09 outubro 2013

Vivendo sem figos

O que provoca uma crise de fé? O que faz com que as pessoas deixem de confiar no Senhor e passem a vê-Lo como um Deus mau e insensível? O senso comum diz que é preciso algo muito grave. Um grande desastre pessoal, como uma morte ou então uma guerra que seja difícil de suportar. Talvez seja um livro ou artigo científico que questione pilares básicos da fé. 

Mas a experiência pastoral mostra que coisas muito mais simples abalam o nosso relacionamento com o Senhor. A fé vacila e algumas vezes desaparece por causa de coisas tão importantes...como figos. Sim, figos são frutos deliciosos (pelo menos eu adoro quando estão frescos) que podem ser transformados em doce ou fazer parte de sobremesas saborosas. Porém, por mais fantásticos que sejam, qualquer um vive sem figos. Menos o povo de Israel:
Chegando os filhos de Israel, toda a congregação, ao deserto de Zim, no mês primeiro, o povo ficou em Cades. Ali, morreu Miriã e, ali, foi sepultada. Não havia água para o povo; então, se ajuntaram contra Moisés e contra Arão. E o povo contendeu com Moisés, e disseram: Antes tivéssemos perecido quando expiraram nossos irmãos perante o SENHOR! Por que trouxestes a congregação do SENHOR a este deserto, para morrermos aí, nós e os nossos animais? E por que nos fizestes subir do Egito, para nos trazer a este mau lugar, que não é de cereais, nem de figos, nem de vides, nem de romãs, nem de água para beber? (Números 20:1-5)
"Calma aí, não é bem isso não. O povo queria água." Sim, em um primeiro momento, parece que a razão da reclamação dos israelitas era a falta de algo essencial. Sem água, não dá pra viver. Todavia, repare que a queixa não era só por causa dela. Os israelitas queriam saber porque Deus, usando Moisés e Arão, os levou a um lugar onde eles não tinham cereais, vides, romãs...e figos! Como diz certa música, "a gente não quer só comida, a gente quer comida, diversão e arte".

O básico como disfarce do supérfluo
Por outro lado, os israelitas sabiam que água não era problema. Quando chegamos em Números 20 e verificamos outros textos da Bíblia, sabemos que essa história aconteceu no ano quadragésimo da saída de Israel do Egito. Ao longo de quarenta anos, Deus havia suprido alimento e água para uma multidão de cerca de dois milhões de pessoas. Os mais velhos se lembravam de como Deus sarou as águas de Mara (Êxodo 15:22-27) ou de como a água saiu da rocha naquele mesmo lugar, no deserto de Zim, quarenta anos antes (Êxodo 17:1-7). A verdade é que não havia motivos para por Deus em dúvida quanto ao suprimento do que era básico.

O que a falta de água proporcionou foi o momento ideal para que os israelitas se queixassem de não poderem usufruir de certos luxos. Como se eles fossem sindicalistas profissionais, aproveitaram uma revindicação básica para acrescentar outros itens à pauta. Não perderam a chance de atacarem os líderes e chegaram ao exagero de desejarem ter morrido! Afinal, a morte era melhor do que viver em uma terra má, sem certos alimentos que eles tanto desejavam.

Não que seja algo ruim comer um pão de trigo ao invés do maná, que era o pão que caía do céu para alimentar o povo. Ou que seja pecado beber vinho e comer figos e romãs. São prazeres lícitos. Mas não são essenciais à vida. A falta de tais luxos não compromete a nossa vida a ponto de desejarmos a morte. Não é motivo para que ataquemos nossos líderes espirituais (e mesmo os temporais).  Não justificam nossas acusações de que Deus nos levou a uma terra má.

Hoje não agimos de modo diferente. Usamos necessidades básicas, por exemplo, amar e ser amado ou a companhia, como disfarces para reclamarmos de desejos que não são essenciais, como namorar ou ter a admiração das pessoas ao nosso redor. Sabemos que Deus suprirá nossas necessidades, até nos recordamos de como Ele fez isso no passado, mas nos esquecemos disso e usamos o básico como camuflagem para a nossa verdadeira queixa. Sem os figos dos prazeres da vida, das riquezas, do casamento ou da popularidade, dizemos que a morte é melhor que a vida.

A posição de Deus quanto ao supérfluo
Embora o pedido do povo fosse egoísta, Moisés e Arão fizeram o mesmo que Jesus faz por nós: eles foram orar ao Senhor pelo povo. E Deus respondeu:
Então, Moisés e Arão se foram de diante do povo para a porta da tenda da congregação e se lançaram sobre o seu rosto; e a glória do SENHOR lhes apareceu. Disse o SENHOR a Moisés: Toma o bordão, ajunta o povo, tu e Arão, teu irmão, e, diante dele, falai à rocha, e dará a sua água; assim lhe tirareis água da rocha e dareis a beber à congregação e aos seus animais. Então, Moisés tomou o bordão de diante do SENHOR, como lhe tinha ordenado. Moisés e Arão reuniram o povo diante da rocha, e Moisés lhe disse: Ouvi, agora, rebeldes: porventura, faremos sair água desta rocha para vós outros? Moisés levantou a mão e feriu a rocha duas vezes com o seu bordão, e saíram muitas águas; e bebeu a congregação e os seus animais. (Números 20:6-11)
Há uma lição dura aqui para os crentes brasileiros do século XXI: o compromisso do Senhor é com o básico, e não com o supérfluo. Não é que Ele não permita que tenhamos luxos ou que desfrutemos dos prazeres santos que a criação oferece. Recebemos isso muitas vezes. Só que luxo não é necessidade. E o Senhor quer que estejamos fiéis mesmo que tenhamos somente o necessário. Aquilo que é suficiente para a nossa existência também deve ser suficiente para a nossa alegria:
Tendo sustento e com que nos vestir, estejamos contentes. (1 Timóteo 6:8)
Nós podemos viver em um deserto árido, sem nenhuma paisagem agradável à vista. O clima pode ser seco todos os dias, com direito a tempestades diárias de areia. A comida pode ser a mesma: o pão do céu que Deus manda diariamente, incrementado com a carne de sacrifícios pacíficos oferecidos ocasionalmente e o leite dado pelo rebanho. A vida pode até não ter o doce de um figo ou o sabor do vinho. Ainda que a nossa existência seja apenas "pão é agua" no deserto, isso é suficiente para que estejamos contentes.

A casa pode ser alugada, tão provisória como uma tenda no deserto. O emprego ruim, só dá pra comprar comida e roupa...e olhe lá. O amor da vida pode parecer tão real como uma miragem. O reconhecimento das pessoas em relação ao nosso trabalho pode ser nulo. Mesmo assim, se estamos na presença de Deus e Ele supre o que necessitamos, nossa reação deveria ser de louvor e gratidão.

Uma vida melhor não existe?
Isso quer dizer, então, que devemos esperar uma vida miserável neste mundo e deixar todas as esperanças de felicidade e realização para o céu? Não exatamente. Primeiro porque uma vida com o necessário não é miserável. Troque de lugar com alguém que não tem nada por um dia e a gratidão será automática. E, em segundo lugar, Deus promete sim coisas boas, luxos (sim, luxos!) aos seus filhos. Só que tais bênçãos só são dadas no tempo d'Ele e de acordo com os propósitos d'Ele.
Disse ainda o SENHOR: Certamente, vi a aflição do meu povo, que está no Egito, e ouvi o seu clamor por causa dos seus exatores. Conheço-lhe o sofrimento; por isso, desci a fim de livrá-lo da mão dos egípcios e para fazê-lo subir daquela terra a uma terra boa e ampla, terra que mana leite e mel; o lugar do cananeu, do heteu, do amorreu, do ferezeu, do heveu e do jebuseu. (Êxodo 3:7-8)

Só que essa bênção não é para todos. É preciso ter fé em Jesus e obedecê-Lo:
Todos eles comeram de um só manjar espiritual e beberam de uma pedra espiritual que os seguia. E a pedra era Cristo. Entretanto, Deus não se agradou da maioria deles, razão por que ficaram prostrados no deserto. Ora, estas coisas se tornaram exemplos para nós, a fim de que não cobicemos as coisas más, como eles cobiçaram. 
Não vos façais, pois, idólatras, como alguns deles; porquanto está escrito: O povo assentou-se para comer e beber e levantou-se para divertir-se. 
E não pratiquemos imoralidade, como alguns deles o fizeram e caíram, num só dia, vinte e três mil. Não ponhamos o Senhor à prova, como alguns deles já fizeram e pereceram pelas mordeduras das serpentes. Nem murmureis, como alguns deles murmuraram e foram destruídos pelo exterminador. Estas coisas lhes sobrevieram como exemplos e foram escritos para advertência nossa, de nós outros sobre quem os fins dos séculos têm chegado. (1 Coríntios 10:3-11)
E ainda:
Ora, quais os que, tendo ouvido, se rebelaram? Não foram, de fato, todos os que saíram do Egito por intermédio de Moisés? E contra quem se indignou por quarenta anos? Não foi contra os que pecaram, cujos cadáveres caíram no deserto? E contra quem jurou que não entrariam no seu descanso, senão contra os que foram desobedientes? Vemos, pois, que não puderam entrar por causa da incredulidade. (Hebreus 3:16-19)
Mas, para os que estão com Cristo:
Tornou Jesus: Em verdade vos digo que ninguém há que tenha deixado casa, ou irmãos, ou irmãs, ou mãe, ou pai, ou filhos, ou campos por amor de mim e por amor do evangelho, que não receba, já no presente, o cêntuplo de casas, irmãos, irmãs, mães, filhos e campos, com perseguições; e, no mundo por vir, a vida eterna. (Marcos 10:29-30)
Conclusão
Deus é bom. Ele conhece mais do que as nossas necessidades: Ele também sabe do que desejamos e ansiamos. Mas Ele também quer nos ensinar que a vida pode ser boa, mesmo sem "figos". Que Ele é suficiente para nós. E que não devemos viver ansiosos ou nos sentindo diminuídos quando vivemos uma vida sem luxos.

Por outro lado, Ele também quer nos mostrar que "figos" não valem uma crise de fé. Eles não são tão preciosos a ponto de nos fazer questionar a bondade do Senhor e atacarmos os nossos líderes, sejam eles pais, pastores ou amigos piedosos. Não é o doce dos "figos" que torna uma vida boa ou ruim. Se entendermos isso, Ele nos levará a uma terra de leite, mel...e vinhas e figos. Nós só precisamos crer. E nos manter fiéis.

É uma lição difícil, principalmente pra mim. Mas que o Senhor tenha compaixão e nos ensine a viver com alegria, mesmo sem "figos".

Graça e paz do Senhor,

Helder Nozima
Barro nas mãos do Oleiro

25 julho 2013

A caricatura gospel do casamento gay

Este texto reflete um posicionamento pessoal, e não de nenhuma igreja ou denominação.

Começo este texto destacando o óbvio. Sou um pastor presbiteriano que acredita que a Bíblia é a Palavra de Deus. Logo, assim como todos os outros que partem dos mesmos pressupostos, sou contrário ao casamento homossexual. Entendo que não há qualquer motivo pelo qual eu deva me envergonhar de afirmar esta opinião e que ela é sim defensável na arena pública.

Porém...entendo que essa defesa é bem mais difícil do que sugerem os sermões de muitos pastores ou os textos e vídeos de blogueiros e vlogueiros evangélicos. Os protestantes reclamam que o movimento LGBT combate uma caricatura do cristianismo. Que nem tudo se resume a Silas Malafaia e Marco Feliciano (louvado seja Deus por isso). Só que os cristãos também fazem o mesmo! E aí fica fácil: é sempre mais fácil bater na caricatura de um movimento do que na sua essência.

Os cristãos também são ignorantes sobre aquilo que eles desejam combater. E engana-se quem pensa que só os pastores neopentecostais caem nessa. Um bom exemplo é o vídeo "Por que sou contra o casamento gay?", do Vlog do Yago.

O que tem de errado nele? Muita coisa.

As bases do casamento gay
Ao contrário do que afirma Yago Martins, há sim bases filosóficas, políticas e teóricas para defender o casamento gay. Aliás, bases que se encontram à esquerda e à direita.

A primeira de todas e a mais importante é o antropocentrismo. Desde o advento da Idade Moderna, o paradigma filosófico do Ocidente é o de que o homem é a medida de todas as coisas, e não Deus. Isso significa que a autoridade sai das mãos da "Igreja" (seja ela qual for) e vai para os próprios seres humanos. É a razão humana que determina o que é bom e mau, o que é verdadeiro ou mentiroso.

Quando o antropocentrismo é abraçado, a revelação bíblica torna-se apenas mais uma das muitas vozes que podem ou não ser consideradas na hora de definir a moral de uma sociedade. Ela precisa competir com outras religiões e ideologias. Idealmente, a razão decidiria qual padrão seria adotado, ou melhor, criaria um novo padrão. E aí o desafio cristão é provar, racionalmente, que o casamento gay é um erro.

Contudo, isso não é suficiente, porque o liberalismo é outra base para a implementação do casamento gay. O antropocentrismo não produziu uma unidade entre os seres humanos, já que muitos chegam a conclusões opostas usando a razão (e outros fatores). Para garantir a coexistência pacífica, dá-se a cada um o direito de viver como melhor lhe parece, regulando-se o mínimo possível as relações humanas. A regulação deve ser apenas a necessária e a liberdade deve ser maximizada.

Uma das implicações óbvias do liberalismo é a liberdade de cada um viver sua sexualidade como melhor lhe parece. Por que manter relações sexuais apenas no casamento? Aliás, por que me casar? E por que se casar apenas com uma mulher, se posso me casar com duas? E dois homens e duas mulheres: qual o problema? É meu direito, dizem os liberais.

E antes que o protestante chame o liberalismo de demoníaco, saiba que é o liberalismo que permitiu a existência do protestantismo. Porque o liberalismo não diz respeito apenas à liberdade sexual: ele é a base das liberdades religiosa, de opinião, de expressão e de pensamento. Sem esses direitos fundamentais, minorias religiosas não poderiam sobreviver.

Vale lembrar que o casamento gay vai muito além de um simples debate sobre liberdade sexual. O que o movimento LGBT quer é ter a liberdade de viver os conceitos do casamento e da família de modos diferentes dos estabelecidos pela moralidade judaico-cristã. Isso envolve a liberdade de pensamento, de opinião...e de expressão! Argutos defensores do casamento gay poderiam dizer que não importa se essa união é superior à judaico-cristã, eles têm o direito de escolher um modelo alternativo de união. Negar-lhes tal direito é negar-lhes uma liberdade fundamental. E aí há uma base filosófica, política e teórica forte, que é completamente ignorada na resposta.

Para fazermos um tripé, ainda há o relativismo cultural. Uma das defesas de Yago Martins é a de que o casamento entre um homem e uma mulher fazem parte da nossa cultura e da Constituição. Ele questiona porque o Estado quer agora mudar essas definições e aponta para um perigo totalitário, de excessiva interferência do Estado nas liberdades individuais.

Quanto à interferência, o liberalismo já contradiria a resposta do Yago: restringir o casamento ao conceito judaico-cristão é que seria a interferência do Estado sobre as liberdades individuais. Quanto à mudança de um conceito central sobre a família, o movimento LGBT poderia simplesmente apontar para o passado e para outras sociedades.

A verdade é que o casamento monogâmico entre um homem e uma mulher não é o único modelo. No passado, o amor homoafetivo era glorificado, por exemplo, na sociedade grega. Em tribos indígenas brasileiras, o homossexualismo não só era praticado como era necessário em rituais religiosos dos pajés. Ou seja, há uma raiz cultural que tem sido evocada em defesa do casamento gay no nosso próprio país.

Mas a diversidade não para aí. O islamismo é poligâmico. Palácios reais do Extremo Oriente tinham haréns extensos com esposas, concubinas e outras (lembra das gueixas?). Com tantas possibilidades, por que parar na visão cristã?

Se o homem é a medida de todas as coisas, se devemos ser livres para vivermos nossa vida e se há diferentes padrões em voga...por que submeter-se ao ponto de vista cristão? Se eu, Yago ou qualquer outro pensador cristão quiser defender a visão bíblica do casamento como um valor que a sociedade deve aceitar, é preciso atacar essas três bases. E ainda há outras.

A ridicularização
Mas Yago usa um outro "trunfo" usado por muitos cristãos, inclusive católicos, como Olavo de Carvalho. Se eu estendo o casamento aos homossexuais, por que não autorizar o casamento com crianças ou animais?

Talvez ele não saiba, mas há uma resposta: a capacidade de compreensão e o consenso. Uma criança não poderia se casar porque não tem a maturidade física e psicológica necessárias para consentir com um relacionamento sexual. Se o exercício da sexualidade não é consensual ou pode trazer traumas, o casamento não seria permitido. Esse seria o limite. Se dois ou mais "adultos" querem se relacionar consensualmente e têm consciência das implicações, por que não?

Dito de outra forma: o homem (antropocentrismo) é livre (liberalismo) para redefinir qualquer conceito ou forma de organização social (relativismo cultural). Conceitos mudam com o passar do tempo. Até a visão judaico-cristã de casamento mudou: no Antigo Testamento a poligamia era aceita, no Novo Testamento não. Ah, dirá o cristão, Deus que mudou. Pois bem: o não-religioso pode usar o argumento do Yago e afirmar que "quem me garante que, em nome de Deus, a Igreja não vai redefinir o significado de família, casamento, criação de filhos, como transo...?".

Mudar o conceito não é o problema: eles mudaram, de fato. A luta é a autoridade: ela pertence a Deus ou aos homens?

Sem méritos?
Mas há sim alguns méritos na visão do Yago. Ele declara claramente o seu pressuposto: a revelação bíblica. Ele denuncia que a permissão de certas escolhas morais pode trazer consequências à sociedade que não estavam previstas e gerar um certo caos. Ele aponta, corretamente, que há grupos, textos e posturas extremadas, que vão muito além da liberdade dos relacionamentos homossexuais: querem por fim à heteronormatividade e/ou admitir práticas ainda mais distantes, como a pedofilia.

Contudo, atacar as versões extremadas é atacar a caricatura. É a mesma coisa que bater no Silas Malafaia e no Marco Feliciano e ignorar bons debatedores do assunto, como o Rev. Augustus Nicodemus. Podemos fazer melhor.

Como? Atacando aquilo que o Yago não conseguiu enxergar (e admitiu isso no vídeo): as bases filosóficas, políticas e teóricas do casamento gay.

Minha visão
Este texto não tem a pretensão de detalhar a minha própria visão sobre o assunto. Há outros textos meus no blog sobre o assunto, é só usar a ferramenta de busca na lateral que você vai achá-los ou buscar a tag "homossexualismo". Sou contra o casamento homossexual. Entendo que este é um limite que o Estado não deveria cruzar. Mas ainda preciso estudar mais para defender melhor meus pressupostos:

Teocentrismo: é Deus, e não o homem, quem define o que é certo ou errado.
Conservadorismo: as pessoas devem ser livres para viver como quiserem, mas há certos valores que devem ser observados por todos, independente de suas crenças.
"Absolutismo" (na falta de termo melhor): há sim padrões e valores superiores aos outros. Nem tudo é relativo.

Lamento se decepcionei leitores cristãos e não-cristãos. Os últimos me perdoem, mas eu sou um pastor, você não deveria esperar uma conclusão diferente. Os primeiros me perdoem, mas as críticas são formas de melhorarmos.

 Graça e paz do Senhor,

Helder Nozima
Barro nas mãos do Oleiro

12 junho 2013

Feliz Dia dos Namorados

Alegrai-vos com os que se alegram e chorai com os que choram (Romanos 12:15)
Certas datas possuem o poder de despertar reações fortemente contraditórias. Isto é particularmente verdadeiro quando as datas remetem à família. O Dia das Mães ou o Natal podem ser o ponto alto do ano para uns e o dia mais triste para vários outros. E o mesmo acontece com o Dia dos Namorados.

Para quem namora, o dia até começa diferente, com a perspectiva de como serão as comemorações e os recadinhos românticos. Mas, para quem está só, hoje é um dos dias em que quase acreditamos no karma. Não basta a solidão, é preciso ver a felicidade de outros casais estampada na TV, no Mural do Facebook, nas conversas...ver os buquês de rosas sendo entregues a colegas de trabalho...e nem as igrejas ajudam muito. Afinal, se não está tendo um jantar "romântico" hoje, aposto com você que namoro é o tema do próximo encontro dos adolescentes e dos jovens da igreja. É de matar.

Mas, por mais que tal ideia pareça odiosa, o desafio cristão para os solteiros é o de se alegrarem no dia de hoje. Sim, é isso mesmo. Ao invés de afundar na melancolia, o convite de Cristo é o de que nos alegremos com aqueles que estão celebrando namoros e casamentos feitos segundo a vontade de Deus. Afinal de contas, Dia dos Namorados não é dia de luto, mas de festa. Então, é para se alegrar com os que estão alegres.

Qual a raiz?
E por que Deus quer que nos alegremos? Ora, a bênção alcançou a outros, por que eu devo me alegrar se eu continuo na mesma? Uma boa razão é que a raiz deste pensamento é pecaminosa.

Pode ser que a inveja esteja por trás de nossa tristeza. A inveja é o descontentamento provocado pela felicidade dos outros. Se os outros estivessem sozinhos como nós, então estaríamos felizes. Quando invejamos, confessamos que a medida de nossa alegria não está nem em Deus e nem em nós mesmos...mas nos outros.

Outra possível raiz é a incredulidade. É difícil acreditar que Deus irá suprir nossas carências afetivas e que esperar n'Ele é a melhor solução para os que desejam casar. Quando duvidamos disso, o desânimo vem. Não queremos sonhar um sonho que parece impossível e nos irritamos quando alguém toca no assunto. É a mesma reação que os israelitas tiveram quando se tornaram incrédulos de que Deus os faria herdar a terra de Canaã. Quando Calebe e Josué falaram, com entusiasmo, da Terra Prometida, quase foram apedrejados (você pode ler esta história em Números 13 e 14).

Em comum, ambas as raízes produzem a murmuração. Seja por inveja, seja por incredulidade, nos tornamos ingratos e começamos a reclamar. Reclamamos de Deus, de nós mesmos, dos outros, dos ex-namorados, das ex-namoradas...murmuramos, enfim. Nos fechamos em nosso egoísmo. O Dia de Finados parece mais divertido que o dos Namorados.

Um caminho
Não que seja fácil. Quem me conhece sabe como eu gosto de curtir uma fossa, sou chegado a uma melancolia ou a um drama exagerado (de acordo com a visão de alguns, rs). Mas, o convite que Jesus me faz neste Dia dos Namorados é o de tirar o foco egoísta de mim para alegrar-me com o que Ele faz por outros. 

Na verdade, é exatamente esta a proposta do texto que abre este post. Alegrar-se com os que se alegram é um desdobramento do mandamento de amar ao próximo. Como está escrito alguns versículos acima:
Amai-vos cordialmente uns aos outros com amor fraternal, preferindo-vos em honra uns aos outros. (Romanos 12:10)
Alegrar-se com a alegria de outro é uma forma de preferir o outro em honra, de amar cordialmente outras pessoas, de termos um amor de irmãos em Cristo. Mais do que isso: é uma ordem de deixarmos nosso egoísmo e tristeza de lado para manifestarmos amor aos que o Senhor tem abençoado.

Um incentivo extra
Mas não é qualquer namoro que deve ser celebrado. Na verdade, devemos nos alegrar é com os namoros que são firmados na visão bíblica de amor...e casamento! Quando um homem e uma mulher se amam e respeitam a castidade um do outro, buscando, com sinceridade, representarem a Cristo e a Igreja, estamos diante de um dos mais belos sermões vivos e reais que podem ser pregados sobre o Evangelho. Cada casamento bem-sucedido é um belo retrato da obra que Jesus veio realizar em nossas vidas. É uma das melhores formas de adoração que existem! Se você ama a Deus, vai se alegrar em vê-Lo sendo glorificado assim!

E, claro, um relacionamento abençoado pelo Senhor trará alegria e felicidade para os "pombinhos". Se somos mesmo amigos, ficamos alegres quando nossos amigos estão bem. Não importa que estejamos mal: a alegria dos nossos amigos já é motivo suficiente para celebrar.

Fácil não é. Mas Jesus fez algo muito mais difícil: Ele sofreu para que nós pudéssemos nos alegrar. E Ele está à disposição de sua Igreja, para nos dar a força que precisamos para nos alegrarmos hoje.
Eis por que deixará o homem a seu pai e a sua mãe e se unirá à sua mulher, e se tornarão os dois uma só carne. Grande é este mistério, mas eu me refiro a Cristo e à igreja. (Efésios 5:31-32)

Graça e paz do Senhor,

Helder Nozima
Barro nas mãos do Oleiro

22 março 2013

O ministério profético de Charles Spurgeon. E não falo dos seus sermões...

Extraído de Surpreendido Com a Voz de Deus, de Jack Deere, da Editora Vida. Uma pena que o livro não esteja mais disponível para venda.
Charles Spurgeon

"Veja, por exemplo, o ministério de Charles Spurgeon (1834-1892), o grande pregador batista da Inglaterra. Certa vez, quando pregava no Exeter Hall, Spurgeon interrompeu o sermão subitamente em apontando para um rapaz, disse: 'Meu jovem, essas luvas que você está usando não foram pagas. Você as roubou de seu patrão'. Posteriormente, o jovem rapaz confessou a Spurgeon que havia roubado as luvas, mas agora ia pagar por seu pecado. Em outra ocasião, enquanto pregava, Spurgeon disse que havia um homem na galeria com uma garrafa de gim no bolso. Aquilo não só assombrou o homem com a bebida, mas também o levou à conversão.

Ouça a explicação do próprio Spurgeon sobre seu ministério profético:
Enquanto pregava, certa ocasião, deliberadamente apontei para um homem no meio da multidão e disse: 'Há um homem aqui que é sapateiro, ele mantém a oficina aberta aos domingos, ela estava aberta na manhã do último domingo, ele tomou nove pence e teve um lucro de quatro pence, sua alma foi vendida a Satanás por quatro pence!' Um missionário da cidade, quando passava por aquela vizinhança, encontrou esse homem e, vendo que lia um sermão de Spurgeon, perguntou-lhe:
- Você conhece o senhor Spurgeon?
- Sim - respondeu o homem - tenho todas as razões para conhecê-lo, fui ouvi-lo e, por meio de sua pregação, pela graça de Deus, tornei-me uma nova criatura em Cristo Jesus. Posso contar como aconteceu?  Fui ao Music Hall e me assentei no meio do salão; o sr. Spurgeon olhou para mim como se me conhecesse e no sermão apontou para mim, dizendo a toda a congregação que eu era um sapateiro que mantinha minha oficina aberta aos domingos. e era verdade, senhor. Não devia ter-me importado com aquilo; mas ele também falou que ganhei nove pence no domingo anterior e que tive um lucro de quatro pence, mas como sabia aquilo, não sei. Então percebi que era Deus que havia falado à minha alma por meio dele; aí fechei minha oficina no domingo seguinte(...)
Poderia contar pelo menos uma dezena de casos semelhantes em que apontei para alguém no salão sem ter o menor conhecimento sobre a pessoa ou nenhuma certeza de que o que disse estaria certo, a não ser o fato de que acreditava estar sendo tocado pelo Espírito Santo para dizê-lo; e o que dizia é tão preciso e atordoante, que as pessoas saíam e diziam aos amigos: 'Venham ver o homem que me disse tudo que já fiz; sem dúvida, deve ter sido enviado por Deus para falar à minha alma, de outra forma não poderia ter dito tudo tão precisamente'. Não somente isso, mas passei por muitas situações em que o pensamento dos homens me foi revelado no púlpito..."

22 janeiro 2013

As Aventuras de Pi, o crente...e o cético

De fato, sem fé é impossível agradar a Deus, porquanto é necessário que aquele que se aproxima de Deus creia que Ele existe e que se torna galardoador dos que O buscam. (Hebreus 11:6)
ATENÇÃO: Este texto contem revelações (spoilers) sobre o enredo do filme "As Aventuras de Pi".

Deus existe? Como posso provar, racionalmente, a existência de Deus? A busca por respostas a estas perguntas gerou intensos debates filosóficos. Vários teólogos cristãos dedicaram-se a buscar provas racionais da existência de Deus sem precisar apelar à fé. O fruto deste esforço é visto em algumas teses, como a dos argumentos cosmológico, ontológico ou o teleológico (representado hoje pela Teoria do Design Inteligente).

Contudo, quem já tentou dialogar com um ateu consistente sabe como é frustrante usar estes argumentos.  Não é que eles sejam ruins, eu, particularmente, considero-os válidos. Mas, para a alma racionalista, sempre haverá uma explicação que exclua Deus do Universo. Por outro lado, a alma crédula enxergará Deus em tudo o que vê.

É o que mostra o filme "As Aventuras de Pi". Desde a infância, Pi Pattel acredita em todo tipo de Deus. Lê revistas em quadrinhos com as histórias dos deuses hindus. Entra em uma igreja católica e encanta-se com as histórias sobre Jesus e não entende como Ele pode sofrer a condenação eterna no lugar de homens pecadores. Passa por uma mesquita e deslumbra-se com o ritual das orações islâmicas. Ingenuamente, Pi acredita em tudo e tenta viver de acordo com todas as religiões que conhece.

Enquanto isso, seu pai, Santosh Pattel, é um homem que acredita apenas na razão. Decepcionado com a religião hindu, Pattel conclui que a grandeza do Ocidente repousa na razão e na ciência. Empreendedor e bem-sucedido, Santosh tenta destruir a ingenuidade de Pi, mostrando-lhe como a natureza funciona e os animais podem ser cruéis. Inicialmente Santosh consegue adormecer a fé em Pi, mas deixa no filho um vazio que não é preenchido pelo racionalismo.

Até que um desastre muda tudo. Quando Pi deixa a Índia para morar no Canadá, ele perde toda a família em um naufrágio. Sozinho, ele ainda precisa dividir seu bote salva-vidas com animais, sendo que um deles é um tigre. E é aí que Pi e os espectadores do filme podem descobrir um outro caminho que mostra a existência de Deus.

Sem fé, é impossível reconhecer a Deus
E o primeiro passo é exatamente o da fé. Se o ateu e o agnóstico só terão fé depois de terem argumentos racionais, então Deus jamais se revelará a eles. Como diz o versículo que abre este texto, Deus não se agrada da falta de fé. Quem quiser se aproximar d'Ele não pode ter dúvidas de que Ele existe.

Quando há fé, porém, a mão de Deus é enxergada nos piores momentos. Enquanto vê o navio cargueiro que levava a sua família afundar no Oceano Pacífico, Pi busca forças na esperança de vê-los novamente e confessa esta crença em meio ao desastre. Nas horas de grande dificuldade ou quando bênçãos inesperadas surgem, Pi sempre ora e mostra gratidão. Quando Santosh mostrou a Pi a crueldade da vida pela primeira vez, a fé do jovem indiano vacilou. Mas quando Pi conheceu a crueldade do mundo em toda a sua intensidade...vendo uma tempestade levar sua família, tendo que lutar com um tigre por comida, guardando ansiosamente gotas de água da chuva e até tendo que mudar seus hábitos alimentares...ele recuperou, com uma intensidade ainda maior, a sua fé de que Deus (ou deuses) existem.

Para Pi, é impossível entender a sua história sem enxergar pequenos milagres que o mantiveram vivo. Mas os ateus são como os japoneses no final do filme. Deus e seus milagres são a fantasia de um jovem, o delírio de um náufrago. Quando os religiosos contam sobre como Deus os ajudou a enfrentar a morte ou a doença, o ateu se surpreende em ver como os homens encontram força em uma mentira.
Diz o insensato no seu coração: Não há Deus. Corrompem-se e praticam abominação, já não há quem faça o bem. (Salmo 14:1)
Há um propósito por trás de todas as coisas
Mas a fé de Pi é maior do que simplesmente acreditar que Deus existe. Ele crê em algo maior: que há um propósito divino em tudo o que acontece, mesmo nas piores peças que a vida nos prega.

Acreditar nisso traz paz em meio à angústia. Impressiona-me ver como o jovem Pi não explode em um acesso de raiva ou de desespero ao longo do filme. Não sei você, mas eu explodo com muito menos. Um pneu furado, uma batida de carro, uma conta que não foi paga e pronto...pode ser o suficiente para que eu passe o resto do dia deprimido, perguntando ao Senhor o que fiz para Ele me tratar assim e fique mal-humorado, tendo que me controlar para não descontar em outros a minha frustração.

Não é que Pi seja um "super-homem". Ele tem altos e baixos. Mas, mesmo lá, ele não se esquece que tudo tem uma razão de ser. Quando ele não entende nada e se frustra, ele ora e se rende diante de Deus. Confessa a sua ignorância sobre a razão de seu desastre e se entrega nas mãos de um Deus que ele não sabe quem é. 

E essa perseverança é recompensada no final, quando Pi mostra a gratidão mais inusitada de todas. Ele agradece a Deus por ter mantido um tigre com ele em todo o naufrágio! Reconhece que, sem aquele animal, ele não sobreviveria!

E é aqui que o hindu é mais cristão e reformado do que muitos cristãos reformados. Se, verdadeiramente, aplicássemos a Bíblia ao nosso dia-a-dia, seríamos gratos a Deus em todas as situações. Nos momentos de tribulação e nas perdas, quando Deus nos diz não, entenderíamos que o Senhor quer nos ensinar algo. Viveríamos com a esperança de que o mal de hoje pode ser o bem de amanhã. O desespero jamais nos dominaria, porque Deus está no controle de tudo. 
Assim como tu não sabes qual o caminho do vento, nem como se formam os ossos no ventre da mulher grávida, assim também não sabes as obras de Deus, que faz todas as coisas. (Eclesiastes 11:4)
O que Pi não ensina
São belas lições de uma história muito bonita. Entretanto, "As Aventuras de Pi" não é perfeito. Piscine Pattel sabe que Deus existe e que seus infortúnios são uma prova disso. Mas ele não sabe quem é o verdadeiro Deus.

Na verdade, Pi não é um homem de várias religiões, como o filme tenta mostrar. Ele é e sempre foi um hindu. Quem acredita em 33 milhões de deuses, pode acreditar em 33 milhões e dois. Quem se vê culpado em várias religiões, pode acomodar mais uma ou duas em sua cosmovisão. Pode definir-se como um hindu católico. A miscigenação de fés não é algo estranho para um politeísmo tão profuso como o indiano.

Entretanto, há algo de brilhante e profundamente triste sobre Pi, que poucos notaram. Pi deu todos os passos de fé necessários para encontrar-se com o verdadeiro Deus, menos o último. Quando ele conheceu a história de um Jesus que veio ao mundo para sofrer uma pena que não era d'Ele, Pi agiu como um cético. Ele até entendeu, mas recusou-se a aceitar. Por isso, ele não acreditou no Evangelho.  E, porque lhe faltou o último passo de fé, Pi se tornou um teísta, mas não um cristão.

Infelizmente, muitos religiosos de hoje caem no mesmo erro. Acreditam em Deus e em seus propósitos. Conhecem a história e os rituais do cristianismo e sentem um respeito e uma admiração por Jesus. Amam todos os detalhes da vida de Cristo, mas desprezam a essência de Sua missão, o grande propósito da Sua vida.
Pois o próprio Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos. (Marcos 10:45)
Jesus veio morrer para que, por meio de Sua morte, todos os que crerem n'Ele escapem da condenação divina e herdem a vida eterna. E, quando entendemos isso, a nossa busca termina. Aí sim deixamos de lado 33 milhões de deuses porque conhecemos o Deus Único e Verdadeiro.

O meu desafio a você, ateu ou religioso, é que você tenha fé e descubra que, verdadeiramente, só existe Um   Único Deus. Como disse Jesus:
Se alguém quiser fazer a vontade d'Ele, conhecerá a respeito da doutrina, se ela é de Deus ou se eu falo por mim mesmo. (João 7:17)
Graça e paz do Senhor,

Helder Nozima
Barro nas mãos do Oleiro