas, como cristão e como cidadão, não posso abrir mão do direito de criticar livremente o ateísmo, como uma idolatria do próprio homem. Se sou louco para eles, digo que vocês também são loucos aos olhos de Deus...e aos olhos de todo o que segue a Bíblia. E vou continuar orando e trabalhando para que o máximo possível de ateus, agnósticos, católicos, evangélicos, espíritas, budistas e outros deixem o seu engano e adorem ao Deus vivo e verdadeiro, revelado na Bíblia.

Um dia Ele virá e mostrará que todos se prostraram diante de algum deus. E, naquele dia, Deus vindicará para Si o governo do mundo, que é d'Ele de direito. Até lá, Deus continuará a atender o desejo de Eliane Brum e ela continuará tendo, da parte d'Ele, a liberdade de não acreditar n'Ele.

Graça e paz do Senhor,

Helder Nozima
Barro nas mãos do Oleiro

09 novembro 2011

Autoridade, impunidade e os protestos na USP

Naquela época não havia rei em Israel; cada um fazia o que lhe parecia certo. (Juízes 21:25)
Hoje, enquanto escrevo este post, o Brasil assiste mais um ministro ameaçado de queda por causa de denúncias de corrupção. O sexto (Jobim caiu por falar a verdade) no primeiro ano do mandato da presidenta Dilma Rousseff. Em um dos ministérios investigados, o do Esporte, há denúncias que também atingem um governador de Estado, Agnelo Queiroz, do meu querido Distrito Federal. Um deputado estadual teve que fugir do país para que as ameaças de morte feitas contra ele por milicianos sejam levadas a sério.

O que veríamos em qualquer país democrático onde tais coisas acontecem? Veríamos o povo na rua, protestando, exigindo vergonha na cara dos políticos, questionando a capacidade administrativa da presidenta e a punição dos criminosos, dentro e fora do Estado. É de se esperar que os estudantes, por sua juventude e idealismo, fossem os protagonistas deste movimento.

Mas, o que vemos no Brasil? Vemos os estudantes da universidade mais renomada do país, a Universidade de São Paulo (USP), mobilizados, participando de uma greve geral...contra a presença da Polícia Militar no campus da USP!!! É isso mesmo: ao invés de protestarem contra os ministros corruptos, os políticos ineptos, os milicianos que matam juízes e ameaçam um deputado, eles armam um escarcéu para pedir a PM fora do campus! E o que é pior: a origem dos protestos não foi nenhum tipo de repressão política, mas sim a prisão de estudantes que quebravam a lei do país, fumando maconha.

Quando a Polícia Militar cumpriu o seu papel, começou uma série de protestos, que redundaram em mais crimes e desafios à ordem. Ocupou-se um dos prédios da USP, foi feita uma assembleia e o lado perdedor, insatisfeito, resolveu invadir a Reitoria. Lá, eles agrediram jornalistas, depredaram o patrimônio público, guardavam coquetéis "molotov" e desafiaram a determinação da Justiça de reintegração de posse. O resultado foi a prisão dos estudantes que insistiram em permanecer na Reitoria...que agora virou uma "greve geral" dos estudantes.
Assembleia de estudantes da USP

A impunidade
Embora existam algumas pessoas que apoiem a "revolução" dos estudantes da USP, creio que a maioria dos brasileiros está chocada com os acontecimentos. As universidades públicas são o sonho de muitos pais e jovens, são os locais onde se espera que serão formadas as elites do Brasil. Como pessoas que deveriam ser a nata do país, gratas a Deus por poderem estudar de graça na melhor universidade do país são capazes de tudo isso?

A resposta é simples e também serve para uma série de outros problemas brasileiros: a impunidade. O Brasil é o país onde, do filho dentro de casa até as mais altas autoridades da República, as punições aos culpados são sempre aliviadas. O país onde, mesmo que a autoridade esteja respaldada pela lei, ela precisa buscar alguma alternativa mais branda, ao invés de aplicar a pena prevista. A nação onde quem mais sofre são os inocentes.

O caso da USP é exemplar. A maioria dos estudantes de universidades públicas do país não é filha de gente pobre, mas sim de classe média para cima. São pessoas que podem "não trabalhar", seja porque ganharam uma bolsa (minoria) ou porque são sustentados pelos pais de alguma forma. É gente com mais dinheiro do que os policiais militares que foram prendê-los. Não se trata nem da "ralé" e muito menos de pessoas inocentes, como descrevi nos parágrafos acima.

"Ah, Helder, mas eles foram punidos!". É mesmo? Vamos recapitular alguns fatos.

1) Quando os estudantes foram presos por fumarem maconha, professores da Universidade tentaram livrá-los de irem à delegacia;
2) Nenhuma punição foi aplicada aos estudantes que convocaram uma outra assembleia na calada da noite para invadir a Reitoria;
3) A Universidade montou uma comissão para negociar com os estudantes e chegou a oferecer "anistia" para os envolvidos;
4) A Justiça prolongou o prazo original dado para a reintegração de posse.

Isso é ou não "passar a mão na cabeça"? Quem fuma maconha e é pego em flagrante precisa se explicar na delegacia. Quem desrespeita uma assembleia deveria ter algum direito censurado pela organização estudantil, ainda que seja o presidente! Quem invade, depreda e guarda bombas caseiras deve responder, criminal e academicamente pelo que fez.

Talvez muitos não tenham notado, mas o processo com os alunos da USP é usado com muitos outros no Brasil. Quantos empresários ou funcionários públicos estão presos por corrupção? Também eles, quando flagrados no erro, entram com recursos e várias medidas para escapar da punição da lei.
Coquetéis "molotov" apreendidos com estudantes da USP

E o mesmo acontece com gente pobre também. Militantes "sem-terra" invadem e destroem prédios públicos e fazendas particulares, negociam...e não são presos. Vários estupradores, sequestradores e assassinos aproveitam os indultos dos feriados para escaparem e cometerem novos crimes e também conseguem benefícios que os livram da cadeia antes de cumprirem metade da pena. É o mesmo processo.

Sem falar que a manifestação da USP está sendo dirigida por movimentos partidários de esquerda. Partidos e correntes que estão tentando ganhar espaço por meio da defesa do erro e do enfrentamento do governo, só porque o governador é de outra corrente política.

Falta de autoridade
E qual a origem da impunidade? A falta de autoridade que impera no Brasil. Vivemos em um país onde, não importa o nível, as autoridades são frouxas e desrespeitadas. O brasileiro nunca gostou de cumprir regras, muito menos de quem exige o respeito à elas.

Pais não disciplinam os seus filhos porque querem "parecer legais" e não aguentam quando o veem de "cara amarrada". Deixam que as crianças mandem neles, escolham o que querem e não impõem limites. Nas escolas, o professor pode até ganhar um tiro, mas não tem o respaldo da escola para disciplinar o aluno desobediente, "para não desagradar os pais". O funcionário é incompetente, faz coisas erradas e não é demitido porque "como, afinal, ele vai se virar?".

O resultado é que, na prática, na família, na escola e até no trabalho "cada um faz o que lhe parece certo", exatamente como nos dias dos juízes. Naquela época, mais ou menos entre 1400 e 1000 anos antes de Cristo, Israel não tinha um rei, um poder central responsável pela aplicação das leis. Sem uma autoridade forte, cada israelita agia como achava melhor. Afinal, quem iria punir o culpado? O resultado era uma mistura de violência, idolatria, apoio ao pecado (uma tribo inteira ao lado de estupradores), estagnação econômica, derrotas militares e insegurança.

A autoridade forte garante estabilidade e ordem. Quando pais, professores e até chefes são firmes e punem com justiça, a sociedade toda ganha. Até mesmo os punidos ganham a oportunidade de reconhecerem seu erro e mudarem de conduta.

Além disso, a autoridade é um símbolo do reino de Deus. Quando pais, mães, professores, pastores, chefes, juízes, governadores e outras autoridades exercem seu poder, agindo com justiça, punindo quem faz o mal e premiando quem faz o bem, elas se tornam símbolos do governo de Cristo sobre o mundo. Como está escrito:
Deus "retribuirá a cada um conforme o seu procedimento". Ele dará vida eterna aos que, persistindo em fazer o bem, buscam glória, honra e imortalidade. Mas haverá ira e indignação para os que são egoístas, que rejeitam a verdade e seguem a injustiça. (Romanos 2:6-8)
A falha das igrejas
Lamentavelmente este ensino tem sido negligenciado. E as grandes culpadas são as igrejas evangélicas. Não apenas porque isso não tem sido pregado, mas porque a mensagem hoje é contrária à autoridade.

Um bom exemplo é a questão da liderança. A moda é dizer que o líder não é aquele que exerce autoridade, mas sim o que influencia. Sinceramente, por este critério, homens como Moisés e Elias, que foram rejeitados por todo o povo de Israel e ameaçados de morte, são péssimos líderes. Muitas vezes Deus teve que disciplinar a Israel, inclusive com mortes, para que o povo não destroçasse esses grandes homens de Deus.

O mesmo pode ser dito de Jesus. O líder que arrastou multidões terminou sendo abandonado por todos. Mesmo hoje, a despeito do grande número de cristãos, o mundo de uma forma geral rejeita a liderança de Cristo. E, no dia do Juízo, Cristo vai sim usar a força da autoridade para fazer com que todos se ajoelhem diante d'Ele.

Hoje as igrejas precisam recuperar este ensino. O pai, o pastor, o professor...todos eles devem ser obedecidos simplesmente porque eles são o que são. Por mais que eles não sejam carismáticos ou influentes, eles devem aplicar as punições necessárias e serem temidos pelos que procedem mal. As igrejas precisam abandonar o ensino herético sobre liderança e voltar a ensinar o que a Bíblia fala de autoridade.

E, claro, precisam praticá-lo. Há graça sim, para os que se arrependem. Mas para aqueles que persistem no erro e continuam no mau caminho, que venha a disciplina eclesiástica. Que a igreja cumpra o seu papel de representante de Cristo no mundo.

Graça e paz do Senhor,

Helder Nozima
Barro nas mãos do Oleiro

04 novembro 2011

Como arruinar um casamento, por Johnny Depp

Amar e ser amado. Na teoria, é simples, mas a prática é bem diferente para milhões de pessoas...ao menos no Ocidente. O amor parece ser o objetivo que move a maioria das pessoas nos países ocidentais. Se no Oriente encontramos quem faça da religião, da pátria, do dinheiro ou até mesmo da harmonia o seu maior anseio de vida...no Ocidente o que faz mesmo sucesso é a busca da pessoa amada.

Mas, não seria a família? Não, claro que não! Filhos não são um impedimento para que pais se separem em busca de um novo amor. Nem os votos matrimoniais ou a fé têm impedido as traições e adultérios. Mesmo entre os cristãos, o amor é considerado o valor supremo, sendo usado como justificativa para o divórcio, o homossexualismo e até a poligamia (Deus nunca reprovaria nenhuma forma de amar). Obedecer ao imperativo da emoção é mais importante do que atender às ordens de Deus.

O conselho de Depp
E poucas coisas ilustram isso melhor do que um conselho do ator Johnny Depp, que virou uma "febre" no Facebook (inclusive entre cristãos):

Parece lógico, não é mesmo? Ora, se a primeira pessoa não consegue manter a sua exclusividade sentimental, permita-se viver uma nova experiência. Contudo, eu não consigo deixar de pensar em uma série de coisas que estão sendo ignoradas, como:

- As diferenças entre amor e paixão;
- A compreensão de que os relacionamentos precisam ser cultivados (não é mágica);
- Que há momentos bons e ruins em qualquer relacionamento;
- Que o pecado comum a todos os seres humanos pode nos deixar vulneráveis nos maus momentos;
- Que nós podemos estar enganados sobre quem é de verdade a segunda pessoa;
- Os compromissos assumidos diante de Deus e dos homens;
- As consequências de um rompimento para você, para a pessoa e para outros (como filhos).

Não é que o conselho de Depp seja sempre errado. Por exemplo, em alguns namoros ou noivados, a nova paixão pode ser a prova cabal de que o sentimento que unia os amantes já não existe mais. Mas, mesmo aí, muitas vezes as pessoas terminam para ir atrás do novo amor, quebram a cara e se arrependem de ter jogado fora uma excelente oportunidade. Se você duvida, é só conferir quantas músicas de sucesso dizem "quero ter você de volta", "volta pra mim" ou algo parecido.

Um conselho melhor
Mas a coisa fica problemática mesmo é quando Depp é ouvido no casamento. A nossa tendência pecaminosa é a de achar que "ir atrás de outro(a)" é mais fácil do que sentar e resolver os problemas do relacionamento. E quando preferimos o caminho de Depp, caímos em um erro condenado pela Bíblia:
Há outra coisa que vocês fazem: Enchem de lágrimas o altar do Senhor; choram e gemem porque ele já não dá atenção às suas ofertas nem as aceita com prazer. E vocês ainda perguntam: "Por quê? " É porque o Senhor é testemunha entre você e a mulher da sua mocidade, pois você não cumpriu a sua promessa de fidelidade, embora ela fosse a sua companheira, a mulher do seu acordo matrimonial. Não foi o Senhor que os fez um só? Em corpo e em espírito eles lhe pertencem. E por que um só? Porque ele desejava uma descendência consagrada. Portanto, tenham cuidado: Ninguém seja infiel à mulher da sua mocidade. "Eu odeio o divórcio", diz o Senhor, o Deus de Israel, e "o homem que se cobre de violência como se cobre de roupas", diz o Senhor dos Exércitos. Por isso tenham bom senso; não sejam infiéis. "Vocês têm cansado o Senhor com as suas palavras. ‘Como o temos cansado?’, vocês ainda perguntam. Quando dizem: ‘Todos os que fazem o mal são bons aos olhos do Senhor, e ele se agrada deles’ e também quando perguntam: ‘Onde está o Deus da justiça?’" (Malaquias 2:13-17)
Dito de outra forma, deixar a "mulher da mocidade" porque uma outra pessoa despertou o "amor" significa enfrentar várias consequências. As principais dizem respeito ao nosso relacionamento com Deus:

- Ele não presta atenção nas nossas ofertas (v.13);
- Ele não tem prazer em nossas ofertas (o que inclui cultos, orações, louvores...) (v.13);
- Nossa descendência não tem uma origem consagrada (v.15);
- Fazemos algo odioso aos olhos de Deus (v.16);
- Deus considera que perdemos o bom senso (v.16);
- Somos infiéis com o Senhor (v.16);
- Cansamos o Senhor com nossas palavras (v.17).

Hoje o divórcio é banalizado. Mas, aos olhos do Pai, feito da maneira errada, trata-se de um pecado grave, que compromete pesadamente o nosso relacionamento com Ele. Traz lágrimas, choros e gemidos ao altar do Senhor, porque Ele ouve as lágrimas de quem foi abandonado. E compromete até mesmo a nossa descendência.

O casamento é um símbolo da união entre Cristo e a Igreja, como está escrito:
"Por essa razão, o homem deixará pai e mãe e se unirá à sua mulher, e os dois se tornarão uma só carne". Este é um mistério profundo; refiro-me, porém, a Cristo e à igreja. (Efésios 5:31-32)
Jesus não largou a Igreja em nome de outro amor, apesar de todas as dificuldades. Da mesma forma, a Igreja até pode ter largado o seu noivo em nome de segundos, terceiros, quartos amores...mas ela sempre se arrepende e, no final, ficará com o seu verdadeiro Amado.

Mesmo que você esteja namorando, pense antes de terminar por causa de um novo amor. Pese as coisas, ore, veja com o Senhor. Se terminarmos o namoro por causa de qualquer abalo, pode ter certeza que o mesmo padrão se repetirá no casamento.

Graça e paz do Senhor,

Helder Nozima
Barro nas mãos do Oleiro

01 novembro 2011

Milícias, USP, marchas anti-corrupção e Romanos 13

Como avaliar o presente momento do Brasil? Por um lado, ganhamos um destaque crescente na mídia internacional. Enquanto os países europeus e os Estados Unidos sofrem uma grave crise econômica, o Brasil aparece como a sexta maior economia do mundo. Seremos palco da próxima Copa do Mundo e também dos Jogos Olímpicos. Somos vistos como uma das nações-chave da nova ordem mundial do século XXI devido ao tamanho de nosso território, população e PIB. Parece que nunca estivemos tão bem.

No entanto, é com horror que vejo a notícia de que o deputado estadual Marcelo Freixo terá que se ausentar do Brasil com a sua família por causa de ameaças de morte. Não muito tempo antes, a juíza Patrícia Acioli foi morta, pasmem, por policiais! Escândalos de corrupção derrubam ministros em ritmo alucinante. Estudantes da melhor universidade do país ocupam um prédio da faculdade pedindo a Polícia Militar fora do campus e a liberalização do uso de drogas. Que país é esse?
Marcelo Freixo: marcado para morrer

A reação evangélica
De modo geral, a reação da sociedade brasileira tem sido muito tímida. A postura mais comum é a da apatia, na base do "os políticos são todos farinha do mesmo saco". A voz dos protestos ainda é muito tímida, levantada por setores da classe média em torno de bandeiras apartidárias.

As igrejas evangélicas têm participado pouco deste movimento, que tem recebido uma atenção maior por parte de alguns reformados. Entre estes, destaca-se como líder o Rev. Antônio Costa, pastor presbiteriano e presidente da ONG Rio de Paz. Na Internet, o pastor tem denunciado a falta de indignação evangélica diante deste quadro de falência estatal e a visão limitada de evangelismo de todos, inclusive dos reformados. Segundo ele, a igreja brasileira sofre por ter um Evangelho que quer resgatar a alma, mas, na prática, mostra-se indiferente aos dramas materiais e sociais do país.

A estratégia usada pelo Rio de Paz tem sido investir em ações de impacto midiático. Colocar cruzes na praia  ou vassouras no gramado da Esplanada para chamar a atenção contra a violência e a corrupção. Nos manifestos, uma proposta mínima vem sendo defendida, incluindo a defesa da Lei da Ficha Limpa ou o fim do voto secreto no Congresso Nacional.

Uma proposta limitada
Certamente, já é admirável todo o esforço que vem sido promovido pelo Rev. Antônio Costa. Trata-se de um empreendimento ético muito maior do que qualquer outro sendo executado por evangélicos no Brasil. Contudo, por mais que eu reconheça o trabalho de tentar chegar a raízes profundas da violência e da corrupção no país, é forçoso dizer que há várias raízes que não estão sendo atacadas, nem pelo Rio de Paz e nem pelas marchas realizadas no país.

Simples protestos contra a corrupção, centradas em princípios ainda superficiais (sim, o são), não atacam o nosso verdadeiro problema: um sistema político falido, fruto de uma visão equivocada sobre o papel do Estado, onde os corruptos encontram um amplo espaço para manobras, impedindo que os agentes públicos sejam alocados em seu papel central. O enfrentamento da violência e da corrupção no Brasil passa por uma discussão sobre o tamanho e a função do Estado, as eleições na democracia brasileira e da defesa de direitos de primeira geração no país. Assuntos que não tenho visto ocuparem a pauta de reivindicações dos manifestantes.

A visão bíblica de governo
Em primeiro lugar, é preciso destacar que a Bíblia fala claramente quais são as principais atribuições dos governantes. Um dos grandes pecados evangélicos é que este ensino tem sido restrito a poucos blogs e não vem sendo adequadamente exposto nas pregações e aulas de Escola Bíblica Dominical. Embora vários textos tratem do assunto, o resumo mais completo da visão bíblica de autoridade está em Romanos 13:
Todos devem sujeitar-se às autoridades governamentais, pois não há autoridade que não venha de Deus; as autoridades que existem foram por ele estabelecidas. Portanto, aquele que se rebela contra a autoridade está se colocando contra o que Deus instituiu, e aqueles que assim procedem trazem condenação sobre si mesmos. Pois os governantes não devem ser temidos, a não ser pelos que praticam o mal. Você quer viver livre do medo da autoridade? Pratique o bem, e ela o enaltecerá. Pois é serva de Deus para o seu bem. Mas se você praticar o mal, tenha medo, pois ela não porta a espada sem motivo. É serva de Deus, agente da justiça para punir quem pratica o mal.

Portanto, é necessário que sejamos submissos às autoridades, não apenas por causa da possibilidade de uma punição, mas também por questão de consciência. É por isso também que vocês pagam imposto, pois as autoridades estão a serviço de Deus, sempre dedicadas a esse trabalho. Dêem a cada um o que lhe é devido: Se imposto, imposto; se tributo, tributo; se temor, temor; se honra, honra. (Romanos 13:1-7)
Indo ao ponto, os governantes são ministros de Deus e, em última análise, o poder deles vêm de Deus e não do povo. A função principal das autoridades é punir aqueles que fazem o mal e enaltecer os que fazem o bem. E é nesta ordem, e não na oposta. Biblicamente, não pagamos impostos para redistribuir renda ou realizar obras públicas, mas sim para que o Estado tenha condições de dedicar-se ao seu trabalho de punir os maus, inclusive com a espada, e enaltecer os bons. A mesma ideia também é destacada em 1 Pedro:
Por causa do Senhor, sujeitem-se a toda autoridade constituída entre os homens; seja ao rei, como autoridade suprema, seja aos governantes, como por ele enviados para punir os que praticam o mal e honrar os que praticam o bem. (1 Pedro 2:13-14)
A definição pode parecer ampla, mas quando entendida em seu contexto, fica claro que o foco bíblico é a questão da Justiça. O Estado deve ter leis que regulem a sociedade de modo justo, criando punições para aqueles que procederem mal. Os maus devem ser julgados e punidos. A função principal da Justiça não é, exatamente, recuperar o malfeitor, mas fazer com que ele tema o castigo. A punição seria a forma de educar o culpado.
Marchas contra a corrupção: falta focar no principal

Desse modo, Romanos 13 e 1 Pedro 2 pressupõem um Legislativo e um Judiciário fortes. Punir e enaltecer só é possível se houverem critérios claros e justos, ou seja, leis. O Judiciário precisa ter autonomia para aplicar penas rigorosas e meios de fazer valer a legislação e seus julgamentos. Para isso, é necessário que existam policiais, armados, se preciso, para cumprir as determinações dos governantes.

Implicações principais
Parece interessante, não? Mas garanto que você vai mudar de ideia quando entender o que isso não significa. Romanos 13 e 1 Pedro 2 não dizem que é função das autoridades:

- Garantir renda mínima para todos;
- Dar educação e saúde de graça para todos;
- Garantir a aposentadoria de todos;
- Desapropriar terras para que todos os trabalhadores rurais tenham terra;
- Construir e manter estradas, portos ou ferrovias.

Aliás, segundo Romanos 13, nós não pagamos impostos para que o Estado faça nenhuma das coisas listadas acima. Mas, calma, não desista ainda do meu texto, porque há ponderações a serem feitas.

A primeira é a de que o Estado deve se concentrar em seu papel principal. Os maiores esforços de nossas autoridades devem ser concentrados na elaboração de leis que regulem a sociedade de modo justo (direito civil, penal, o funcionamento dos mercados, como os negócios devem funcionar, questões ecológicas), no correto julgamento, baseado na lei (uma Justiça ágil e eficiente) e na criação de um aparato executivo que garanta o respeito à legislação (fiscais alfandegários, de trânsito, ambientais, entre outros, soldados e policiais). Em outras palavras, os recursos e esforços governamentais deveriam estar centrados no fortalecimento de instituições como o Congresso Nacional e os diferentes tribunais, mas também do Ministério Público, da Defensoria Pública da União, das polícias em geral, das Forças Armadas, da Receita Federal, do Ibama, da Controladoria-Geral da União, do Banco Central e outros.

Se tivéssemos a noção de que esta é a função primordial dos governantes, o foco dos protestos seria outro. É mais do que simplesmente garantir a aprovação de mais uma lei (Ficha Limpa), mas sim o de repensar a forma como o Estado brasileiro trata dessas questões e está estruturado. Se nós ouvíssemos o ensino bíblico, o acesso à Justiça e o combate aos crimes seria intensificado. Batalharíamos para que os pobres fossem incluídos na esfera do Direito, por mudanças no processo penal (para que bandidos e corruptos fiquem na cadeia, ao invés de escaparem com "n" recursos), por um Estado onde não só juízes e deputados, mas cidadãos comuns possam viver em paz.

Mas vivemos em um mundo de recursos escassos. Não dá para o Estado concentrar-se em sua função principal e financiar a faculdade de todos...permitindo que até os ricos façam faculdade de graça! Não dá para o Estado pagar a conta de estádios e instalações esportivas caríssimas que não serão usadas depois. Não dá para o Estado financiar a expansão de empresas capitalistas ineficientes (como a indústria naval brasileira) ou de empresas eficientes que podem se expandir de outra forma (como a fusão de frigoríficos, telefônicas, etc).

A questão é que ninguém protesta contra isso, de fato. Ao contrário, a tendência é querer um Estado brasileiro cada vez maior, mais gigante, responsável por resolver todos os problemas da sociedade. A pessoa é desempregada? Ora, o Estado deve sustentá-la! O cidadão não se preocupou em planejar a sua velhice? Aposentadoria nele...mesmo que ele nunca tenha contribuído para a Previdência, poupando para o futuro. Roubou e foi pra cadeia? Bolsa para a sua família. Aí não dá.

Implicações secundárias
Por outro lado, o Estado também deve enaltecer o que faz o bem. O texto diz que isso vem na forma do louvor, do reconhecimento. Contudo, entendo que há outros textos bíblicos que nos mostram outras maneiras pelas quais isso deveria ser feito:
Antes de tudo, recomendo que se façam súplicas, orações, intercessões e ação de graças por todos os homens; pelos reis e por todos os que exercem autoridade, para que tenhamos uma vida tranqüila e pacífica, com toda a piedade e dignidade. (1 Timóteo 2:1-2)

Os demais acontecimentos do reinado de Ezequias, todas as suas realizações, inclusive a construção do açude e do túnel que canalizou água para a cidade, estão escritos no livro dos registros históricos dos reis de Judá. (2 Reis 20:20)

Também construiu torres no deserto e cavou muitas cisternas, pois ele possuía muitos rebanhos na Sefelá e na planície. Ele mantinha trabalhadores em seus campos e em suas vinhas, nas colinas e nas terras férteis, pois gostava da agricultura. (2 Crônicas 26:10)

No terceiro ano de seu reinado, ele enviou seus oficiais Bene-Hail, Obadias, Zacarias, Natanael e Micaías para ensinarem nas cidades de Judá. (2 Crônicas 17:7)
O primeiro texto destaca o desejo de que todos tenham uma vida tranquila e pacífica. Esta é uma ótima forma de premiar os bons. Mas a tranquilidade não é apenas segurança.

Problemas de abastecimento de água podem tirar o sossego e a paz de uma cidade. O mesmo pode ser dito da produção de alimentos e até mesmo da ignorância. Embora o último texto refira-se ao ensino da Lei, a Bíblia aprova governantes que investem em educação, ciência, tecnologia e em obras públicas que tragam melhorias a todos. 

Entendo que a lista acima não é exaustiva. Por isso, creio que áreas como a saúde, pelo impacto óbvio que trazem para a sociedade, também podem ser alvo da ação governamental. Mas não garantindo tudo de graça para todos. Previdência sim, mas para quem contribuiu para isso de modo satisfatório. Educação superior é paga em vários países do mundo, e cara, e isso não afetou o desenvolvimento destas nações. Saúde para os mais pobres, mas não há como pagar o último tratamento médico contra doenças graves para todos...há certas coisas que são limitadas pela realidade da escassez de recursos.

A discussão que falta
Desta maneira, à luz dos princípios bíblicos mencionados acima, fica claro que é preciso rediscutir o papel e o tamanho do Estado brasileiro. O nosso Estado é pequeno no que deveria ser grande, e gigante em áreas onde sua atuação é até questionável.
Devia o Estado apoiar iniciativas como as do MST?

Creio que esta é a discussão que precisa ser feita e tem sido negligenciada, seja pelos partidos, seja pelos movimentos anti-corrupção, seja pelas igrejas. E aqui fui meramente introdutório. Poderia discorrer sobre vários outros assuntos. Um Estado menor e focado cobra menos impostos, o que libera dinheiro para a economia, por exemplo. Dá menos espaços para a corrupção, porque há menos cargos e obras a negociar, além de uma fiscalização mais eficiente.

E, claro, está na hora de discutir o voto distrital e buscar formas mais democráticas de eleição de parlamentares.

A questão é: alguém topa fazê-la? Ou a proposta vai ser descartada em detrimento de visões marxistas e esquerdistas sobre o Estado, defendendo que ele vire um mamute para dar conta dos problemas da humanidade?

Estado e Evangelho
Embora não seja este o propósito do post, não posso concluí-lo sem dizer uma breve palavra sobre a relação destes conceitos com o Evangelho.

O Estado como agente fiscalizador das leis, premiador dos bons e castigador dos maus, é um símbolo do próprio Deus julgando a humanidade. O pagamento de impostos e a honra são tipos do respeito e dos recursos que também devemos dispender para a expansão do reino de Deus na terra. Se enxergado de forma correta, é um tipo poderoso do Juízo Final e uma boa lição sobre a justiça divina.

Como disse antes, o post é introdutório. Espero que outros possam desenvolver o assunto de uma perspectiva bíblica, buscando a restauração do Brasil, para a glória de Cristo.

Graça e paz do Senhor,

Helder Nozima
Barro nas mãos do Oleiro