20 janeiro 2014

O mito de que todos são iguais

Os piores inimigos não são os declarados, mas sim aqueles que se apresentam como nossos amigos. Conquistam nossa confiança e intimidade até que, quando estamos completamente desarmados, eles nos destroem. O mesmo pode ser dito de certas doutrinas. Parecem inofensivas e ganham a confiança dos cristãos. Quando tornam-se populares, aí vemos os seus frutos. E é tarde demais.

Pois bem, um dos maiores chavões evangélicos é responsável por uma série de escolhas ruins que têm arruinado relacionamentos afetivos, igrejas e até mesmo todo o nosso país. Uma afirmação tão popular e absoluta que suas consequências lógicas e práticas não são examinadas. Que chavão é este?
Não existe pecadinho, pecado, pecadão. Todos os pecados são iguais.
Qual o problema em se acreditar nisso? Além de contrariar o ensino bíblico, a crença de que todos os pecados são iguais tem sido levada para outros campos que extrapolam a fé. E a religião, ainda que desvalorizada, tem o poder de repercutir na forma como lidamos com nossas emoções e com nosso país. Por isso, de certa forma, acreditamos que:

- Todas as heresias são iguais;
- Todas as mulheres e homens são iguais;
- Todas as ideologias e políticos são iguais...etc...

E, bem, já que tudo é igual e não faz diferença escolher entre "A" e "B", por que pensar nisso? Afinal, não há diferença entre o ruim e o péssimo, não é mesmo?  E, se não há diferença, não me surpreende que o ditado abaixo também seja muito popular, inclusive entre cristãos:
Tá no inferno, abraça o capeta
Nem tudo é o que parece

A Bíblia ensina a gradação de pecados
É verdade que todo pecado, inclusive o menor de todos, leva ao inferno. Contudo, nem todos tem o mesmo "tamanho" (gravidade). Quem ensina isso é o próprio Jesus:
Então, Pilatos o advertiu: Não me respondes? Não sabes que tenho autoridade para te soltar e autoridade para te crucificar? Respondeu Jesus: Nenhuma autoridade terias sobre mim, se de cima não te fosse dada; por isso, quem me entregou a ti maior pecado tem. (João 19:10-11)
Os fariseus que entregaram a Jesus para ser julgado por Pôncio Pilatos cometeram um pecado maior do que o cometido por Pilatos em condenar a Cristo. Por si só, o versículo acima já destrói, mortalmente, a ideia de que não existe "pecadinho" ou "pecadão": o Senhor diz que o pecado de uns é maior que o de outros! Mas há mais.

Se a crença popular é correta, todos os pecadores deveriam sofrer a mesma pena. Afinal, se todos pecam, e não há diferença entre uma masturbação adolescente e um estupro cometido em uma guerra, se os dois atos são igualmente graves para Deus, então o adolescente lascivo e o estuprador. Contudo, de modo coerente, Jesus mostra que também existe uma gradação de pecadores. Alguns eram duas vezes mais filhos do inferno que outros:
Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas, porque rodeais o mar e a terra para fazer um prosélito; e, uma vez feito, o tornais filho do inferno duas vezes mais do que vós! (Mateus 23:15)
A gradação de pecados (e de pecadores) também é o fundamento lógico para entender porque nós podemos estar em um estado espiritual pior do que outro. Se todo pecado é igual, porque então algumas pessoas podem decair espiritualmente?
Quando o espírito imundo sai do homem, anda por lugares áridos, procurando repouso; e, não o achando, diz: Voltarei para minha casa, donde saí. E, tendo voltado, a encontra varrida e ornamentada. Então, vai e leva consigo outros sete espíritos, piores do que ele, e, entrando, habitam ali; e o último estado daquele homem se torna pior do que o primeiro. (Lucas 11:24-26)
Ah, mas o próprio Jesus disse que quem, por exemplo, tem pensamentos impuros, é culpado de adultério:
Ouvistes que foi dito: Não adulterarás. Eu, porém, vos digo: qualquer que olhar para uma mulher com intenção impura, no coração, já adulterou com ela. (Mateus 5:27)
Contudo, no mesmo Sermão do Monte, Jesus mostra uma gradação no que se refere ao pecado de assassinato:
Ouvistes que foi dito aos antigos: Não matarás; e: Quem matar estará sujeito a julgamento. Eu, porém, vos digo que todo aquele que sem motivo se irar contra seu irmão estará sujeito a julgamento; e quem proferir um insulto a seu irmão estará sujeito a julgamento do tribunal; e quem lhe chamar: Tolo, estará sujeito ao inferno de fogo. (Mateus 5:21-22)
Irar-se já submete o réu a julgamento. Se a ira evolui para um insulto, o julgamento deveria ser feito pelo Sinédrio, o tribunal judaico que podia condenar judeus à morte (Jesus foi condenado à cruz pelo Sinédrio). Se o insulto fosse extremamente ofensivo, como chamar alguém de "tolo" ou de "ímpio", o inferno de fogo poderia ser a pena. Combina com isso a descrição que Tiago faz do pecado:
Ao contrário, cada um é tentado pela sua própria cobiça, quando esta o atrai e seduz. Então, a cobiça, depois de haver concebido, dá à luz o pecado; e o pecado, uma vez consumado, gera a morte. (Tiago 1:14-15)
Inicialmente, somos tentados pela nossa cobiça. Se ela não é detida, se abrigamos a cobiça em nosso coração, ela já dá à luz o pecado. É o olhar impuro sobre a mulher ou a ira que brota no coração. Contudo, há os que consumam o pecado, e aí ele produz morte. É um absurdo pensar, por exemplo, que não faz diferença entre olhar cobiçosamente a esposa do vizinho e deitar-se com ela. Sim, tanto olhar como se deitar levarão o adúltero ao inferno. Porém, é fora de questão que consumar o pecado é mais grave do que dar lugar à cobiça.

A base bíblica acima é suficiente para mostrar que há uma diferença real entre os pecados. Contudo, há muitos outros textos-prova. A Lei de Moisés, por exemplo, dá penas diferentes aos pecados. Alguns exigiam um sacrifício mais dispendioso do que outros. Certos pecados exigiam uma retribuição, além do sacrifício. E alguns não tinham perdão: o pecador deveria morrer. Em Provérbios há relações de pecados que o Senhor odeia...e abomina. Quem quiser ver um estudo mais aprofundado sobre o assunto, cheio de versículos bíblicos e destacando o que o Catecismo Maior de Westminster ensina a respeito pode clicar aqui.

O ruim é diferente do péssimo
Qual a relevância prática desse ensino? Afinal, se todo pecado nos torna condenáveis diante de Deus, por que devo refletir em que erros são mais graves do que outros? A melhor resposta que posso dar é: o ruim é melhor que o péssimo. 

Vivemos em um mundo caído. Mais do que isso: nós mesmos somos imperfeitos e inclinados ao pecado. Enquanto vivermos, é impossível evitar o erro. A questão é que, quando acreditamos que todo pecado é igual, não temos motivo algum para nos refrearmos.

Isso acontece quando um casal de namorados resolve ter relações sexuais porque as carícias já foram longe demais. Se ver a nudez tem a mesma gravidade de transar fora do casamento, por que se refrear? Ver a nudez é ruim. Consumar uma relação sexual fora do casamento é péssimo. Se eu bebi demais e estou falando demais, por que não aproveitar para tomar um porre histórico? Ficar embriagado é ruim. Dar vexame é pior. Chegar a um coma alcoólico é péssimo.

Não é porque caímos no pecado que precisamos descer a abismos ainda mais profundos. E, quanto mais fundo o abismo, mais difícil é erguer-se dele. A crença de que todos os pecados são iguais acaba com essa percepção. Por outro lado, aqueles que percebem a diferença conseguem parar enquanto há tempo. Esses sofrerão menos, gastarão menos tempo em aconselhamentos e recuperarão mais rapidamente a alegria da salvação.

Quando nenhuma opção é boa
Ainda há outras implicações práticas. Nem sempre temos diante de nós uma escolha que seja boa. As eleições são um bom exemplo. Em vários cargos não encontramos nenhum candidato que, de fato, reflita os nossos valores como cristãos. Nos sentimos como se tivéssemos que escolher qual ladrão é menos pior. Algumas pessoas podem se sentir assim em relação a escolhas afetivas. Nenhuma pessoa do sexo oposto se encaixa nos padrões de Deus para relacionamento. Quando isso acontece, qualquer escolha afetiva que eu faça é igualmente aceitável?

A leitura dos livros dos Reis nos ajuda a entender:
Ninguém houve, pois, como Acabe, que se vendeu para fazer o que era mau perante o SENHOR, porque Jezabel, sua mulher, o instigava; que fez grandes abominações, seguindo os ídolos, segundo tudo o que fizeram os amorreus, os quais o SENHOR lançou de diante dos filhos de Israel. (1 Reis 21:25-26)
No ano duodécimo de Acaz, rei de Judá, começou a reinar Oséias, filho de Elá; e reinou sobre Israel, em Samaria, nove anos. Fez o que era mau perante o SENHOR; contudo, não como os reis de Israel que foram antes dele. (2 Reis 17:1-2)
Quando dizemos que não faz diferença entre votar no candidato do governo ou no da oposição, porque são todos iguais, todos "farinha do mesmo saco",  ignoramos que um deles pode ser um Acabe e o outro, um Oséias. Até mesmo entre ímpios existe diferença. E, se escolhermos um Acabe ao invés de um Oséias, sofreremos a consequência da nossa escolha.

O mesmo pode ser dito de escolhas afetivas. O ideal é esperar alguém que preencha todas as condições que a Bíblia exige de um marido e de uma esposa. O problema é que nenhum de nós preenche essas condições de modo perfeito. Contudo, algumas pessoas se encaixam melhor no padrão do que outras. Um cristão verdadeiro que precisa acertar várias coisas em sua vida ainda é melhor do que alguém que tem um bom emprego e é sedutor, mas se recusa a adorar a Cristo como Deus. Quando aceitamos a gradação de pecados, é fácil entender porque o cristão imaturo ainda é melhor do que o ímpio sedutor e bem empregado. Quando não aceitamos a gradação, nos sentimos livres para fazer a pior escolha.

Vou além. Algumas vezes, Deus nunca nos dará uma opção que seja realmente empolgante. E Ele vai querer que façamos uma escolha. Em épocas de profunda crise, como no tempo dos juízes, ou nos dias anteriores ao exílio babilônico, a degradação espiritual era tão grande que pouquíssimos homens "prestavam" e os melhores líderes políticos eram tão depravados como um Sansão lascivo ou um Gideão idólatra. E, com certeza, Deus não queria que todos fossem celibatários ou que Israel fosse uma anarquia. Cada israelita daquela época tinha a escolha de lutar do lado do juiz ou de cruzar os braços e apoiar o dominador estrangeiro. Os pais podiam escolher casar as suas filhas com o melhor israelita que encontrassem ou dá-las a qualquer um, inclusive a um cananeu que não adorava ao Senhor. Quando entendemos a gradação de pecados, conseguimos escolher, mesmo em circunstâncias tão adversas.

Libertinagem e legalismo
Por fim, dois dos maiores problemas teológicos enfrentados hoje são fruto do ensino da igualdade de pecados. Se todo pecado é igual, ou nós somos condescendentes com todos os pecados ou nós somos rigorosos em todas as circunstâncias. O primeiro erro produz a libertinagem. O último, o legalismo. E ambos acabam com a disciplina eclesiástica.

Para que a disciplina funcione, é preciso fazer um julgamento. Ela só é possível se alguns pecados forem mais graves do que outros. Se tudo é igual, ou tudo é perdoado ou tudo é "perdoado". No primeiro caso, nunca há disciplina. No último, a Igreja vira um tribunal 24 horas. E quando todos os erros são nivelados, fica impossível à liderança reconhecer quais os pecados que devem ser combatidos no meio da Igreja.

Isso é particularmente verdadeiro no terreno da teologia. Enquanto uns querem mandar os arminianos ao inferno, porque eles têm uma interpretação bíblica diferente dos reformados, outros defendem que sejam aceitos e respeitados pastores que rejeitam a infalibilidade da Bíblia e ensinam doutrinas que são contrárias ao ensino bíblico. Como é tudo igual, não se faz nada, e o erro prospera. E assim, pessoas vão ao inferno por causa de hereges que não são expulsos.

As doutrinas mais "inofensivas" podem ser as mais perigosas. Quanto mais um pensamento é aceito e repetido sem reflexão, mais mortífero ele é. Acreditar e ensinar que todos os pecados são iguais não é uma questão de liberdade cristã. É um pecado, e daqueles que têm destruído a vida de muitas pessoas e, talvez, de todo o nosso país. Nunca devemos subestimar o poder de uma crença religiosa. Suas implicações positivas ou negativas sempre extrapolam para outras áreas da vida.

Graça e paz do Senhor,

Helder Nozima
Barro nas mãos do Oleiro

15 janeiro 2014

Rolezinhos e o amor ao próximo

Cada vez mais, o Brasil tem se dividido fortemente a respeito de uma série de assuntos. As diferenças de opinião vão desde o aborto e o casamento entre homossexuais até a questão das cotas em universidades e, mais recentemente, os rolezinhos. Caso você não esteja sintonizado no planeta Terra nesses últimos dias, os rolezinhos são encontros marcados em shopping centers por centenas de adolescentes para "zoar, dar uns beijos, rolar umas paqueras, pegar geral e se divertir".

O problema é que há registro de tumultos nesses encontros e shoppings entraram com ações na Justiça para impedir a ocorrência desses eventos. Enquanto uma parte do Brasil aprova a medida e entende que os rolezinhos devem sim ser proibidos ou coibidos, outros acusam os shoppings de serem preconceituosos e racistas. Os primeiros defendem a manutenção da ordem e o respeito à propriedade, já que os participantes não são tão pacíficos, como mostra o vídeo abaixo:

Por outro lado, os defensores argumentam que o choque da classe média e dos comerciantes é porque os jovens da periferia teriam invadido um espaço de consumo feito para excluí-los, os shoppings, e que os eventos são uma espécie de afirmação social deles, como é o caso da jornalista Eliane Brum.

No meio disso tudo, qual deve ser o posicionamento dos cristãos?

Amor ao próximo
Começo dizendo que a chave da questão está na observância do mandamento de amar ao próximo:
Respondeu-lhe Jesus: Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todo o teu entendimento. Este é o grande e primeiro mandamento. O segundo, semelhante a este, é: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Destes dois mandamentos dependem toda a Lei e os Profetas. (Mateus 22:37-40)
Parece óbvio o que vou dizer, mas muitos se esquecem que o mandamento de amar ao próximo aplica-se a todos os seres humanos. Não apenas os "ricos" devem amar os "pobres", mas os pobres, os jovens e os moradores da periferia também devem amar os ricos, os outros seres humanos e os comerciantes e clientes de um shopping. E, segundo Jesus, amar ao próximo é fazer por ele o que gostariam que fizessem com você:
Tudo quanto, pois, quereis que os homens vos façam, assim fazei-o vós também a eles; porque esta é a Lei e os Profetas. (Mateus 7:12)
Por uma questão de ordem lógica, começo com os jovens. Se eu reunisse milhares de pessoas apenas para "zoar e dar uns beijos" e chegasse cantando funk, em bando, na rua da sua casa ou debaixo do seu prédio, você gostaria? Se eu fizesse isso na porta da sua loja, espantando clientes? Se o seu carro estivesse do lado de fora quando eu chegasse com meus "amigos" e você descobrisse que riscaram seu automóvel e quebraram um retrovisor, como você veria a minha "flash mob"?

Tradicionalmente, entendemos que os Dez Mandamentos são formados pela "Tábua de Deus", com os mandamentos referentes ao amor que devemos nutrir por Ele, e a "Tábua do Próximo", onde ficam aqueles que se referem ao amor pelo próximo. É interessante notar que, segundo o Decálogo, respeitar a propriedade alheia é amar ao próximo:
Não furtarás. (Êxodo 20:15)


Não cobiçarás a casa do teu próximo. Não cobiçarás a mulher do teu próximo, nem o seu servo, nem a sua serva, nem o seu boi, nem o seu jumento, nem coisa alguma que pertença ao teu próximo. (Êxodo 20:17)
Este respeito não é apenas não desejar ou roubar o próximo. Se causamos algum prejuízo, é justo que façamos, por exemplo, uma compensação:
Se alguém fizer pastar o seu animal num campo ou numa vinha, e largá-lo para comer no campo de outro, o melhor do seu próprio campo e o melhor da sua própria vinha restituirá. Se irromper um fogo, e pegar nos espinhos, e queimar a meda de trigo, ou a seara, ou o campo, aquele que acendeu o fogo totalmente pagará o queimado. (Êxodo 22:5-6)
Não é preciso um grande malabarismo para ver que, se a minha, digamos, "diversão coletiva" causa tumultos, serve de camuflagem para pequenos furtos e prejudica o ganha-pão de outros, ela não é, de modo algum, uma forma de amor ao próximo. Ao contrário, é egoísmo: o meu desejo de divertir é mais importante do que as outras pessoas. Isso vale para rolezinhos, bailes funk na rua e até para aquele vizinho que liga o som no máximo de madrugada.

Quanto ao Estado, cabe a ele punir aqueles que procedem mal, o que inclui aqueles que desrespeitam a propriedade alheia. Aplicando aos dias de hoje o princípio atemporal por trás de várias leis de propriedade no Antigo Testamento, cabe ao Estado punir quem viola os bens do próximo e garantir que as devidas compensações serão feitas. Nos dias de hoje, isso é feito por meio das decisões que resguardam os shoppings e prendem os que cometem infrações.
Porque os magistrados não são para temor, quando se faz o bem, e sim quando se faz o mal. Queres tu não temer a autoridade? Faze o bem e terás louvor dela, visto que a autoridade é ministro de Deus para teu bem. Entretanto, se fizeres o mal, teme; porque não é sem motivo que ela traz a espada; pois é ministro de Deus, vingador, para castigar o que pratica o mal. (Romanos 13:3-4)
Ou, no popular: "o seu direito termina onde começa o direito do outro".

O lado social
Mas, e quanto aos comerciantes? Não são eles injustos quando restringem o acesso de adolescentes aos shoppings? Será que eles não pecam quando se valem da autoridade policial e da força contra jovens que, em princípio, só querem se divertir? 

Ou, dito de outra forma: será que, no fundo, o verdadeiro problema não é a classe média? A indignação não seria por causa da violência, mas sim no fato de que a classe média elegeu os shoppings como o seu último refúgio livre da presença dos pobres da periferia e está indignada porque teve seu espaço invadido. Então ela chama os policiais, os agentes do sistema, para "descer o cacete" nos que se atrevem a frequentar um espaço que não é para eles.

O que há de errado com os argumentos acima? Em primeiro lugar, esses jovens já eram frequentadores de shopping centers. Não se trata de coitadinhos despossuídos protestando pelo seu direito de terem coisas básicas. Ao contrário, embora venham de locais "humildes", eles possuem artigos desejados de consumo. Vivem conectados na Internet em seus celulares. Basta ver reportagens, como uma da Folha de São Paulo, sobre o perfil dos idealizadores dos rolezinhos. Estudam, até fazem pequenos empregos e gastam seu dinheiro nos shoppings com roupas de marca:
"Tô ligado que 'os polícia' tão em peso e já sabem quem eu sou" diz Lucas Lima, 17.
De bermuda jeans, camiseta regata branca do UFC, tênis Oakley preto, corrente no pescoço e uma réplica do relógio Invicta no pulso, ele era um dos 3.000 jovens no shopping Metrô Itaquera, no "rolezinho" do último sábado.
Mais do que isso, o adolescente organizou o evento daquele dia, que acabou em confusão, confronto com a Polícia Militar e registros de furtos e roubos.
Desconfiado da ação da polícia, resolveu se precaver. "Vou para casa trocar de roupa e ficar mais apresentável", disse o estudante do terceiro ano do ensino médio em um colégio público da zona leste que faz bicos como ajudante de pedreiro.
Quando eles vão como consumidores, sem ser em grupos enormes, cantando funks e assumindo posturas intimidadoras, eles são aceitos nos estabelecimentos. A indignação não é porque eles não podem frequentar o shopping. Eles podem, desde que se comportem de forma ordeira. Mas, quando o "direito" individual pressupõe-se ao dos demais, é justa a repressão. Assim, fica claro que o argumento "ideológico" é balela.

Na verdade, amar esses jovens é discipliná-los. Se a disciplina não vem de casa, que venha do Estado, por meio do magistrado e do aparelho policial, cumprindo o seu papel de castigar quem pratica o mal. Ainda que o interesse dos lojistas não seja o de amar os rolezeiros, a verdade é que impor limites e usar a força para ensiná-los a respeitar o bem alheio é um dos melhores bens que se pode fazer a eles. E, sim, eu realmente quis dizer isso: a disciplina quando erramos, ainda que seja a do Estado, é uma bênção para quem a recebe.

O direito de impor limites
No mais, lembro que o bom senso nos diz que, em espaços privados, respeitam-se as regras estipuladas pelo dono da casa. Um restaurante pode recusar-se a servir quem vai sem camisa para lá. Tribunais que julgam as causas de qualquer cidadão impõem regras de vestimenta para quem quer entrar lá, e elas são obedecidas. Até mesmo templos religiosos impõem restrições e podem expulsar quem não respeita as regras de uma determinada religião. Não é errado, por exemplo, expulsar de um culto quem começa a gritar no meio dele, desrespeitando a adoração prestada a Deus.

Shoppings são espaços privados. Ainda que fossem públicos, há restrições quanto ao tipo de manifestações e comportamentos que são tolerados em lugares como praças e avenidas. E, para quem quer um princípio bíblico, até Deus controla quem entra e quem fica de fora do céu, local onde Seu domínio é mais visível:
Bem-aventurados aqueles que lavam as suas vestiduras no sangue do Cordeiro, para que lhes assista o direito à árvore da vida, e entrem na cidade pelas portas. Fora ficam os cães, os feiticeiros, os impuros, os assassinos, os idólatras e todo aquele que ama e pratica a mentira. (Apocalipse 22:14-15)
As restrições não acontecem por causa da cor da pele, como acontecia na África do Sul ou no Sul dos Estados Unidos. Surgiram após um comportamento agressivo, marcado em redes sociais e que trouxe prejuízos reais. Chamar de "apartheid brasileiro" é uma desonestidade intelectual. É querer impedir o direito dos donos do espaço de protegerem seu patrimônio.

Porque amo os jovens, quero sim que eles descubram que há limites para tudo, e que há consequências caso esse limite seja rompido. Porque amo os lojistas, quero que eles tenham seu patrimônio defendido. E, porque amo a Deus, tenho o desejo e ver a lei, que é tão ignorada no Brasil, ser, enfim, respeitada. Quem sabe assim os brasileiros não aprendem que há consequências em se desrespeitar as leis do Senhor?

Graça e paz do Senhor,

Helder Nozima
Barro nas mãos do Oleiro

14 janeiro 2014

Pastorado unidimensional

Algumas vezes, as igrejas históricas são fortemente incoerentes quanto às críticas que fazem nos púlpitos e suas práticas institucionais internas. Poucas coisas ilustram isso tão bem quanto o pragmatismo. Nas pregações, criticamos uma sociedade pragmática, que preocupa-se mais com os resultados do que com princípios. Contudo, não me parece que a visão que se tem de igrejas, ministérios e pastores seja assim tão diferente do pragmatismo secular.

Talvez o melhor exemplo disso seja o que chamo de pastorado unidimensional. Ele se revela quando só ordenamos pastores se eles tiverem um "campo", ou seja, uma igreja definida para pastorear. Quando seminaristas bons são aqueles que possuem muita "experiência ministerial", isto é, aqueles que sabem organizar acampamentos, fazer cultos jovens, realizar evangelismos de rua e outras atividades práticas. Ou, de forma mais marcante, quando se espera que pastores falem apenas de assuntos "espirituais". Ele deve se manter dentro de sua área de expertise, o que pode trazer mais frutos (resultados?) para a instituição, e se calar sobre outros assuntos, como ciência, política ou economia.

Mas, será que é assim que se mede o ministério de um pastor? Não há espaço para pastores "intelectuais", que pretendem se dedicar ao magistério, por exemplo? O pastorado esgota-se mesmo apenas no "sagrado"? O "secular" não deve fazer parte dos interesses e estudos de um ministro da Palavra?

O reino de Deus abarca todas as coisas
Uma das bandeiras levantadas pela teologia reformada é a de que não existe mais diferença entre "sagrado" e "secular". Tudo é sagrado, uma vez que o reino de Deus não se restringe àquilo que é espiritual. Todas as coisas pertencem a Ele e o nosso dever é o de glorificá-Lo em tudo.
Ao SENHOR pertence a terra e tudo o que nela se contém, o mundo e os que nele habitam. (Salmo 24:1)
Porque dele, e por meio dele, e para ele são todas as coisas. A ele, pois, a glória eternamente. Amém! (Romanos 11:36)
Portanto, quer comais, quer bebais ou façais outra coisa qualquer, fazei tudo para a glória de Deus. (1 Coríntios 10:31)
Se levamos esses versículos a sério, entendemos que não há área de conhecimento ou assunto que esteja fora da ação da Igreja. Se tudo está no reino de Deus e pertence a Ele, é mais do que correto inferir que as Escrituras podem ser consideradas fora da teologia, uma vez que confiamos na Bíblia como uma revelação segura da vontade de Deus. E, se é papel dos pastores ensinar ao povo como as Escrituras moldam a nossa fé e a nossa prática, então é um desdobramento natural considerarmos que eles, necessariamente, terão que se pronunciar sobre assuntos ditos "seculares".

Cosmovisão
Uma consequência desse ensino é o que se chama "cosmovisão". Quem só avalia o ministério pastoral segundo critérios de produtividade "eclesiástica" pensa que a vida está dividida em compartimentos que não se comunicam. Não há problemas, por exemplo, se minha visão política ou sentimental choca-se com meus valores religiosos. Sagrado e secular não se comunicam. Mas os que se lembram de que o reino de Deus atinge tudo percebem que não há como fazer essa separação. Toda a sua vida é sagrada, o que significa que ela deve ser compreendida e vivida de acordo uma certa forma de ver o mundo, o que chamamos de cosmovisão: um sistema de crenças e valores que, na prática, determina nossas escolhas.

Na prática, todos vivem em uma cosmovisão. Mesmo os incoerentes, que são religiosos no domingo, mas rejeitam o que sua religião fala sobre ciência ou comportamento, seguem uma cosmovisão: o relativismo. Mas nem todos têm a consciência de que são governados por um sistema identificável de crenças ou filosofias. Os que a possuem, trabalham consistentemente para implementá-la. Isso é verdadeiro quanto aos que trabalham pelo socialismo, pelo fundamentalismo islâmico ou pelo neoateísmo, por exemplo.

E o que significa implementar a sua cosmovisão? Significa, no mínimo, desdobrar os valores do sistema de crenças para outros campos do conhecimento. No máximo, é traçar um plano consistente de convencimento (ou um plano de tomada de poder) para que a maioria da sociedade viva segundo aquela cosmovisão. 

Outras religiões, como o catolicismo, já perceberam isso. Basta ir a uma livraria católica boa que podemos ler livros de padres discorrendo sobre ciência, política, economia, arte, cultura...este é o motivo pelo qual existe uma grande rede educacional católica, de escolas primárias até universidades, incluindo uma Academia Pontifícia das Ciências. Os bispos e papas não se constrangem em dar instruções políticas ou econômicas em seus documentos e mensagens.

E, mais revelador de tudo isso: católicos não questionam porque o dinheiro da Santa Igreja é gasto na manutenção de instituições "seculares", na formação de padres que estudam áreas "seculares" e até ordenam bispos ou cardeais que não cuidam de dioceses, mas sim, que se dedicam ao estudo.

A estupidez do pragmatismo
É bem diferente do que vemos nos meios protestantes brasileiros. Denominações tradicionais, como a Convenção Batista Brasileira, não possuem uma universidade secular, apenas seminários e faculdades teológicas. A Igreja Cristã Evangélica do Brasil considera que foi melhor abrir mão da UniEvangélica para dedicar-se apenas à pregação e abertura de novas igrejas. Mesmo dentro da Igreja Presbiteriana do Brasil, muitos questionam porque ainda mantemos a Universidade Presbiteriana Mackenzie.

Esse pensamento ignora que a transformação de almas humanas acontece quando nossas mentes são transformadas.
E não vos conformeis com este século, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente, para que experimenteis qual seja a boa, agradável e perfeita vontade de Deus. (Romanos 12:2)
A mente não é transformada apenas por meio da pregação. A educação também contribui para que isso aconteça. Tanto que há diferentes formas de instrução descritas no Novo Testamento, incluindo o ensino. Aliás, Efésios 4:11 indica, claramente, que pastores devem ser mestres, já que as duas funções foram postas lado a lado.

A pobreza de visão acontece quando restringimos os "mestres" aos assuntos de fé. Quando olhamos para o Antigo Testamento, vemos um Davi artista, um Salomão cientista, um Daniel político, um José tendo que fazer novos arranjos econômicos para a situação específica do Egito. Vemos um Samuel que era profeta, sacerdote, mas também juiz e comandante militar. No Novo Testamento, temos um Paulo que dialogava com os sábios de Atenas citando literatura pagã. E pregadores que eram ordenados, mas que exerciam seu ministério de forma itinerante, indo "de igreja em igreja".

Será mesmo que o Novo Testamento é mais restritivo que o Antigo, de modo que hoje não podemos ter um Samuel ou um Daniel no ministério pastoral? Os únicos bons pastores, mesmo, são aqueles que servem em tempo integral, cuidando de uma igreja específica? Não há espaço para prepararmos e ordenarmos pastores que se dedicarão, principalmente, ao estudo?

Deixem o Reino crescer
Minha resposta é um sonoro não. Considero revelador que as igrejas cristãs mais antigas (a católica e a ortodoxa) tenham escolhido doutores como santos, inclusive homens sem grande experiência "pastoral", como Tomás de Aquino ou Catarina de Sena. Há cristãos que entram para a História, não pelo que produziram de modo "prático" em suas igrejas, mas sim pelo que construíram intelectualmente. E o fazem de forma tão forte, que até mesmo protestantes se jactam do católico Blaise Pascal e do anglicano C S Lewis.

Por que não temos um Pascal protestante no Brasil? Por que os presbiterianos brasileiros formam sua visão política lendo Olavo de Carvalho, Reinaldo de Azevedo ou Leonardo Boff e Frei Betto? A resposta é simples: porque não aplicamos ao ministério pastoral a nossa cosmovisão. Temos uma visão pobre:

- Do ministério pastoral;
- Do papel da Igreja no mundo;
- Da teologia;
- Do Reino de Deus.

A Igreja de Atos era simples, mas era apenas o primeiro broto da árvore. Jesus disse que o reino de Deus cresceria, até que se tornasse uma grande árvore onde as aves se aninham nos ramos, até que toda a massa fosse levedada:
E dizia: A que é semelhante o reino de Deus, e a que o compararei? É semelhante a um grão de mostarda que um homem plantou na sua horta; e cresceu e fez-se árvore; e as aves do céu aninharam-se nos seus ramos. Disse mais: A que compararei o reino de Deus? É semelhante ao fermento que uma mulher tomou e escondeu em três medidas de farinha, até ficar tudo levedado. (Lucas 13:18-21)
Isso significa que a Igreja deve crescer. Atos não é o fim da Igreja, é o começo. Para isso, ela deve pregar não apenas nos púlpitos, mas também nos jornais, nas universidades e nos livros. Deve sim abrir e manter escolas e universidades, além de fazer uso dos meios de comunicação, pois elas formam a mentalidade do mundo em que vivemos. Deve entrar no domínio da arte e da cultura, pois elam determinam o que consideramos belo e desejável.
Um pé-de-mostarda

E deve abrir mão de uma visão mesquinha e pragmática que reduz o pastorado a um universo unidimensional. Seja no que estudamos, seja no que falamos, e até mesmo no que fazemos, o pastorado pode ser bem mais do que a visão tradicional. 

Sim, pastores são filhos da Igreja e devem estudar Teologia, e com profundidade. É a partir da Bíblia e da Teologia que eles olharão o que está ao redor. Tampouco significa que os pastores tradicionais não são necessários: eles o são...mas deviam falar sobre mais assuntos do que, normalmente, falam. Porém, os presbíteros e outros líderes devem ordenar e sustentar pastores que tenham um outro perfil ministerial. Devem, sim, gastar dinheiro abrindo escolas, editoras (e publicando livros que não sejam só teológicos), hospitais, museus e outras instituições. E seria ótimo se, ao invés de censurar os pastores que se pronunciam sobre assuntos "estranhos" a fé, os presbíteros e líderes leigos os incentivassem a estudar mais e a falar com mais frequência e propriedade sobre o mundo ao nosso redor.

Graça e paz do Senhor,

Helder Nozima
Barro nas mãos do Oleiro