20 janeiro 2014

O mito de que todos são iguais

Os piores inimigos não são os declarados, mas sim aqueles que se apresentam como nossos amigos. Conquistam nossa confiança e intimidade até que, quando estamos completamente desarmados, eles nos destroem. O mesmo pode ser dito de certas doutrinas. Parecem inofensivas e ganham a confiança dos cristãos. Quando tornam-se populares, aí vemos os seus frutos. E é tarde demais.

Pois bem, um dos maiores chavões evangélicos é responsável por uma série de escolhas ruins que têm arruinado relacionamentos afetivos, igrejas e até mesmo todo o nosso país. Uma afirmação tão popular e absoluta que suas consequências lógicas e práticas não são examinadas. Que chavão é este?
Não existe pecadinho, pecado, pecadão. Todos os pecados são iguais.
Qual o problema em se acreditar nisso? Além de contrariar o ensino bíblico, a crença de que todos os pecados são iguais tem sido levada para outros campos que extrapolam a fé. E a religião, ainda que desvalorizada, tem o poder de repercutir na forma como lidamos com nossas emoções e com nosso país. Por isso, de certa forma, acreditamos que:

- Todas as heresias são iguais;
- Todas as mulheres e homens são iguais;
- Todas as ideologias e políticos são iguais...etc...

E, bem, já que tudo é igual e não faz diferença escolher entre "A" e "B", por que pensar nisso? Afinal, não há diferença entre o ruim e o péssimo, não é mesmo?  E, se não há diferença, não me surpreende que o ditado abaixo também seja muito popular, inclusive entre cristãos:
Tá no inferno, abraça o capeta
Nem tudo é o que parece

A Bíblia ensina a gradação de pecados
É verdade que todo pecado, inclusive o menor de todos, leva ao inferno. Contudo, nem todos tem o mesmo "tamanho" (gravidade). Quem ensina isso é o próprio Jesus:
Então, Pilatos o advertiu: Não me respondes? Não sabes que tenho autoridade para te soltar e autoridade para te crucificar? Respondeu Jesus: Nenhuma autoridade terias sobre mim, se de cima não te fosse dada; por isso, quem me entregou a ti maior pecado tem. (João 19:10-11)
Os fariseus que entregaram a Jesus para ser julgado por Pôncio Pilatos cometeram um pecado maior do que o cometido por Pilatos em condenar a Cristo. Por si só, o versículo acima já destrói, mortalmente, a ideia de que não existe "pecadinho" ou "pecadão": o Senhor diz que o pecado de uns é maior que o de outros! Mas há mais.

Se a crença popular é correta, todos os pecadores deveriam sofrer a mesma pena. Afinal, se todos pecam, e não há diferença entre uma masturbação adolescente e um estupro cometido em uma guerra, se os dois atos são igualmente graves para Deus, então o adolescente lascivo e o estuprador. Contudo, de modo coerente, Jesus mostra que também existe uma gradação de pecadores. Alguns eram duas vezes mais filhos do inferno que outros:
Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas, porque rodeais o mar e a terra para fazer um prosélito; e, uma vez feito, o tornais filho do inferno duas vezes mais do que vós! (Mateus 23:15)
A gradação de pecados (e de pecadores) também é o fundamento lógico para entender porque nós podemos estar em um estado espiritual pior do que outro. Se todo pecado é igual, porque então algumas pessoas podem decair espiritualmente?
Quando o espírito imundo sai do homem, anda por lugares áridos, procurando repouso; e, não o achando, diz: Voltarei para minha casa, donde saí. E, tendo voltado, a encontra varrida e ornamentada. Então, vai e leva consigo outros sete espíritos, piores do que ele, e, entrando, habitam ali; e o último estado daquele homem se torna pior do que o primeiro. (Lucas 11:24-26)
Ah, mas o próprio Jesus disse que quem, por exemplo, tem pensamentos impuros, é culpado de adultério:
Ouvistes que foi dito: Não adulterarás. Eu, porém, vos digo: qualquer que olhar para uma mulher com intenção impura, no coração, já adulterou com ela. (Mateus 5:27)
Contudo, no mesmo Sermão do Monte, Jesus mostra uma gradação no que se refere ao pecado de assassinato:
Ouvistes que foi dito aos antigos: Não matarás; e: Quem matar estará sujeito a julgamento. Eu, porém, vos digo que todo aquele que sem motivo se irar contra seu irmão estará sujeito a julgamento; e quem proferir um insulto a seu irmão estará sujeito a julgamento do tribunal; e quem lhe chamar: Tolo, estará sujeito ao inferno de fogo. (Mateus 5:21-22)
Irar-se já submete o réu a julgamento. Se a ira evolui para um insulto, o julgamento deveria ser feito pelo Sinédrio, o tribunal judaico que podia condenar judeus à morte (Jesus foi condenado à cruz pelo Sinédrio). Se o insulto fosse extremamente ofensivo, como chamar alguém de "tolo" ou de "ímpio", o inferno de fogo poderia ser a pena. Combina com isso a descrição que Tiago faz do pecado:
Ao contrário, cada um é tentado pela sua própria cobiça, quando esta o atrai e seduz. Então, a cobiça, depois de haver concebido, dá à luz o pecado; e o pecado, uma vez consumado, gera a morte. (Tiago 1:14-15)
Inicialmente, somos tentados pela nossa cobiça. Se ela não é detida, se abrigamos a cobiça em nosso coração, ela já dá à luz o pecado. É o olhar impuro sobre a mulher ou a ira que brota no coração. Contudo, há os que consumam o pecado, e aí ele produz morte. É um absurdo pensar, por exemplo, que não faz diferença entre olhar cobiçosamente a esposa do vizinho e deitar-se com ela. Sim, tanto olhar como se deitar levarão o adúltero ao inferno. Porém, é fora de questão que consumar o pecado é mais grave do que dar lugar à cobiça.

A base bíblica acima é suficiente para mostrar que há uma diferença real entre os pecados. Contudo, há muitos outros textos-prova. A Lei de Moisés, por exemplo, dá penas diferentes aos pecados. Alguns exigiam um sacrifício mais dispendioso do que outros. Certos pecados exigiam uma retribuição, além do sacrifício. E alguns não tinham perdão: o pecador deveria morrer. Em Provérbios há relações de pecados que o Senhor odeia...e abomina. Quem quiser ver um estudo mais aprofundado sobre o assunto, cheio de versículos bíblicos e destacando o que o Catecismo Maior de Westminster ensina a respeito pode clicar aqui.

O ruim é diferente do péssimo
Qual a relevância prática desse ensino? Afinal, se todo pecado nos torna condenáveis diante de Deus, por que devo refletir em que erros são mais graves do que outros? A melhor resposta que posso dar é: o ruim é melhor que o péssimo. 

Vivemos em um mundo caído. Mais do que isso: nós mesmos somos imperfeitos e inclinados ao pecado. Enquanto vivermos, é impossível evitar o erro. A questão é que, quando acreditamos que todo pecado é igual, não temos motivo algum para nos refrearmos.

Isso acontece quando um casal de namorados resolve ter relações sexuais porque as carícias já foram longe demais. Se ver a nudez tem a mesma gravidade de transar fora do casamento, por que se refrear? Ver a nudez é ruim. Consumar uma relação sexual fora do casamento é péssimo. Se eu bebi demais e estou falando demais, por que não aproveitar para tomar um porre histórico? Ficar embriagado é ruim. Dar vexame é pior. Chegar a um coma alcoólico é péssimo.

Não é porque caímos no pecado que precisamos descer a abismos ainda mais profundos. E, quanto mais fundo o abismo, mais difícil é erguer-se dele. A crença de que todos os pecados são iguais acaba com essa percepção. Por outro lado, aqueles que percebem a diferença conseguem parar enquanto há tempo. Esses sofrerão menos, gastarão menos tempo em aconselhamentos e recuperarão mais rapidamente a alegria da salvação.

Quando nenhuma opção é boa
Ainda há outras implicações práticas. Nem sempre temos diante de nós uma escolha que seja boa. As eleições são um bom exemplo. Em vários cargos não encontramos nenhum candidato que, de fato, reflita os nossos valores como cristãos. Nos sentimos como se tivéssemos que escolher qual ladrão é menos pior. Algumas pessoas podem se sentir assim em relação a escolhas afetivas. Nenhuma pessoa do sexo oposto se encaixa nos padrões de Deus para relacionamento. Quando isso acontece, qualquer escolha afetiva que eu faça é igualmente aceitável?

A leitura dos livros dos Reis nos ajuda a entender:
Ninguém houve, pois, como Acabe, que se vendeu para fazer o que era mau perante o SENHOR, porque Jezabel, sua mulher, o instigava; que fez grandes abominações, seguindo os ídolos, segundo tudo o que fizeram os amorreus, os quais o SENHOR lançou de diante dos filhos de Israel. (1 Reis 21:25-26)
No ano duodécimo de Acaz, rei de Judá, começou a reinar Oséias, filho de Elá; e reinou sobre Israel, em Samaria, nove anos. Fez o que era mau perante o SENHOR; contudo, não como os reis de Israel que foram antes dele. (2 Reis 17:1-2)
Quando dizemos que não faz diferença entre votar no candidato do governo ou no da oposição, porque são todos iguais, todos "farinha do mesmo saco",  ignoramos que um deles pode ser um Acabe e o outro, um Oséias. Até mesmo entre ímpios existe diferença. E, se escolhermos um Acabe ao invés de um Oséias, sofreremos a consequência da nossa escolha.

O mesmo pode ser dito de escolhas afetivas. O ideal é esperar alguém que preencha todas as condições que a Bíblia exige de um marido e de uma esposa. O problema é que nenhum de nós preenche essas condições de modo perfeito. Contudo, algumas pessoas se encaixam melhor no padrão do que outras. Um cristão verdadeiro que precisa acertar várias coisas em sua vida ainda é melhor do que alguém que tem um bom emprego e é sedutor, mas se recusa a adorar a Cristo como Deus. Quando aceitamos a gradação de pecados, é fácil entender porque o cristão imaturo ainda é melhor do que o ímpio sedutor e bem empregado. Quando não aceitamos a gradação, nos sentimos livres para fazer a pior escolha.

Vou além. Algumas vezes, Deus nunca nos dará uma opção que seja realmente empolgante. E Ele vai querer que façamos uma escolha. Em épocas de profunda crise, como no tempo dos juízes, ou nos dias anteriores ao exílio babilônico, a degradação espiritual era tão grande que pouquíssimos homens "prestavam" e os melhores líderes políticos eram tão depravados como um Sansão lascivo ou um Gideão idólatra. E, com certeza, Deus não queria que todos fossem celibatários ou que Israel fosse uma anarquia. Cada israelita daquela época tinha a escolha de lutar do lado do juiz ou de cruzar os braços e apoiar o dominador estrangeiro. Os pais podiam escolher casar as suas filhas com o melhor israelita que encontrassem ou dá-las a qualquer um, inclusive a um cananeu que não adorava ao Senhor. Quando entendemos a gradação de pecados, conseguimos escolher, mesmo em circunstâncias tão adversas.

Libertinagem e legalismo
Por fim, dois dos maiores problemas teológicos enfrentados hoje são fruto do ensino da igualdade de pecados. Se todo pecado é igual, ou nós somos condescendentes com todos os pecados ou nós somos rigorosos em todas as circunstâncias. O primeiro erro produz a libertinagem. O último, o legalismo. E ambos acabam com a disciplina eclesiástica.

Para que a disciplina funcione, é preciso fazer um julgamento. Ela só é possível se alguns pecados forem mais graves do que outros. Se tudo é igual, ou tudo é perdoado ou tudo é "perdoado". No primeiro caso, nunca há disciplina. No último, a Igreja vira um tribunal 24 horas. E quando todos os erros são nivelados, fica impossível à liderança reconhecer quais os pecados que devem ser combatidos no meio da Igreja.

Isso é particularmente verdadeiro no terreno da teologia. Enquanto uns querem mandar os arminianos ao inferno, porque eles têm uma interpretação bíblica diferente dos reformados, outros defendem que sejam aceitos e respeitados pastores que rejeitam a infalibilidade da Bíblia e ensinam doutrinas que são contrárias ao ensino bíblico. Como é tudo igual, não se faz nada, e o erro prospera. E assim, pessoas vão ao inferno por causa de hereges que não são expulsos.

As doutrinas mais "inofensivas" podem ser as mais perigosas. Quanto mais um pensamento é aceito e repetido sem reflexão, mais mortífero ele é. Acreditar e ensinar que todos os pecados são iguais não é uma questão de liberdade cristã. É um pecado, e daqueles que têm destruído a vida de muitas pessoas e, talvez, de todo o nosso país. Nunca devemos subestimar o poder de uma crença religiosa. Suas implicações positivas ou negativas sempre extrapolam para outras áreas da vida.

Graça e paz do Senhor,

Helder Nozima
Barro nas mãos do Oleiro

2 comentários:

Don disse...

Muito bom =]

Rauni disse...

EDIFICANTE E ESCLARECEDOR.